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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Zero Hora: a capacidade de não informar

A primeira edição do boletim do PRBS de quarta-feira (7/11) saiu sem informar o que qualquer ouvinte da rádio da mesma empresa já sabia: Obama havia vencido a eleição presidencial. Os felizardos assinantes, que recebem o jornal mais cedo e não ouvem rádio, ficaram completamente desinformados. Nas edições posteriores, a notícia de que Obama havia sido eleito já estava na manchete. É lamentável que uma empresa envie correspondentes para cobrir uma eleição nos EUA e esses correspondentes se limitem a relatar o que a CNN, ABC e outros veículos estadunidenses noticiam. Ainda assim, a empresa é incapaz de informar em seu jornal a informação que motivou o envio dos profissionais.
Ainda bem que a eleição estadunidense não foi no sábado, aí, a notícia só sairia dois dias depois.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A "Mensagem da Vanessa" e a submissão ao obscurantismo

A Mensagem da Vanessa (Grazziotin), candidata pcdobista à prefeitura de Manaus concorre ao prêmio de fato mais lamentável do segundo turno das eleições municipais.
Lula, Dilma e outros candidatos progressistas já recuaram diante da pressão do obscurantismo fundamentalista. Calaram-se e eliminaram itens dos programas de governo, mas nunca chegaram ao grau de submissão política e ideológica da senadora Vanessa Grazziotin. Vanessa não se contentou em expressar o respeito às posições dos fundamentalistas, assumiu o discurso deles e hipotecou não apenas sua futura gestão na Prefeitura de Manaus (que não se confirmou), mas o próprio mandato parlamentar, que continua. Por usas próprias palavras, Vanessa renegou a pauta histórica dos movimentos de mulheres e LGBT. Entre as pérolas de Vanessa encontramos: "Creio em Deus", "Creio na premissa de amar a Deus sobre todas as coisas" e "Creio na familia como a célula mater da sociedade".  E segue: "Defendo a boa convivência entre as classes sociais", "Sou contra o aborto", "Me posicionarei contra projetos que afrontem a família", "Não participei do PL 122 (criminalização da homofobia) e não voto nele se for ao senado" e por fim, "Manterei todas as conquistas da comunidade (leia-se benefícios das igrejas) Cristã e Evangélica de Manaus".
Vanessa foi uma decepção. Sua mensagem é um manifesto de rendição da política ao fundamentalismo religioso que, ainda obscurecido pelas disputas PT x PSDB, aparece como uma das mais perigosas tendências políticas para o Brasil.
No fim das contas, a "mensagem" de Vanessa não impediu sua derrota. Pior que perder a eleição é perder a dignidade.

domingo, 28 de outubro de 2012

As pérolas da análise que briga com os fatos

O Escritor
A pedidos, Pérolas da Globo e da GloboNews
"Haddad é o mais tucano dos petistas."
"No segundo turno, mais se rejeita um candidato do que se vota no outro."
"Serra não queria ser candidato, e só o foi por insistência do PSDB."
"O PSDB é o segundo (em número de prefeitos, depois do PMDB), mesmo há 10 anos fora do poder!" (Merval, é claro.)
"Maguito Vilela é eleito no segundo turno (para prefeito de Aparecido de Goiânia)." O político foi eleito no primeiro turno.
"O PT fracassou em seu objetivo de conquistar 1.000 prefeituras."
"A estratégia prioritária de Lula é derrubar o PSDB."
"O 'mensalão' retardou o crescimento de Fernando Haddad em São Paulo no primeiro turno."
"ACM Neto tem 58% e Pelegrino tem 48% [soma: 106%], de acordo com a pesquisa boca de urna do Ibope."
"Gustavo Fruet ganhando esta eleição, ex-PSDB, ex-crítico do Governo Lula..."
"Fortaleza foi uma das praças em que Lula esteve lá, inclusive esta semana, terça-feira, pedindo votos..." Comentando a "derrota" de Lula.
"Estive em São Paulo e percebi que o eleitor de São Paulo estava muito desencantado (com os candidatos do segundo turno)." Comentando a abstenção.
"O grande tema da reta final da campanha de Cuiabá foi um beijo."
"O PT, queira ou não queira, do ponto de vista de sigla, ela sai muito arranhada pelo mensalão." (Comentário sobre o partido campeão de votos.)
Parei. Certamente houve e haverá muitas outras. Mas há limites para o que um cérebro humano pode aguentar quando uma chuva de pérolas cai sobre ele.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O que querem Obama e Romney?

