sábado, 27 de outubro de 2012

Diretor de Veja revela "acordo" com Valério e farsa contra Lula

247 – Em sua edição 2287, de 19 de setembro de 2012, Veja vendeu ao público uma entrevista com Marcos Valério, anunciada por seus blogueiros como o fato político mais importante desde que Pedro Collor de Mello concedeu entrevista gravada e filmada à revista, em 1992, abrindo o caminho para o impeachment de seu irmão Fernando Collor.
Vinte anos depois, na entrevista que não houve, Veja colocou as seguintes frases na boca de Marcos Valério, que, supostamente, teria falado a interlocutores próximos:
“Lula era o chefe”.
“Dirceu era o braço direito do Lula, o braço que comandava”.
“O Delúbio dormia no Alvorada. Ele e a mulher dele iam jogar baralho com o Lula à noite”.
“O caixa do PT foi de 350 milhões de reais”.
“(Depois da descoberta do escândalo), meu contato com o PT era o Paulo Okamotto. O papel dele era tentar me acalmar”.
“O PT me fez de escudo, me usou como boy de luxo. Mas eles se ferraram porque agora vai todo mundo para o ralo”.
“Vão me matar. Tenho de agradecer por estar vivo até hoje”.
Poderia ser um caso apenas de propaganda enganosa, da revista de Roberto Civita contra seus leitores, mas era também uma tentativa preventiva de golpe contra Lula. A mensagem era clara: se Lula ousasse querer voltar a participar de forma mais ativa do jogo político, seria também alvo de uma ação criminal relacionada ao mensalão. Portanto, estava em impedimento técnico.
Nos meios de comunicação, Ricardo Noblat, do Globo, foi o primeiro a falar na existência de fitas não publicadas, em razão de um acordo de Veja com Marcos Valério. Depois, José Roberto Guzzo, membro do conselho editorial da Abril, também argumentou numa de suas colunas que Lula tinha medo de que as “gravações” aparecessem.
Sem comentar o assunto, o ex-presidente recebeu uma nota em solidariedade assinada por presidentes de seis partidos políticos, denunciando a iniciativa golpista.
Aqui, no 247, desde o início da história, argumentamos que Veja não tinha fita alguma e que apenas blefava em relação a Lula. Jogava truco, brincando com instituições democráticas, sem ter a carta forte: o Zap, ou seja, as fitas.
Neste sábado, o jornalista Eurípedes Alcântara, diretor de Veja, pela primeira vez falou abertamente sobre o tema, em entrevista ao jornal O Globo. E o conteúdo é estarrecedor. Eurípedes disse que Veja fez um acordo com Marcos Valério, que acaba de ser condenado a mais de 40 anos de prisão. E que por isso não apresenta suas evidências – que já não são mais gravadas ou filmadas.
“Temos as provas necessárias para demonstrar que as afirmações são o que no STF se chamaria de ´verbis´, ou seja, transcrições ao pé da letra do que ele disse. Marcos Valério decide se as provas serão divulgadas, apenas porque nossa combinação com ele foi a de que se ele desmentisse a reportagem estaria quebrando o que foi acordado e, assim, ficaríamos dispensados de cumprir nossa parte”, disse Eurípedes, por email, ao Globo.
E inacreditável, mas Eurípedes tenta convencer o Brasil do seguinte: por uma questão de honra, um acordo no fio do bigode com Valério (condenado a 40 anos de prisão), Veja não irá apresentar as provas que diz ter contra Lula – um personagem a quem a revistou já deu provas continuadas do seu apreço.
Eurípedes, no entanto, aponta razões éticas para não quebrar seu acordo com Marcos Valério.
“O fato de um indivíduo estar condenado não dá direito ao jornalista de, aproveitando-se de fragilidade inerente a sua situação, abusar de sua confiança. Pessoa nessa situação merece a mesma consideração ética e humana que ele dispensaria a celebridade ou autoridade no auge da fama ao poder.”
O diretor de Veja, no entanto, mantém a ameaça a Lula e diz que as provas ainda podem vir a aparecer no futuro – caso seja necessário.
Assim como lá atrás, a revista continua blefando. A “entrevista” de Valério, um golpe contra os leitores, era e continua sendo uma farsa.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

"Francisco, um destino". Filme narra trajetória de São Francisco

Filme italiano narra trajetória de São Francisco de Assis e questiona a relação entre a genialidade e inspiração pessoal do homem; e as consequências disso na comunidade para a qual ele se dirigia

Em Revista de História

Marcello Scarron


Francesco – A Historia de São Francisco de Assis
Dir. Liliana Cavani, Itália, 1989
 
