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sábado, 16 de setembro de 2017

Os desafios cruciais da era Uber

De: Outras Palavras

170710-Bosch2
Como evitar que sejamos todos obrigados a leiloar nosso trabalho, por preços e condições cada vez rebaixadas? Criando plataformas alternativas? Ou exigindo ação do Estado?
Por Frank Pascuale, no Boston Review of Books | Tradução: Inês Castilho | Imagem: Hieronymus Bosch, Inferno, 1490 (detalhe)
__Resenha de dois livros:

Platform Capitalism
Nick Srnicek
Polity Books, $49.95 (cloth), $12.95 (paper)
Ours to Hack and to Own
Trebor Scholz and Nathan Schneider
OR Books, $17 (paper)
__
Imagine acordar todo dia aflito por ver se venceu o leilão pra fazer seu trabalho. Na noite anterior, você se inscreveu numa plataforma de trabalho – um site tipo TaskRabbit [em que profissionais oferecem serviços eventuais, sem nenhum direito ou vínculo empregatício] – e por precaução pediu uma remuneração relativamente modesta, ao mesmo tempo em que concordava com uma lista de regras impostas pelos patrões. Qualquer pessoa ao redor do mundo pode concorrer ao emprego. Você espera que seu desempenho no passado lhe dê vantagens suficientes sobre concorrentes menores para justificar a continuidade do seu emprego. Mas você nunca sabe.
Para profissionais estabelecidos, esse cenário soará um pesadelo: a série distópica Black Mirror encontra-se o evangelismo do “direito ao trabalho”. Mas muitos trabalhadores já enfrentam alguma coisa desse tipo. A falsa presunção do “emprego à vontade” – que permite a demissão de trabalhadores “por qualquer razão, ou sem razão nenhuma”, como estabeleceram diversos tribunais – deixa um vasto número de assalariados vulneráveis à súbita rescisão do emprego. Globalmente, a precariedade laboral é muito comum, especialmente para os 60% da população mundial que vivem com menos de 5 dólares por dia.
É claro que há gestores e trabalhadores muito bem avaliados, a quem as empresas tendem a tratar bem. Os sindicatos também barganharam para proteger seus membros de exploração e tratamento arbitrário, e até para exercer algum controle sobre o ritmo enatureza do trabalho. Contudo, plataformas de trabalho como a Uber, a TaskRabbit e a Mechanical Turk, da Amazon tornaram-se sinônimos de trabalhos atomizados em pequenas tarefas. Elas podem muito bem ser o futuro de “recursos humanos”, prometendo a pessoa certa para o emprego certo pelo tempo certo – e não mais. O excelente What’s Yours Is Mine (2015) (Uberização: a nova onda do trabalho precarizado, a ser lançado em outubro, pela Editora Elefante) mostra em detalhes como essas plataformas usaram uma combinação de relações públicas, lobby e táticas agressivas de negócios para abrir seu caminho para o trabalho organizado parecer como o próximo passo na evolução dos negócios. Eles agora estão inspirando outras empresas a desenvolver plataformas internas para organizar o trabalho, inclusive deixando para os algorítmos a admissão de novos empregados e a avaliação dos atuais.
Tanto ativistas como acadêmicos criticaram a “plataformização” como um avanço a mais do poder empresarial sobre os trabalhadores. Mas haverá aqui algum potencial emancipatório, seja para os trabalhadores demandarem melhor pagamento e condições, ou para tomarem as plataformas para si mesmos”? Dois livros recentes jogam luz sobre essa questão e tratam da sustentabilidade da “economia dos bicos” [“gig economy”]. Em Platform Capitalism (“Capitalismo de plataforma”, em tradução livre), o pensador social Nick Srnicek detalha as tendências econômicas que aceleraram o crescimento das plataformas e prevê para onde elas devem ir a partir daqui. Ours to Hack and to Own (“Para hackear e Possuir”, em tradução livre), uma coleção, convida dezenas de pensadores e ativistas a refletir sobre como a forma de cooperativa – que capacita os trabalhadores a governar seus locais de trabalho – poderia humanizar o trabalho organizado digitalmente. Ambos os livros destacam como a tecnologia torna viáveis as plataformas e por que elas promovem a exploração. Também indagam e se o ativismo trabalhista poderia melhorar esses novos empreiteiros digitais.
Uma florescente literatura de negócios utiliza o termo “plataforma” genericamente, designando assim um amplo conjunto de empresas bem sucedidas. A teoria crítica de Srnicek foca no papel das plataformas como intermediárias, que abocanham parte das transações de terceiros e usam os dados coletados a partir dessas interações para antecipar as tendências de negócios. “Ao proporcionar um espaço digital para outros interagirem”, explica Srnicek, “as plataformas posicionam-se de modo a extrair dados”. Dando consistência a essa definição abstrata, Srnicek examina as características particulares de cinco tipos de plataformas:
Tipo de Platforma
Exemplos
Função Princial
Plataformas de PublicidadeGoogle, FacebookAnúncios
Platformas de NuvemAmazon Web Services; SalesForceProgramas e Computadores usados para negócios digitais
Plataformas IndustriaisGE, SiemensProgramas e Computadores para acelerar a racionalização e monitoramento da atividade industrial
Platformas de ProdutosSpotifyTransformam bens tradicionais em serviços e captam dinheiro de assinaturas
Plataformas de BicosUber, AirbnbEvitam possuir ativos críticos e transferem riscos a compradores e vendedores
As plataformas agem como o governo de um certo mercado, e suas taxas podem ser vistas como impostos sobre os participantes, para os quais elas providenciam pedidos, divulgação e outros serviços. Como os Estados, cuja meta é o monopólio do uso legítimo da força, as plataformas aspiram a um monopólio comercial no “espaço” que consideram próprio. Graças a economias de escopo e escala, um grande fornecedor de bens expõe-se a muito menos riscos de ser prejudicado por outros fornecedores, a partir do momento em que atinge uma certa massa crítica. Uma nova plataforma de vendas de varejo, por exemplo, pode cobrar dos comerciantes uma comissão menor do que a da Amazon. Mas por que um vendedor perderia tempo montando uma loja na plataforma iniciate, quando não tem a menor garantia de que os clientes aparecerão?
Conscientes da impossibilidade, muitas start-ups potenciais nem mesmo tentam destruir gigantes digitais. Quem o faz podem aprender do modo mais difícil que tentar capturar até mesmo um pequeno nicho do império das megaplataformas pode provocar uma retaliação esmagadora. Por exemplo, o varejista online Diapers.com, de cuidados com o bebê, entrou na mira da Amazon logo que se tornou moderadamente bem sucedido. Embora tenha tentado competir no início, mais tarde cedeu, tornando-se mais uma parte do império empresarial de Jeff Bezos.