Em: EBC

Obama e Romney enfrentam-se nesta segunda-feira (22) em último debate  (DonkeyHotey/CC)
Nova Iorque, 22 out (Lusa) – O que pensam e quais são as principais propostas dos candidatos à presidência dos Estados Unidos, o democrata Barack Obama e o republicano Mitt Romney?  Da economia à política externa, passando pelos impostos e assuntos sociais, conheça o perfil de cada um um. Os dois enfrentam-se nesta segunda-feira (22) no último debate antes das eleições. Pequisas apontam que eles estão tecnicamente empatados.
Economia
Obama defende estímulo econômico direto do governo, investindo na formação profissional e infraestrutura de transportes, telecomunicações e tecnologias. Do seu plano para criação de empregos, o  'American Jobs Act', passou pelo Congresso apenas uma extensão de benefícios fiscais para trabalhadores, ficando pelo caminho o financiamento federal aos estados e governos locais para contratar mais professores e reparar escolas.
O "Plano de Cinco Pontos" de Romney tem como ideia central "tirar o governo do caminho" dos empresários que criam postos de trabalho, reduzindo impostos e regulação empresarial. O candidato republicano opõe-se mesmo a medidas de estímulo de curto prazo - que considera levarem apenas a mais endividamento - e à intervenção do governo no mercado de habitação.
Impostos
Obama propõe a extensão por um ano dos cortes de impostos da administração Bush, excluindo os grandes contribuintes. No caso de rendimentos superiores a 250 mil dólares, as taxas subiriam, prevendo-se aumento da receita fiscal também taxando a 20 por cento os ganhos de capital e eliminando deduções.
A principal proposta de Romney é uma redução geral de 20 por cento nas taxas, compensada pela eliminação de deduções e créditos fiscais, que o candidato republicano ainda não especificou, prometendo apenas poupar a classe média. Propõe ainda manter todos os cortes da administração Bush, incluindo para os maiores contribuintes; reduzir a carga fiscal das empresas; anular impostos sucessórios e outros, além das taxas sobre dividendos e juros para indivíduos com rendimentos até 100 mil dólares. O ponto mais polêmico é o fim de benefícios fiscais para famílias de baixos rendimentos.
Finanças públicas
Obama pretende nos próximos quatro anos reduzir a despesa do governo federal de 24 por cento do PIB para 22,5 por cento do PIB, baixando o déficit das contas públicas para 3 por cento, sobretudo reduzindo os gastos com Defesa, que Romney quer aumentar.
Num plano de oito a dez anos, a concluir num segundo mandato para que a redução de despesa não tenha um impacto "dramático" na economia, o candidato republicano é mais ambicioso, querendo diminuir para 20 por cento do PIB a despesa governamental, com o maior corte no seguro público de saúde para os mais pobres (Medicaid).
Saúde e segurança social
Obama remete alterações à Segurança Social para um "acordo abrangente" com os republicanos sobre o orçamento federal. A reforma do sistema de Saúde foi a que mais tempo consumiu à administração no primeiro mandato, e a sua implementação é prioritária para os próximos quatro anos.
Mitt Romney propõe mais alterações, começando pelo aumento em dois anos da idade de reforma, atualmente em vias de subir para 67 anos, e reduzindo benefícios mudando a forma de cálculo. Para a Saúde, promete desde o início das primárias republicanas anular e substituir a reforma Obama por um sistema de "vales", que podem ser usados na aquisição de seguros públicos ou privados. A idade de acesso ao plano de assistência médica para idosos subiria de 65 para 67 anos.
Imigração
Depois de ter falhado a reforma do sistema de imigração, prometida em 2008, Barack Obama vem agora acusar os republicanos de bloqueio e pedir mais quatro anos para concretizar o objetivo, que inclui a legalização de trabalhadores. A sua administração deportou um número recorde de ilegais, focando-se nos cadastrados, mas cessou a deportação de jovens que foram trazidos ilegalmente para o país pelos seus pais.
Romney assumiu uma linha dura contra imigrantes ilegais, opondo-se a qualquer tipo de plano para a legalização destes e abrindo, como alternativa, a porta à "deportação voluntária" para os países de origem. Afirmou ainda querer erguer uma vedação de alta tecnologia na fronteira entre os Estados Unidos e o México e criar uma base de dados que os empregadores sejam obrigados a consultar antes de contratar alguém. Outra proposta vai no sentido de expandir o sistema de trabalho temporário para mão-de-obra sazonal.
Política externa
Obama prevê concluir até 2014 a retirada das tropas norte-americanas no Afeganistão. Numa política claramente menos musculada do que ao seu antecessor George W. Bush, promete ainda apoiar as "primaveras árabes" e o processo de paz israelo-palestiniano.
Romney e os republicanos têm frequentemente acusado Obama de ser demasiado brando com China e Rússia e de prosseguir uma política de sanções para o Irã que não tem detido os esforços nucleares. Tem-se mostrado mais aberto a um ataque preventivo contra Teerã. Em relação ao Oriente Médio, defende que Obama abandonou Israel, sugerindo que os Estados Unidos mudem a sua embaixada para a cidade de Jerusalém, sem mencionar apoio à criação de um Estado Palestiniano.
  • Direitos autorais: Creative Commons - CC BY 3.0

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A mais bela derrota da eleição gaúcha

Por Luiz Cláudio Cunha
Especial para o Sul21
A política regalou em 2012 mais um superlativo à coleção de máximas de Rio Grande: a mais bela derrota das eleições municipais de 7 de outubro.
O surpreendente revés de Fábio Branco, prefeito candidato à reeleição pelo PMDB, traduz significados mais extraordinários e inspiradores do que a inesperada vitória de seu concorrente, Alexandre Lindenmeyer, do PT. Quando as urnas foram abertas, apenas 3.215 eleitores da cidade haviam votado em branco entre os 116.644 votos válidos. Mas, somando a votação do vitorioso aos dos outros três candidatos nanicos não eleitos, a conta final mostra que 57% do eleitorado decidiu não votar em Branco, o Fábio.
Somados aos 5,67% de votos não válidos (brancos e nulos), mais de 62,5% dos eleitores de Rio Grande rejeitaram o voto em Branco. É sempre bom lembrar que, na base dessa sanção popular, pode estar um filho ilustre e uma figura superlativa da cidade, que sobrevoa como um fantasma a história do país e a biografia do prefeito: o general Golbery do Couto e Silva (1911-1987).
Branco, o prefeito, e Golbery, o general: o branco na história e nas urnas. | Foto: riogrande.rs.gov.br

rio grande golbery
Prefeito Fabio Branco e major lançam homenagem a Golbery | Foto: Fernanda Miki/Prefeitura de Rio Grande
Um ano antes da eleição, o prefeito ousou usar eleitoralmente a imagem do general que foi figura chave na queda do presidente João Goulart e na conspiração do golpe de 1964, sem considerar a afronta que cometia à memória dos brasileiros — aí incluídos os seus conterrâneos da cidade e do Estado.

Era agosto de 2011, o mesmo mês em que o Rio Grande do Sul lembrava com orgulho o cinquentenário da resistência do povo gaúcho na Campanha da Legalidade de 1961, que garantiu a posse de Jango contra o manifesto golpista escrito pelo coronel Golbery e lido pelos ministros militares. Insensível à história dos gaúchos, Branco atravessou descuidado aqueles dias de festa do povo gaúcho para plantar em praça pública um busto em homenagem ao general Golbery que, entre outras façanhas, gerou o SNI, criatura do regime onisciente que ele tardiamente deserdou como “monstro”.
O exagero na terra dos superlativos sepultou precocemente as pretensões eleitorais do prefeito, que tinha a obrigação de honrar a memória de sua gente e de respeitar a história de sua própria cidade. Por alguma razão, Branco desdenhou o que era e ignorou onde estava.
A cidade gaúcha de 200 mil habitantes, a 317 km de Porto Alegre, já tem o segundo porto mais movimentado de cargas do país (atrás de Santos) e é o centro mais rico da empobrecida Metade Sul do Estado. Sua refinaria e o dinamismo do porto, onde escoa boa parte da produção agropecuário da região, dão a Rio Grande o 4º maior PIB estadual, atrás apenas da capital, de Canoas e de Caxias do Sul.
Economia em alta: em março, em Rio Grande, ocorreu a 1ª Feira do Polo Naval do RS, com produtos focados na área | Foto: Claudio Fachel/Palácio Piratini

