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sábado, 9 de julho de 2016

"Revolução de 32" , a presunção da elite branca paulista

 São Paulo entre o 5 e 9 de julho
Gilberto Maringoni: tirado de Viomundo 

As comemorações de 9 de julho em São Paulo exaltam uma rebelião oligárquica de oito décadas atrás. Curiosamente, outra revolta, deflagrada em 5 de julho de 1924, que contou com forte componente popular, passa em brancas nuvens nos calendários oficiais. por Gilberto Maringoni, em Carta Maior Os dias 5 e 9 de julho condensam caminhos pelos quais a história paulista poderia seguir. São dois tabus no estado. Um é esquecido, o outro é exaltado. A primeira data marca uma violenta reação ao poder do atraso, tendo por base setores médios e populares. E a segunda representa a exaltação do atraso, capitaneada pela elite regional. Dia 5 de julho, há 88 anos, uma intrincada teia de tensões históricas desaguou no episódio que ficaria conhecido como Revolução de 1924. Suas raízes estão no agravamento de problemas sociais, no autoritarismo dos governos da República Velha e em descontentamentos nos meios militares, que já haviam gerado o movimento tenentista, dois anos antes. Naquele duro inverno, em meio a uma crise econômica, eclodiu uma nova sublevação. Tropas do Exército e da Força Pública tomaram quartéis, estações de trem e edifícios públicos e expulsaram da cidade o governador Carlos de Campos. No comando, em sua maioria, camadas da média oficialidade. Quatro dias depois, era instalado um governo provisório, que se manteria até 27 de julho. O país vivia sob o estado de sítio do governo Arthur Bernardes (1922-1926). Entre as reivindicações dos revoltosos estavam: “1º Voto secreto; 2º Justiça gratuita e reforma radical no sistema de nomeação e recrutamento dos magistrados (…) e 3º Reforma não nos programas, mas nos métodos de instrução pública”. No plano político, destaca-se ainda “A proibição de reeleição do Presidente da República (…) e dos governadores dos estados”. Várias guarnições de cidades próximas aderiram ao movimento. Apesar da falta de um programa claro, setores do operariado organizado apoiaram os revolucionários e exortaram a população a auxiliá-los no que fosse possível. Bombas, tiros e mortes As ruas da capital foram palco de intensos combates, com direito a fuzilaria, granadas e tiros de morteiros. Cerca de trezentas trincheiras e barricadas foram abertas em diversos bairros. A partir do dia 11, o governador deposto, instalado nas colinas da Penha, seguindo determinações do presidente da República, decidiu lançar uma carga de canhões em direção ao centro. O objetivo era aterrorizar a população e forçá-la a se insurgir contra os rebelados. De forma intermitente, os bairros operários da Mooca, Ipiranga, Belenzinho, Brás e Centro sofreram bombardeio por vários dias. Casas modestas e fábricas foram reduzidas a escombros e cadáveres multiplicavam-se pelas ruas. Sem conseguir dobrar a resistência, o governo federal decidiu bombardear a cidade com aviões de combate. O fim da rebelião Três semanas depois de iniciada, a rebelião foi acuada. Dos 700 mil habitantes da cidade, cerca de 200 mil fugiram para o interior, acotovelando-se nos trens que saiam da estação da Luz. O saldo dos 23 dias de revolta foi 503 mortos e 4.846 feridos. O número de desabrigados passou de vinte mil. No final da noite do dia 28, cerca de 3,5 mil insurgentes retiraram-se da cidade com pesado armamento em três composições ferroviárias. O destino imediato era Bauru, no centro do estado. Deixaram um manifesto, agradecendo o apoio da população: “No desejo de poupar São Paulo de uma destruição desoladora, grosseira e infame, vamos mudar a nossa frente de trabalho e a sede governamental. (…) Deus vos pague o conforto e o ânimo que nos transmitistes”. As tensões não cessariam. No ano seguinte, parte dos revolucionários engrossaria a Coluna Prestes (1925-1927). Mais tarde, outros tantos protagonizariam – e venceriam – a Revolução de 30. Promovida pelas camadas médias do meio militar, o levante ganhou apoio de parcelas pobres da população. Talvez por isso seja chamada de “a revolução esquecida”. A revolução que não foi A segunda data, 9 de julho, é marcada pelo estopim de uma revolução que não faz jus ao nome. É exaltada e cultuada como uma manifestação de defesa intransigente da democracia, ela faz parte da criação de certa mitologia gloriosa para São Paulo. O evento, em realidade, representa a sublevação da oligarquia cafeeira contra a Revolução de 30, que a retirou do governo e se constituiu no marco definidor do Brasil moderno. Aquele processo não pode ser visto apenas como uma tomada de poder por um punhado de descontentes. Suas causas envolvem as contrariedades nos meios militares e tensões do próprio desenvolvimento do país. A crise de 1929 acabara de chegar, colocando em xeque o liberalismo reinante. A Revolução consolidou a expansão das relações capitalistas, que trouxe em seu bojo a integração ao mercado – via Estado – de largos contingentes da população. O mecanismo utilizado foi a formalização do trabalho. As novas relações sociais e a intervenção do Estado na economia – decisiva para a superação da crise e para o avanço da industrialização – implicaram uma reconfiguração e uma modernização institucional do país. A conseqüência imediata foi a perda da hegemonia da economia cafeeira, centrada principalmente em São Paulo e parte de Minas Gerais. Percebendo as mudanças no horizonte, as classes dominantes locais foram à luta em 1932. A locomotiva e os vagões Explodiu então a rebelião armada das forças insepultas da República Velha e da elite paulista, querendo recuperar seu domínio sobre o país. Tendo na linha de frente a Associação Comercial e a Federação das Indústrias (FIESP), o levante tinha entre seus líderes sobrenomes importantes do Estado, como Simonsen, Mesquita, Silva Prado, Pacheco e Chaves, Alves de Lima e outros. O movimento contou com expressivo apoio popular, uma vez que os meios de comunicação (rádio, jornais e revistas) reverberaram as demandas das classes altas. A campanha que precedeu a sublevação exacerbou uma espécie de nacionalismo paulista, incentivado por grupos separatistas. Entre esses, notabilizava-se o escritor Monteiro Lobato. A síntese da aversão local ao restante do país expressava-se na difundida frase, que classificava o estado como “a locomotiva que puxa 21 vagões vazios”, em referência às demais unidades da federação. Contradição em termos O objetivo do movimento, derrotado militarmente em 4 de outubro, era derrubar o governo provisório de Getulio Vargas e aprovar uma nova Constituição. Daí a criação do nome “revolução constitucionalista”, uma contradição em termos. Revolução é uma ação decidida a destruir uma ordem estabelecida. A expressão “constitucionalista” expressava uma tentativa recuperação do status quo, regido pela Carta de 1891. Se é “constitucionalista”, não poderia ser “revolução”. Os sempre proclamados “ideais de 1932” são vagas referências à constitucionalidade e à democracia. Mas não existia, por parte da elite, nenhuma formulação que fosse muito além da recuperação da hegemonia paulista (leia-se, dos cafeicultores). Exatos oitenta anos depois, o 9 de julho segue comemorado como a data magna do estado, uma espécie de 7 de setembro local. E os acontecimentos de 5 de julho de 1924 continuam como páginas obscuras de um passado distante. A elite paulista voltaria ao poder em 1994, pelas mãos de Fernando Henrique Cardoso e do PSDB. Seu mote foi dado no discurso de despedida do senado, em 1994: “Um pedaço do nosso passado político ainda atravanca o presente e retarda o avanço da sociedade. Refiro-me ao legado da Era Vargas, ao seu modelo de desenvolvimento autárquico e ao seu Estado intervencionista”. Os objetivos desse setor continuaram os mesmos, décadas depois: realizar a contra-Revolução de 30. As tensões entre as datas – 5 e 9 de julho – expressam duas vias colocadas até hoje nos embates políticos paulistas: a saída conservadora e a saída antielitista. 
 Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

