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sábado, 16 de setembro de 2017

INTERROGATÓRIO DE ELIS REGINA PELA DITADURA MILITAR INSPIROU SUA INTERPRETAÇÃO DE AGNUS SEI


Certa ocasião Elis Regina disse ou cantou “tá, na moda negar, nego tudo”.
E foi isso que ela fez quando teve que depor no Centro de Informações do Exército, o temível CIE, em novembro de 1971.
Essa passagem da vida de Elis foi lembrado num trecho do “Falso Brilhante”, quando ela fica “presa” a uma barra e ajoelhada (como que sendo torturada) e canta “Agnus Sei” de maneira incisiva: “ah, como é difícil tornar-se herói / só quem tentou sabe como dói / vencer satã só com orações…” Satã era a  ditadura. Vencê-la só com orações (representando as canções, livros, peças da época) não era tão fácil como poderiam imaginar aqueles que pegaram em armas e partiram para a clandestinidade.
Em anexo o documento do Ministério do Exército, datado de 01.12.1971, com o assunto: Elis Regina, consiste em duas folhas de informações sobre a cantora e duas folhas anexas, na verdade, uma carta escrita à mão pela Elis, em que afirma não ter ligações com grupos de oposição política.
Esta carta decorre de uma entrevista concedida na Holanda onde teria afirmado que o Brasil, em 1969, era “governado por gorilas”. A Embaixada brasileira teria emitido uma cópia desta declaração ao SNI, o que levou Elis a um interrogatório quando de seu retorno ao Brasil. De acordo com a própria Elis, em depoimento a Regina Echeverria , em razão deste caso ela teria sido obrigada a cantar nas Olimpíadas do Exército de 1972, o que de fato fez.
O documento mostra um pouco da perseguição absurda que os artistas sofriam na época, como se fossem criminosos.
“tá na moda negar, nego tudo”.. (Elis)
Documento Confidendial do Exército sobre Elis Regina
Esta é a transcrição na íntegra de um documento do CIE (Centro de Informações do Exército) sobre a Elis:
“Ministério do Exército
Gabinete do Ministro
Documento Confidencial do Exército
Informação nº (ilegível)/S-103.2.CIE
Assunto: Cantora Elis Regina
Origem: CIE (Centro de Informações do Exército)
Difusão: SNI/AC, DPF/DF, S/102-CIE
Difusão Anterior: –
Referência: Cópia da declaração da epigrafada
1. O CIE recebeu de um repórter credenciado na imprensa Guanabarina uma entrevista concedida pela cantora nacional Elis Regina à revista holandesa “Tros-Nederland”, edição de 23 de maio, sem a indicação de ano, sob o título “A Primavera Impetuosa de Elis Regina”.
2. Procedidos os levantamentos necessários, constatou-se que:
– a cantora esteve na Holanda no início de 1969, ocasião em que concedeu entrevista coletiva à imprensa, em ambiente formal e seguindo as normas desse tipo de relacionamento;
– viajou para a Itália e Inglaterra no princípio de 1971, não tendo feito declarações à imprensa;
– no Brasil, jamais concedeu entrevista a qualquer órgão de imprensa estrangeiro;
– nos anos de 1966-1967 atuou ao lado de alguns cantores de esquerda considerados subversivos após as agitações de 1968, destacando-se, entre eles, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré e Edu Lobo. Faziam parte do “Grupo Paulo Machado de Carvalho”, da TV Record, Canal 7, de São Paulo e da Rádio Jovem Pan. Na época, anos de 1966/67, esse grupo foi considerado de orientação filo-comunista;
– é muito afeita a gravar músicas de protesto, inclusive ligadas ao movimento do Poder Negro norte-americano, apesar de não demonstrar ligação com o mesmo;
– possui contrato firmado com a rede Globo de Televisão a terminar em 30/06/72 e com a gravadora PHILIPS com término em dezembro de 1973;
– atravessa, no momento, uma fase bastante difícil na sua vida particular – o marido, o compositor e produtor de TV, Ronaldo Bôscoli, doente, necessitando de tratamento psiquiátrico; seu genitor tornou-se inimigo do marido, chegando ao ponto de ameaçar a vida do genro; certa imprensa, chamada “marrom”, tem noticiado calúnias sobre o seu comportamento, além de difundir assuntos de sua vida privada;
– mostra-se retraída, não participando de grupos, mesmo em festas ou reuniões sociais;
– cumpre seus contratos e compromissos corretamente, aceitando programas não remunerados, quando para fins filantrópicos, ou solicitados por órgãos públicos.
3) Em 22/11/71, foi convidada a prestar esclarecimentos no Centro de Relações Públicas do Exército (CRPE), por solicitação do CIE, quando caracterizou sua posição de artista isolada e desligada de qualquer vínculo político-ideológico, tendo, inclusive, negado terminantemente ter recebido, durante a entrevista concedida na Holanda, qualquer pergunta sobre Cuba ou outro assunto político e mesmo relacionado com o Brasil e o seu povo.
Nessa oportunidade, escreveu de próprio punho a declaração, tendo gravado, em imagem e som, o seu depoimento, cuja tape se acha arquivado neste Centro.
Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1971.
Declaro que li a tradução de uma entrevista publicada na revista holandesa “Tros-Nederland”, edição de 23 de maio, atribuída à minha pessoa, contendo considerações a respeito do Brasil, de seu regime e de seu povo.
Realmente, estive neste país (Holanda) e fui entrevista coletivamente pela imprensa de Amsterdã. Porém, não me foram feitas perguntas sobre qualquer assunto político relacionadas com o Brasil. As perguntas se limitaram a assuntos de música, tendo sido (ilegível) o movimento de bossa nova, a participação de Ronaldo, meu marido, no mesmo movimento, importância de Tom Jobim e Vinícius e validade do trabalho de Sérgio Mendes como músico brasileiro no exterior.
Também me perguntaram das razões da ausência de Caetano Veloso e Gilberto Gil no MIDEM de 1969. Me neguei a responder, a despeito da insistência de um repórter.
Nego terminantemente ter feito as declarações publicadas naquela revista. Nego, apesar de sugerida, que tenha feito uma entrevista em particular a qualquer jornalista.
Com referência à minha participação em grupos de artistas em movimentos de conotação política ou de contestação, quero esclarecer que a mesma se restringia a apresentações do programa “O Fino da Bossa”, TV Record, São Paulo.
Nunca participei de qualquer movimento (ilegível) ou coisas do gênero de cunho subversivo. Além do mais, em minha vida pessoal, não tenho relacionamento com artistas ou intelectuais, alem de encontros ocasionais em restaurantes ou teatros, pois não gosto particularmente do que comumente se chama “patota”. É um ponto de vista firmado meu, do qual não (ilegível).
Quanto à minha religião, declaro que sou espírita Kardecista, logo não tenho porque fazer as ditas declarações de “Tor-Nederland”.
Queria deixar registrado que, de algum tempo para cá, não presto declarações a órgãos de imprensa, a não ser por escrito, ficando comigo as cópias das entrevistas.
Assim sendo, ponho-me à disposição para esclarecer futuros equívocos, tomando por base essas cópias autenticadas.
Elis Regina Bôscoli,
Rio, 22/11/71.
Av. Niemeyer, 550 – casa 7
Fone: 399-1313

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

UERJ lança "Dossiê 50 Anos do Golpe "


Saiu o Dossiê 50 Anos do Golpe da Revista Interseções (UERJ), no qual consta um artigo da minha querida amiga Janaína Teles chamado "A denúncia da tortura e dos torturadores a partir dos cárceres políticos brasileiros".