A situação ainda deve melhorar com a implantação do Polo Naval, que inclui o investimento de R$ 14 bilhões na construção de diques, estaleiros, navios e plataformas marítimas para exploração de petróleo. Trinta empresas estão instaladas na área, sete em construção e outras 22 em projeto, gerando cerca de 40 mil empregos diretos e indiretos até 2017 nos setores de fertilizantes, logística, alimentos, madeira, química e metalurgia.
Só a Petrobrás emprega ali seis mil operários para construir três grandes plataformas — uma delas, a P-55, considerada pela empresa como a maior plataforma semissubmersível já construída no país. Um novo cais de 4.580 metros vai ancorar ali o maior estaleiro naval do continente, capaz de construir quatro plataformas simultaneamente. Tudo isso fará a população dobrar para 450 mil habitantes em 2020 e deve quadruplicar o orçamento anual do município, batendo em R$ 800 milhões.
Rio Grande, com tudo isso, não poderia ficar de fora da bíblia dos superlativos, o livro dos recordes, o Guinness Book, que lhe conferiu a duvidosa glória de ter a mais extensa praia do mundo: Cassino, uma ventosa franja de areia e mar aberto, frio, feio e cinzento que se prolonga por 254 tediosos quilômetros em linha reta até Chuí, o extremo sul do Brasil. Há quem goste.
O nome vem dos tempos feéricos em que o jogo era permitido no Brasil e dava emprego a 40 mil pessoas nos salões de jogos de 70 cassinos espalhados pelo país. Um dos salões estava no antigo hotel Stella Maris, o local mais frequentado do balneário mais antigo do litoral brasileiro, inaugurado em Rio Grande em 1890 e que deu o nome à praia do Cassino, distante apenas 18 km do porto. A decadência do balneário começou em 1946, quando o presidente Eurico Gaspar Dutra assinou o decreto que proibiu as roletas e o jogo.
O marechal mandava no país, mas quem mandava nele era Carmela Teles Leite Dutra, sua mulher. ‘Dona Santinha’, como gostava de ser chamada, era uma rotunda e pia senhora católica, que segundo a lenda mudou a história em 1946, impondo ao marido presidente as leis que tornaram ilegais no país os cassinos e o Partido Comunista Brasileiro, dois pecados mortais que sua fé extremosa não admitia.
Dona Santinha, a patroa, e o presidente Dutra. | Foto: Revista Life

Exatamente meio século depois, surgiu no pano verde do poder em Rio Grande um sobrenome ainda mais superlativo do que o santo apelido da monacal patroa de Dutra: os Branco, a dinastia política mais duradoura da história recente do Rio Grande do Sul. Nos últimos 16 anos, desde 1996, havia sempre um Branco na prefeitura da cidade, a partir da democracia restaurada pela Constituinte de 1988. Nas duas décadas anteriores de ditadura, sob a mão dura do poder verde-oliva do AI-5, o povo foi banido das urnas pelas cartas marcadas dos militares, que transformaram Rio Grande em ‘área de segurança nacional’. Prefeito naqueles tempos, graças ao pretexto do porto superlativo, só era nomeado pelos quartéis.
O primeiro Branco da dinastia riograndina surgiu em 1996, quando 33 mil votos levaram Wilson Mattos Branco à prefeitura. Perdeu a reeleição em 2000, vítima de um AVC no final do mandato. Foi substituído às pressas pelo assessor e sobrinho, um jovem de 29 anos chamado Fábio Branco, eleito com 51 mil votos e o braço amigo de um poderoso padrinho político, o deputado federal Eliseu Padilha. Em 2004, o bastão da família foi repassado para Janir Branco, filho de Wilson e primo de Fábio, eleito prefeito com 83 mil votos. Na eleição seguinte, 2008, Fábio voltou à prefeitura, a bordo de 60 mil votos. Se tivesse sido reeleito, agora em 2012, Fábio completaria duas décadas de Branco na prefeitura da cidade — o tempo de poder que PSDB e PT, em épocas distintas, sonharam viver no Palácio do Planalto.
Alexandre Lindenmeyer: uma vitória descoberta na véspera | Foto: Flickr

O longevo projeto dos Branco foi interrompido pela inesperada vitória do advogado Alexandre Lindenmeyer, ex-vereador e atual deputado estadual pelo PT. Foi uma revanche pessoal, já que Alexandre tinha perdido a prefeitura justamente para Fábio em 2000. A derrota parecia que iria se repetir agora, já que Fábio Branco, além de liderar um guarda-chuva de 15 legendas na sua coligação, vencia em todas as pesquisas com boa folga. Três dias antes da eleição de 7 de outubro, o semanário Folha Gaúcha dava oito pontos de vantagem ao candidato do PMDB contra o do PT: Branco tinha 45,8% da preferência e Lindenmeyer, 37,9%.
Na véspera da eleição, acendeu o sinal amarelo: o jornal Agora publicou pesquisa do Instituto Studio indicando uma virada no eleitorado. Lindenmeyer ultrapassava Branco, com 38,1% contra 36%. Um número elevado de eleitores, 17%, mostrava indecisão na boca da urna, enquanto Branco aparecia com a maior taxa de rejeição, 20,2%.
Devia ser, em parte, alguma vindita do eleitor contra o desdém de Branco à opinião do cidadão comum e à historia como um todo. Negligência que atingiu seu ápice com a desastrada homenagem a Golbery, aliás uma ideia alheia que o jovem prefeito comprou sem reservas. Quem teve a iniciativa foi outro riograndino ilustre, igualmente polêmico: Ronald Levinsohn, dono no Rio de Janeiro do complexo Univercidade, com 35 mil alunos, e hoje próspero fazendeiro no Oeste da Bahia, onde já teve 400 mil hectares. Ficou tristemente famoso em 1983, envolvido num dos mais rumorosos escândalos financeiros do regime militar: a quebra do Grupo Delfin, a maior empresa de poupança privada do país, que tinha três milhões de depositantes espalhados em 83 agências país afora. Sofreu intervenção do Banco Central apesar do braço camarada do amigo e general Walter Pires, então ministro do Exército do Governo Figueiredo.
Levinsohn tinha outro amigo general: Golbery do Couto e Silva, nascido em Rio Grande como ele. Em 2009, dois anos antes do centenário de nascimento do general, Levinsohn ligou para um vereador do PMDB na cidade, Renato Albuquerque, e disparou:
— Renato, tu não acha que tá na hora de fazer uma homenagem para uma pessoa tão importante como o Golbery?
O vereador achou, e o prefeito embarcou na onda. Entre outras benfeitorias, lembraram que Golbery, chefe da Casa Civil de dois presidentes da ditadura (Geisel e Figueiredo), viabilizou os recursos para captar água do canal São Gonçalo, ajudou a federalizar a universidade local e transferiu o 5º Distrito Naval de Florianópolis para Rio Grande.
O chefe de gabinete do prefeito, Edes Cunha, com passagem pela ARENA, a legenda da ditadura, justificou a homenagem: “Golbery entendia a importância estratégica de Rio Grande para o Cone Sul. Dizia que a cidade era a vesícula dos mares”.
Ronald Levinsohn e Renato Albuquerque: a vesícula e o fígado