Esse padrão tende a se repetir, à medida em que a economia digital se consolidar. Os investidores estão tratando o “Stories”, do Facebook, como um matador do Snapchat. Bastou que a Amazon registrasse uma marca para entrega de kit-refeições para provocar a queda das ações da rival Blue Apron. A concentração na indústria financeira acelera essas tendências: investidores institucionais possuem 80% de todas as ações das 500 corporações que compõem o índice Standard & Poors. Significa que basta o pânico de alguns gestores de fundos para provocar uma fuga de capitais das pequenas empresas, em direção às gigantes que, é previsível, vão se tornar seus predadores.
Esse comportamento cria mais uma vantagem para grandes plataformas. Ele reduz o custo do capital usado para investir em capital ou assumir o controle de outras firmas. As megaplataformas adquirem rivais em ritmo veloz. Usam seu domínio de dados como alavanca para gerar grandes lucros; e estes ganhos transformam-se em maior dominação dos mercados publicitários. É a dinâmica do autorreforço: mais dados significam melhores resultados e mais serviços direcionados, que por sua vez atraem uma base maior de clientes — o que oferece oportunidades ainda melhores de coletar dados. Uma vez que uma massa crítica de usuários está capturada, a plataforma dominante pode abocanhar uma fatia maior dos ganhos tanto do consumidor como do produtor. Por exemplo, sob pressão de investidores, interessados em reduzir suas perdas operacionais, a Uber aumentou a porcentagem que cobra dos motoristas e reduziu a remuneração de parte deles, com base em avaliações algorítmicas sobre suas habilidades. O mesmo modelo está agora afetando os serviços do Google (à medida em que os anúncios escondem outras informações), e as políticas de privacidade do Facebook (que se tornam mais notoriamente parciais à medida que se expande a dominação desta rede social).
Mas embora o Facebook saiba muito bem o que a maioria de seus usuários não está a ponto de deixá-lo, passando a postar fotos de bebês e convites para festas de aniversário no LinkedIn, Srnicek prevê alguns problemas no caminho das grandes plataformas. Ele acredita que elas irão lutar cada vez mais no território umas das outras, tentando roubar clientes em busca do santo graal do captador de dados: perfis perfeitos de qualquer pessoa ou entidade, o que possibilita previsões precisas de quanto exatamente ele/ela está querendo pagar por um bem ou serviço. As batalhas sobre dados e propriedade de algorítimos também se intensificarão. As acusações da Google de que a Uber roubou tecnologias altamente secretas carros sem motorista mostra quão feroz pode tornar-se essa competição.
A grande questão relacionada às “guerras de plataforma” é se elas irão enfraquecer suficientemente essas megacorporações para que novas se infiltrem – ou apenas acelerar o desenvolvimento, no Ocidente, de algo como a megaplataforma da China, WeChat. Como explica Connie Chan, o WeChat possibilita aos usuários “chamar um taxi, pedir entrega de comida, comprar ingressos de cinema, jogar games, fazer o check in de um voo, mandar dinheiro para amigos, acessar monitores de atividade física, agendar consulta com médico, acessar dados bancários, pagar a conta d’água, reconhecer músicas, buscar um livro na livraria local, encontrar estrangeiros perto de você, acompanhar notícias de celebridades, ler artigos de revistas e ainda doar para obras de caridade” — tudo em um aplicativo. Imagine, digamos, a fusão da Microsof, Apple, Google e Amazon em uma enorme empresa (MAGA), pronta a eliminar os últimos reminiscentes da economia compartilhada, em uma “economia da ocupação”. Tal empresa poderia exercer um poder enorme: com acesso sem precedentes aos consumidores, seria um ator indispensável e poderia usar essa posição de poder para forçar grandes barganhas com outras empresas. Por outro lado, se esses Golias não se fundirem ou cooperarem, acabarão perdendo muito tempo lutando entre si; Então os Davis, ainda que almejem uma pequena fatia de participação no mercado, poderão alcançá-los.
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Mas seriam as pequenas plataformas de alguma forma melhores que as gigantes — que agora sugam dados, oportunidades e lucros para o último titã pantagruélico do capitalismo? Em trabalho anterior com Alex Williams, Srnicek duvidou da eficácia de intervenções locais, de pequena escala, para mudar para melhor a política ou a economia. Eram de opinião de que a “política das bases” horizontalista, do tipo Occupy, faz pouco para humanizar padrões globais de exploração e subordinação. Srnicek e William também não tinham muita fé na força das moedas locais ou da produção em pequena escala para disputar com conglomerados multinacionais.
Em Platform Capitalism, Srnicek acredita que a plataformatização é um bom presságio para o localismo. Ele argumenta que, ao invés de tentar construir mais alternativas cooperativas às plataformas, a esquerda deveria tentar regular os gigantes (e até mesmo considerar sua nacionalização):
Alguns argumentam que precisamos lutar contra essas tendências monopolísticas construindo plataformas cooperativas. No entanto, todos os problemas tradicionais das cooperativas agravaram-se devido à natureza monopolista das plataformas… O Estado, em contraste, tem o poder de controlar plataformas. Decisões antitruste podem romper os monopólios, os regulamentos locais podem prevenir ou mesmo proibir as plataformas exploradoras, as agências governamentais podem impor novos controles de privacidade e ações coordenadas contra a evasão fiscal podem devolver às mãos públicas o controle sobre o capital. Ao invés de apenas regular plataformas corporativas, deveriam ser feitos esforços para criar plataformas públicas – plataformas cuja propriedade e controle são da sociedade. (E, ressalte-se, independentes do aparato de vigilância do Estado.)… Talvez hoje devamos coletivizar as plataformas.
Mas enquato Srnicek acredita que as plataformas cooperativas estão condenadas de saída, Ours to Hack and to Own apresenta várias cooperativas de consumo, produção, trabalho e mistas que se tornaram estáveis e bem sucedidas. A relação inclui o Stocksy (um banco de dados coletivo de fotógrafos, que vende permissão para o uso das imagens) e o Fairmondo (um mercado online alemão de propriedade de seus usuários, com um conselho de administração eleito por seus empregados).