Ainda não li, mas, escrito por ela, certamente é bom.
Quem quiser ler, acesse AQUI

sábado, 15 de novembro de 2014

Justiça reconhece morte de Drumond por torturas físicas

Justiça reconhece morte de Drumond por torturas físicas

Morto nas dependências do 2º Exército, na cidade de São Paulo, o dirigente do Partido Comunista do Brasil, João Batista Franco Drumond teve a causa da morte alterada no atestado de Óbito de “traumatismo crânio-encefálico” para “decorrente de torturas físicas”. 
Por Osvaldo Bertolino*

Uma decisão histórica. A definição é do advogado Egmar José de Oliveira sobre o reconhecimento oficial de torturas físicas como causa da morte de João Batista Franco Drumond nas dependências do II Exército, na cidade de São Paulo, na noite de 16 para 17 de dezembro de 1976. A Certidão de Óbito emitida na época indicou como causa da morte “traumatismo crânio-encefálico” e foi alterada para “decorrente de torturas físicas” em cumprimento ao mandado judicial de averbação subscrito pelo juiz de Direito da 2ª Vara de Registros Públicos da cidade de São Paulo, Ralpho Waldo de Barros Monteiro.
Detido após participar de uma reunião do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) no bairro paulistano da Lapa, sua morte foi dada como decorrência de atropelamento quando tentava fugir da repressão. Além de Drumond, foram assassinados Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, metralhados no interior da casa onde ocorrera a reunião — episódio que ficou conhecido como “Chacina da Lapa”.
No Brasil ainda vigorava a Diretriz Presidencial de Segurança Interna, expedida em setembro de 1970 pelo presidente da República Emílio Garrastazu Médici, que determinou a criação de um Destacamento de Operações de Informações (DOI) e um Centro de Operações de Informações (Codi) em cada Comando de Exército. Era a extensão da experiência de unificar as ações repressivas da Operação Bandeirantes (Oban), de São Paulo, para todo o país. A ditadura criou, com essa medida, máquinas poderosas e interligadas de torturas e assassinatos. Em São Paulo, o DOI-Codi do II Exército, comandado pelo perverso major Carlos Alberto Brilhante Ustra, promoveu verdadeiras chacinas contra a resistência democrática.
Quase trinta e oito anos depois, o Estado brasileiro suplanta a farsa da ditadura militar e instaura a verdade. O pedido, feito em nome da viúva de Drumond, a psicóloga Maria Ester Cristelli Drumond, registrou que resgatar a dignidade humana daqueles que ousaram lutar por liberdade, sacrificando até suas vidas, era o mínimo que podia-se esperara da Justiça. O documento lembra que o Estado havia reconhecido, por sua Comissão de Mortos e Desaparecidos e a Comissão de Anistia, que Drumond fora preso e assassinado por agentes do DOI-Codi. Em outra decisão, o Poder Judiciário também responsabilizou o Estado pela morte de Drumond em ação ordinária proposta por Maria Ester e as duas filhas do casal.

Segundo o requerimento, a decisão teria “grande repercussão nas mentes e nos corações de Maria Ester Cristelli Drumond” e das filhas Rosamaria e Silvia. “E também nas mentes e nos corações de todos os brasileiros”, além da “enorme repercussão” entre “seus amigos e todos aqueles que com ele militaram no movimento estudantil e, sobretudo, entre os dirigentes e militantes do Partido Comunista do Brasil, partido pelo qual enfrentou a ditadura militar, lutou e honrou com dignidade até ser brutal e covardemente assassinado”. Seria, ainda, um “exemplo para que no futuro fatos como este nunca mais se repita em nosso país”.
Casos semelhantes
Egmar José de Oliveira, o advogado que representou a família, disse no requerimento que a retificação do registro de óbito seria “passar a limpo esse episódio obscuro e esse período em que foram cometidas graves violações aos direitos humanos, de triste memória da nossa história”. Segundo ele, o crime de Drumond foi lutar por liberdade e democracia, contra a ditadura militar que perseguia, torturava e matava seus opositores. Egmar José de Oliveira registrou ainda que Drumond “deu sua vida para que pudéssemos ter hoje um Estado Democrático de Direito, livre das amarras dos ditadores militares que amordaçaram a todos, inclusive o Poder Judiciário”.
Falando ao Portal Grabois, Egmar José de Oliveira disse que em outros casos semelhantes ao de Drumond a troca da causa da morte poderia ter sido requerida pela Comissão Nacional da Verdade, que optou, possivelmente por razões políticas, pela definição “maus tratos”. A sentença do caso Drumond, transitada em julgada (não cabe mais nenhum tipo de recurso), foi aprovada por maioria no Tribunal de Justiça e recebeu parecer favorável da Procuradoria da Justiça, que se baseou na decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos reconhecendo graves violações dos direitos humanos na Guerrilha do Araguaia. É o primeiro caso em que o Estado assume a morte por torturas físicas de um cidadão brasileiro que estava sob o seu poder, lembra Egmar José de Oliveira, criando jurisprudência sobre o assunto.

Legislação internacional
Ele explica que existe um mecanismo na lei para não ter decisões divergentes sobre casos semelhantes. “No Brasil, diferente de outros países, prevaleceu a versão de quem governou naquele período. Ainda há luta para que se consolide a busca da verdade”, afirmou. Por mais que os familiares dos mortos conte a história para as gerações futuras, faltava algo material, que retratasse exatamente o que aconteceu. “Isso tem um significado histórico e político muito importante”, enfatizou, lembrando que o Ministério Público Federal pode requisitar ao Exército o nome do oficial do dia responsável pelo DOI-Codi naquela noite e de seus agentes. E, com esses dados, pedir a instauração de um inquérito policial para ter elementos de denúncia à Justiça.
Segundo Egmar José de Oliveira, é importante ressaltar que a legislação internacional, os tratados dos quais o Brasil é signatário e a Constituição Federal consideram que esses acontecimentos que integram o rol de crimes de lesa-humanidade são imprescritíveis. O próprio Ministério Público Federal defende essa tese em algumas ações, registra. “Então, o significado dessa decisão tem três aspectos: a responsabilização penal dos agentes, a reparação cível dos danos causados à família, a busca da verdade histórica e o que se chama de ‘Justiça de Transição’ — a formação de condições para que se crie mecanismo coibente de crimes por parte de instituições e agentes do Estado”, finaliza.

