terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A aliança entre ciência e religião

Autor: André Rabelo
Existem diferenças fundamentais entre ciência e religião, que provavelmente se relacionam com algumas das tensões existentes entre elas. A ciência e a religião possuem um longo histórico de desavenças e atritos, mas houve mudanças nesta relação – muitos líderes religiosos e teólogos reconhecem a legitimidade de conhecimentos científicos antes rejeitados, como a teoria da evolução e os 4,5 bilhões de anos da Terra (Dawkins, 2009; Sagan, 1997).
Apesar de terem ocupado posições antagônicas em muitos momentos (quase se vendo como rivais ou inimigas), ambas possuem um inimigo em comum muito mais poderoso atualmente, que merece mais atenção do que qualquer desavença sobre quando o nosso planeta foi criado ou a eficácia da camisinha – o inimigo é a destruição desenfreada da natureza. Carl Sagan, em seu livro “Bilhões e Bilhões”, fez uma afirmação a este respeito:
Não importa de quem seja a principal responsabilidade pela crise (ambiental), não há saída sem a compreensão dos perigos e seus mecanismos e sem um profundo compromisso com o bem-estar a longo prazo de nossa espécie e de nosso planeta – isto é, em palavras bastante precisas, sem o envolvimento central tanto da ciência como da religião.
Sagan também descreveu neste livro a experiência que teve nas conferências do “Fórum Global dos Líderes Espirituais e Parlamentares”, onde representantes religiosos, cientistas e parlamentares de vários países se juntaram para discutir a crise ambiental. Na conferência de Moscou, em 1990, um grupo de cientistas apresentaram um apelo conjunto aos líderes religiosos no encontro, que responderam ao apelo quase unanimente de forma positiva.