Ainda assim, a escala é uma vantagem poderosa. O Fairmondo oferece mais de 2 milhões de itens para venda, muito menos que os 480 milhões disponíveis na Amaon. Como podem os cooperativistas de plataforma esperar que a população rompa seus hábitos de consumo, em favor de empresas que podem, ao menos em seu início, ser mais lentas e mais custosas?
Trebor Scholz e Nathan Schneider oferecem uma perspectiva prática e realista em Ours to Hack and to Own. Eles reconhecem que as “grandes companhias que reinam na internet não estão dominando apenas devido a uma boa ideia e um fundador carismático; elas crescem em ecossistemas que lhes dão suporte, incluindo investidores, advogados, governos simpáticos e escolas de tecnologia”. Com esse insight, as visões de Srnicek e as plaformas cooperativistas convergem. Se os governos tivessem, por exemplo, forçado megaempresas como Apple e Uber a pagar impostos, elas não teriam sua enorme vantagem sobre as novatas. A regulação ocupa um espaço entre o liberalismo total e a nacionalização; ambos os livros reconhecem seu valor.
O ensaio da socióloga digital Karen Gregory sobre escolas de produção de códigos, em Ours to Hack and to Own, oferece também uma avaliação realista sobre a relação entre os padrões de vida dos trabalhadores e seu poder. Karen argumenta: ainda que a capacidade de codificação seja democratizada por plataformas cooperativas, os trabalhadores ainda precisarão organizar-se para demandar uma parcela mais justa da receita da empresa. Além disso, a história do trabalho mostra o quão rapidamente experimentos nobres em governança trabalhista podem ficar deformados – pense, por exemplo, em como o capital assumiu controle sobre os fundos de pensão dos sindicatos, com ajuda de leis do Estado.
Claro: o que o Estado tira, ele também pode dar. Novas combinações de regulação e desregulação podem tornar o mundo de negócios mais seguro para plataformas de cooperação. Por exemplo, o SELC, Centro Legal de Economias Sustentáveis (Sustainable Economies Law Center, cuja fundadora Janelle Orsi é colaboradora de Ours to Hack and to Own) interveio numa batalha na Califórnia sobre a desregulamentação dos restaurantes. Chefes queriam servir refeições em suas próprias casas; decretos locais sobre serviços de alimentação frequentemente os impediam de fazê-lo. Se o Estado simplesmente oferecesse tal possibilidade, empresas como a OpenTable ou TaskRabbit poderiam tirar vantagem do repentino de mão de obra para tornar-se a plataforma para refeições feitas em casa. Mas o SELC está, ao contrário, pressionando por “uma legislação exigindo que qualquer web, no mercado da comida feita em casa, seja ou uma cooperativa, ou uma organização sem fins lucrativos“. Isso ajudaria a assegurar uma governança mais democrática sobre as plataformas de restaurantes domésticos, ou uma margem maior de rendimentos para cozinheiros e garçons (ao invés de capitalistas de risco, comerciantes e outros estrategistas generosamente pagos para ajudar as plataformas com fins de lucro).
Uma questão, contudo, continua aberta para os cooperativistas de plataforma, especialmente se elas passam a controlar um alto percentual de um dado mercado (seja local ou nacional). Quando terminam os direitos dos trabalhadores e começam as prerrogativas da comunidade? Por exemplo, imagine uma cooperativa de táxi bem sucedida, que desbanque o Uber e decida definir um piso para motoristas (com base, digamos, no custo do seguro, combustível e pagamento do carro para o motorista típico). As autoridades antitruste interviriam para forçar os motoristas a competir um com o outro? A própria ideia de motoristas independentes cooperativando-se para concordar em não trabalhar em certas condições, ou não aceitar salário abaixo de certo nível, conspira para manter altos os preços. Os cooperativistas da plataforma precisarão planejar cuidadosamente para evitar intervenções aqui.
Um precedente positivo para plataformas de cooperação podem ser os conselhos profissionais que definem as pessoas aptas a exercer profissões como Direito e Medicina. Os fundamentalistas de livre mercado há muito irritam-se com os padrões mínimos definidos por entidades quase-governamentais para a licença de médicos ou exigências de educação contínua para enfermeiras. Usaram a lei antitruste para tentar desmantelar políticas de autorização para exercício da profissão, argumentando que os médicos conspiram para excluir competidores. Para o ultraliberal fundamentalista, os pacientes merecem a liberdade de contratar charlatões, e o licenciamento médico é uma conspiração contra a liberdade. Felizmente, a Suprema Corte dos EUA não adotou essa abordagem e defendeu, ao contrário, que os regimes de licenciamento profissional são imunes de ataques de antitruste enquanto foram autorizados por governos do Estado e sujeitos a controle governamental ativo. Cortes e agências de regulação sensíveis poderiam ajudar a equilibrar os direitos e responsabilidades de ambos — trabalhadores e consumidores — quando as plataformas cooperativistas tornarem-se mais populares.
A regulação e jurisprudência resultantes podem tornar-se bem complexas. Mas obras como Platform Capitalism e Ours to Hack and to Own poderiam convencer os leitores atentos de que atual economia digital, precariamente regulada, não é sustentável. Sujeitar os assalariados a um leilão nacional (ou mesmo global) de salários e condições de trabalho, para ver quem oferece trabalho mais eficiente e barato, é uma receita de exaustão e pobreza. É também um prelúdio para a deflação e o colapso econômico, uma vez que o trabalho precário provoca um revival, no século 21, do paradoxo da poupança destrutiva, de Keynes. Por que deveríamos nos sujeitar ao risco de salários em constante declínio, insuficientes até para o consumo essencial? E à medida em que essa penúria se generalize, como evitar o encolhimento de economias inteiras?
Não sei como responder a essas questões – e suspeito que os paladinos da economia digital nem sequer começaram a lidar com elas. Mas as perspectivas sinistras que se esboçam no horizonte ressaltam a importância desses dois livros, que evidenciam os aspectos políticos do trabalho. Nem o capitalismo de plataforma nem o cooperativismo de plataforma são consequência inevitável de forças econômicas naturais. O equilíbrio relativo de cada depende de como aplicamos (ou mudamos) leis sobre impostos, trabalho, regulação, ação antitruste e outras. Um trabalho melhor é possível – mas apenas se o exigirmos coletivamente.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Refugos da Veja vão parar na IstoÉ