*Osvaldo Bertolino é jornalista, editor do Portal Grabois e colaborador da revista Princípios

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Não é invenção. O Clube Militar, antro do reacionarismo militar brasileiro apoia Marina

Confiram vocês mesm@s, entrando no site AQUI 
UM FIO DE ESPERANÇA
As surpresas que o destino nos reserva são assustadoras. Tudo corre num determinado sentido quando, de repente, um acontecimento totalmente inesperado muda nossa história, nossa vida.
O terrível acidente aéreo que, no meio de agosto (sempre agosto) ceifou a vida do Senador Eduardo Campos, candidato à Presidência da República, bem como as da tripulação e de assessores que o acompanhavam, mudou em duas semanas todo o panorama e as previsões para as eleições de outubro, em nível federal e estadual.
Subitamente elevada à condição de presidenciável, a até então candidata a Vice Presidente, Marina da Silva, foi talvez a pessoa diretamente mais atingida pelas consequências da tragédia.
Relembremos.
Tendo obtido 20 milhões de votos nas últimas eleições presidenciais, em 2010, Marina despontou como um fenômeno eleitoral, séria pretendente ao cargo nas próximas eleições.
Para conseguir ser apontada como candidata, procurou fundar um partido próprio, a Rede de Sustentabilidade, ou simplesmente Rede. No entanto, a burocracia – e os problemas reais ou criados pelos cartórios para o reconhecimento de centenas de milhares de firmas necessárias para a criação de um partido – terminaram por impedir que o mesmo viesse à luz no prazo legal para permitir o registro de seus candidatos.
Assim, sem uma sigla que a apresentasse, Marina teve que se contentar em aderir ao PSB, que já apontara Eduardo Campos como candidato a Presidente da República. Ela teve, então, que limitar-se à Vice Presidência.
A morte do cabeça da chapa do PSB a menos de dois meses das eleições determinou sua substituição por Marina, que imediatamente decolou nas pesquisas de intenção de votos.
Atualmente, já empata com Dilma Roussef no primeiro turno e vence folgadamente por dez pontos percentuais no segundo turno.
Na verdade, a nova candidata incorporou o desejo vago de mudanças que levou o povo às ruas em junho do ano passado. Que tipo de mudança, isso já é outro problema.
Não tendo ainda sido atacada pelos demais candidatos – pois sua candidatura não foi, inicialmente, percebida como grande ameaça – navega em mar calmo e vento muito favorável, enquanto o tempo, cada vez mais curto, corre a seu favor.
Sua figura messiânica, suas declarações vagas, suas promessas iniciais muito generosas, mas fora do alcance do cofre nacional, acenam com uma “nova política” misteriosa, mistura de propostas esquerdistas e ambientalistas, entre as quais maior participação direta, governar com pessoas e não com partidos, participação direta popular no governo, por meio de plebiscitos e consultas populares (cheiro de bolivarianismo), criação de conselhos do povo (cheiro dos sovietes petistas), orçamento participativo etc.
Cálculos preliminares orçam suas promessas – entre as quais 10% do orçamento para a saúde, outros 10% para a educação, aumento da bolsa esmola, do efetivo da Polícia Federal – em quase 100 bilhões de reais por ano, cuja origem não é esclarecida.
Seu calcanhar de Aquiles é o fraco apoio político, pois na verdade não tem o apoio firme de nenhum partido. Seus apoiadores são aqueles interessados em pegar carona em sua súbita popularidade, sem nenhum compromisso com a realidade política durante seu possível governo.
Mas uma excelente candidata não será, necessariamente, uma excelente Presidente.
No governo, terá que descer das nuvens “sonháticas” onde flutua e lutar na arena do dia a dia da Praça dos Três Poderes, enfrentando as feras insaciáveis que fazem as leis, sempre cobrando algum preço político por seu apoio.
Na verdade, os políticos temem o populismo de suas propostas e os desvios que promete adotar, para evitar o isolamento de seu governo pelos partidos, percebendo uma ameaça de autoritarismo na ideia de governar sem os mesmos. Será real isso ou será apenas uma ameaça para angariar apoios mais fortes dos partidos, que seriam enfraquecidos com um governo mais populista?
Dona de um discurso inatacável, é a favor de tudo que é bom e contra tudo que é ruim. Como, aliás, todos os candidatos.
Ser uma incógnita camaleônica é uma vantagem, pois o que é conhecido da política e dos políticos é rejeitado pelos eleitores.
A esperança de algo novo e diferente, que rompa com a tradição negativa representada pelos atuais homens públicos, parece impulsionar a subida de Marina nas pesquisas eleitorais.
A desilusão popular procura o novo. As mudanças podem ser para melhor ou para pior, desde que interrompam a malfadada corruptocracia instalada no poder pelo lulopetismo.
Como está não pode continuar. Há expectativa de que novos rumos e novos governantes tragam melhores dias e maior esperança para os eleitores desiludidos.
É um fio de esperança, mas parece que as pessoas a ele se agarram com fé, apostando no futuro para esquecer o presente.
Gen Clovis Purper Bandeira – Editor de Opinião do Clube Militar

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Comissão da Verdade ouve ex-guerrilheiros torturados no Araguaia

Alex Rodrigues – Repórter da Agência Brasil Edição: Nádia Franco

Audiencia pública da Comissão da Verdade sobre a Guerilha do Araguaia Antonio Cruz/Agência Brasil

Crimes contra os direitos humanos atribuídos a agentes do Estado que atuaram na repressão à Guerrilha do Araguaia voltam a ser discutidos hoje (12), em  audiência pública na Comissão Nacional da Verdade (CNV).

O movimento, que atuou na década de 70, tinha o objetivo de enfrentar e derrubar o regime militar instalado no país após o golpe de 1964.

Nesta terça-feira, a comissão ouve dois ex-militantes que foram presos e torturados, a parente de um desaparecido e uma advogada que falará sobre as implicações da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que, em 2010, segundo a qual graves violações aos direitos humanos não podem ser anistiadas.

Quatro militares acusados de participar de crimes como prisões ilegais, tortura, assassinato e ocultação de cadáver foram convocados a prestar depoimentos, entre eles Sebastião Rodrigues de Moura, o major Curió. Nenhum dos quatro compareceu à audiência pública, aberta à imprensa e a outros interessados. 