A homenagem a Golbery era, também, um soco no fígado da história nacional. O benfeitor de Rio Grande, na verdade, era um malfeitor da democracia no Brasil, contra a qual conspirou desde os anos 1950. Depois de lutar contra o nazifascismo em 1944, na FEB enviada ao front italiano, o coronel Golbery virou o fio e começou sua carreira de conspirador. Carrega na sua folha funcional o raro privilégio de ter derrubado João Goulart duas vezes.
Em 1954, quando Jango era ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, Golbery redigiu o manifesto de 82 coronéis e tenentes-coronéis que protestavam contra o aumento de 100% do salário mínimo. A conspiração levou à queda de Jango. Dez anos depois, em 1964, quando Jango era presidente, Golbery ajudou a montar a conspiração civil-militar que preparou o golpe durante os três anos anteriores, sob a camuflagem do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o IPES, que ele coordenava mobilizando 320 dos maiores empresários do país, de famílias tradicionais a poderosas corporações estrangeiras, articulados com os grandes grupos de mídia.
O general Golbery, Jango e Brizola: o cassador e a caça.

Golbery perdeu em agosto de 1961, aos 50 anos de idade, quando a resistência do povo gaúcho na Legalidade, sob a liderança do governador Leonel Brizola e o peso do III Exército, prevaleceu sobre o ultimato dos ministros militares, que se opunham à posse do vice João Goulart na vaga aberta pela renúncia inesperada do ébrio Jânio Quadros.
O autor do manifesto golpista dos ministros militares era o ubíquo Golbery. O Rio Grande do Sul ainda festejava o cinquentenário dessa épica vitória democrática quando o desastrado prefeito Fábio Branco embarcou na homenagem intempestiva ao general que afrontou a vontade do povo gaúcho e desrespeitou a Constituição.
No dia 21 de agosto, centenário de nascimento do general, Branco presidiu cerimônia na praça Tamandaré, no centro da cidade, lançando a pedra fundamental de uma placa em homenagem a Golbery. O mimo foi doado pelo amigo e conterrâneo Levinsohn. A lei proposta pelo cordato vereador Renato Albuquerque tinha sido aprovada, sem alarde, pela minoria da Câmara de Vereadores, no ocaso de 2009. Só seis vereadores, menos da metade dos 13 integrantes da Câmara, votaram a favor, com dois votos contra.
Cinco estavam ausentes, entre eles o vereador Lindenmeyer, agora eleito prefeito. A lei nº 6.835 foi assinada na surdina dez dias depois pelo prefeito Fábio Branco, no dia 31 de dezembro, quando a cidade e o país, desatentos, só tinham ouvidos para o espocar das rolhas de champanha e os fogos de artifício da madrugada do réveillon.
Cobrado pela contradição histórica eternizada na praça entre o general de duas faces, simultaneamente benfeitor municipal e malfeitor nacional, o prefeito erigiu um dos mais majestosos monumentos à boçalidade política, dando uma resposta que ficará como marco pétreo à leviandade de todas as épocas:

— Eu não quero fazer juízo sobre a ditadura de 1964. Eu nem era nascido… — respondeu o jovem de 40 anos. Parido no ano da graça de 1971, quando o país padecia sob o tacão de ferro e sangue do general Emílio Garrastazú Médici, seu conterrâneo gaúcho de Bagé, o prefeito Branco afrontava também a memória do próprio partido, o PMDB, herdeiro do MDB velho de guerra e do PTB de Jango e Brizola, as legendas e líderes mais perseguidos pelo regime confabulado por Golbery e seus comparsas durante os 21 anos de arbítrio.
A heresia de Branco, confissão de um crime de lesa-memória, passou em branco pelas lideranças políticas do partido, do Estado e do país. Só não sobreviveu ao julgamento implacável do povo de Rio Grande. Nenhum deputado, nenhum senador do Congresso Nacional, fechado três vezes pelos atos de força do regime do malfeitor Golbery, se sentiu ofendido pela explícita leviandade do prefeito bobinho de Rio Grande. Nenhum líder histórico do velho MDB ou do novo PMDB, todos nascidos e crescidos bem antes das malfeitorias antidemocráticas de Golbery, contestou a frase boboca do prefeito Branco, que também não deve ter nenhum juízo sobre o nazismo e a escravidão, detalhes escabrosos da história ocorridos muito antes de seu nascimento.
É mais prudente ficar com a opinião de um jovem e corajoso historiador de Rio Grande, Chico Cougo, de tenros 25 anos, nascido em 1987, 16 anos depois do prefeito sem juízo, quando o país vivia sob a democracia adolescente da Nova República de José Sarney.
“A urna pune”, escreveu Cougo em seu blog (www.memoriasdochico.com), com o senso histórico que o Branco prefeito de Rio Grande ainda não conseguiu apreender em sua cachola. Foi ele que escancarou na Internet a incrível e desmiolada travessura do prefeito de sua terra, garantindo a ele lugar cativo na crônica política do país. Cougo observou outra coisa muito importante: Renato Albuquerque, o vereador que comprou a evanescente ideia de Levinsohn transformada em lei inconsequente por Branco, não conseguiu se reeleger. Teve míseros 1.152 votos — 717 votos menos do que as 1.869 assinaturas colhidas num manifesto na Internet protestando contra o monumento na praça a Golbery.
O surpreendente resultado das urnas não mostra apenas que Rio Grande não votou em Branco.
A eleição guarda uma lição ainda mais superlativa.
A boçalidade em política não passa em branco pela memória do eleitor.
Luiz Cláudio Cunha, jornalista, nunca vota em branco.
Cunha.luizclaudio@gmail.com

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Plínio, quem é você que não sabe o que diz?