Por Renato Rovai, em seu blog:



Não são poucos os bons jornalistas que ainda trabalham na imprensa tradicional. Alguns, aliás, muito bons. Mas o fato é que o jornalismo brasileiro produzido nesses veículos há tempos já virou um fim de feira total.

Entre os motivos que produziram a ruína destaca-se a ocupação de espaços importantes por gente desqualificada. Entre esses, destacam-se Rodrigo Constantino e Marco Antônio Villa.

Ambos foram recentemente demitidos da Veja. Constantino, aliás, não só da Veja, mas também do jornal O Globo.

O serviço de xingamento no atacado a Dilma, Lula e ao PT já havia dado seus frutos. E ele, como bom laranja, foi descartado depois que o suco ficou pronto. Com Villa não foi diferente.

Mas eis que a revista IstoÉ anuncia a contratação de Constantino para iluminar suas páginas e comemorar os 40 anos de existência. E talvez, o último desses tantos anos, porque a revista está à beira da falência.

E não deve ficar só nisso. Na redação comenta-se que Villa também deve aportar por lá.

Antes a IstoÉ revelava talentos. Hoje, celebra refugos.

Refugos da Veja vão parar na IstoÉ

Por Renato Rovai, em seu blog:



Não são poucos os bons jornalistas que ainda trabalham na imprensa tradicional. Alguns, aliás, muito bons. Mas o fato é que o jornalismo brasileiro produzido nesses veículos há tempos já virou um fim de feira total.

Entre os motivos que produziram a ruína destaca-se a ocupação de espaços importantes por gente desqualificada. Entre esses, destacam-se Rodrigo Constantino e Marco Antônio Villa.

Ambos foram recentemente demitidos da Veja. Constantino, aliás, não só da Veja, mas também do jornal O Globo.

O serviço de xingamento no atacado a Dilma, Lula e ao PT já havia dado seus frutos. E ele, como bom laranja, foi descartado depois que o suco ficou pronto. Com Villa não foi diferente.

Mas eis que a revista IstoÉ anuncia a contratação de Constantino para iluminar suas páginas e comemorar os 40 anos de existência. E talvez, o último desses tantos anos, porque a revista está à beira da falência.

E não deve ficar só nisso. Na redação comenta-se que Villa também deve aportar por lá.

Antes a IstoÉ revelava talentos. Hoje, celebra refugos.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Editora (1º de) Abril começa a desmanchar acampamento

:

247 - Quem chegou para trabalhar na Editora Abril, nesta segunda-feira, teve uma surpresa. O busto do fundador do império, Victor Civita, não está mais na recepção do prédio, na Marginal Pinheiros.
O motivo: em crise financeira, a Abril devolveu metade do espaço para a Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, que é dona do empreendimento.
A Previ, agora, irá alugar o espaço para outros clientes corporativos e decidiu retirar o busto porque, aos poucos, a Abril se torna minoritária no local.
A crise financeira da Abril tem raízes tecnológicas (a migração do leitor para plataformas digitais) e econômicas (a disseminação de conteúdos gratuitos de qualidade), mas também editoriais.
Ao se engajar politicamente de forma inédita, tendo rodado milhares de exemplares da famosa capa de Veja 'Eles sabiam de tudo' para que a mesma fosse distribuída como um panfleto político, às vésperas de uma eleição presidencial, a Abril perdeu credibilidade e leitores – e ainda se viu forçada a publicar um direito de resposta no dia do voto.
Recentemente, a Abril anunciou o fechamento de revistas como a Info, que migrou para a plataforma digital. Cerca de 10 publicações foram transferidas para a Editora Caras. E os carros-chefe da editora, Veja e Exame, também vêm sofrendo cortes nas áreas editorial e comercial.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Nossa mídia e sua indignação seletiva


Tem muita coisa estranha acontecendo em curto espaço de tempo.
Até hoje não sabemos e acho que nunca saberemos quem é o dono do jatinho avaliado em 17 milhões do acidente que matou Eduardo Campos. E o mais curioso é a falta de interesse da velha mídia em querer saber.
Globo mandou o filho da Míriam Leitão para o Panamá para saber quem era o empregador de José Dirceu num hotel em Brasília, mas não colocou ninguém aqui para saber quem é o dono do jatinho?
O PSB não declarou ao TSE o uso do jatinho usado por Campos e Marina durante a campanha presidentcial e ficou tudo por isso mesmo e não vejo a velha mídia indignada.
Até hoje não sabemos e acho que nunca saberemos quem é o dono da quase meia tonelada de pasta base de cocaína apreendida em helicóptero de um político e não vejo a velha mídia preocupada em saber quem é o dono. E, pasme, o piloto do helicóptero não foi preso. Está solto. E não vejo a velha mídia indignada.
Delegados da PF da Operação Lava Jato foram flagrados cometendo mais de um crime: fazendo campanha para Aécio Neves, ofendendo a Presidente da República, a chefe deles, e xingando Lula e alguém vazou depoimentos que deveriam ser sigilosos para a revista Veja, para influenciar na eleição e influenciou . Não vejo ninguém da imprensa indignado com isso.

sábado, 2 de agosto de 2014

Sininho e o dia seguinte na Terra do Nunca.