As marchinhas mais significativas do carnaval brasileiro

As marchinhas de carnaval são até mais tradicionais que os sambas-enredo. Principalmente se considerarmos os sambas de agora, que se tornaram um amontoado de palavras cantadas depressa com um refrão feito pra levantar as pessoas das arquibancadas (e que nem sempre levantam).
Não sei se o "Fantástico", promoverá , de novo, o festival de marchinhas que nunca serão cantadas. Não só porque as marchinhas do tal concurso são fracas, mas porque, ao que parece, acabou a "era das marchinhas". Ainda hoje, as marchinhas cantadas em festas de carnaval são as marchinhas antigas. É possível que entre as inumeráveis marchinhas carnavalescas produzidas em cerca de 70 anos (1899-1970) tenha-se produzido tantas pérolas musicais que ficou impossível criar algo melhor. Assim, a opção é cantar as velhas marchinhas, já que elas funcionam bem.
As marchinhas versavam sobre os mais diversos temas (amor, política, notícias da época, costumes...) com uma leveza e um humor que tornavam a crítica social e de costumes  absorvível por todas as camadas sociais. Uma das características próprias das boas marchinhas é se prestarem a um sem-número de versões, nas quais se encaixam letras sobre os mais diversos temas. Algumas marchinhas, no espírito politicamente correto da contemporaneidade seriam fulminadas caso fossem compostas nos dias de hoje.
Seguem as marchinhas consideradas por este modesto blogueiro como as mais significativas. Se algum dos leitores desta postagem desejar, acrescente as de seu gosto.

OH ABRE ALAS - 1899 - Chiquinha Gonzaga
Considerada a primeira música composta especificamente para uma agremiação carnavalesca (a Rosas de Ouro) a marchinha destaca-se pela simplicidade e por ser cantada ainda hoje, passados mais de cem anos desde sua composição.




O TEU CABELO NÃO NEGA- 1931 - Lamartine Babo/Irmãos Valença
Hoje, veríamos essa marchinha como uma obra preconceituosa, à época, foi sucesso e, também um dos primeiros grandes casos de plágio da música brasileira. Vender e roubar músicas era prática comum por um longo período da nossa música, fazendo a glória de muitos e a miséria de outros



MAMÃE EU QUERO- 1936 - Jararaca e Vicente Paiva  
Jararaca integrava, com Ratinho, uma conhecida dupla caipira. Isso não impediu que compusesse uma marchinha carnavalesca que, possivelmente, seja a mais conhecida de todos os tempos.


AS PASTORINHAS - 1938 - Noel Rosa e João de Barro (Braguinha)
Noel e Braguinha merecem postagens à parte, pois estão entre os mais prolíficos e criativos compositores da música brasileira. A marchinha é lenta e até melancólica, muito no estilo de Noel Rosa.