Plínio de Arruda Sampaio, oriundo do antigo Partido Democrata Cristão (PDC), de onde também veio Mário Covas, tranformou-se em íncone de certa esquerda. Do alto de sua polpuda e merecida aposentadoria, Plínio fez o caminho inverso do PT, passou de posições moderadas para um extremismo moralista. Adotou a ironia como método de debate e transborda ressentimento, além de adotar um ar professoral que dá a impressão de arrogância.
Não sei o que explica a declaração de Plínio sobre a necessidade de derrotar Haddad e seus elogios a Serra. Certamente não é caduquice. Porém, não se confunda a posição de Plínio com a do PSOL. Pelo que li, o PSOL adotou a posição de "nenhum voto a Serra". Rapidamente, meus companheiros petistas já foram às redes sociais, misturar alhos com bugalhos e "provar" que o PSOL é linha auxiliar dos tucanos. É um palpite tão infeliz quanto o de Plínio sobre a eleição paulistana. Um modo esperto, mas pouco inteligente de coesionar a base atacando os adversários pela esquerda.
Colunistas falam sobre o processo de "peemedebização" do PT. Sem entrar nesse debate, por enquanto, convém lembrar que, nos "tempos gloriosos" do PT, na década de 80, não foram poucas as vezes em que os petistas foram acusados de auxiliar a direita: seja por não apoiarem o PMDB (maior partido de oposição da época), seja por criticarem Brizola (que denominavao PT de "UDN de macacão"). Alguns petistas repetem esse erro, cegos diante das disputas concretas.
Por fim, numa hipotética disputa Serra x Plínio, eu não teria dúvidas: votaria no Plínio.
Confira a música "Palpite Infeliz", de Noel Rosa, na voz da incrível Joyce.
 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Assessor de senador tucano cria falsa página de Haddad


De: Pagina2
João Guariba, assessor do senador Aloysio Nunes Ferreira postou ontem em sua conta no twitter um site que contém propostas falsas atribuídas a Fernando Haddad. A página, desenhada de forma a se parecer com o site oficial do candidato petista afirma que lá estão as verdadeiras propostas de Hadad, como a construção de “50 escolas de lata” e a volta das taxas de lixo e iluminação públicas, criadas no governo Marta Suplicy.
Guariba é ligado a José Serra e tem usado sua conta no twitter para atacar a campanha de Haddad e sugerir que o ex-presidente Lula precisa de um Habeas Corpus preventivo. O assessor do senador tucano afirma que Lula será o próximo condenado pela Justiça.
Quando a página “Propostas de Haddad 13”, é mais um exemplo do jeito tucano de fazer campanha. Em uma das “propostas”, afirma-se que Haddad vai criar 50 escolas de lata, mas não traz nenhum dado ou indício que aponte neste sentido. “Esta é até óbvia. Haddad foi um Ministro da Educação que só meteu os pés pelas mãos. E como o PT tem, historicamente, uma queda por escolas construídas de forma porca, pode ter certeza de que essa praga vai voltar. Se você quer seus filhos estudando um verdadeiros fornos (sic), sem conforto, sem estrutura, é só votar no Haddad”.
Página oficial de Haddad acima e a falsa, abaixo. Logo
e identidade visual para confundir eleitores
Em outro texto, o autor diz que o governo federal “deve mais de mil creches”. A conclusão é que um político que não cria creches (a página não informa nenhuma fonte para a informação) vai acabar com o Ensino Técnico em São Paulo. O ensino técnico é o carro chefe da proposta de Serra para a área de educação.
Como assessor, Guariba recebe salário pago com dinheiro do contribuinte para fazer campanha a Serra quando o correto seria ele se licenciar do Senado para fazer parte do staff de Serra. Além disso, a página é ilegal do ponto de vista eleitoral. Ela fere direitos, deturpas propostas falsas a um candidato, se apropria do logotipo e da identidade visual para confundir o eleitorado

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Algo de novo na geografia do voto paulistano?

O voto paulistano tem uma geografia que parece se repetir eleição após eleição. Os mapas da geografia do voto mostram um desenho que se repete há décadas: direita e centro (azul) no miolo mais rico da cidade, e a esquerda (vermelho) nas periferias, como vemos no mapa abaixo do 1o turno das eleições municipais deste ano.
O azul mais intenso corresponde ao lugar que historicamente concentra renda, poder e qualidades urbanísticas em São Paulo, como já demonstrou o prof. Flavio Villaça, da FAU USP, em inúmeros artigos e livros. Mais de 40% dos habitantes desta região pertencem ao grupo que possui renda familiar de mais de 20 salários mínimos (veja mapa abaixo).
O vetor sudoeste é, historicamente, hegemonizado pelo PSDB, marcado por um profundo sentimento anti-PT e por uma atitude conservadora em relação à cidade. Para os moradores desta região, a ideia de redistribuição de oportunidades ou de inversão de prioridades que marcou o discurso do PT em seus primórdios não tem nenhum apelo.
A leitura do mapa do 1º turno destas eleições, em tese, diria que nos bairros mais ricos predominou o voto no Serra e, nos mais pobres, no Haddad. Não haveria, portanto, nenhuma novidade no cenário. Será? Uma observação mais atenta aponta sutilezas que matizam esta leitura binária. Em primeiro lugar, no chamado centro expandido, embora predomine o voto no PSDB, Haddad foi o 2º colocado, com votação mais expressiva, em alguns distritos, do que Marta Suplicy alcançou no pleito de 2008, quando o PT perdeu para a coligação DEM/PSDB (veja mapa abaixo).
Em segundo lugar, historicamente, na cidade de São Paulo, três — e não duas — forças político-partidárias marcam a geografia eleitoral: o PT, o PSDB e o malufismo, herdeiro do janismo. O voto no Russomano, entretanto, não é herdeiro do malufismo como afirmam alguns. Além disso, redutos históricos do malufismo como o Tatuapé ou a Vila Maria se dividiram quase igualmente entre os três primeiros candidatos (clique aqui para ver o mapa detalhado) e Russomano não ganhou em nenhum distrito da capital. Na chamada extrema periferia, Haddad dividiu a hegemonia dos votos com Russomano, e não com Serra. E, obviamente, não podemos configurar o candidato do PRB como “de esquerda”… Então como podemos interpretar este cenário?
Se permanece verdadeira a polarização azul x vermelho, o sutil crescimento de Haddad no centro expandido poderia apontar para uma espécie de descontentamento com o modelo de cidade, inclusive na área historicamente mais privilegiada por este modelo? Não seriam os inúmeros movimentos — de cicloativistas, de preservação de bairros, de ocupação de espaços públicos, além de outros tantos que surgem no interior desta região, sinais deste desejo de mudança? Por outro lado, no que já foi uma “periferia consolidada” de outros tempos, onde a renda cresceu e as demandas de urbanidade se sofisticaram, os apelos do malufismo parecem perder eco. Finalmente, se realmente existem mudanças no cenário, estas estariam ocorrendo no campo da política ou indicariam possíveis reconfigurações da cidade?

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Silas Malafaia diz que vai “arrebentar” Fernando Haddad

Silas Malafaia diz que vai “arrebentar” Fernando Haddad
Silas Malafaia diz que vai “arrebentar” Fernando Haddad
Vale a pena ler na íntegra a matéira publicada no Gospel Prime.
O sujeito é um homofóbico que espalha o ódio e a intolererância para manter seu rebanho unido e vender seus livros, CDs e DVDs, além de utilizar uns 70% do seu tempo de TV para pedir dinheiro. Pra mim, é a expressão contemporânea dos vendilhões do templo.