Sininho como representação e o desencanto de uma geração adultescente que acreditou na inconsequência como ação de transformação revolucionária da realidade.
Não há como não se enternecer, de alguma forma, com a figura da personagem Sininho. Traz em si a figura da filha adolescente, frágil e radical.
Até o codinome – Sininho – lhe cai apropriadamente bem. Uma personagem que saiu da “Terra do Nunca” da internet e inspira a tropa dos “meninos perdidos” na sua tentativa de alcançar a utopia pela destruição do mundo real.
Sintomático dos dias atuais é que há Sininho e há meninos perdidos, mas não há um Peter Pan. Sininho é a líder dos meninos perdidos.
Mas Sininho é uma ficção. Não é professora, não é sindicalista, não é bailarina, não é socialite. É qualificada ora como “ativista”, ora como “produtora cultural”.
Seu cavalo, Elisa Quadros Sanzi, no entanto, chegou à casa dos trinta, muito provavelmente com formação superior e tendo recebido da família a estrutura necessária para ser, hoje, uma jovem adulta de quem se espera a consequência nas ações.  E a consequência é o que se espera de adultos, mesmo, e talvez principalmente, em ações que busquem a transformação da realidade.
O oposto disso é a principal característica do que chama “movimento” – a inconsequência.
Quem forma esse movimento?
Anarquistas de internet, carbonários anacrônicos, incendiários saídos da Academia ou de histórias em quadrinhos, punheteiros imberbes, a criminalidade comum e os oportunistas de toda ordem.
Isso forma um movimento?
Lênin – Vladimir Ilitch Ulianov, já dizia que batatas dentro de um saco formam um saco de batatas, mas não formam uma organização.
Pena que Sininho e seus amigos não tenham lido “Esquerdismo, doença infantil do comunismo”.
Teriam aprendido com um mestre revolucionário que a transformação do mundo se faz num passo-a-passo onde a revolução não é sequer o primeiro passo, quanto mais o último ou o fim.
A transformação do mundo não é nada divertida. Assemelha-se mais ao trabalho de operários.
Ao invés disso, Sininho e seus amigos retomaram o grito de “não sabemos o que queremos, mas sabemos o que não queremos”. E o que não queremos é o sistema – seja lá o que entendam como sendo “o sistema”.
Nada disso é novo. Quem empunhava essa bandeira aos dezoito anos hoje já está na terceira idade – é provavelmente um aposentado de 65 anos. Isso se sobreviveu a “sexo, drogas e rock and roll”.
Lutar contra o sistema traz em si um dilema a ser resolvido de antemão, quando não um paradoxo. Quando se destrói o sistema, algo deve ser colocado, ou se coloca por si próprio, em seu lugar. E, então, outro sistema se estabelece.
Essa é a lição de Lenin que Sininho e seus amigos não aprenderam.
Na Terra do Nunca não há dia seguinte, logo, não há um sistema a ser substituído por outro sistema. Mas Sininho e seus amigos não estão mais na Terra do Nunca, foram trazidos a força à terra dos homens.
Não admira que estejam todos sem chão diante da responsabilização judicial. O que esses “revolucionários” esperavam das forças da repressão, das forças do partido da ordem? Que se se limitassem a fazer a segurança do playground e os deixassem brincar em paz?
Interessante também é notar que essa geração é ingênua a ponto de não ter percebido o quanto a sua ilusão de transformação radical foi instrumentalizada pelo reacionarismo.
Serviram a quem interessava criar um ambiente de instabilidade que ajudasse a enfraquecer o governo da esquerda democrática para facilitar o retorno ao poder do conservadorismo.
Sininho e os meninos perdidos não são mais úteis a essas forças. Podem ser descartados.
Aprenderão da pior forma que o Judiciário é o lixeiro do sistema ao qual serviram pensando que o estavam combatendo.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Os problemas do Brasil me incomodam, mas o viralatismo me incomoda ainda mais

Gringos "provam" que problemas não são "só no Brasil" e também reclamam
Do UOL, em São Paulo