A JARDINEIRA- 1938 - Benedito Lacerda e Humberto Porto
A marchinha começa com uma história triste (a morte da camélia) para depois estourar num extravasamento de alegria pela vida e pela beleza da jardineira, que é "muito mais bonita que a camélia que morreu".


ALÁ-LÁ-Ô- 1940 - Haroldo Lobo e Nássara,
Na minha singela opinião, uma obra prima das marchinhas. Mistura um monte de coisas (Egito, muçulmanismo e carnaval) é fácil de cantar e ainda se refere a algo comum no carnaval, o calor. É a marchinha perfeita.


CACHAÇA - 1946 - Marinósio Trigueiros Filho,Lúcio de Castro, He­­ber Lobato e Mirabeau Pinheiro.
Outro caso famoso de plágio, a marchinha é o hino dos bebuns de carnaval, além de, como é comum às marchinhas, prestar-se a inúmeras versões.


Outro hino dos bebuns de carnaval, a marchinha consagra a festa como período de excessos tolerados.


Composta por três irmãos, é lembrada em qualquer época, com um refrão inesquecível. Também faz parte do "ciclo etílico" das marchinas d ecarnaval.


CABELEIRA DO ZEZÉ - 1963 João Roberto Kelly e Roberto Faissal
Podendo ser considerado politicamente incorreto, a marcha do mesmo autor de "Maria Sapatão" é cantada em todos os carnavais.


NÓS, OS CARECAS -1942- Arlindo Marques Júnior  e Roberto Roberti
Uma lição de auto-estima. Vai pra lista porque é o consolo dos calvos.


MÁSCARA NEGRA - 1967 - Zé Keti e Pereira Matos
Outro caso de música que foi parar na justiça, Máscara Negra começa com uma história triste e conclui com o apelo à alegria do carnaval. O efeito no público é visível. É a desculpa perfeita para beijar alguém.


BANDEIRA BRANCA - 1970 - Max Nunes e Laércio Alves
O último sucesso de Dalva de Oliveira e última marchinha carnavalesca de sucesso. Música triste na melodia e na letra, é estranho que tenha virado sucesso no carnaval. Pode ser considerada a despedida das marchinhas carnavalescas.

Taí (Pra Você Gostar de Mim) - 1930 - Joubert de Carvalho
Foi a primeira marchinha gravada por Carmen Miranda. A idéia de Joubert é que a música fosse uma marcha canção, não tendo finalidade carnavalesca. Foi gravada pela Orchestra Victor, sob regência de Pixinguinha, na Victor em 27 de Janeiro de 1930.
Nos registros da gravação vem como Marcha Carnavalesca. Entre o encontro de Joubert e Carmen e a data da gravação, tudo aconteceu em menos de um mês.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Peru vai processar Greenpeace por danos às Linhas de Nazca

Grupo estendeu letras de tecido perto de patrimônio cultural da humanidade.

Segundo governo, danos foram constatados por perícia de arqueólogos.

 Foto mostra ativistas ao redor de faixa estendida perto das Linhas de Nazca, no Peru (Foto: Thomas Reinecke/Greenpeace)Foto mostra ativistas ao redor de faixa estendida perto das Linhas de Nazca, no Peru (Foto: Thomas Reinecke/Greenpeace)
O governo peruano anunciou, nesta quarta-feira (10), que vai processar e impedir de deixar o país ativistas da organização ambientalista Greenpeace por possíveis danos que teriam sido causados às milenares linhas de Nazca, Patrimônio Cultural da Humanidade, durante um protesto pacífico na madrugada de segunda-feira.
Mais cedo, o ministério da Cultura já tinha expressado sua "indignação" pela entrada sem permissão de membros da ONG ao local para colocar uma faixa com mensagem sobre as mudanças climáticas.
A ação do Greenpeace, realizada na madrugada de segunda-feira, em violação da lei, consistiu em estender ao lado do gigantesco desenho em forma de colibri, feito pelos antigos peruanos no ano 200 a.C, letras de tecido amarelo com a mensagem "Time for change: The future is renewable" (Tempo de mudança: o futuro é renovável).
A mensagem só pode ser vista do alto, assim como as mais de 500 imagens geométricas e de animais que formam as chamadas linhas de Nazca, um dos maiores mistérios arqueológicos do Peru e que alguns cientistas consideram ser um observatório astronômico ou um calendário.
Horas antes, a organização Greenpeace tinha publicado, em Lima, um comunicado no qual "pediu desculpas àquelas pessoas que tiverem se sentido moralmente atacadas", mas justificou sua ação como forma de chamar atenção para o aquecimento global.
"Não aceitamos as desculpas. Eles não aceitam o dano causado", disse nesta quarta-feira o vice-ministro da Cultura, Luis Jaime Castillo, após receber representantes da ONG presentes na conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas (COP20), na capital peruana.
O vice-ministro afirmou, em declarações ao canal de notícias local N, que o dano "foi constatado por uma perícia feita por especialistas em arqueologia do Ministério (da cultura), o Ministério Público de Nazca e a polícia".
Através do ministério da Cultura, o governo já tinha denunciado na terça-feira, junto ao Ministério público, aqueles que cometeram "estes atos ilícitos e solicitou que se impeça a saída do país dos responsáveis".
"O Ministério da Cultura expressa, de forma enfática, sua indignação pelos fatos ocorridos no local vizinho ao colibri, nas Linhas de Nazca, declarada Patrimônio Cultural da Humanidade", declararam as autoridades em um comunicado.
Além disso, destacam ter denunciado ao Ministério Público de Nazca estes atos e "solicitou o impedimento de saída do país dos responsáveis".
As linhas de Nazca são antigos geoglifos situados nos Pampas de Jumana, no deserto de Nazca, na região de Ica. Traçadas pela cultura Nasca (séculos I a VII d.C.), são centenas de figuras que abrangem de desenhos simples a complexas figuras zoomorfas, fitomorfas e geométricas, traçadas na superfície terrestre.
Em 1994, o Comitê da Unesco declarou o sítio Patrimônio Cultural da Humanidade.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Día de los Muertos, o carnaval do México