A criação em 1993 da “Parceria Religiosa Nacional pelo Meio Ambiente” foi um dos desmembramentos do apelo conjunto, contando com representantes da igreja católica, religião judaica, igreja protestante, igreja ortodoxa oriental, igreja negra histórica e comunidades cristãs evangélicas. Essa parceria tem tido grande influência nas comunidades em que atua, pressionando políticos, distribuindo manuais em suas congregações sobre educação e ação ambiental, proferindo sermões e alertando seminaristas.
Um exemplo que Sagan cita foi a pressão que a Rede Ambiental Evangélica exerceu sobre o congresso, em 1996, para aprovar a lei das espécies ameaçadas, que corria o risco de não ser aprovada. Sagan também sugere que as congregações deveriam explorar mais a parceira com paroquianos que são executivos de grandes indústrias que prejudicam o meio ambiente. É interessante ler alguns trechos do apelo conjunto que foi encaminhado aos líderes religiosos em 1990, e a resposta assinada por líderes espirituais de 83 países, entre eles os da Liga Mulçumana Mundial e do Congresso Mundial de Igrejas, que foi encaminhada aos cientistas:
Preservando e protegendo a Terra: um apelo a favor do compromisso conjunto da ciência e religião
A Terra é o berço natal de nossa espécie e, ao que se saiba o nosso único lar. Quando nossos números eram pequenos e a nossa tecnologia fraca não tínhamos poderes para influenciar o meio ambiente do mundo (…). Somos agora ameaçados por alterações ambientais autoinfligidas em rápido processo de aceleração, cujas consequências biológicas e ecológicas de longo prazo infelizmente ainda ignoramos (…). A saída dessa armadilha requer uma perspectiva que abranja os povos do planeta e todas as gerações futuras. Em problemas dessa magnitude, e em soluções que exigem uma perspectiva tão ampla deve-se reconhecer desde o início uma dimensão não só científica, como religiosa. Cientes de nossa responsabilidade comum, nós, cientistas – muitos empenhados em combater a crise ambiental -, pedimos insistentemente que a comunidade religiosa do mundo se comprometa, com palavras e ações, e com toda a audácia requerida, a preservar o meio ambiente da Terra (…).
Assim como nas questões da paz, dos direitos humanos e da justiça social, as instituições religiosas também podem exercer uma forte influência nesse caso, encorajando iniciativas nacionais e internacionais nos setores públicos e privados, bem como nas diversas áreas do comércio, educação, cultura e meios de comunicação de massa. A crise ambiental requer mudanças radicais, não só na política pública, mas também no comportamento individual. O registro histórico deixa claro que o ensino, o exemplo e a liderança religiosos são poderosamente capazes de influenciar a conduta e os compromissos individuais (…).
Como cientistas, muitos de nós tivemos profundas experiências de temor e reverência diante do universo. Compreendemos que aquilo que é considerado sagrado tem mais probabilidade de ser tratado com amor e respeito. Os esforços para salvaguardar e proteger o meio ambiente precisam ser incutidos com uma visão do sagrado. Ao mesmo tempo, é necessária uma compreensão muito mais ampla e mais profunda da ciência e da tecnologia. Se não compreendemos o problema, é improvável que sejamos capazes de corrigí-lo. Assim, há um papel vital tanto para a religião como para a ciência. Sabemos que o bem-estar de nosso meio ambiente planetário já é uma fonte de profunda preocupação nos seus conselhos e congregações. Esperamos que este Apelo estimule um espírito de causa comum e ação conjunta que ajude a preservar a Terra.
A resposta dos líderes
Ficamos emocionados com o espírito do Apelo e nos sentimos desafiados pelo seu conteúdo. Partilhamos o seu senso de urgência. Este convite de colaboração marca um momento e oportunidade únicos na relação entre a ciência e a religião. Muitos na comunidade religiosa têm acompanhado com crescente alarme os relatórios de ameaças ao bem-estar do meio ambiente de nosso planeta, como as que foram apresentadas no Apelo.
A comunidade científica prestou um grande serviço à humanidade ao evidenciar a existência desses perigos. Encorajamos uma investigação escrupulosa continuada, e devemos levar em conta os seus resultados em todas as nossas deiberações e declarações a respeito da condição humana. Acreditamos que a crise ambiental é intrinsecamente religiosa. Todas as tradições e ensinamentos religiosos nos instruem firmemente a reverenciar e amar o mundo natural. Mas a criação sagrada está sendo violada, e acha-se em grande perigo por causa de um comportamento humano de longa data.
Uma resposta religiosa é essencial para reverter esses padrões duradouros de negligência e exploração. Por essas razões, acolhemos com prazer o Apelo dos Cientistas e estamos ansiosos para explorar, assim que possível, formas concretas e específicas de colaboração e ação. A própria Terra nos convoca para novos níveis de compromisso em conjunto (fim da resposta).
Richard Dawkins, biólogo inglês e professor da Universidade de Oxford, trabalhou em colaboração com Lorde Harries, ex-bispo de Oxford, em duas ocasiões, conforme Dawkins relata em seu livro “O Maior Espetáculo da Terra“. Os dois escreveram um artigo para o jornal Sunday Times sobre o ensino da evolução nas escolas, onde ambos defendem que o criacionismo literalista da Terra é um insulto à ideia de um deus e que a Teoria da Evolução é um fato. O artigo termina dizendo que hoje em dia não há nada para debater, que a Evolução é um fato, e da perspectiva cristã, uma das maiores obras de deus (“Nowadays there is nothing to debate. Evolution is a fact and, from a Christian perspective, one of the greatest of God’s works”).
Em 2002, os dois organizaram uma carta conjunta enviada ao até então Primeiro-Ministro Tony Blair, assinada por 7 bispos e 9 cientistas (a maioria membros da Royal Society). Seguem alguns trechos da carta:
Excelentíssimo Senhor Primeiro-Ministro,
Escrevemos como um grupo de cientistas e bispos para expressar nossa preocupação com o ensino da ciência no Emmanuel City Technology College em Gateshead. A evolução é uma teoria científica de grande poder explicativo, capaz de esclarecer uma ampla gama de fenômenos em diversas disciplinas. Pode ser desenvolvida, confirmada e até radicalmente alterada levando-se em conta as evidências (…).
É crescente a apreensão quanto ao que vai ser ensinado e como será ensinado na nova geração desses estabelecimentos que se intitulam escolas de fé. Acreditamos que os currículos de tais escolas precisam ser rigorosamente monitorados a fim de que as respectivas disciplinas da ciência e dos estudos religiosos sejam adequadamente respeitadas.
O jornalista secular Christopher Hitchens e o teólogo Douglas Wilson publicaram em coautoria o livro “O Cristianismo é Bom para o Mundo?” (Is Christianity Good for the World?), lançando em seguida o documentário “Colisão” (Collision) cobrindo os debates que os dois realizaram em vários lugares durante a divulgação do livro.
Apesar de possuírem respostas diferentes e quase antagônicas para a pergunta, os dois demonstraram que o debate sobre religião pode ser feito de forma respeitosa e colaborativa, sendo que é possível e necessário que haja tolerância de ambos os lados da discussão. Apesar do respeito mútuo, os debates ocorreram com toda a argumentação que ambos possuem e o que precisava ser dito foi dito. Honestidade não implica em agressividade se os debatedores tomarem alguns cuidados.
Seja pela sobrevivência da nossa espécie, pelo meio ambiente, pela educação, pela honestidade intelectual ou pela paz, essas histórias são exemplos de como a ciência e a religião têm uma aliança importante e necessária a continuarem construindo – não só a ciência, como também o secularismo, o humanismo, o ateísmo e qualquer grupo de pessoas que tenham interesse nessas questões. Se ambos cooperarem, todos saem ganhando.
Cientistas deveriam se esclarecer e conversar mais com as congregações religiosas – talvez assim enfrentassem menos conflitos provocados pela falta de entendimento. Religiosos deveriam demonstrar que, se é para o bem de todos e para a preservação daquilo que acreditam que o seu deus criou, estão dispostos a colaborar com os cientistas, como os líderes religiosos do mundo todo fizeram no Fórum Global dos Líderes Espirituais e Parlamentares. Existem cientistas que estão fazendo o seu papel e existem religiosos abertos e ajudando, mas isso precisa aumentar muito mais se queremos mudar as coisas.
Não há como negar que as instituições religiosas possuem uma tremenda influência sobre muitas pessoas ao redor do mundo e, por isso, tentar ofender ou ficar esfregando na cara de pessoas religiosas tudo o que as suas instituições fizeram de errado não parece vantajoso, pois dificulta o progresso dessa relação. Se o conhecimento científico puder se unir ao poder de mobilização social e conscientização que as instituições religiosas possuem, algo grandioso pode acontecer para revertermos a situação perigosa em que nos encontramos hoje.

Referências:
Dawkins, R. (2009). O maior espetáculo da terra: as evidências da evolução. São Paulo: Companhia da Letras.
Hitchens, C., & Wilson, D. (2008). Is Christianity Good for the World?. Moscow: Canon Press.
Sagan, C. (1997). Bilhões e bilhões: reflexões sobre a vida e a morte na virada do milênio. São Paulo: Companhia da Letras.

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