Considerado um dos episódios mais violentos registrados durante o último período de ditadura militar (1964-1985), o combate aos integrantes do PCdoB que aderiram à guerrilha armada e lutaram contra o regime resultou, segundo a comissão, no desaparecimento de 70 militantes e moradores da região e na morte de oito militares em circunstâncias nem sempre devidamente esclarecidas.
O ex-guerrilheiro do Araguaia Danilo Carneiro, preso e torturado durante o regime militar, mostra documento em audiência pública na Comissão Nacional da Verdade (Antonio Cruz/Agência Brasil)
Torturado na prisão, Danilo Carneiro diz que tinha
só um desejo: morrer Antonio Cruz/Agência Brasil

Cerca de 10 mil militares atuaram em três campanhas e operações de inteligência deflagradas a partir de abril de 1972, seis anos após a chegada dos primeiros militantes à região.

"Não tínhamos mais alternativa de resistência ao regime. Por isso, fomos à luta armada", disse Danilo Carneiro, preso em abril de 1972 e vítima de torturas e maus-tratos que o levaram a pesar 38 quilos, ao ser transferido de Belém para Brasília, onde continuou a ser agredido e interrogado.

"Foi quando me avisaram que, a partir dali, eu iria conversar com quem de fato sabia conversar [interrogar]. Havia 20 torturadores na cela. Me arrebentaram. Encapuzado, eu engolia sangue e desmaiava. Eu só tinha um desejo: morrer, pois não tinha outra saída que não fosse entregar meus companheiros. Tamanho era esse desejo [de morrer] que comecei a dar cabeçadas nas grades de ferro da cela e só não fui em frente porque outro companheiro preso conseguiu me convencer do contrário", lembrou Carneiro.
Ao falar sobre o andamento das investigações da CNV sobre mortos e desaparecidos da Guerrilha do Araguaia, o secretário executivo da comissão, André Saboia, destacou que, na primeira das três expedições à região, militares das Forças Armadas ainda fizeram prisioneiros. Daí em diante, passaram a executar sumariamente não só os militantes, mas também camponeses acusados de colaborar com os guerrilheiros. Muitos desses corpos até hoje não foram localizados.
"Isso não era fruto da ação de alguns psicopatas, mas sim de uma ação sistemática e estruturada, na qual as Forças Armadas têm responsabilidade", afirmou o atual coordenador da comissão, o advogado Pedro Dallari. Para ele, esclarecer os desaparecimentos, as mortes e a participação de cada um no episódio é "um dos temas de maior relevância na agenda da comissão", tanto que membros do colegiado aprovaram a inclusão, no relatório final, de um capítulo inteiramente dedicado à Guerrilha do Araguaia.
Ao comentar o teor do depoimento de alguns militares anteriormente ouvidos pela comissão, Saboia reproduziu trecho da declaração do sargento João Santa Cruz, que reconhece que os parentes das vítimas têm direito de saber o que de fato aconteceu e de resgatar os corpos dos desaparecidos para sepultá-los. Cruz acredita que isso daria fim às buscas, poupando recursos das próprias Forças Armadas.
De acordo com o ex-sargento, a "chave" para esclarecer o assunto é o major Sebastião Rodrigues de Moura, o major Curió, "pois ele tinha acesso a tudo". Um dos quatro militares convidados a participar da audiência e prestar depoimento, Curió informou que não poderia comparecer por motivos de saúde, já que está internado em um hospital das Forças Armadas devido a exames clínicos feitos na véspera.
"A forma como o Estado brasileiro trata essa questão é, no mínimo, muito cruel", afirmou Criméia Alice Schmidt de Almeida, ao endossar as críticas à resistência de órgãos do governo de entregar à comissão documentos que podem ajudar a esclarecer os fatos. Presa em dezembro de 1972, quando estava grávida, Criméia disse que foi barbaramente torturada.

"Eu passava dia e noite sendo interrogada. Quando, por cansaço, cochilava, me acordavam com choques elétricos. Nunca me penduraram no pau de arara, eu acho que porque a barriga não permitia", contou Criméia. "Diziam que eu ia morrer em um acidente de carro. Todas as noites eu era levada até o carro, onde passava a noite esperando que saíssem com o carro me levando. Ao fim de um tempo, eles diziam que havia acontecido algo e que o 'acidente' ficara para a noite seguinte", acrescentou a militante, que deu à luz na prisão. "Ele [o filho] parecia um daqueles meninos de Biafra, que, na época, era o país africano da fome. E, logicamente, com uma mãe neurótica, meu filho, como todos nós, tem suas sequelas."

Criada em 2011, por lei federal, a Comissão Nacional da Verdade tem o objetivo de apurar as violações aos direitos humanos registrados entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988. A princípio, os trabalhos não tem a finalidade de incriminar ou servir de base à recomendação de punição aos militares acusados de violar direitos humanos, mas sim esclarecer os fatos para recompor a "verdade histórica e promover a reconciliação nacional". As conclusões da comissão deverão constar do relatório final a ser apresentado até 16 de dezembro deste ano, mas a data ainda pode ser prorrogado. Mais de mil depoimentos já foram colhidos pela CNV.


sábado, 29 de março de 2014

Ronaldo Vainfas me encheu de vergonha

O comprometimento com o ofício do historiador

Chamar ex-presos e perseguidos políticos de 'falsos perseguidos, que ganham bolsas-ditadura' é um desrespeito que beira os limites éticos da profissão.









Caroline Silveira Bauer (*), em Carta Maior
Arquivo
Nas últimas semanas, em função das rememorações dos 50 anos do golpe e da implantação da ditadura civil-militar brasileira, inúmeros eventos têm sido realizados para avaliar interpretações historiográficas, refletir sobre as políticas de memória implantadas pelo Estado, denunciar a impunidade dos agentes da repressão, e homenagear e lembrar resistentes e aqueles que foram mortos e desaparecidos.

Da mesma forma, proliferam-se lançamentos editoriais e reimpressões de obras clássicas, oferecendo ao público desde abordagens revisionistas, visões consagradas e novas abordagens que problematizam conceitos, cronologias e protagonismos. Não faltaram, também, manifestações editoriais de militares, militantes, e também de historiadores, sobre a efeméride. Este texto faz referência a um pronunciamento em especial, feito pelo professor Ronaldo Vainfas, da Universidade Federal Fluminense, em sua página pessoal no Facebook, e compartilhado em outros espaços na rede.

O texto inicia com uma crítica à cobertura midiática sobre os 50 anos do golpe, considerada pelo historiador como “patética”. Sem explicitar os motivos de seu julgamento, passa a criticar a postura de algumas personalidades que depuseram sobre sua percepção sobre a ditadura, como Tom Zé, que acreditava estar condenado à morte, ou Fernanda Montenegro, que sofreu uma ameaça de morte. Segundo o autor, esses medos poderiam ser inteligíveis à época – “porque todos viviam apavorados” –, mas não em 2014 – “mas em pleno 2014 alguém levar isto a sério [...] é de chorar”.