No México, o Dia dos Mortos é uma celebração de origem indígena. Há relatos que os astecas,maiaspurépechasnáuatles e totonacas praticavam este culto. Os rituais que celebram a vida dos ancestrais se realizavam nestas civilizações pelo menos há três mil anos. Na era pré-hispânica era comum a prática de conservar os crânios como troféus, e mostrá-los durante os rituais que celebravam a morte e o renascimento.  As festividades eram presididas pela deusa conhecida como a "Dama da Morte" (do espanhol:Dama de la Muerte) - atualmente relacionada à La Catrina, esposa de Mictlantecuhtli, senhor do reino dos mortos.
É uma das festas mexicanas mais animadas, pois, segundo dizem, os mortos vêm visitar seus parentes. Ela é festejada com comida, bolos, festa, música e doces preferidos dos mortos.
Para os antigos mexicanos, a morte não tinha as mesmas conotações da religião católica, na qual as idéias de inferno e paraíso servem para castigar ou premiar. Pelo contrário, eles acreditavam que os caminhos destinados às almas dos mortos era definido pelo tipo de morte que tiveram, e não pelo seu comportamento em vida.


Desta forma, as direções que os mortos poderiam tomar são:
Tlalocan, o paraíso de Tláloc, deus da chuva. A este lugar iam aqueles que morriam em situações relacionadas com água: os afogados, os que morriam atingidos por raios, os que morriam por doenças como a gota ou hidropsiasarna oupústula, bem como as crianças sacrificadas ao deus. O Tlalocan era um lugar de descanso e abundância. Embora os mortos fossem geralmente cremados, os predestinados ao Tlalocan eram enterrados, como as sementes, para germinar.



Omeyocan. paraíso do sol, governado porHuitzilopochtli, o deus da guerra. Neste lugar chegavam apenas os mortos em combate, os escravos que eram sacrificados e as mulheres que morriam no parto. Estas mulheres eram comparadas a guerreiros, que já haviam combatido uma grande batalha - a de dar à luz - e as enterravam no pátio do palácio, para que pudessem acompanhar o sol desde o nascente até o poente. Sua morte provocava tristeza e alegria, já que, graças à sua coragem, o sol as levava como companheiras. Dentro da tradição centro-americana, o fato de habitar o Omeyocan era uma honra.

Mictlan, destinado a quem morria de morte natural. Este lugar era habitado por Mictlantecuhtli eMictecacíhuatl, senhor e senhora da morte. Era um lugar muito escuro, sem janelas, de onde era impossível sair.
O caminho para o Mictlan era tortuoso e difícil, pois para lá chegar, as almas deviam caminhar por diferentes lugares durante quatro anos. Ao longo deste tempo, as almas chegavam ao Chignahuamictlán, onde descansavam ou desapareciam as almas dos mortos. Para percorrer este caminho, o difunto era enterrado com um cão, o qual o ajudaria a cruzar um rio e chegar perante Mictlantecuhtli, a quem deveria entregar, como oferenda, trouxas de gravetos e jarras de perfume, algodão, fios coloridos e cobertores. Aqueles que iam ai Mictlan recebiam quatro flechas e quatro trouxas de fios de algodão.


Por sua vez, as crianças mortas tinham um lugar especial, chamado Chichihuacuauhco, onde se encontrava uma árvore da qual os ramos pingavam leite para as alimentar. As crianças que chegavam lá voltariam à Terra quando sua raça fosse destruída. Desta forma, da morte nasceria a vida.



O Dia de los Muertos é comemorado no dia 1º e 2 de novembro.


Publicado em Roulets

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O Museu da Loucura, em Barbacena

O Museu da Loucura de Barbacena mostra um pouco da história do antigo hospital psiquiátrico, local terrível que ficou famoso pela crueldade a que os doentes eram submetidos. Eis aqui um olhar sobre a loucura e sobre nós mesmos.


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Tal qual a lepra, a esquizofrenia foi combustível para exercício do preconceito e da falta de inteligência que podem assolar mentes humanas, talvez sejam predispostas à maldade ou que sejam apenas engrenagem de um sistema préconcebido para não funcionar, para ser torto e vil. Assim como acontecia nos campos de leprosos de antigamente os equizofrênicos, ou loucos, foram - e são - retirados do convívio social, familiar e mundano. A sociedade, suas famílias (!) os colocaram à parte, ainda colocam, e como se não fosse suficiente esta exclusão, há este terrível caso onde humanos flagelam humanos em troca de uma fútil tranquilidade. Falo do caso do lendário e deprimente Hospital Colônia de Barbacena, Minas Gerais, Brasil. Um local terrível, de uma época em que não se falava em humanização da psiquiatria no país.