Fabiana Uchinaka
Só no Brasil... o transporte atrasa, não há táxis, a fila não anda, o aeroporto é uma bagunça, o ônibus é lotado. Só no Brasil existe burocracia, injustiça e corrupção. Só no Brasil tem protesto e confusão.
Reprodução/Facebook
Reportagem da revista The Economist fala sobre os problemas do Brasil
Só que... não.
Desde que o país do futebol virou o palco desta Copa do Mundo, a expressão virou o bordão dos brasileiros para reclamar dos problemas mais sérios --ou esdrúxulos-- que temos por aqui e para manifestar grandes doses de "vergonha" pelo mundo estar vendo nossas mazelas. Mas os comentários dos internautas de outros países nas redes sociais têm mostrado que não é bem assim.
A revista britânica The Economist publicou na terça-feira (10) o texto "Traffic and tempers" (algo como "trânsito e humores") no Facebook, que traz um relato do imbróglio que é circular por São Paulo na véspera do Mundial e diz que "no momento em que você aterrissa no Brasil você começa a perder tempo". Dezenas de gringos rebateram o artigo com frases que podem deixar alguns internautas canarinhos chocados:
"Parece quando você visita o departamento da Receita da Filadélfia [nos EUA] para pagar uma conta", diz o americano Sam Sherman.
"Há filas diárias por táxis no aeroporto Schiphol, em Amsterdã... E não é Copa do Mundo", conta Tatyana Cade.
"Cena diária do trajeto em Tóquio, exatamente como esta imagem", alerta Ryo Yagishita.
"Parece a Argentina, nada mais refrescante que viajar como gado depois de um longo dia de trabalho", descreve Pao Radeljak. "Me lembra Buenos Aires", completa Paola Scarlett.
Reprodução/Facebook
"A mesma coisa aconteceu com os brasileiros quando eles viajaram de Heathrow para Gatwick. O engarrafamento caótico de Londres [que sediou a última Olimpíada] também é mundialmente famoso. Depois, pense no eletricista inocente que foi morto por policiais justiceiros no metrô de Londres, que disseram que ele era terrorista [caso Jean Charles de Menezes]. Não é uma vergonha para um país desenvolvido reclamar do Brasil quando também tem problemas em seu país? Pense nos manifestantes em Londres, e na destruição por quatro dias alguns anos atrás. Então vira vergonha duplar", afirmou Naithirithi Chellappa.
"Para todos os brasileiros que reclamam de seu país: vocês deveriam tentar viver na Europa por um minuto. Sim, nós temos tudo regulado, mas as coisas estão cada vez mais nazistas. E falar sobre corrupção? Você acha que não acontece aqui? Aqui é tão desenvolvido que você nem vê, está muito escondido e tudo é feito por políticos e outros criminosos [daqui] fora da Europa", analisa o holandês Roas Metten. "A polícia é uma piada, eles não pegam criminosos, eles dão multas o dia todo."
Metten completa: "Os abraços e beijos que recebo em um mês no Brasil, não ganharia em dez anos na Europa. Então talvez as coisas aqui sejam melhores reguladas pelas leis e sistemas, mas é um inferno culturalmente e nas relações."
O espanhol Álvaro Munhoz tenta fazer uma análise mais ampla: "Para falar a verdade, se o número de pessoas que chega ao mesmo tempo excede a capacidade, a situação poderia acontecer em qualquer lugar do mundo."
Enquanto o internauta Leandro Cintra aproveitou para contar que recentemente levou 40 minutos para conseguir um táxi... em Nova York (EUA). E mais meia hora para entrar em um ônibus... em Fort Lauderdale (EUA). Já Wenderson Neves lembrou que a fila na imigração de Londres é de pelo menos duas horas com policiais muito pouco cordiais. 
A também britânica BBC perguntou em texto publicado na terça: "What is it like to live in a Favela?" (Como é viver numa favela?). E a internauta Adreane Bertumen prontamente respondeu: "Todo país, toda cidade tem a sua 'favela'. Gueto é gueto em todos os lugares. O Brasil não é o único".
Reprodução/Facebook
"Essas favelas não são nada comparadas às que temos em Nairóbi, no Quênia", diz Eric Murimi. "Venham ver Sodoma e Gomorra em Gana", convida Leroy Amankwa.
"Nos Estados Unidos, nós precisamos acordar e olhar ao redor. É difícil achar uma cidade que não tenha acampamentos de sem-teto por todo seu perímetro. Bem escondidos, mas estão cada vez maiores a cada ano. Não estamos em posição de jogar pedra em outros governo", ressalta Marie Lawson. "Nos EUA, temos guetos e estacionamentos de trailers", concorda Eric D Molino.

Tumblr ironiza "complexo de vira-lata"

Os problemas são gerais, mas talvez "só no Brasil" as pessoas se disponham a gastar tempo e paciência para criar uma página da internet só para isso. O pessoal do Tumblr "Só no Brazil" faz isso: pescar os desabafos nas redes sociais e provar que certas coisas não são privilégio nosso. 
Se você ainda não se convenceu, confira alguns exemplos abaixo.

Tumblr ironiza desabafos de brasileiros sobre problemas nacionais9 fotos

2 / 9
Só no Brazil Reprodução/sonobrazil.tumblr.com/

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Novos leitores: Mais uma tentativa de assassinato de reputação