"O assembleiano estará gravando um vídeo para ligar o candidato petista aos ativistas gays
por Leiliane Roberta Lopes  
O pastor Silas Malafaia esteve em São Paulo nesta terça-feira (9) para participar de uma reunião com o candidato à Prefeitura de São Paulo, José Serra (PSDB), que estará concorrendo no segundo turno com o candidato Fernando Haddad (PT), desafeto do líder religioso.
Nessa reunião Malafaia voltou a falar sobre o projeto do “kit gay” que foi elaborado a mando de Haddad que era o ministro da Educação. Ao apoiar Serra, o pastor afirma que quer “arrebentar” o candidato do PT nos resultados das urnas.
“O Haddad já está marcado pelos evangélicos como o candidato do ‘kit gay’. Não vamos dar moleza para ele”, disse Malafaia aos jornalistas depois do encontro.
A diferença entre os dois candidatos no primeiro turno foi pequena, por isso Malafaia não descarta que o petista pode vir a ganhar e se tornar prefeito da capital paulista. “Haddad pode até ganhar, mas não com os votos dos evangélicos”, completou.
“Vou mostrar um encontro dos ativistas gays dizendo no Congresso Nacional que pegariam em armas contra os religiosos e dizer que é isso que ele está apoiando. Vou arrebentar em cima do Haddad.”
A coordenação do PSDB já está tentando fazer contato com as igrejas que apoiaram Gabriel Chalita (PMDB) e Celso Russomanno (PRB) no primeiro turno. Enquanto isso o PT segue na posição de não pedir apoio aos evangélicos.
Malafaia gravará e divulgará na próxima segunda-feira (15) um vídeo com seu apoio ao candidato tucano que também será apoiado pelo Conselho de Pastores de São Paulo, liderado pelo pastor Jabes Alencar que também participou desta reunião."

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Blog do Noblat é multado por fazer propaganda eleitoral para Athur Virgílio

De: Amigos do Presidente Lula
http://issuu.com/blogdoholanda/docs/doc_-_19-09-12_18-26_1_/7
A juíza coordenadora da propaganda eleitoral Naira Neila Batista de Oliveira Norte, na quinta-feira (4), condenou com multa por desobediência às leis eleitorais o candidato Arthur Virgílio (PSDB),e três blogs. O UOL/A Crítica não deu nome aos bois, mas um deles é o blog do Noblat, do jornal "O Globo".
A condenação foi pela veiculação de textos e imagens como peças publicitárias negativas, ridicularizando a agressão sofrida pela prefeiturável Vanessa Grazziotin (PCdoB), com ovos e cuspe, ocorrida durante um debate político, no dia 11 de setembro. Os textos e vídeos falavam em "farsa do ovo" e "farsa desmascarada", querendo negar os fatos verídicos e provados, inclusive registrados em ocorrência policial.
A juíza primeiro proibiu aos blogs fazer a campanha eleitoral negativa, ordenando a retirada da propaganda degradante disfarçada de texto ou imagens. Como desobedeceram foram multados.
Conforme a decisão da juíza, a coligação, o candidato Arthur e seu vice, foram condenados a pagar R$ 10 mil, cada um, por desobediência. Os três blogs foram multados em R$ 65 mil.

Eleições em Porto Alegre: mais uma pesquisa


Divulgada pesquisa Ibope para a prefeitura de Porto Alegre

Em clicrbs

05 de outubro de 2012 0
José Fortunati, do PDT, tem 50% das intenções de voto. Manuela D'Ávila, PC do B, tem 24%. Adão Villaverde, PT, 10%. Wambert di Lorenzo, PSDB, 2%. Roberto Robaina, PSOL, 1%. Jocelin Azambuja, PSL, e Érico Correa, PSTU, não pontuaram. Brancos, nulos, 5%. Indecisos, 8%. A pesquisa Ibope ouviu 1001 eleitores na capital entre 3 e 5/10. A margem de erro é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa foi encomendada pelo Grupo RBS e registrada no TRE com o número 00 442/2012.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

MP investiga suspeita de uso da máquina pública para fins eleitorais em Porto Alegre