Que os nossos leitores que reclamam pelo fato desta seção não dar muito espaço a comentários sobre filmes brasileiros nos perdoem. Não trataremos de uma produção nacional outra vez. Mas aceitem nossos benevolentes leitores o conselho de dedicar seu tempo e sua atenção a um filmede ser europeu,a Idade Media. iferente sobre um periodo  que, apesar de ser europeu, oferece um olhar diferente sobre um período singular da assim chamada Idade Média, com sua cultura de inspiração cristã e com a visão de mundo que ela proporcionava.
Afinal, a história nacional começa a ser contada a partir da chegada de navegadores portugueses que deste imaginário, desta cultura, partilhavam muitos elementos: mesmo sendo homens que viviam o inicio da modernidade, estavam intimamente moldados por aquela visão e ela acaba sendo influenciada desde suas origens por esse clima de religiosidade. Mais um elemento reforça os motivos do espaço dedicado a esta produção: a oportunidade de oferecer uma abordagem diferente e, de certa forma complementar, a leituras cinematográficas do período medieval que andam mais populares entre nós, como O Nome da Rosa, filmagem (1986, Jean-Jacques Annaud) do livro homônimo de Umberto Eco, ou O Incrível Exercito de Brancaleone (1966, Mario Monicelli), comédia sobre desajeitadas aventuras de um grupo de cavaleiros na Baixa Idade Media, ou ainda as várias produções hollywoodianas retratando William Wallace, Robin Hood ou Joana D’Arc.
O filme de que vamos falar aqui é Francesco – A Historia de São Francisco de Assis, produção da diretora italiana Liliana Cavani, de 1989. Não se trata exatamente de uma cinebiografia do fundador da ordem franciscana, e sim de uma leitura original e historicamente bem documentada da vida daquele que, por muitos aspectos, é a personalidade mais interessante do cristianismo medieval. Uma leitura realizada por uma diretora laica e alheia a simpatias para o catolicismo: exatamente por isso, sua visão dos fatos se destaca pelo rigor na reconstituição de personagens e ambientes, evitando com habilidade a queda no sentimentalismo. O Francisco da Cavani é o homem real, desfrutador dos prazeres da existência no inicio de sua vida e teimoso seguidor das pegadas de Cristo até o extremo da solidão e do abandono quase desesperado no resto de sua caminhada. Nada a ver, para nos entendermos, com o Francisco, poeta da natureza e louco romântico, retratado por Zeffirelli em Irmão Sol, Irmã Lua (1972).
 
Preocupação com a reconstrução histórica
Narrado com a técnica do flash-back, com a vida de Francisco evocada pelas lembranças de alguns dos seus primeiros companheiros, reunidos, após sua morte, junto com Clara (a primeira mulher a se empenhar no caminho proposto pelo santo), o filme mostra os pontos mais significativos de sua existência sem uma preocupação excessiva com a cronologia e sim com a reconstituição histórica. É o mundo medieval de uma pequena cidade italiana, Assis, no começo do século XIII, que é retratado, com seus conflitos e suas crenças. Um mundo no qual a sensibilidade religiosa cristã perpassa todos os setores da sociedade, em parte moldando uma mentalidade, em parte se digladiando com costumes e práticas não cristãs. Um mundo no qual a proposta de radicalismo evangélico de Francisco encontra adesões e recusas fortes. Um mundo talvez bastante longínquo de nossos parâmetros de juízo, de nossos metros de valores, mas um mundo que é preciso conhecer e penetrar para poder avaliar sem anacronismos ou estereótipos.
Destaque no filme para três pontos emblemáticos. O primeiro é a chegada em Roma, junto à corte pontifícia, do primeiro grupo franciscano, em busca de aprovação para a sua proposta de vida e sua regra. A simplicidade e austeridade de Francisco e seus companheiros e sua vontade de viver o Evangelho ao pé da letra contrastam com as limitações e os compromissos dos quais a autoridade do catolicismo se declara refém. No diálogo entre o Papa, os cardeais e os franciscanos está uma chave para a compreensão da sociedade medieval, da influência nela do cristianismo e da Igreja, e ao mesmo tempo de quanto há, nesta influência, de temporal, de histórico, de herdado de uma mentalidade imperial romana. A inveja do pontífice e de alguns cardeais pela liberdade com que Francisco pode viver o seguimento de Jesus mostra os dois lados da mesma moeda.
Um segundo momento significativo é o registro das dimensões que o movimento franciscano toma desde seus primeiros anos, com entusiasmos e inevitáveis diferenciações e problemas: jovens da Europa toda confluem em Assis em ocasião de uma reunião da incipiente ordem, preocupando o fundador que, como os históricos lembram, tudo queria menos ‘fundar uma ordem’. Os contrastes entre as várias tendências do franciscanismo já se manifestam. Terceiro ponto a destacar é a parábola final da vida do santo, com a solidão procurada numa tentativa de entender melhor a voz de Deus e sua vontade, diante de tantas dificuldades e incompreensões. Um Francisco quase desesperado, angustiado, peregrino por bosques e pedras inacessíveis: uma imagem bastante distante das tradicionalmente transmitidas pela iconografia ou pela memória popular, mas uma imagem historicamente real. Até o misterioso momento da resposta divina, que encerra o filme.   
“Traçar a curva de um destino que foi simples, mas trágico; situar com precisão os poucos pontos realmente importantes por onde passou essa curva; mostrar de que maneira, sob a pressão de que circunstâncias, seu impulso inicial teve de esmorecer, e seu traçado original, inflectir-se; colocar assim, acerca de um homem de singular vitalidade, esse problema das relações entre o individuo e a coletividade, entre a iniciativa pessoal e a necessidade social, que é, talvez. o problema essencial da historia: tal foi nosso intuito.” Não seja visto como pretensão atribuir ao menos parte destas intenções - formuladas pelo historiador francês Lucien Febvre na abertura de seu livro de 1927, “Martinho Lutero, um destino” – à diretora Liliana Cavani. A dela não foi obra de historiadora, e sim de artista, e a arte tem outras leis que não as da historia. Mas sua tentativa parece mesmo a de traçar a curva do destino de Francisco, e de se interrogar sobre a relação entre a genialidade e inspiração pessoal do homem e o eco disso na comunidade à qual ele se dirigia.
Uma palavra sobre os atores: além de vários coadjuvantes, se destacam Helena Bonham Carter como Clara e, sobretudo, Mickey Rourke como o próprio Francisco, num desempenho muito interessante, capaz de liberar capacidades interpretativas surpreendentes. Afinal, uma obra válida, até como documento de um tempo e de uma sociedade, que por isso nos induz a perdoar uma duração talvez excessiva.