Viver em 64 ou em 68 não significava viver apavorado, mas sim em um regime de terrorismo de Estado, em que a ameaça de sequestro, tortura, morte e desaparição era uma constante, quando o “inimigo”, classificado como o “subversivo”, nunca estava claramente estabelecido – parte da estratégia repressiva da ditadura. Assim como o medo não cessa com o fim da ditadura, não obedece a mesma cronologia, e permanece como algo residual, latente na memória daqueles que viveram o terror.

Ainda, caberia um questionamento sobre quem o autor considera digno de sentir medo. Apenas aos militantes das organizações de esquerda armada? Somente eles eram as vítimas da ditadura? Esta consideração é altamente questionável, em primeiro lugar, através da análise dos novos dados sobre os atingidos pela repressão: camponeses, indígenas, trabalhadores, etc. Posteriormente, pois a noção de “vítima” precisa ser problematizada: foram vítimas apenas aqueles que foram mortos e desaparecidos? Gostaria de entender a linha de raciocínio do autor, que invalidou a percepção do Tom Zé, questionando-o: “ele foi militante de alguma organização? Os tropicalistas foram militantes da luta armada?” Parece que o historiador, neste caso, assumiu uma função de juiz, estabelecendo quem pode falar e se manifestar como vítima, ao invés de compreender as falas dos dois artistas.

Sobre as considerações de Fernanda Montenegro, considera-as inverossímeis e, para construir seu argumento, remete aos crimes cometidos pelo fascismo italiano e pelo nazismo que aconteciam “na calada”. “Só pode ser piada o que dizem uns e outros sobre as ações da ditadura brasileira. Os agentes da repressão no Brasil devem dar gargalhadas. Quem sabe ficam indignados por serem tratados como idiotas”, afirma Vainfas, que não leva em consideração que o terror, por sua ilegalidade, caracteriza-se, sim, pela clandestinidade; porém, necessita de um mínimo de publicidade, para que suas ações sejam conhecidas e, assim, o medo disseminado pela sociedade. Vainfas parece esquecer ações espetaculares da ditadura, como o assassinato de Marighella, o massacre da Chácara São Bento ou a Chacina da Lapa, ou ainda o atentado do Rio-Centro.

Concordo que muitos historiadores endossam mitos, ou assumem memórias como explicações históricas. Porém, questiono se as considerações feitas sobre a ditadura e o ensino baseiam-se em pesquisas empíricas, pois são diversos os estudos que comprovam a militarização do ensino – em todos os níveis – e a repressão nos espaços escolares, principalmente nas universidades. Estes trabalhos permitem duvidar de considerações como “a maior parte do professorado era esquerdizante, ignorante” ou, então, “os militares não estavam nem aí para que os estudantes liam na universidade”, feitas pelo professor em seu texto. Aliás, a crítica que Vainfas faz a estes supostos mitos baseia-se em uma experiência pessoal: “fui aluno de graduação da UFF nesta época e nunca vi censura nenhuma.” Sabemos como é complicado sustentar uma argumentação a partir de sua própria memória como contraponto ao que apontam as pesquisas sobre a ditadura.

No entanto, o que mais choca no texto do colega historiador são suas considerações sobre os ex-presos e perseguidos políticos; considera muitos deles “falsos perseguidos, que ganham bolsas-ditadura!”. Trata-se de um desrespeito que beira os limites éticos da profissão, além de endossar uma versão sobre as políticas indenizatórias – as quais possuem muitas críticas, é claro – feitas pelos setores mais autoritários e negacionistas sobre o passado recente brasileiro.

Isto, sem falar na comparação que reabilita o agente Paulo Malhães, ao compará-lo com Adolf Eichmann. Para o professor, diante do nazista, Malhães não é mais que “uma formiga, um verme, uma barata”. Mas a quem interessa comparar os dois regimes? Qual a finalidade desta comparação? Seria instituir uma “escala” para medir os maiores ou menores terrores? Ou as ditabrandas e as ditaduras?

Por fim, uma última consideração: “O que a maioria dos pesquisadores produz hoje sobre o golpe de 64 é de embrulhar o estômago de historiadores comprometidos com o ofício, e não com ideologias ou mitologias interesseiras e interessadas.” Caberia um questionamento ao autor se seu texto poderia ser considerado de um historiador comprometido com o ofício, pois considerar “idiotas” pontos de vistas opostos ao seu, chamar os professores à época de “esquerdizante, ignorante”, reabilitar Malhães ao compará-lo com Eichmann ou se perguntar “who knows, who cares”, é de uma postura que não contribuiu absolutamente em nada para os debates políticos e historiográficos sobre os 50 anos do golpe. E, quando a se comprometer com o ofício, eu me importo.


(*) Caroline Silveira Bauer é professora de História Contemporânea na Universidade Federal de Pelotas. Doutora pela Universidade Federal do Rio Grade do Sul e pela Universitat de Barcelona, é autora do livro "Brasil e Argentina: ditaduras, desaparecimentos e políticas de memória".

sábado, 22 de março de 2014

Cerca de 40 pessoas realizam Marcha da Família com Deus em Porto Alegre

De: Sul21

Cerca de quarenta pessoas participaram neste sábado (22), em Porto Alegre, de uma marcha que pedia intervenção militar no país. No ano em que se completa 50 anos do golpe que instalou uma ditadura no Brasil, diversas cidades receberam atos pedindo o retorno das forças armadas ao poder. O evento foi intitulado Marcha da Família com Deus pela Liberdade — o mesmo nome da marcha que antecedeu a derrubada de João Goulart em 1964.