por Luiz Carlos Azenha



Os blogueiros sujos resistiram firmemente a mais uma tentativa de assassinato de reputação. Esta, aparentemente coordenada internamente nas Organizações Globo.
Quem é leitor diário da blogosfera pode abandonar a leitura aqui, já que este artigo é para os milhares de novos leitores que nos procuram, segundos estatísticas de nossa audiência, em função de recentes — e falsas — acusações, que envolvem também o nome do Viomundo.
Os que acompanham mais de perto a disputa judicial entre o bravo blogueiro Luís Nassif e a revista Veja, da Editora Abril, da família Civita, sabem exatamente do que estou falando. Nassif teve a coragem de denunciar as falcatruas da revista em sua série sobre os métodos da publicação. O trabalho de Nassif foi confirmado mais tarde, quando a Polícia Federal desmontou a associação entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o senador Demóstenes Torres e aliados. Eles entregavam suas “produções” jornalísticas de bastidores, contra adversários, para a publicação da Abril.
As armações tinham o objetivo clássico da mídia empresarial brasileira: o “assassinato de reputação” com objetivos políticos, ideológicos ou comerciais. Tirar vantagem enfraquecendo os outros com denúncias falsas ou artificialmente turbinadas.
Ao deixar a TV Globo, mais tarde, em 2006, o hoje blogueiro Rodrigo Vianna, do Escrevinhador, teve a coragem de fazer o mesmo: denunciar publicamente a emissora. Foi dado por alguns como doido. Porém, abriu os olhos de uma pequena parcela da opinião pública e hoje há, sem medo de errar, dezenas de milhares de brasileiros capazes de identificar com clareza os métodos da cobertura política global, que foram modulados para evitar os casos de manipulação mais evidente — hoje rapidamente denunciáveis — e trabalhar a pauta do que é ou, principalmente, não é oferecido aos leitores, ouvintes e telespectadores das Organizações Globo, dando ênfase às notícias que interessam e escondendo as que não interessam.
Este é hoje o principal motivo de os blogueiros terem se tornado, eles próprios, alvos de contínuas tentativas de “assassinato de reputação” ou “destruição de caráter”.
Eles rompem o tabu dos assuntos proibidos, muitos dos quais envolvem as próprias empresas de mídia, o que ficou bem nítido no recente aniversário de 50 anos do golpe de 1964, por exemplo, aqui aqui.
Se você é um jovem leitor ou chegou recentemente a este espaço, calma! Sabemos que há muitas novidades para você no que escrevo. Despreocupe-se. Vá seguindo os links e acumulando informação. Eventualmente, você vai se dar conta do que lerá, verá e ouvirá repetidamente na blogosfera: a grande mídia tem lado, apesar de se dizer “neutra”, “isenta” e “imparcial”.
O lado dela ficou claro no golpe que instalou a ditadura militar em 1964. Com raríssimas exceções, que pagaram caro por isso, a mídia apoiou os golpistas que agiram com ajuda material dos Estados Unidos e censuraram, torturaram, mataram e sumiram com os corpos de adversários. Alguns dos donos da mídia se envolveram diretamente  na articulação golpista; outros deram publicidade ou apoio material a ações específicas da ditadura; muitos lucraram enormemente durante o período.
São, grosseiramente, os mesmos que sempre se opuseram a governos de caráter trabalhista ou popular, que chamam de “populistas”. Os mesmos que apoiam, sempre, governos elitistas voltados acima de tudo para o lucro das elites, sem que uma migalha sequer seja concedida aos de baixo, aos mais pobres, aos assalariados.