Crimes da Ditadura - Programa da Agência Brasil

Iniciativas e desafios para passar a limpo os crimes cometidos depois do golpe militar
Caminhos: Crimes da DitaduraCaminhos: Crimes da DitaduraAo contrário do que aconteceu em países vizinhos, até hoje o Brasil não julgou os crimes cometidos depois do golpe militar de 1964. O governo brasileiro também não conseguiu informar aos familiares o paradeiro dos restos mortais de dezenas de desaparecidos durante o regime. Por isso, o país foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. O Caminhos da Reportagem de quinta-feira (2/02), às 22h, mostra o que o Brasil vem fazendo para tentar passar a limpo os crimes de Estado cometidos nos anos de chumbo e os desafios que ainda tem pela frente.

A equipe de reportagem percorreu antigos centros de tortura, onde se praticaram crimes contra brasileiros e estrangeiros contrários ao regime. Mostra antigos arquivos secretos e entrevista vítimas do regime militar, historiadores e autoridades que lutam para que essa história seja conhecida e nunca mais se repita.

Entre os entrevistados estão os jornalistas Jarbas Silva Marques, Lucas Figueiredo e Rose Nogueira; o brigadeiro Rui Moreira Lima, os pesquisadores Maria Celina d"Araújo e Rubim de Aquino; os advogados Antônio Modesto da Silveira e Cesar Brito; o procurador Marlon Alberto Weichert e a vice-presidente da ONG Tortura Nunca Mais no Rio de Janeiro, Vitória Gabrois, além da coordenadora do Projeto República da UFMG, Heloisa Starling.

O programa mostra ainda a ditadura em países vizinhos, como Argentina, Chile e Uruguai, que estão à frente do Brasil na punição dos culpados. Foram mais de 30 mil desaparecidos e 50 mil presos, torturados e exilados. A justiça dos três países já prendeu 700 participantes desses regimes ditatoriais e continua processando mais de mil acusados.

Os Falsificadores de Hitler

publicado em recortes por
Uma reunião no dia 18 de setembro de 1939, no altivo prédio do Ministério das Finanças do Terceiro Reich, tinha uma única pauta: o maior plano de falsificação de dinheiro de todos os tempos.
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© "Os Falsários".
Como tudo o que envolve o sinistro governo de Hitler, o plano era completamente megalómano. Os alemães pretendiam falsificar milhões de cédulas de libras esterlinas e depois colocá-las em circulação no mercado Inglês e demais colônias britânicas, a fim de causar um colapso no mercado financeiro ou no mínimo uma séria desvalorização de tal moeda. O plano ainda previa a atuação do famoso Ministério da Propaganda na acusação contra o Banco da Inglaterra, a quem seria atribuída a culpa pela distribuição das falsificações, alegando que essa atitude tinha como propósito esconder sua própria falência.

Mas por que atacar a libra esterlina? Primeiramente, pelo óbvio motivo de que se tratava da moeda de um inimigo do regime alemão. Porém, inimigos eram o que não faltava à nação de Hitler; o que melhor explica a escolha é algo anterior ao conflito. No período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, as moedas de todo o mundo sofreram por falta de confiança. Os países mais astutos, Alemanha incluída, percebendo a fragilidade do sistema monetário mundial, desvalorizavam a própria moeda para favorecer os produtos locais e elevaram tarifas alfandegárias, ou seja, o que se criou a nível mundial foi um sistema de comércio completamente desleal em que cada um visava o protecionismo e lucro a qualquer custo. Contudo, os ingleses foram na contramão desse processo: o que eles queriam era uma moeda confiável, por isso voltaram ao padrão-ouro, ou seja, a moeda era mais cara mas, em teoria, era a única confiável o suficiente para ser trocada por ouro. Tendo esse cenário como pano de fundo, a libra esterlina se firmou como moeda forte e tornou-se o alvo mais visado por falsificadores de todas as espécies.
Esses falsários atuavam no mundo todo; normalmente, eram artistas desiludidos com o incerto mundo das artes e que para não morrerem na miséria utilizavam seus dons artísticos para fins menos gloriosos. Como a Alemanha era uma das principais representantes da Comissão Internacional de Polícia Criminal, formada após a Primeira Guerra Mundial para rastrear atividades de falsários e contrabandistas nas fronteiras europeias (mais tarde daria origem à Interpol), a tarefa de encontrar e “recrutar” estes criminosos era simples.
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© "Os Falsários".
O mais famoso deles foi Salomon Smolianoff, um judeu russo que estudou pintura, mas a quem as guerras não pouparam. Primeiro, foi a Revolução Russa que obrigou sua família a fugir do país e, anos mais tarde, no início da Segunda Guerra, tendo sido descoberto nos seus golpes, foi levado para o campo de concentração de Mauthausen. Lá, ele se revelou um excelente retratista e chamou a atenção do oficial nazista Bernhard Krüger, que o transferiu para o campo de concentração de Sachsenhausen, onde estava para iniciar uma das operações mais ousadas da história deste conflito: a Operação Bernhard.
Tal ação contou com 142 falsificadores arrebanhados de vários campos de concentração que formaram uma equipe sediada em Sachsenhausen. Obrigados a se tornar “Kapos”, designação para aqueles que colaboravam com a SS dentro dos campos, eles produziram aproximadamente 132 milhões de libras em notas falsas. Além de algumas centenas de dólares.
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© "Os Falsários".
A operação só não obteve sucesso por falta de tempo. Antes de recrutar o famoso falsário, os alemães já haviam executado uma primeira tentativa do plano, mas não lograram sucesso. A libra esterlina não era uma moeda fácil de falsificar - feita de uma mistura de linho com urtiga, num papel que possuía um padrão muito específico, o que demandou grande tempo em pesquisas e tentativas falhadas. Além disso, neste primeiro intento, a equipe não era tão qualificada para tal trabalho e com isso demoraram demais para chegar a um resultado satisfatório em relação à marca d’água e selos presentes nas notas.
Quando finalmente as notas ficaram tão boas a ponto de serem confundidas com as verdadeiras, era tarde demais. No dia 6 de maio de 1945, os falsificadores de Hitler foram libertados pelo exército americano. A incrível história destes homens foi contada em livros, e teve seu enredo nas telas do cinema em 2007, no filme Os Falsários, de Stefan Ruzowitzky (em Portugal, Os Falsificadores).
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© "Os Falsários".
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© "Os Falsários".