Na capital gaúcha, dentre os presentes estavam cerca de dez homens de cabelo raspado e jaquetas pretas. Em uma delas, podia-se ler a palavra “Carecas” com uma bandeira do Brasil embaixo, provável alusão ao grupo skinhead Carecas do Brasil, que atua no Rio de Janeiro. O cartunista Carlos Latuff foi hostilizado por eles ao fotografar o grupo. De acordo com ele, os homens o ameaçaram e também tentaram impedir outra jornalista e um cinegrafista de captarem imagens suas.
Em contrapartida, cerca de 30 pessoas saíram do assentamento urbano Utopia e Luta para realizar uma contra-marcha em frente ao Comando Militar do Sul, local onde a manifestação foi encerrada. O ato que pedia a intervenção militar saiu da frente da Prefeitura por volta das 15h, e era composto principalmente por adultos e idosos de classe média e alta. A marcha não teve acompanhamento policial.
Foto: Carlos Latuff
Manifestantes adultos e idosos se reuniram no centro de Porto Alegre | Foto: Carlos Latuff
Foto: Carlos Latuff
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Marcha terminou em frente ao Comando Militar do Sul | Foto: Carlos Latuff
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Manifestante critica governo federal | Foto: Carlos Latuff
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Uma das faixas ligava o governo PT com o comunismo | Foto: Carlos Latuff

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Pequeno grupo não queria ser fotografado. À direita, homem com a palavra “Carecas” na jaqueta | Foto: Carlos Latuff

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Eles ameaçaram o cartunista, que fotografou o grupo | Foto: Carlos Latuff

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

As balas da ditadura contra a direção do PCdoB

De: Vermelho

No livro que produziu para a Fundação Maurício Grabois em 2012 – Vidas, veredas: paixão – o escritor e jornalista paranaense Luiz Manfredini dedicou todo um capítulo ao dramático episódio conhecido como Chacina da Lapa. O relato, que segue abaixo, começa numa residência em Pequim, onde estavam hospedados João Amazonas, Renato Rabelo e Dynéas Aguiar.

 
Chacina da Lapa, SP, 16 de dezembro de 1976.

Há 37 anos a ditadura militar brasileira cometia sua derradeira atrocidade: invadiu uma casa no bairro paulistano da Lapa, onde se reunia parte da direção nacional do PCdoB. Do violento ataque restaram mortos o histórico dirigente comunista Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, um dos comandantes da guerrilha do Araguaia. João Batista Drumond, jovem dirigente vindo da Ação Popular, foi assassinado sob tortura já no dia seguinte. E foram presos Aldo Arantes, Haroldo Lima, Wladimir Pomar, Elza Monnerat, Joaquim Celso de Lima e Maria Trindade.

Tristeza na primavera de Pequim

Na manhã de final de primavera em Pequim, 17 de dezembro de 1976, um dirigente do Comitê Central do Partido Comunista Chinês (PCCh) compareceu inesperadamente à casa em que estavam hospedados três importantes visitantes estrangeiros: João Amazonas, Dynéas Aguiar e Renato Rabelo, dirigentes do Partido Comunista do Brasil. A fisionomia grave com que encarou os camaradas brasileiros superava a habitual formalidade chinesa. Foi direto ao ponto: a agência noticiosa chinesa divulgara havia pouco que a polícia invadira a casa em que se reunia o Comitê Central do PCdoB, num bairro de São Paulo. Havia mortos e presos.

João Amazonas, o único entre os três a conhecer o endereço, o confirmou: Rua Pio XI, 767, no bairro da Lapa, onde habitualmente se reunia a direção nacional do Partido. O número total de baixas e as respectivas identificações ainda estavam confusos no despacho da agência chinesa.

O dirigente chinês, respeitoso e compungido, apresentou aos brasileiros as condolências e a solidariedade do PCCh, retirando-se em seguida. Na sala ficaram os brasileiros com sua dor.

***

Aldo Arantes descia as escadarias da estação Paraíso do metrô quando um grupo de policiais que pareceu surgir do nada lhe caiu em cima, aos berros e trambolhões, sem lhe dar chance de reação. Passava das dez da noite do dia 15 de dezembro de 1976. Encapuzado, lançado no chão de um carro, ali mesmo começou a apanhar.

Menos de uma hora antes Aldo e Haroldo Lima haviam desembarcado nas proximidades do Ibirapuera de um carro do qual a marca, o modelo e a cor não conheciam, porque vendados. Recém terminara a reunião do Comitê Central do PCdoB e ambos compunham uma das duplas que, a intervalos, deixariam a casa onde ocorrera o encontro ultrassecreto. Antes haviam saído João Batista Drummond e Wladimir Pomar. Os próximos, Jover Telles e José Novaes, sairiam na madrugada seguinte, conduzidos pelo motorista Joaquim Lima e por Elza Monnerat, integrante do Comitê Central e participante da Guerrilha do Araguaia, encarregada do transporte dos participantes da reunião. Na casa restaria o histórico dirigente Pedro Pomar, Ângelo Arroyo, um dos comandantes do Araguaia, e Maria Trindade, que lá morava e ajudava na infraestrutura.

João Batista Drummond e Wladimir Pomar foram presos na região da Avenida Nove de Julho, logo após desembarcarem do mesmo carro em que, horas depois, viajariam Aldo Arantes e Haroldo Lima. Este foi seguido até em casa e preso na manhã do dia seguinte. A dupla Jover Telles e José Novaes saiu ilesa, mas não Elza Monnerat e o motorista Joaquim Celso de Lima, presos após deixá-los em algum ponto da cidade. Na manhã seguinte, 16, a casa da Rua Pio XI foi atacada por uma força descomunal de policiais e militares fortemente armados. Cobriram-na de balas, matando Pedro Pomar e Ângelo Arroyo. Maria Trindade, militante que ali morava, foi presa.

As reuniões do Comitê Central, realizadas a cada seis meses, eram cercadas de medidas extremas de segurança. Contavam sempre com apenas metade dos seus membros, que se revezavam, de modo que ao menos uma parte da direção restasse a salvo de eventual ataque repressivo. Os membros, apanhados sempre à noite em locais da cidade combinados com pouca antecedência, seguiam vendados até o local da reunião e assim permaneciam até que o carro estacionasse numa garagem fechada, com entrada direta para a casa. Os procedimentos durante a reunião eram rigorosos. Nenhum vizinho deveria suspeitar do encontro, razão pela qual a regra do silêncio era absoluta na sala com portas e janelas cerradas. Nenhuma voz elevada, nenhum debate veemente, nenhum cumprimento efusivo, nenhum movimento que resultasse em ruídos. Para todos os efeitos ali morava um casal de idosos – João Amazonas e Elza Monnerat – e os empregados Joaquim e Maria. Tudo bastante convencional.

Mas nada disso resistiu ao que de pior poderia acontecer: a existência de um traidor entre os dirigentes ali reunidos. Jover Telles, baseado no Rio de Janeiro, havia sido preso três meses antes, sem que ninguém soubesse, e negociado com a polícia. Em troca do bom tratamento, da liberdade e de algumas vantagens, entregaria a reunião do Comitê Central do Partido. Foi o que fez. Levou a repressão ao ponto onde seria apanhado para a reunião. E a polícia armou seu plano de ataque. Durante os dias em que esteve reunido com seus camaradas, Jover portou-se como se nada de anormal houvesse ocorrido.

O único dos participantes da reunião que escapou, fora o próprio Jover, foi José Novaes, que teve a sorte de sair da casa em dupla com o traidor, poupado pela polícia. Jover desapareceu antes mesmo que raiasse o dia 16 de dezembro. Somente tempos depois investigações revelaram sua traição.