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Em visita recente à cidade fui ao antigo hospital para visitar o Museu da Loucura, aproveitando para capturar as fotografias que ilustram este artigo. O Museu, inaugurado em 1996, retrata e expõe claramente e com coragem, a história deste que foi primeiro hospital psiquiátrico do estado, criado em 1903 como Assistência aos Alienados do Estado de Minas Gerais. Lá funcionava antes um Sanatório particular para tratamento de tuberculose que havia falido e estava desativado. O "hospício", segundo diversos registros históricos, situa-e em terras da antiga Fazenda da Caveira cujo proprietário era Joaquim Silvério dos Reis, conhecido na história mineira como o delator da Inconfidência.

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De interessante construção arquitetônica o espaço do museu deixa os visitantes, de certa forma, com um sentimento de melancolia e apreensão, mas sem falsos dramas ou sensacionalismo. A imersão no conteúdo das salas permite uma profunda reflexão sobre o mundo, sobre humanos e, principalmente, sobre nós mesmos e nossa relação com o diverso, com o difícil... A primeira sala mostra o relato da criação do hospital, sua história e personagens principais da época com muitas fotos e destaque para um exemplar genuíno do primeiro telefone da cidade de Barbacena que era instalado no hospital. É recomendado paciência e atenção nesta sala para que se possa "entrar no clima" do lugar. Destaque negativo da sala para um ofício da Secretaria da Saúde destinado ao diretor do hospital psiquiátrico orientando para que fossem retiradas as camas dos quartos dos doentes e estes passassem a dormir no chão para que coubessem mais deles num mesmo quarto. Uma desumana solução para a superlotação que mostra o descaso de autoridades para com aquelas pessoas.

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Ofício da Secretaria de saúde orientando a retirada das camas.

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 Doente em local sem camas.

A sala número dois é talvez a mais interessante e impactante pois retrata as maneiras que os doentes eram tratados e as crueldades a que eram submetidos, tudo ilustrado com fotos e objetos que chegam a dar arrepios, como os aparelhos de eletrochoque, prática introduzida na psiquiatria em 1938 e que produz, segundo especialistas, resultados eficazes se utilizada com moderação e não nas cavalares doses que se faziam comuns no hospital de Barbacena. Ainda nesta sala vemos outros exemplos de materiais que compunham o dia a dia dos doentes, tais como grades das celas onde ficavam, aparatos de uso famacêutico dentre outros de cunho médico e mesmo de tortura sob pretexto de contenção. Após uma olhada nas pesadas algemas expostas em uma vitrine foi triste constatar, neste momento, o quão sem valor eram aquelas vidas para quem devia cuidar delas e a sala seguinte revela muito disso ao mencionar como as famílias dos "loucos" os levavam já com intenção de interná-los para sempre e de nunca mais visitá-los.

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Celas onde os doentes ficavam.

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  Aparelho eletroconvulsor.

Em seguida a visita torna-se um tanto mórbida ao pararmos para ler alguns textos muito interessantes que contam como os funcionários do hospital chegavam a cozinhar corpos de doentes mortos em tambores de gasolina para que sua carne derretesse e os ossos pudessem ser vendidos às faculdades de medicina da cidade e região. Nesta mesma sala, já a quarta, vê-se fotos dos pátios, quartos e de outras dependências do lugar como eram antigamente, fotos muitas vezes capturadas durante visitas de famosos psiquiatras de todo o mundo.

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  Algemas usadas para contenção dos pacientes.

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  Cotidiano dos internados.

Outra impressionante exposição do museu é a representação de uma sala de cirurgia na qual vemos alguns instrumentos que eram utilizados antigamente e ainda um exemplar de crânio de um ex-paciente e algumas radiografias. As práticas cirúrgicas adotadas no hospital eram, em sua maioria, degradantes, cruéis e sem qualquer noção de cuidado humanitário ou solidário com os internados. Frágeis e sempre confusos eles ficavam sempre e completamente à mercê de inescrupulosos médicos e gerentes do hospital que objetivavam tudo, menos seu tratamento adequado.

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Termina-se a visita com uma exposição de divulgação da grife “Pirô Criô”, composta por trabalhos manuais e de artesanato feito pelos usuários do hospital. E este é momento propício par que sejam feitos exames de consciência, momento para procurarmos nosso lugar nesta sociedade onde os valores são demasiadamente turvos, onde pessoas não são mais que nada. A psiquiatria passou por algumas evoluções significativas e os esquizofrênicos aos poucos, e em poucos lugares, têm deixado de ser tratados como casos perdidos para serem encarados de frente como seres humanos portadores, sim, desta doença psiquiátrica endógena, que se caracteriza principalmente pela perda do contato com a realidade; não pela perda das características de seres humanos. Que realidade é esta que nos orgulhamos de ostentar? Que vergonha é esta que temos de ter ao nosso lado irmãos humanos que merecem talvez muito mais que nós a atenção que lhes é negada?

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  Pátio no antigo manicômio.