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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Estupro pela vontade de deus

Richard Mourdock
A declaração soa bizarra, mas o argumento é coerente. A Igreja Católica diz a mesma coisa e muitos de seus integrantes tem o mesmo entendimento, apenas o expressam de modo mais sofisticado.
Repito, o raciocínio é coerente: a vida surge na concepão e é um dom de deus, seja do jeito que for. Logo, tem que ser preservada, independente do modo como é concebida.
Se eu fosse religioso, não seria intolerante, mas seria fundamentalista. Ou as coisas acontecem pela vontade de deus, ou não acontecem. Se uma criança nasce pela vontade de deus, o estupro também seria pela vontade dele? Parece óbvio que sim. Alguém pode alegar que os seres humanos têm o livre arbítrio. Se isso é verdade, é de se perguntar se alguma mulher deseja ser estuprada, ou gerar um feto anencéfalo.  Em ambos os casos, os fundamentalismos religiosos não aceitam a interrupção da gravidez. Portanto, Mourdock não emite uma opinião excepcional, ele opina conforme o pensamento, tanbém, de grande parte da população brasileira. Isso é que preocupa.

E o “herói” do julgamento não conhecia a lei...

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Ao vivo e em cores, na sessão que começou a definir a dosimetria da Ação Penal 470, o ministro Joaquim Barbosa tentou aplicar penas não previstas em lei e teve de passar pelo constrangimento de ser corrigido por colegas no plenário; cultuado pelos meios de comunicação e transformado em fenômeno popular que virou máscara de Carnaval, o relator teve de consultar o Código Penal em plena sessão; até Merval Pereira reparou

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Casoy denuncia: quadrilha do mensalão assassinou dona da Daslu