As torturas começaram já após as prisões, no DOI-Codi da tristemente famosa Rua Tutóia. João Batista Drummond não resistiu e morreu horas depois. Aldo, Haroldo, Elza Monnerat e Wladimir Pomar (filho de Pedro Pomar) foram transferidos para o Rio, na madrugada do dia 17 de dezembro, onde as sevícias, sob os mais perversos requintes, se prolongaram por dias a fio no macabro quartel da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca. Notório centro de torturas da ditadura, lá Aldo Arantes ouviu o que jamais abandonaria sua memória e que lhe vem frequentemente como pesadelo: certa madrugada foi acordado pelos gritos lancinantes de um homem adulto que, massacrado pelo suplício, suplicava pela mãe, não por Deus, não pelo pai, mas pela mãe. Na madrugada de terror, aquele clamor agônico: “Mãe! Mãe! Mãe”.

De volta a São Paulo, continuaram a ser torturados no DOPS e no DOI-Codi, até serem transferidos para o presídio do Hipódromo e, depois, para o do Barro Branco.

Haroldo e Aldo foram condenados a cinco anos de prisão. À pena de Haroldo somaram-se mais cinco anos de um processo anterior. Mas foram libertados bem antes, no segundo semestre de 1979, com a anistia.

***

No dia seguinte às prisões, ainda no DOPS paulista, um policial olhou fixamente Haroldo Lima, cara a cara e, com satisfeita gravidade, quase soletrando as palavras, como se as degustasse, disse:

– Comunico-lhe que o seu PCdoB acabou.

Era o tom oficial: a liquidação do Partido. Nesse dia, 17 de dezembro, um jornal mancheteava: "O PCdoB foi destruído" – e foi seguido pelo restante da mídia.

Em Pequim, João Amazonas, Dynéas Aguiar e Renato Rabelo sabiam que o Partido não fora liquidado, mas a ditadura havia atingido – e muito gravemente – sua cabeça. O Comitê Central estava pulverizado, seus membros no Brasil ou se encontravam mortos, ou presos ou desarticulados. Urgia, portanto, recompor a vanguarda partidária, o que implicava, em primeiro lugar, reunir numa direção provisória os dirigentes que se encontravam no exterior. Aos três de Pequim, se somaria Diógenes Arruda, exilado na França, Nelson Levi, que morava em Portugal, e Dynéas Aguiar, que fazia a ponte Buenos Aires/Paris.

A primeira iniciativa foi assegurar a edição mensal da A Classe Operária, cuja matriz era enviada a alguns contatos no Brasil, para reprodução, e também para a rádio Tirana, onde era veiculada no programa diário em língua portuguesa. Este era o único vínculo da direção provisória com pelo menos parte das bases partidárias espalhadas pelo país e sem ligação entre si. Em seguida, o desafio era localizar dirigentes no Brasil, na perspectiva de reorganizar o Partido a partir da realização de uma conferência nacional.

Dynéas ocupou-se dessa tarefa. Fora do Brasil desde 1972, para articular na América Latina a solidariedade à luta do povo brasileiro e difundir a Guerrilha do Araguaia, voltou a Buenos Aires, onde ainda residia e, a partir de lá, começou a recompor sua rede de contatos. Trabalho difícil e cuidadoso. Não conhecia boa parte dos dirigentes, muitos dos quais vindos ao Partido após a incorporação da AP. Ademais, não se sabia ainda o que havia ocorrido, de fato, na casa da Lapa, nem mesmo quantos estavam presos. Havia especulações, a mais dramática delas sobre possível infiltração. Assim, com extrema cautela, os contatos começaram a ser feitos, primeiro no Rio Grande do Sul, depois em São Paulo e, a partir daí, com Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Um contato puxando o outro, tudo vagaroso, arrastado, porque em meio a rigorosas precauções.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Pela 1º vez, coronel Brilhante Ustra será confrontado com ex-presos políticos em audiência

Ação protocolada pelo Ministério Público Federal acusa militar e delegados de polícia de sequestro e cárcere privado de Edgar Aquino Duarte, desaparecido até os dias de hoje
por Fausto Macedo e Mateus Coutinho 
Pela primeira vez, o coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra e outros dois agentes da repressão durante a ditadura militar (1964-85) serão confrontados com testemunhas de um crime ocorrido no período ditatorial. A 9ª Vara Criminal da Justiça Federal de São Paulo realizará audiências, nos dias 9, 10 e 11 para ouvir as testemunhas de acusação do desaparecimento de Edgar Aquino Duarte, em 1973.
Além de Ustra, também são réus na ação protocolada pelo Ministério Público Federal os delegados de polícia Alcides Singillo e Carlos Alberto Augusto. Os réus são acusados pelo Ministério Público Federal de sequestro e cárcere privado de Edgar que, segundo o MPF, não tinha envolvimento com a resistência ao regime militar.
Na audiência, serão ouvidos o advogado do desaparecido e sete ex-presos políticos que testemunharam o sequestro de Edgar Aquino Duarte inicialmente nas dependências do Destacamento de Operações Internas do II Exército (DOI-Codi) e depois no Departamento de Ordem Política e Social (DEOPS), ambos em São Paulo, entre 1971 e 1973.
O coronel reformado do Exercito Carlos Alberto Brilhante Ustra em depoimento para a
Comissão da Verdade em maio deste ano. Foto: Dida Sampaio/Estadão


As audiências serão conduzidas pelo juiz titular da 9ª Vara Criminal, Hélio Egydio Nogueira. A denúncia do MPF foi recebida pela Justiça Federal em outubro de 2012, e ratificada no mesmo mês.  Ao aceitar a denúncia, a 9ª Vara entendeu que a Lei da Anistia não se aplica ao caso do desaparecimento de Edgar de Aquino Duarte porque seu sequestro “se prolonga até hoje, somente cessando quando a vítima for libertada, se estiver viva, ou seus restos mortais forem encontrados”, afirmou o documento da Justiça.

Durante as investigações, os procuradores afirmam ter encontrado documentos do II Exército que atestam que Edgar de Aquino Duarte foi preso, que ele não pertencia a nenhuma organização política e que de fato atuava como corretor de valores. Segundo o MPF,  os próprios órgãos de repressão chegaram a reconhecer que Edgar não tinha qualquer envolvimento com a resistência ao regime ditatorial.

Sequestro. Edgar Aquino Duarte ficou preso ilegalmente, primeiramente nas dependências do Destacamento de Operações Internas do II Exército (Doi-Codi) e depois no Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops-SP), até meados de 1973. Nascido em 1941, no interior de Pernambuco, tornou-se fuzileiro naval e membro da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil. Em 1964, logo após o golpe militar, foi expulso das Forças Armadas, acusado de oposição ao regime ditatorial. Exilou-se no México, depois em Cuba e só voltou ao Brasil em 1968, quando passou a viver em São Paulo com o falso nome de Ivan Marques Lemos.