Entendeu agora o motivo de nos detonarem?
A ocasião mais recente foi a entrevista do ex-presidente Lula a blogueiros de esquerda, ou “progressistas”, por apoiarem uma série de medidas políticas e econômicas que representariam progresso social e material para os trabalhadores, os assalariados, os mais pobres — como o Bolsa Família, as cotas para negros e sociais nas universidades, o Sistema Único de Saúde.
Como jornalista com mais de 40 anos de experiência, sendo pelo menos 30 em emissoras de televisão, sustento que uma entrevista vale pelas notícias que produz. No caso de que tratamos aqui, a entrevista de Lula produziu numerosas manchetes, inclusive em toda a chamada mídia corporativa, ou seja, ligada ou defensora dos interesses das corporações que a patrocinam.
Lula falou de todos os assuntos relevantes daquele momento: as denúncias contra o deputado André Vargas, contra a Petrobras, a campanha para que ele seja candidato a presidente em 2014, os rumos da economia no governo Dilma, a Copa do Mundo, os protestos na rua do Brasil, a lei antiterrorismo, o financiamento da saúde pública, etc.
Ou seja, os entrevistadores atingiram seu objetivo sem usar grosserias, sem ofensas e sem embarcar no que chamamos de “antipetismo” movido pelo ódio. É um sentimento promovido por adversários políticos do PT, que querem negar direito de existência ao partido de Lula da mesma forma que os golpistas de 1964 negavam existência política a seus adversários. Depois do golpe, mesmo políticos que apoiaram a derrubada de João Goulart foram “extirpados” pelo militares, como o direitista Carlos Lacerda, que perdeu o direito de se candidatar.
Entenderam o paralelo entre os ditadores do passado e os “ditadores”  de hoje? De formas distintas, tentam atingir os mesmos objetivos: negar o direito de expressão e organização àqueles dos quais discordam.
É nessa categoria que, em 2014, se encaixam os blogueiros, nove dos quais participaram da entrevista com o ex-presidente Lula. Para a mídia corporativa, são não-pessoas. A eles são negadas a individualidade, as características pessoais, os saberes específicos.
Você já andou por aí na blogosfera? Viu como concordamos em algumas coisas e discordamos em muitas? O Viomundo, por exemplo, apoia todas as manifestações de rua, inclusive as que estão sendo organizadas para o período da Copa do Mundo. O Eduardo Guimarães, do blog da Cidadania – para dar apenas um exemplo, discorda. Isso não nos impede de conviver democraticamente, ainda que expressando posições claramente distintas.
Não concordo com a postura do Eduardo em muitos outros pontos, porém defendo que ele participe, sim, de entrevistas com autoridades e políticos. Desde quando se convenciou que estas atividades devem ser exclusivas de jornalistas? Como representante comercial, exportador de autopeças e fã do Lula, o blogueiro não deixa de expressar o que pensa parte da opinião pública brasileira em relação ao ex-presidente.
Por outro lado, estavam presentes na mesma entrevista jornalistas com grande experiência, como a Conceição Lemes, deste site, com 33 anos de carreira. O que houve de errado com a pergunta que ela fez ao Lula sobre o financiamento da saúde pública? Lula culpou a extinção do imposto de cheque, promovida pelos adversários dele, pela falta de dinheiro para financiar o SUS. Acho que foi uma boa pergunta e que cabe ao leitor/ouvinte/telespectador decidir se concorda ou não com o ex-presidente.
Porém, os que negam direito de existência aos blogueiros no mundo da informação apagam a individualidade de cada um e o pluralismo da blogosfera, apelando para rótulos e acusações infundadas: seriam todos financiados pelo governo, hipnotizados por Lula ou defensores pagos do PT. Em uma palavra, “vendidos”.
Enfatizo: condenar “antipetismo” irracional não é o mesmo que ser petista. Não somos. Quer ler críticas ao PT/governos Lula e Dilma neste site? Comece por aquiaquiaquiaqui ou aqui.
Minha sugestão? Frequente os blogs abaixo citados. Com o tempo, baseando-se na sua leitura e não no que dizem para você, estou certo de que você perceberá as nuances, as diferenças que existem entre todos eles, indistintamente: Blog do Miro, CafezinhoSul 21Carta MaiorEscrevinhadorTijolaçoBlog da CidadaniaDiário do Centro do Mundo (há muitos outros, mas estes estavam representados na entrevista).
Estou certo de que, ao fazer isso, você vai encontrar uma pluralidade de opiniões que não vê na chamada mídia corporativa!
Quando no título deste texto, falei em “assassinato de reputação”, é por acreditar que as críticas feitas aos blogueiros nas Organizações Globo tinham este objetivo.
Primeiro, na rádio CBN, que pertence às Organizações Globo, em rede nacional, o âncora Carlos Alberto Sardenberg (o mesmo do Jornal da Globo, na TV) e o comentarista Merval Pereira (o mesmo do jornal O Globo, do Rio) sugeriram que os blogueiros que participaram da entrevista com Lula eram “vendidos”.
Depois, o jornal O Globo, do mesmo grupo, onde escreve Merval, pretendeu fazer uma “investigação” sobre quem eram os entrevistadores. Coincidência, não?
O método foi o mesmo utilizado na primeira entrevista de Lula a blogueiros, quando ainda estava na presidência da República, em 2009. Naquela ocasião, o jornal O Globo estampou, junto com uma foto de Lula com os entrevistadores, o título “Lula recebe Cloaca e outros amigos no Planalto”. Cloaca é um blogueiro do Rio Grande do Sul, que não participou da entrevista de 2014 e a cloaca a que ele se refere ao nomear seu blog é a mídia representada pelos grupos Folha-Abril-Globo-Estadão, ou seja, a mídia conservadora, de direita, que faz propaganda dos interesses da elite brasileira.
O Globo negou, então, credibilidade à entrevista. Agora, faz o mesmo usando métodos parecidos. Também usou uma foto dos blogueiros ao lado de Lula. E tascou, baseado em uma única declaração (a que aparece entre aspas), de um dos nove presentes: Café e bolotas de queijo, Conversa de Amigo‘Ninguém teve a intenção de ser isento’, Conversa de Camaradas.
É algo comum no jornalismo acusatório: tomar a parte pelo todo. Pega a opinião de um, destaca e com isso tenta desqualificar o todo.
Porém, onde foram publicadas as críticas específicas de O Globo às perguntas feitas pelos blogueiros? Quais as impropriedades jornalísticas cometidas durante a entrevista? Faltou notícia na entrevista de Lula?
A resposta, como as manchetes dos dias subsequentes na mídia corporativa deixaram claro: Não!
O que Lula antecipou aos blogueiros, inclusive, começou a acontecer: Dilma assumiu a defesa da Petrobras e anunciou ajustes futuros na economia brasileira. Tudo isso apenas confirma a relevância da entrevista em si.
Como jornalista com ampla experiência, percebi que O Globo montava uma armadilha para os blogueiros ao ler as perguntas endereçadas à Conceição Lemes. Se a entrevistadora do Viomundo não tivesse formação de jornalista ou não tivesse currículo, a inexperiência para enfrentar uma raposa politica como Lula seria destacada. Se tivesse tido qualquer despesa paga pelo Instituto Lula para ir até a entrevista, seria mencionada por isso. Seriam formas de desqualificar o trabalho de Conceição, já que o Viomundonão recebe propaganda oficial, seja de governos federal, estaduais ou municipais, seja de empresas públicas/estatatais — incluindo aí o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.
Fazemos isso porque batalhamos pela extinção de tais gastos públicos, a não ser em casos de estrita necessidade, como campanhas de vacinação, para que o dinheiro seja aplicado em creches, hospitais e salários de funcionários públicos, não necessariamente nesta ordem. Quando governador do Paraná, o hoje senador Roberto Requião, do PMDB, fez isso e deu muito certo.
Finalmente, acrescento minha própria experiência como vítima de tentativa de assassinato de reputação, obviamente mal sucedida, caso contrário você não teria vindo ler o Viomundo.
Foi na campanha eleitoral de 2010, quando eu já havia pedido a extinção antecipada de meu contrato com a TV Globo.
Na ocasião, o jornal O Globo envolveu meu nome de forma infundada numa falsa denúncia contra a TV Brasil, que havia prorrogado — dentro de todas as normas legais — um contrato com a produtora Baboon, de São Paulo, que produzia o programa Nova África depois de ter ganho uma concorrência pública. Que eu saiba, foi o primeiro e único programa de TV no Brasil que foi resultado de uma concorrência pública!
Eu era empregado da Baboon, assalariado, para cumprir função em minha área de especialidade! No entanto, O Globo juntou meu nome com a cifra milionária de um contrato do qual eu não era parte e não tinha assinado — não sendo dono, nem sócio, nem gerente da Baboon, que pertence aos empresários Henry Ajl e Markus Bruno.
Viu como funciona? O Globo juntou meu nome com um valor milionário que nunca recebi e conseguiu produzir uma falsa denúncia contra um jornalista assalariado de uma produtora que havia ganho uma concorrência pública! No entanto, foi tudo tão transparente que, subsequentemente, a Baboon se classificou para disputar uma segunda concorrência e perdeu, ocasião em que o blogueiro Reinaldo Azevedo voltou a usar meu nome para me acusar… de perder a concorrência!
É assim que a direita age, entendeu?
Se você ficou curioso sobre o programa, clique aqui.
Portanto, expresso aqui minha solidariedade aos nove blogueiros vítimas da tentativa de assassinato de reputação movida pelas Organizações Globo por conta da mais recente entrevista do presidente Lula.
Sugiro a você, finalmente, jovem ou novo leitor do Viomundo, que dê uma olhada na tabela abaixo, publicada por Fernando Rodrigues em seu blog do UOL e na íntegra da entrevista do ex-presidente aos colegas blogueiros:

Agora nos diga: quem é mesmo que embolsa bilhões em dinheiro público?