Gilmar Mendes briga com sócio e assunto repercute no Congresso

gilmarEm: Política Brasileira
O ex-sócio acusou Gilmar Mendes de promover retiradas financeiras para o custeio de despesas particulares, sem o devido retorno ao caixa da instituição de ensino.
O artigo do colunista Elio Gaspari, nas edições desta quarta-feira dos diários conservadores carioca, O Globo, e paulistano, Folha de S. Paulo, intitulado Apenas uma briga feia de sócios, foi mais um episódio negativo para o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O assunto foi ventilado nas conversas entre parlamentares, nos corredores da Câmara e do Senado. A média dos comentários sugere um desgaste ainda maior para o magistrado, às vésperas do julgamento do processo conhecido como ‘mensalão’, em meio à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Cachoeira, instaurada para apurar as ligações do bicheiro Carlos Augusto Ramos e integrantes dos Três Poderes.
Gaspari repercute a reportagem do jornalista Leandro Fortes, na revista semanal de esquerda Carta Capital, sobre o processo judicial em que um ex-sócio de Gilmar Mendes em uma escola de nível superior o acusa de desvio de recursos e sonegação fiscal. O Instituto de Direito Público (IDP), situado na Asa Sul de Brasília, reúne próceres do Direito em cursos de graduação e pós-graduação na área. Mendes responde a processo movido por Inocêncio Mártires Coelho, jurista e ex-presidente do IDP, no qual acusa o ministro da Suprema Corte de Justiça do país de “fazer retiradas ilegais do instituto, desfalcar o caixa da empresa e exigir pedágio dos outros sócios para servir, como ministro do STF, de garoto-propaganda da instituição educacional”. Procurado pelo Correio do Brasil, o IDP preferiu não se pronunciar sobre o assunto.
O ex-sócio acusou Gilmar Mendes de promover retiradas financeiras para o custeio de despesas particulares, sem o devido retorno ao caixa da instituição de ensino. A ação teve início em 7 de abril de 2011, quando o advogado Sergio Bermudes assume a defesa de Gilmar Mendes e entra com pedido para que o processo tramitasse em segredo de Justiça. Segundo a matéria de Leandro Fortes, o ministro do STF também passou a atribuir a Mártires Coelho as causas pela má situação financeira do IDP, com base em uma auditoria no IDP, que teria concluído pela falta de “capacidade para pagar seus compromissos de curto prazo”.
Mendes recebeu, a seu favor, um parecer assinado pelo advogado-Geral da União, Luís Inácio Adams, o qual valida o despejo de Mártires Coelho do cargo de gestor do IDP. Apesar da vantagem, o denunciante deu o processo por encerrado em troca da quantia de R$ 8 milhões. A quantia, segundo o ministro Gilmar Mendes assinalou, em nota distribuída aos jornais, foi obtida por meio de um empréstimo bancário, do qual participaria também outro sócio do IDP, Paulo Gustavo Gonet Branco.
Questão delicada
O questionamento sobre os negócios de Gilmar Mendes, no entanto, foi agravado nesta quarta-feira no artigo de Gaspari, o qual instiga o ministro a “romper o segredo de seu litígio com o ex-procurador-geral”.
“O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, fez muito bem ao quebrar o sigilo da conversa que Lula teve com ele no escritório de Nelson Jobim, catituando a postergação do julgamento do mensalão. Também fará bem se pedir à Justiça que levante o segredo em que correu o seu litígio com o ex-sócio e ex-procurador-geral da República (1981-1985), Inocêncio Mártires Coelho”, diz o colunista.
Ainda segundo Gaspari, “o repórter Leandro Fortes teve acesso a documentos do processo. Se nele há interesse público envolvido, vai na direção da transparência, não do segredo. Mártires Coelho dirigia o instituto e foi afastado por Gilmar. No processo, seus advogados acusam o ministro de ter exigido que ‘lhe fosse dada uma percentagem dos valores doados ao IDP a título de patrocínio para custear seus eventos extracurriculares, tais como congressos, seminários (…). O motivo/razão para a cobrança desse ‘pedágio’ era simples, pelo menos aos olhos do cobrador: sem o seu inegável prestígio e sua notória influência, ninguém financiaria tais atividades”.
No documento, Mendes se disse “cansado de ser garoto-propaganda do IDP”, acrescenta o colunista. “Atualmente, o IDP lista 26 ‘instituições e empresas conveniadas’. Entre elas estão a Câmara dos Deputados, o Ministério do Trabalho, a OAB do Piauí, um Tribunal Regional do Trabalho e 15 associações e sindicatos de servidores públicos. Empresa privada, daquelas que o dono tem que se preocupar com o balanço, nenhuma”, pontuou.
“A essa altura, com a divulgação das razões dos advogados de Inocêncio Mártires Coelho, o segredo de Justiça tornou-se um ônus para Gilmar Mendes e nunca é demais repetir o juiz Louis Brandeis, da Corte Suprema dos Estados Unidos: “A luz do sol é o melhor desinfetante”. (Sabendo que a Corte Suprema pagava pouco, Brandeis resolveu ficar rico antes de ir para lá). Um ex-procurador-geral da República e um ministro do Supremo Tribunal não organizam um educandário comercial sem amparo nas leis. Quando esse educandário firma convênios com entidades públicas, deve ter sido achada base legal para fazê-lo. Tudo bem, mas é mais fácil um juiz do Tribunal Constitucional da Alemanha ou da Corte Suprema dos Estados Unidos se associar a um mágico de feira antes do que se meter em semelhante iniciativa”, conclui Gaspari, sobre a posição de Gilmar Mendes.