Nessa época, Duarte montou uma imobiliária e depois passou a trabalhar como corretor da Bolsa de Valores, atividade que exerceu até ser sequestrado. No final da década de 70, encontrou-se com um antigo colega da Marinha, José Anselmo dos Santos, o “Cabo Anselmo”, que havia acabado de retornar de Cuba. Os antigos companheiros acabaram dividindo um apartamento no centro de São Paulo, até que Cabo Anselmo foi detido e cooptado pelo regime. Há suspeitas de que Duarte foi sequestrado apenas porque conhecia a verdadeira identidade do Cabo Anselmo, que passara a atuar como informante dos órgãos de repressão.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Estamos exumando a Operação Condor, diz Maria do Rosário

Em entrevista à Carta Maior a ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, assegura que a exumação é só um dos passos.


@DarioPignotti
Arquivo
Brasília - “Estamos exumando a Operação Condor”. Para a ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, o desenterro do presidente João Goulart abre as entranhas de uma “rede terrorista internacional na qual a ditadura brasileira teve uma participação importante, a exumação do presidente Goulart nos aproximará da verdade do acontecido durante essa perseguição que durou anos. Sabemos que a Operação Condor o seguiu na Argentina, que o seguiu no Uruguai, que a ditadura brasileira o hostilizou até o dia de sua morte. E não descartamos que a ditadura tenha estado envolvida em uma morte cercada de dúvidas”.

“Contamos com informações consistentes sobre o interesse prioritário que a ditadura e a Operação Condor tinham em Goulart, que nunca pode voltar com vida ao seu país. Depois de 37 anos, o governo da presidenta Dilma está realizando uma reparação histórica com a democracia brasileira e com seus familiares, que foram os que nos solicitaram a exumação por duvidar de seu envenenamento”.

Em entrevista à Carta Maior a ministra Maria do Rosário assegura que “a exumação é só um dos passos, dado que nosso trabalho junto à família e à Comissão da Verdade começou há um longo tempo, quando a presidenta Dilma nos encomendou dar prioridade ao esclarecimento da morte”.

A retirada do corpo será realizada nesta quarta-feira (13) no cemitério Jardim da Paz, de São Borja, que hoje foi monitorado por funcionários encabeçados por Nadine Borges, da Equipe de Trabalho ad hoc, criada pela Secretaria de Direitos Humanos, familiares de Goulart e pela Policia Federal.

Posteriormente os restos irão à Brasília, onde será recebido pela presidenta Dilma.

“O corpo terá honras de Estado, que é a homenagem que um presidente merece, coisa que deveria ter acontecido há 37 anos, ocorre hoje sob um governo democrático que está demostrando, com fatos, seu compromisso com a verdade e a reparação” afirmou Maria do Rosário.
 
-E se os estudos demonstram que não foi envenenado?

- Devemos esperar sem urgência o resultado dos exames, em laboratórios internacionais, em um corpo que sofreu os efeitos da passagem de 37 anos. Não podemos esperar que os laboratórios deem um parecer conclusivo, talvez não consigam e, nesse caso, ficará sempre a dúvida do envenenamento. Do que não resta dúvida é de que a ditadura e a Operação Condor o hostilizaram durante os doze anos que teve que viver no exilio. Que a ditadura não lhe permitiu retornar ao seu país como ele queria”.

“Há 37 anos a família pediu permissão - e não o obteve - para que o presidente fosse levado para Brasília, como correspondia. Ou seja, que uma ditadura ilegítima proibiu que o corpo de um ex-presidente eleito seja recebido na capital e também proibiu que fosse feita uma autopsia, algo que também é muito sugestivo” lembra Maria do Rosário

Eduardo Frei e Arafat

A revelação de que o ex-presidente chileno Eduardo Frei foi vítima de uma intoxicação urdida pelo regime de Pinochet “foi um caso que estudamos bastante, porque as ditaduras do Chile e do Brasil utilizaram métodos semelhantes e seus aparatos de repressão estavam em contato para coordenar tarefas”, afirma a ministra.

Depois comenta que os casos de Frei e, mais recentemente, do líder palestino Yasser Arafat, demonstram que os envenenamentos foram uma das técnicas utilizadas pelo terrorismo de Estado para eliminar seus inimigos sem deixar pistas por muitos anos.

“Inclusive – agrega - alguns dos peritos internacionais que já se encontram em São Borja estudaram como foi realizada a exumação de Eduardo Frei e os estudos posteriores que lhe realizaram.

Estoque de memória

São Borja amanheceu ensolarada na terça-feira, depois da tormenta de segunda-feira, e “invadida” por repórteres e funcionários que alteram a rotina bucólica dessa cidade de pouco mais de 60 mil habitantes, ruas estreitas e sem pretensões, onde sobressaem dois museus importantes: dedicados aos ex-presidentes João Goulart e Getúlio Vargas.

“Poucas cidades tem dois presidentes como nós em São Borja, somos uma cidade pequena, mas com muitos filhos célebres que sempre são lembrados, aqui temos um bom estoque de memória” me conta o taxista Jango, no caminho que vai da simples estação rodoviária ao centro da cidade, onde chegam raros voos comerciais.

Com camisa vermelha, do Internacional de Porto Alegre, o taxista Jango, de uns 55 anos de idade afirma que, em 1976, foi um de milhares de cidadãos que tomaram as ruas para acompanhar o cortejo fúnebre do ex-presidente Goulart. “Isto era um mar de gente, toda a avenida Vargas estava cheia, a igreja cheia, todo o mundo estava na rua”.

Goulart havia falecido em sua fazenda da província argentina de Corrientes, onde um médico pediatra lavrou uma certidão de óbito, dizendo que a causa foi uma parada cardíaca.

Eminência cubana
 
“Para nós, da família do presidente Goulart, sua morte provavelmente teve como causa um possível envenenamento que terá que ser estudado agora pelos laboratórios que recebam as amostras, que serão recolhidas amanhã” declarou à Carta Maior João Marcelo, neto do líder trabalhista.

“Nós estamos vivendo um momento de muita dor, de grande tensão e ao mesmo tempo de expectativa pela exumação”, comentou antes de ir ao Cemitério Jardim da Paz, onde repousam os restos.

Médico graduado em Cuba, Joao Marcelo contou conhecer muito bem o currículo do doutor Jorge González Pérez, reitor da Universidade de Ciências Médicas de La Habana, que integra a comitiva de especialistas internacionais convidados para vistoriar a exumação.

González Pérez, “é uma eminencia científica internacional, tem um grande prestígio por sua formação, reforçada por sua experiência em trabalhos de campo, como o que fez na Bolívia com o descobrimento e reconhecimento dos restos do Che Guevara”.