Houve significativas melhorias na psiquiatria brasileira, com movimentos de luta pela humanização do tratamento e dos hospitais, abolição dos manicômios e, principalmente, pela revolução dos métodos utilizados e do modo de ver o portador de esquizofrênia e outras doenças mentais. Como relata este trecho de um artigo da Wikipédia: "As políticas para a saúde mental foram objeto de vivo interesse de atores sociais que a influenciaram através de atuações externas à gestão sanitária nas últimas três décadas, determinando, em grande medida, sua trajetória. Amarante define reforma psiquiátrica como um processo histórico de formulação crítica e prática, que tem como objetivos e estratégias o questionamento e elaboração de propostas de transformação do modelo clássico e do paradigma da psiquiatria (1995). No caso brasileiro esse processo é tributário dos debates teóricos e das experiências que constituem o ideário da "nova psiquiatria" (Venancio, 1990). No Brasil, o processo se iniciou no final da década de 1970, no contexto político de luta pela democratização. O principal marco de sua fundação é a chamada "crise da Dinsam" (Divisão Nacional de Saúde Mental), que eclode em 1978. Os profissionais da área denunciavam as péssimas condições da maioria dos hospitais psiquiátricos do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro e vários foram demitidos. No mesmo ano, no V Congresso Brasileiro de Psiquiatria, uma caravana de profissionais da saúde demitidos no processo de lutas da Dinsam divulgou o Manifesto de Camboriú e marcou o I Encontro Nacional de Trabalhadores em Saúde Mental, realizado em São Paulo, em 1979. Neste processo surge o principal protagonista da reforma psiquiátrica brasileira, o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)."

Após isso ganhou-se em certa qualidade no tratamento, hospitais manicômio como o de Barbacena foram fechados, pessoas presas por maus tratos e crueldade, bem como assassinatos. Mas ainda resta o preconceito, numa das piores formas em que se manifesta, uma forma por vezes disfarçada, mascarada de piedade e que na verdade é a pior patologia a que está exposto o portador de esquizofrênia. O abando familiar e social resistem ao tempo e a sensação de que a "loucura" é uma condenação que nasce com o doente e traça sua sina para sempre permanece ainda nos dias de hoje; houve reforma da psiquiatria mas não uma reforma da sociedade.

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Artigo da autoria de Sandro Marcos.
Viciado em atenção e notívago inveterado, simplesmente não vive sem a multiplicidade de culturas e conteúdos! Multiplicidade esta que expressa através de incursões pelos mundos da música, poesia, literatura e do amor verdadeiro. Email para este blog: encruzilhada.obvious@yahoo.com.br.
Saiba como fazer parte da obvious.

sábado, 29 de março de 2014

Ronaldo Vainfas me encheu de vergonha

O comprometimento com o ofício do historiador

Chamar ex-presos e perseguidos políticos de 'falsos perseguidos, que ganham bolsas-ditadura' é um desrespeito que beira os limites éticos da profissão.









Caroline Silveira Bauer (*), em Carta Maior
Arquivo
Nas últimas semanas, em função das rememorações dos 50 anos do golpe e da implantação da ditadura civil-militar brasileira, inúmeros eventos têm sido realizados para avaliar interpretações historiográficas, refletir sobre as políticas de memória implantadas pelo Estado, denunciar a impunidade dos agentes da repressão, e homenagear e lembrar resistentes e aqueles que foram mortos e desaparecidos.

Da mesma forma, proliferam-se lançamentos editoriais e reimpressões de obras clássicas, oferecendo ao público desde abordagens revisionistas, visões consagradas e novas abordagens que problematizam conceitos, cronologias e protagonismos. Não faltaram, também, manifestações editoriais de militares, militantes, e também de historiadores, sobre a efeméride. Este texto faz referência a um pronunciamento em especial, feito pelo professor Ronaldo Vainfas, da Universidade Federal Fluminense, em sua página pessoal no Facebook, e compartilhado em outros espaços na rede.

O texto inicia com uma crítica à cobertura midiática sobre os 50 anos do golpe, considerada pelo historiador como “patética”. Sem explicitar os motivos de seu julgamento, passa a criticar a postura de algumas personalidades que depuseram sobre sua percepção sobre a ditadura, como Tom Zé, que acreditava estar condenado à morte, ou Fernanda Montenegro, que sofreu uma ameaça de morte. Segundo o autor, esses medos poderiam ser inteligíveis à época – “porque todos viviam apavorados” –, mas não em 2014 – “mas em pleno 2014 alguém levar isto a sério [...] é de chorar”.

Viver em 64 ou em 68 não significava viver apavorado, mas sim em um regime de terrorismo de Estado, em que a ameaça de sequestro, tortura, morte e desaparição era uma constante, quando o “inimigo”, classificado como o “subversivo”, nunca estava claramente estabelecido – parte da estratégia repressiva da ditadura. Assim como o medo não cessa com o fim da ditadura, não obedece a mesma cronologia, e permanece como algo residual, latente na memória daqueles que viveram o terror.

Ainda, caberia um questionamento sobre quem o autor considera digno de sentir medo. Apenas aos militantes das organizações de esquerda armada? Somente eles eram as vítimas da ditadura? Esta consideração é altamente questionável, em primeiro lugar, através da análise dos novos dados sobre os atingidos pela repressão: camponeses, indígenas, trabalhadores, etc. Posteriormente, pois a noção de “vítima” precisa ser problematizada: foram vítimas apenas aqueles que foram mortos e desaparecidos? Gostaria de entender a linha de raciocínio do autor, que invalidou a percepção do Tom Zé, questionando-o: “ele foi militante de alguma organização? Os tropicalistas foram militantes da luta armada?” Parece que o historiador, neste caso, assumiu uma função de juiz, estabelecendo quem pode falar e se manifestar como vítima, ao invés de compreender as falas dos dois artistas.