Uruguai é vanguarda em uma América Latina ainda conservadora


Uruguai é vanguarda em uma América Latina ainda conservadora. 17448.jpegDe: Pravda.ru
Com a aprovação na última quarta (17) de uma lei que permite o aborto com poucas restrições, o Uruguai - que também debate a legalização da maconha - assume a vanguarda da liberalização das políticas sociais em uma região com forte influência católica.
Na América Latina, só Cuba e Cidade do México autorizam a interrupção voluntária da gravidez, que também é legal na Guiana e em Porto Rico. Todos os vizinhos do Uruguai o proíbem e a chegada de governos progressistas ainda não pôs o tema na agenda política.
A descriminalização do aborto volta a pôr em foco o Uruguai, um país com 3,3 milhões de habitantes que nos últimos meses já chamou atenção com uma proposta polêmica para legalizar a produção e a comercialização da maconha, ainda em estudo no Parlamento.
Além disso, nos últimos seis anos o Uruguai também foi o pioneiro da região ao legalizar a união civil de casais homossexuais (2007) e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo (2009). Este ano, o governo também habilitou a mudança de nome e sexo e a entrada de homossexuais nas Forças Armadas.
A descriminalização do aborto e o avanço na legislação sobre os direitos dos homossexuais "é uma tendência que mostra que o Uruguai está se posicionando à frente de outros países latino-americanos que, muito provavelmente, seguirão o curso do que está ocorrendo no Uruguai", disse Felipe Arocena, sociólogo e doutor em Ciências Humanas.
Para Arocena, este momento pode ser uma reedição do ocorrido no começo do século 20, quando o Uruguai como Estado laico desde 1917 foi o primeiro da América do Sul a admitir o divórcio pela vontade exclusiva da mulher (1913) ou a permitir o voto feminino (em um plebiscito local de 1927). Também foi um dos primeiros a abolir a pena de morte (1907).
Nessa época também foram aprovadas avançadas normas trabalhistas, como a lei de 8 horas (1915) e de Previdência Social, na década de 1920.
"Parece que estamos retomando a linha que tinha sido um pouco deixada de lado. E estamos saindo do congelador que foi a ditadura (1973-1985), quando todos os avanços nos direitos humanos passaram por um processo de congelamento", sustentou.
Nesta tradição pode ter influência o fato de que "o peso da Igreja é bem menor do que ainda é em outros países", sustentou.
"O Uruguai se coloca na vanguarda da América Latina e isso tem a ver, em parte, também com o fato de ser o país mais laico da América Latina", avaliou a senadora governista Constanza Moreira.
Enquanto no Uruguai a Arquidiocese de Montevidéu manifestou, em um comunicado, "sua profunda dor e repúdio" contra a lei que descriminaliza o aborto, em Lima o cardeal Juan Luis Cipriani, nome do Opus Dei na região, clamou diante de uma imagem de Jesus Cristo para que "afaste a praga do aborto do mundo".
Para o senador Jorge Saravia, o único da oposição a votar pela lei do aborto, "se o Uruguai pretende estar no primeiro mundo, também tem que estar no primeiro mundo na concepção filosófica de alguns temas que o primeiro mundo solucionou".
"O Uruguai tem sido bastante vanguardista em aspectos como o direito da mulher e a legislação social em geral, e agora há algumas iniciativas que são relativamente vanguardistas. Mas é estranho porque também não é um país vanguardista. É um país com uma estrutura muito conservadora e uma média de idade muito elevada e envelhecida", avaliou, por sua vez, Rafael Bayce, doutor em Sociologia e Ciência Política.
"Mas houve em todas as épocas algumas correntes políticas, dentro dos partidos, com tendências progressistas, que têm conseguido certas maiorias conjunturais", disse.
Com AFP
http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=ceccbaaff99be20a857e00767f70b481&cod=10466

Um país estranho: Islândia por: Vladimir Safatle

Folha de S.Paulo, 22/10/2012
A Islândia é uma ilha com pouco mais de 300 mil habitantes que parece decidida a inventar a democracia do futuro.
Por uma razão não totalmente clara, esse país que fora um dos primeiros a quebrar com a crise financeira de 2008 sumiu em larga medida das páginas da imprensa mundial. Coisas estranhas, no entanto, aconteceram por lá.
Primeiro, o presidente da República submeteu a plebiscito propostas de ajuda estatal a bancos falidos. O ex-primeiro-ministro grego George Papandreou foi posto para fora do governo quando aventou uma ideia semelhante. O povo islandês, todavia, não se fez de rogado e disse claramente que não pagaria nenhuma dívida de bancos.
Mais do que isso, os executivos dos bancos foram presos e o primeiro-ministro que governava o país à época da crise foi julgado e condenado.
Algo muito diferente do resto da Europa, onde os executivos que quebraram a economia mundial foram para casa levando no bolso "stock options" vindos diretamente das ajudas estatais.
Como se não bastasse, a Islândia resolveu escrever uma nova Constituição. Submetida a sufrágio universal, ela foi aprovada no último fim de semana. A Constituição não foi redigida por membros do Parlamento ou por juristas, mas por 25 "pessoas comuns" escolhidas de maneira direta.
Durante sua redação, qualquer um podia utilizar as redes sociais para enviar sugestões de leis e questionar o projeto. Todas as discussões entre os membros do Conselho Constitucional podiam ser acompanhadas do computador de qualquer cidadão.
O resultado é uma Constituição que estatiza todos os recursos naturais, impede o Estado de ter documentos secretos sobre seus cidadãos e cria as bases de uma democracia direta, onde basta o pedido de 10% da população para que uma lei aprovada pelo Parlamento seja objeto de plebiscito.
Seu preâmbulo não poderia ser mais claro a respeito do espírito de todo o documento: "Nós, o povo da Islândia, queremos criar uma sociedade justa que ofereça as mesmas oportunidades a todos. Nossas diferentes origens são uma riqueza comum e, juntos, somos responsáveis pela herança de gerações".
Em uma época na qual a Europa afunda na xenofobia e esquece o igualitarismo como valor republicano fundamental, a Constituição islandesa soa estranha. Esse estranho país, contudo, já não está mais em crise econômica.
Cresceu 2,1% no ano passado e deve crescer 2,7% neste ano. Eles fizeram tudo o que Portugal, Espanha, Grécia, Itália e outros não fizeram. Ou seja, eles confiaram na força da soberania popular e resolveram guiar seu destino com as próprias mãos. Algo atualmente muito estranho.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Across the Universe: o filme

Across the Universe é um filme fabuloso. Não só pela trilha sonora, mas pelo modo como ela é contextualizada e pelo contexto em que essa trilha é colocada. Um panorama da história dos EUA e do mundo da década de 60, com sensibilidade e talento. Vale a pena ver todo o filme e ouvir a trilha sonora dos incomparáveis The Beatles.

O que querem Obama e Romney?