De: Sul 21

Líderes partidários ligados à coligação de Manuela D'Ávila apresentaram publicamente a denúncia em coletiva | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Samir Oliveira
O Ministério Público (MP) do Rio Grande do Sul irá investigar uma denúncia de utilização da máquina pública para fins eleitorais em Porto Alegre. O promotor eleitoral Mauro Rochemback iniciou a investigação nesta segunda-feira (1), após receber a denúncia da coligação Juntos por Porto Alegre (PCdoB, PSD, PSB, PSC e PHS), da candidata Manuela D’Ávila.
Na sexta-feira (28), todos os 36 vereadores receberam um envelope contendo uma denúncia anônima de uma moradora do bairro Rubem Berta, que estava indignada com a forma como havia sido conduzida uma reunião do Orçamento Participativo (OP) na região. O encontro havia acontecido na quarta-feira (26) e, na ocasião, conselheiros do OP e assessores da prefeitura prometeram o encaminhamento de obras na região e pediram votos ao prefeito José Fortunati (PDT) e a Cássio Trogildo (PTB) – que se licenciou da Secretaria de Obras e Viação (Smov) para concorrer a uma vaga na Câmara Municipal.
A moradora encaminhou aos parlamentares uma gravação de mais de 40 minutos de toda a reunião. Nesta terça-feira (2), os líderes partidários da coligação de Manuela D’Ávila concederam uma coletiva à imprensa para anunciar o caso e entregar cópias da gravação aos jornalistas.
“Vivemos de política a cada dois anos”, diz assessor da Smov
O chefe da Assessoria Comunitária da Smov, Antônio Olímpio Guimarães Filho, conhecido como Toninho, esteve na reunião do Orçamento Participativo do dia 26 de setembro para pedir votos para o prefeito José Fortunati e para seu chefe, o secretário Cássio Trogildo – que está licenciado da pasta para concorrer ao cargo de vereador.
Na reunião, com cerca de 60 moradores do Rubem Berta, Toninho promete o asfaltamento de uma rua do bairro. “Vocês podem ter certeza que na semana que vem vamos estar trabalhando”, assegurou. De fato, a obra em questão começou nesta terça-feira (2).
Em seu pronunciamento, Toninho fez referência a várias obras que, segundo ele, teriam sido tocadas por determinação do “secretário Cássio”. Ele não poupou elogios ao chefe. “Ele atende a todos que vem procurar. Vivemos de política a cada dois anos. Quem está no governo, quem não é concursado, se disser que não vive de política, é mentira”, diz o assessor comunitário da Smov, acrescentando que é por esse motivo que ele foi na reunião “anunciar um serviço que em alguns dias vamos estar realizando”.
"Se é asfalto por voto, o caderno do OP pode ser rasgado", diz carta anônima que acompanhava material entregue a vereadores de Porto Alegre: "Mesmo no anonimato, peço muito a ajuda de vocês" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Toninho demonstra bastante confiança na reeleição do prefeito José Fortunati. “Daqui a dois anos vamos voltar aqui para poder dizer para vocês que vamos continuar fazendo mais. Tanto o Fortunati como prefeito, como o Cássio, que vai retornar para a Secretaria de Obras. É que nem se diz: quando o cliente é bem atendido, ele retorna para a casa. E nós vamos ser bem reconhecidos pela sociedade, vamos retornar para a Smov e vamos fazer mais por vocês”, assegurou.
No encerramento de sua fala, o assessor da prefeitura demonstra ainda mais confiança e diz que o prefeito vencerá no primeiro turno. “Quando vocês menos esperarem, as máquinas vão estar aqui trabalhando. Fortunati fez e está fazendo. E, juntamente com o Cássio, vão fazer muito mais. As pesquisas já estão mostrando mais de 47% de aprovação do eleitorado. Isso quer dizer que vai ter vitória no primeiro turno. As eleições vão acabar logo, logo”, conclui Toninho. As últimas palavras do seu pronunciamento são os números eleitorais de Fortunati e de Cássio Trogildo.
Conselheiro do OP distribui material de campanha durante a reunião
O conselheiro Maurício Melo, do Orçamento Participativo, foi o mais empolgado cabo eleitoral do prefeito e de Cássio Trogildo na reunião de quarta-feira (26). Apesar de ser uma reunião para discutir as demandas dos moradores no OP, ele disse que estava lá como “amigo” do secretário licenciado da Smov. “Estamos aqui como amigos do Cássio”, argumentou, citando, em sua fala, o chefe da Assessoria Comunitária da Smov, Antônio Guimarães Filho, o Toninho.
O pronunciamento de Maurício Melo foi, o tempo inteiro, dedicado à eleição de Cássio Trogildo. “Com a ajuda de vocês, o Cássio vai se eleger o vereador mais votado dessa cidade”, conclamou.
Em seguida, Maurício Melo fez referência ao material de campanha do candidato, que estava sendo distribuído na reunião do OP. “Aqui tem uma prestação de contas, como secretário, do que o Cássio fez. É a política diferenciada, primeiro eu vou fazer, primeiro eu vou plantar para colher na comunidade. Então é isso, é uma política diferente”, elogiou.
O tom de ato de campanha prevaleceu o tempo inteiro na reunião. “Quero pedir para vocês, pessoal, saiam daqui hoje e entrem nessa campanha do Fortunati e do Cássio. Entrem nessa campanha a fundo, com os parentes, levem o material, que vocês vão fazer parte de uma história de mudança aqui no Rubem Berta. O Cássio vai voltar para a Secretaria de Obras, se Deus quiser e se a comunidade quiser”, exaltou.
"Estão usando máquina pública como nunca antes em Porto Alegre", denunciou Nelcir Tessaro (PSD), vice na chapa de Manuela | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
O conselheiro do OP terminou seu discurso pedindo que os moradores do bairro colocassem materiais de campanha do secretário licenciado da Smov em suas casas. “Aqui tem a faixinha para aqueles que puderem colocar na frente da sua casa. Ou vão pedir para botar no vizinho. Levem as faixinhas. Tem aqui o materialzinho, nos ajudem”, solicitou.
Comerciante também faz campanha durante reunião e oferece alimentos à população
A reunião com integrantes do OP ocorreu a pedido do comerciante Alcindo Lintener. Em seu discurso, ele se mostrou um animado cabo eleitoral do prefeito José Fortunati e de Cássio Trogildo.
“Precisamos nos mobilizar, convocar os familiares, precisamos nos mobilizar de verdade para trazer essas duas figuras para o desenvolvimento de Porto Alegre, para o crescimento da nossa cidade”, conclamou.
Conhecido como Lu, Alcindo disse, no pronunciamento, que colocou salsichão e pãozinho à disposição dos moradores na reunião. “Para encerrar, muito obrigado pela presença de vocês aqui, muito obrigado pela presença de todos. E quem quiser participar, eu botei ali um salsichãozinho, eu botei ali um pãozinho, para sair daqui com o estômago forrado. E depois é só alegria”, animou-se.
“Há indícios de uso da máquina administrativa” reconhece promotor eleitoral
O promotor eleitoral Mauro Rochemback já ouviu toda a gravação da reunião do Orçamento Participativo denunciada ao Ministério Público e reconhece que há indícios de utilização da máquina pública para conquista de votos. “Os indícios do uso da máquina administrativa estão ali. Foi uma reunião envolvendo funcionário de uma secretaria pedindo votos”, observa.
O promotor já instaurou um procedimento investigativo e garantiu que começará nesta quarta-feira (3) a expedir ofício intimando as pessoas que participaram da reunião a deporem. Mauro Rochemback disse que não tem como avaliar, ainda, se a denúncia pode atingir a candidatura de José Fortunati à reeleição. “Ainda não tenho a dimensão da investigação. Há referência ao prefeito, as pessoas pedem votos para os dois”, explicou, em referência ao secretário licenciado de Obras e Viação, Cássio Trogildo.
O promotor disse que não há tempo para impedir a candidatura de Cássio, mas assegurou que, se for comprovado o uso da máquina pública, sua investigação poderá impedir a diplomação do petebista, caso ele consiga ser eleito.