Sobre as considerações de Fernanda Montenegro, considera-as inverossímeis e, para construir seu argumento, remete aos crimes cometidos pelo fascismo italiano e pelo nazismo que aconteciam “na calada”. “Só pode ser piada o que dizem uns e outros sobre as ações da ditadura brasileira. Os agentes da repressão no Brasil devem dar gargalhadas. Quem sabe ficam indignados por serem tratados como idiotas”, afirma Vainfas, que não leva em consideração que o terror, por sua ilegalidade, caracteriza-se, sim, pela clandestinidade; porém, necessita de um mínimo de publicidade, para que suas ações sejam conhecidas e, assim, o medo disseminado pela sociedade. Vainfas parece esquecer ações espetaculares da ditadura, como o assassinato de Marighella, o massacre da Chácara São Bento ou a Chacina da Lapa, ou ainda o atentado do Rio-Centro.

Concordo que muitos historiadores endossam mitos, ou assumem memórias como explicações históricas. Porém, questiono se as considerações feitas sobre a ditadura e o ensino baseiam-se em pesquisas empíricas, pois são diversos os estudos que comprovam a militarização do ensino – em todos os níveis – e a repressão nos espaços escolares, principalmente nas universidades. Estes trabalhos permitem duvidar de considerações como “a maior parte do professorado era esquerdizante, ignorante” ou, então, “os militares não estavam nem aí para que os estudantes liam na universidade”, feitas pelo professor em seu texto. Aliás, a crítica que Vainfas faz a estes supostos mitos baseia-se em uma experiência pessoal: “fui aluno de graduação da UFF nesta época e nunca vi censura nenhuma.” Sabemos como é complicado sustentar uma argumentação a partir de sua própria memória como contraponto ao que apontam as pesquisas sobre a ditadura.

No entanto, o que mais choca no texto do colega historiador são suas considerações sobre os ex-presos e perseguidos políticos; considera muitos deles “falsos perseguidos, que ganham bolsas-ditadura!”. Trata-se de um desrespeito que beira os limites éticos da profissão, além de endossar uma versão sobre as políticas indenizatórias – as quais possuem muitas críticas, é claro – feitas pelos setores mais autoritários e negacionistas sobre o passado recente brasileiro.

Isto, sem falar na comparação que reabilita o agente Paulo Malhães, ao compará-lo com Adolf Eichmann. Para o professor, diante do nazista, Malhães não é mais que “uma formiga, um verme, uma barata”. Mas a quem interessa comparar os dois regimes? Qual a finalidade desta comparação? Seria instituir uma “escala” para medir os maiores ou menores terrores? Ou as ditabrandas e as ditaduras?

Por fim, uma última consideração: “O que a maioria dos pesquisadores produz hoje sobre o golpe de 64 é de embrulhar o estômago de historiadores comprometidos com o ofício, e não com ideologias ou mitologias interesseiras e interessadas.” Caberia um questionamento ao autor se seu texto poderia ser considerado de um historiador comprometido com o ofício, pois considerar “idiotas” pontos de vistas opostos ao seu, chamar os professores à época de “esquerdizante, ignorante”, reabilitar Malhães ao compará-lo com Eichmann ou se perguntar “who knows, who cares”, é de uma postura que não contribuiu absolutamente em nada para os debates políticos e historiográficos sobre os 50 anos do golpe. E, quando a se comprometer com o ofício, eu me importo.


(*) Caroline Silveira Bauer é professora de História Contemporânea na Universidade Federal de Pelotas. Doutora pela Universidade Federal do Rio Grade do Sul e pela Universitat de Barcelona, é autora do livro "Brasil e Argentina: ditaduras, desaparecimentos e políticas de memória".

domingo, 26 de janeiro de 2014

Ex-escravos lembram rotina em fazenda nazista no interior de SP

Gibby Zobel BBC World Service, Campina do Monte Alegre (SP)



Em uma fazenda no interior de São Paulo, 160 km a oeste da capital, um time de futebol posa para uma foto comemorativa. Mas o que torna a imagem extraordinária é o símbolo na bandeira do time - uma suástica.
A foto, provavelmente, foi tirada após a ascensão nazista na Alemanha, na década de 1930.

"Nada explicava a presença dessa suástica aqui", conta José Ricardo Rosa Maciel, ex-dono da remota fazenda Cruzeiro do Sul, perto de Campina do Monte Alegre, que encontrou a foto, por acaso, um dia.
Mas essa foi, na verdade, sua segunda e intrigante descoberta. A primeira tinha ocorrido no chiqueiro.
"Um dia, os porcos quebraram uma parede e fugiram para o campo", ele disse. "Notei que os tijolos tinham caído. Achei que estava tendo alucinações".
Na parte debaixo de cada tijolo estava gravada uma suástica.
É sabido que no período que antecedeu a Segunda Guerra, o Brasil tinha fortes vínculos com a Alemanha Nazista. Os dois países eram parceiros comerciais e o Brasil tinha o maior partido fascista fora da Europa, com mais de 40 mil integrantes.
Mas levou anos para que Maciel, com o auxílio do historiador Sidney Aguillar Filho, conhecesse a terrível história que conectava sua fazenda aos fascistas brasileiros.