Em: EBC

Obama e Romney enfrentam-se nesta segunda-feira (22) em último debate  (DonkeyHotey/CC)
Nova Iorque, 22 out (Lusa) – O que pensam e quais são as principais propostas dos candidatos à presidência dos Estados Unidos, o democrata Barack Obama e o republicano Mitt Romney?  Da economia à política externa, passando pelos impostos e assuntos sociais, conheça o perfil de cada um um. Os dois enfrentam-se nesta segunda-feira (22) no último debate antes das eleições. Pequisas apontam que eles estão tecnicamente empatados.
Economia
Obama defende estímulo econômico direto do governo, investindo na formação profissional e infraestrutura de transportes, telecomunicações e tecnologias. Do seu plano para criação de empregos, o  'American Jobs Act', passou pelo Congresso apenas uma extensão de benefícios fiscais para trabalhadores, ficando pelo caminho o financiamento federal aos estados e governos locais para contratar mais professores e reparar escolas.
O "Plano de Cinco Pontos" de Romney tem como ideia central "tirar o governo do caminho" dos empresários que criam postos de trabalho, reduzindo impostos e regulação empresarial. O candidato republicano opõe-se mesmo a medidas de estímulo de curto prazo - que considera levarem apenas a mais endividamento - e à intervenção do governo no mercado de habitação.
Impostos
Obama propõe a extensão por um ano dos cortes de impostos da administração Bush, excluindo os grandes contribuintes. No caso de rendimentos superiores a 250 mil dólares, as taxas subiriam, prevendo-se aumento da receita fiscal também taxando a 20 por cento os ganhos de capital e eliminando deduções.
A principal proposta de Romney é uma redução geral de 20 por cento nas taxas, compensada pela eliminação de deduções e créditos fiscais, que o candidato republicano ainda não especificou, prometendo apenas poupar a classe média. Propõe ainda manter todos os cortes da administração Bush, incluindo para os maiores contribuintes; reduzir a carga fiscal das empresas; anular impostos sucessórios e outros, além das taxas sobre dividendos e juros para indivíduos com rendimentos até 100 mil dólares. O ponto mais polêmico é o fim de benefícios fiscais para famílias de baixos rendimentos.
Finanças públicas
Obama pretende nos próximos quatro anos reduzir a despesa do governo federal de 24 por cento do PIB para 22,5 por cento do PIB, baixando o déficit das contas públicas para 3 por cento, sobretudo reduzindo os gastos com Defesa, que Romney quer aumentar.
Num plano de oito a dez anos, a concluir num segundo mandato para que a redução de despesa não tenha um impacto "dramático" na economia, o candidato republicano é mais ambicioso, querendo diminuir para 20 por cento do PIB a despesa governamental, com o maior corte no seguro público de saúde para os mais pobres (Medicaid).
Saúde e segurança social
Obama remete alterações à Segurança Social para um "acordo abrangente" com os republicanos sobre o orçamento federal. A reforma do sistema de Saúde foi a que mais tempo consumiu à administração no primeiro mandato, e a sua implementação é prioritária para os próximos quatro anos.
Mitt Romney propõe mais alterações, começando pelo aumento em dois anos da idade de reforma, atualmente em vias de subir para 67 anos, e reduzindo benefícios mudando a forma de cálculo. Para a Saúde, promete desde o início das primárias republicanas anular e substituir a reforma Obama por um sistema de "vales", que podem ser usados na aquisição de seguros públicos ou privados. A idade de acesso ao plano de assistência médica para idosos subiria de 65 para 67 anos.
Imigração
Depois de ter falhado a reforma do sistema de imigração, prometida em 2008, Barack Obama vem agora acusar os republicanos de bloqueio e pedir mais quatro anos para concretizar o objetivo, que inclui a legalização de trabalhadores. A sua administração deportou um número recorde de ilegais, focando-se nos cadastrados, mas cessou a deportação de jovens que foram trazidos ilegalmente para o país pelos seus pais.
Romney assumiu uma linha dura contra imigrantes ilegais, opondo-se a qualquer tipo de plano para a legalização destes e abrindo, como alternativa, a porta à "deportação voluntária" para os países de origem. Afirmou ainda querer erguer uma vedação de alta tecnologia na fronteira entre os Estados Unidos e o México e criar uma base de dados que os empregadores sejam obrigados a consultar antes de contratar alguém. Outra proposta vai no sentido de expandir o sistema de trabalho temporário para mão-de-obra sazonal.
Política externa
Obama prevê concluir até 2014 a retirada das tropas norte-americanas no Afeganistão. Numa política claramente menos musculada do que ao seu antecessor George W. Bush, promete ainda apoiar as "primaveras árabes" e o processo de paz israelo-palestiniano.
Romney e os republicanos têm frequentemente acusado Obama de ser demasiado brando com China e Rússia e de prosseguir uma política de sanções para o Irã que não tem detido os esforços nucleares. Tem-se mostrado mais aberto a um ataque preventivo contra Teerã. Em relação ao Oriente Médio, defende que Obama abandonou Israel, sugerindo que os Estados Unidos mudem a sua embaixada para a cidade de Jerusalém, sem mencionar apoio à criação de um Estado Palestiniano.
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Os vira-latas complexados do país