Campanha de Fortunati diz que denúncia é “última tentativa da oposição”
Coordenador da campanha de José Fortunati, o deputado federal Vieira da Cunha (PDT) assegura que não há utilização da máquina pública para fins eleitorais por parte da prefeitura. Ele diz que a denúncia feita pela candidatura de Manuela D’Ávila é “infundada”.
Vieira da Cunha: "a denúncia é infundada e tem motivações políticas" | Foto: Leonardo Prado /Ag.Câmara
“A denúncia é infundada e tem motivações políticas. É uma última tentativa da oposição, que sabe que será derrotada. O Toninho estava no direito de fazer campanha, tenho absoluta convicção de que não houver uso da máquina pública para arrecadar votos”, declarou em entrevista ao Sul21.
Em nota divulgada pela campanha do prefeito, Vieira disse que o asfaltamento da rua em questão no bairro Rubem Berta seguiu os trâmites legais do Orçamento Participativo. “A obra em questão foi solicitada pela Associação Comunitária dos Moradores do Residencial Rubem Berta em agosto de 2011, passou por todas as instâncias de participação popular e desde 30 de setembro está programada para ser realizada, inclusive com publicação no portal da prefeitura”, justificou.
A reportagem tentou contato com Cássio Trogildo, mas seu telefone estava desligado

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Por que vou votar na Ariane 13070

Já apoiei e trabalhei com divers@s candidat@s à Câmara Municipal ao longo da minha trajetória porto alegrense, inicada em 1994, ainda no primeiro mandato da então vereadora Maria do Rosário. Depois, quando colaborei com o mandato da minha querida Margarte Moraes convivi diariamente com a Ariane.
Organizada, séria, comprometida com o que fazia eu me admirava como a Ariane conseguia fazer tudo o que era pedido dela e ainda cursar direito na Unisinos. Daí, posso garantir essa história de "energia" é verdadeira; ela tem. Compenetrada e rígida em questões de princípio, nunca vi a Ariane ser grosseira. Preocupada com o seu trabalho, já a vi nervosa, nunca descontrolada. Talvez esse controle seja o responsável pela sua gastrite.
Já ouvi ponderações críticas à minha candidata (eu sou um bom ouvinte): "não tem experiência"; "não tem trajetória"; "é uma criação da Maria do Rosário"; "é muito 'atacadinha'”. Ora, a vereança é o primeiro degrau da atividade político-eleitoral, exigir outra experiência em mandatos antes dessa é um contra-senso. A trajetória da Ariane é diferente de uma geração anterior de militantes que ficaram muito tempo lutando para chegar ao governo e atuando em movimentos não institucionais. Ariane atuou no movimento estudantil e comunitário, mas também construiu uma trajetória ligada a mandatos parlamentares e atuação em governos conquistados pela luta de tant@s que vieram antes dela. Não há mal nisso, essa é uma característica de toda uma geração de ativistas e não o “pecado” de alguém em particular. A questão é saber a serviço de quem estará essa experiência. A identidade com a Maria do Rosário é um mérito, não um defeito. Não é uma invenção de véspera de eleição, é a consolidação de aspirações comuns e uma convivência política ao longo do tempo. Por fim, Ariane não é “atacadinha”, mas é contundente. Não é dissimulada, como é comum a militantes e parlamentares que não brigam por suas idéias porque não têm idéias pelas quais brigar. 
Penso que, com todo o respeito àqueles que já estão há vários mandatos na Câmara, faz sentido haver uma renovação. Não a renovação por si, mas com o objetivo de abrir caminhos a quem pode contribuir com outro olhar e com qualidade na bancada petista e na Câmara.
Enfim, independente das relações internas que tenho no PT, voto na Ariane por gosto, não por obrigação e se as minhas palavras convencerem outras pessoas a votarem nela ficarei feliz. Afinal, a melhor colaboração que eu posso dar não é a minha fortuna, mas a minha opinião, sempre singela.
Sucesso, Ariane!

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Prefeito de Porto Alegre registra BO contra blogueiro após questionamentos sobre primeira-dama

Na mesma medida em que cresce a influência e a força da nova mídia alternativa, especialmente dos espaços de comunicação que têm surgido na internet, crescem também e se espalham pelo Brasil as tentativas de cercear a liberdade dos ativistas que usam a web para fazer jornalismo e política. Repetem-se processos judiciais movidos por empresas, políticos e até mesmo por jornalistas contra outros jornalistas e blogueiros. E, na maioria das vezes, não são processos movidos efetivamente em defesa da imagem do processante, mas sim utilizados como instrumento de pressão contra a liberdade de imprensa e de expressão, como forma de estrangulamento dos pequenos veículos e como tentativa de calar quem pensa e age de forma independente.
Nesta quinta-feira o prefeito de Porto Alegre e candidato à reeleição, José Fortunati (PDT), registrou um boletim de ocorrência contra o jornalista Marco Aurélio Weissheimer, do blog RS Urgente, talvez o mais importante blog político do Rio Grande do Sul. Postagem do blogueiro explica que a acusação é de “‘espalhar denúncias na rede social contra a primeira-dama Regina Becker’, segundo nota divulgada nesta quinta-feira pela coligação ‘Por Amor a Porto Alegre’. Conforme a mesma nota, Fortunati me acusa de ‘atacar sua esposa’, acusando-a de ser um ‘cargo de confiança fantasma na Assembleia Legislativa’.
Weissheimer esclareceu na mesma postagem: “A acusação é falsa e caluniosa, representando, além disso, uma tentativa de intimidação e de ameaça à liberdade de expressão. O texto em questão é um artigo de opinião de Paulo Muzell (‘Caça aos fantasmas’ de ZH: O que o jornal não disse), publicado no dia 17 de agosto de 2012, que não acusa a primeira dama Regina Becker de ser ‘cargo de confiança fantasma’, mas simplesmente questiona o suposto acúmulo de trabalhos desempenhadas pela primeira dama na Prefeitura”.
A leitura do artigo questionado por Fortunati deixa claro que a acusação realmente não procede. Se a totalidade do texto de Muzell dá a entender, sim, que a situação empregatícia da primeira-dama poderia ser ilegal – ou ao menos imoral –, não há ali “acusação de ser um cargo de confiança fantasma”. O que há, sim, é o relato factual das funções acumuladas por Regina, a dúvida sobre a possibilidade de acumular-se aquelas funções, e a crítica ao jornal Zero Hora, que fez extensas reportagens sobre irregularidades na contratação de Cargos de Confiança e não chegou a investigar a situação da primeira-dama, uma situação pelo menos questionável jornalisticamente.
Além disso, o RS Urgente buscou a versão dos envolvidos, como é relatado ao final do artigo de Muzell, possibilitando que explicações razoáveis sobre o caso fossem dadas e, quem sabe, derrubassem as dúvidas do articulista sobre a regularidade da contratação da primeira-dama no gabinete de um deputado do mesmo partido do prefeito.
A intenção de Fortunati é clara, um Boletim de Ocorrência registrado nesse contexto age unicamente para desencorajar novas denúncias e críticas a aspectos direta ou indiretamente relacionados à sua gestão. O ataque à liberdade de expressão e o desrespeito à liberdade de opinião precisam ser, pelo contrário, alvos de novas denúncias e de novas críticas. Denúncias e críticas que certamente não serão publicadas na velha mídia, no jornal Zero Hora, por exemplo. É um tipo de liberdade não interessa a esse setor da mídia. É a mídia realmente independente que deve fazer esse debate. É ela, em seu conjunto, quem está sendo atacada. A ação acerta no RS Urgente, mas mira em todos nós.