Ação Integralista

Filho descobriu que a fazenda tinha pertencido aos Rocha Miranda, uma família de industriais ricos do Rio de Janeiro. Três deles - o pai, Renato, e dois filhos, Otávio e Osvaldo - eram membros da Ação Integralista Brasileira (AIB), organização de extrema direita simpatizante do Nazismo.
A família às vezes organizava eventos na fazenda, recebendo milhares de membros do partido. Mas também existia no lugar um campo brutal de trabalhos forçados para crianças negras abandonadas.
Aloysio Silva
Aloysio Silva era conhecido apenas pelo número 23
"Descobri a história de 50 meninos com idades em torno de 10 anos que tinham sido tirados de um orfanato no Rio", conta o historiador. "Foram três levas. O primeiro grupo, em 1933, tinha dez (crianças)".

Osvaldo Rocha Miranda solicitou a guarda legal dos órfãos, segundo documentos encontrados por Filho. O pedido foi atendido.
"Ele enviou seu motorista, que nos colocou em um canto", conta Aloysio da Silva, um dos primeiros meninos levados para trabalhar na fazenda, hoje com 90 anos de idade.
"Osvaldo apontava com uma bengala - 'Coloca aquele no canto de lá, esse no de cá'. De 20 meninos, ele pegou dez".
"Ele prometeu o mundo - que iríamos jogar futebol, andar a cavalo. Mas não tinha nada disso. Todos os dez tinham de arrancar ervas daninhas com um ancinho e limpar a fazenda. Fui enganado".
As crianças eram espancadas regularmente com uma palmatória. Não eram chamadas pelo nome, mas por números. Silva era o número 23.
Cães de guarda mantinham as crianças na linha.
"Um se chamava Veneno, o macho. A fêmea se chamava Confiança", conta Silva, que ainda mora na região. "Evito falar sobre esse assunto".
Até as vacas da fazenda recebiam a suástica
Argemiro dos Santos é outro dos sobreviventes. Quando menino, foi encontrado nas ruas e levado para um orfanato. Um dia, Rocha Miranda veio buscá-lo.

"Eles não gostavam de negros", conta Santos, hoje com 89 anos.
"Havia castigos, deixavam a gente sem comida ou nos batiam com a palmatória. Doía muito. Duas batidas, às vezes. O máximo eram cinco, porque uma pessoa não aguentava".
"Eles tinham fotografias de Hitler e você era obrigado a fazer uma saudação. Eu não entendia nada daquilo".
Alguns dos descendentes da família Rocha Miranda dizem que seus antepassados deixaram de apoiar o Nazismo antes da Segunda Guerra Mundial.
Maurice Rocha Miranda, sobrinho-bisneto de Otávio e Osvaldo, também nega que as crianças eram mantidas na fazenda como "escravos".
Em entrevista à Folha de São Paulo, ele disse que os órfãos na fazenda "tinham de ser controlados mas nunca foram punidos ou escravizados".
O historiador Sidney Aguillar Filho, no entanto, acredita nas histórias dos sobreviventes. E apesar da passagem do tempo, ambos Silva e Santos - que nunca mais se encontraram desde o tempo em que viveram na fazenda - fazem relatos muito parecidos e perturbadores de suas experiências.
Argemiro Santos ainda guarda a medalha de ouro que ganhou
Para os órfãos, os únicos momentos de alegria eram os jogos de futebol contra times de trabalhadores das fazendas locais, como aquele em que foi tirada a foto onde se vê a bandeira com a suástica. (O futebol tinha papel fundamental na ideologia integralista.)
"A gente se reunia para bater bola e a coisa foi crescendo", diz Santos. "Tínhamos campeonatos, éramos bons de futebol."
Mas depois de vários anos, ele não aguentava mais.
"Tinha um portão (na fazenda) e um dia eu o deixei aberto", ele conta. "Naquela noite, eu fugi. Ninguém viu".
Santos voltou ao Rio onde, aos 14 anos de idade, passou a dormir na rua e trabalhar como vendedor de jornais. Em 1942, quando Brasil declarou guerra contra a Alemanha, Santos se alistou na Marinha como taifeiro, servindo mesas e lavando louça.
Depois de trabalhar para nazistas, Santos passou a lutar contra eles.
"Estava apenas prestando um serviço para o Brasil", explica. "Não sentia ódio por Hitler, não sabia quem ele era".
Santos saiu em patrulha pela Europa e depois passou um período, ainda durante a guerra, trabalhando em navios que caçavam submarinos na costa brasileira.
Hoje, Santos é conhecido, na comunidade onde vive, pelo apelido de Marujo. E se orgulha de um certificado e uma medalha que recebeu em reconhecimento por seus serviços durante a guerra.
Mas ele também é famoso por suas proezas futebolísticas, jogando como meio de campo em vários grandes times brasileiros na década de 1940.
"Naquela época, não existiam jogadores profissionais, éramos todos amadores", diz. "Joguei para o Fluminense, Botafogo, Vasco da Gama... Os jogadores eram todos vendedores de jornais e lustradores de sapatos".
Hoje, Santos vive uma vida tranquila com a esposa, Guilhermina, no sudoeste do Brasil. Eles estão casados há 61 anos.
"Eu gosto de tocar meu trompete, de sentar na varanda e tomar uma cerveja gelada. Tenho muitos amigos e eles sempre aparecem para bater papo", conta.
As lembranças do tempo difícil que passou na fazenda, no entanto, são difíceis de apagar.

"Quem diz que sempre teve uma vida boa desde que nasceu está mentindo", diz Santos. "Na vida de todo mundo acontecem coisas ruins".