Por Sergio Leo
"Existe só no Brasil e não é jabuticaba? Não presta". Poucos ditados concentram tão bem, em mensagem tão convincente, uma ideia tão equivocada.
Oscar Niemeyer é uma jabuticaba arquitetônica. O Bolsa Família é jabuticabalmente admirado e copiado pelas instituições internacionais que lidam com pobreza. A agilidade do sistema financeiro brasileiro, jabuticanabolizada pela sobrevivência à hiperinflação, não tem igual no mundo. O Plano Real, baseado em experiências internacionais e aclimatado para o solo brasileiro, foi uma jabuticabeira providencial, que rende frutos até hoje.
O ditado da jabuticaba é uma versão pouco frutuosa do que o economista Albert Hirschman, baseado em sua experiência como consultor internacional, especialmente na América Latina, chamava de "fracassomania": a incapacidade de ver os méritos nas adaptações e soluções locais, o pessimismo em relação às políticas - inclusive os aperfeiçoamentos incrementais e heterodoxos do capitalismo. Fernando Henrique Cardoso, amigo e admirador de Hirschman (como, aliás, José Serra), foi um dos que popularizam o termo fracassomania (que, curiosamente, Hirschman aplicou também a certos aspectos da teoria cardosiana da dependência).
Complexo de vira-lata não é um problema do Brasil
Hirschman desenvolveu sua tese a partir de outra expressão, em francês, também sacada da experiência em países em desenvolvimento: "la rage de vouloir conclure", a raiva de querer concluir: na ânsia de soluções e na pressa de terminar obras, governos, economistas, especialistas, inclinam-se pela aplicação dogmática de fórmulas já prontas e testadas em algum outro lugar, de preferência em países comprovadamente bem-sucedidos - sem notar que a receita de sucesso de um pode ser o caminho para o fracasso de outro, sujeito a condições diferentes.
A insistência em apontar as dificuldades e não reconhecer os avanços, ainda que incipientes ou insuficientes, está na raiz da fracassomania, como se queixava Fernando Henrique - que, porém, usou o termo equivocadamente ao defender, contra os críticos, a política de dólar desvalorizado dos anos 90. Ao rejeitar políticas originais e inovadoras como fatalmente ineficazes e destinadas ao fracasso, a ortodoxia, à direita e à esquerda, parece ignorar que situações inéditas podem exigir ações também singulares.
Não cabem metáforas de jabuticaba para analisar soluções e problemas que frutificaram por aqui. A emergência dos tais 40 milhões de novos integrantes da classe média, por exemplo, impulsionada por aumentos reais no salário mínimo e extensão da rede de proteção social, que foram possíveis devido a condições favoráveis no país e no mercado externo, trouxe ao Brasil novos padrões de consumo e poupança, ainda não inteiramente compreendidos. Essa jabuticaba merece mais que as preguiçosas avaliações sobre o esgotamento iminente do crescimento baseado no consumo.
Também faltam "jabuticabólogos" para orientar a excepcional situação do Brasil no cenário de comércio internacional, como grande produtor e exportador de commodities agrícolas e minerais, e portador, ao mesmo tempo, de um vigoroso mercado interno e uma complexa e diversificada estrutura industrial.
A ideia de partir para a liberalização da economia com a derrubada de barreiras a importados não encontra solo fértil em um país tão sensível aos lobbies industriais; mas a aplicação sem nuances de exigências de conteúdo nacional e de novas barreiras aos importados também entra em choque com um mundo de produção internacionalizada e pressão global por acordos de livre comércio, especialmente nas economias dinâmicas da Ásia.
Fazem falta no debate público vozes originais e tropicalizadas, como a do economista Antônio Barros de Castro, um dos primeiros a apontar a necessidade de uma estratégia mais sofisticada para lidar com o fortalecimento da China e com bilhetes premiados do Brasil, como as reservas do pré-sal, para as quais ele defendia uma política de exploração controlada, sem a urgência dos interessados em rentabilidade imediata.
A tese da fracassomania, que rejeita a singularidade da jabuticaba, se liga a outro clichê nacional equivocado: o complexo de vira-lata, diagnosticado pelo escritor Nelson Rodrigues para descrever a baixa auto-estima do brasileiro quando confrontado com o resto do mundo. Apesar do pedigree literário, essa é outra metáfora infeliz; Nelson Rodrigues estava correto ao criticar o narcisismo "às avessas" do brasileiro que "cospe em sua própria imagem"; mas errou ao eleger o malandro vira-lata como termo de comparação.
No imaginário popular, o mais conhecido vira-lata é um personagem de desenho animado, a quem Walt Disney deu independência e autoconfiança invejáveis. Disso entendem os Estados Unidos, que sempre louvaram suas jabuticabas, a ponto de transformar em ponto de honra a "excepcionalidade americana".
O vira-lata, mestiço e sem dono, não conhece limites, adapta-se às circunstâncias, sobrevive mesmo em condições precárias e reage às ameaças com sabedoria. Não merece ser comparado aos que, fracassomaníacos, desconfiam da própria capacidade de evitar os becos sem saída.
Quem se submete às vontades alheias, tem campo de ação regulado e costuma trocar a criatividade por truques ensinados pelo dono, são os cães de raça - todos, aliás, descendentes de vira-latas, resultado de gerações de cruzamentos para eliminar o inesperado e consolidar certas características especializadas.
Os cães de raça sempre serão úteis. Confiáveis, executam bem as ordens que recebem. Mas são os vira-latas que, na balbúrdia da rua, podem descobrir os melhores caminhos, com a autoconfiança que lhes garante a sobrevivência. Desde, é claro, que se livrem da coleira.
Nelson Rodrigues estava errado. O problema do Brasil não é o complexo de vira-lata. São os vira-latas complexados.
Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras