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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Unicef: pobreza infantil atinge 76,5 milhões em países ricos desde 2008

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Dados estão em relatório lançado nesta quinta-feira; segundo o documento, número de crianças vivendo na pobreza em nações desenvolvidas aumentou em 2,6 milhões; Portugal teria perdido 8 anos em progresso de renda.
Nos Estados Unidos a pobreza infantil aumentou. Foto: Unicef/NYHQ2014-1955/Pirozz
Cerca de 2,6 milhões de crianças entraram abaixo da linha da pobreza em países ricos desde 2008. Os dados estão em relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, lançado nesta quinta-feira.
Segundo estimativas, o número de crianças vivendo na pobreza em países desenvolvidos atingiu 76,5 milhões.
Crise econômica
O relatório Crianças da Recessão: o impacto da crise econômica no bem-estar de crianças em países ricos leva em conta se os níveis de pobreza infantil aumentaram ou caíram desde 2008 em nações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico e da União Europeia.
O documento, que também incluiu nações de média e baixa rendas, aponta a proporção de jovens entre 15 e 24 anos que não estão estudando nem trabalhando ou em treinamento.
A pobreza infantil cresceu em 23 dos 41 países analisados desde 2008. Na Irlanda, Croácia, Letônia, Grécia e Islândia, as taxas cresceram acima de 50%.
Renda
De acordo com o relatório, a renda média em famílias com crianças na Grécia em 2012 caiu para níveis de 1998. Isto significa o equivalente a perda de 14 anos em progresso de renda.
Por esta medida, Portugal perdeu oito anos, assim como Itália e Hungria. Irlanda, Luxemburgo e Espanha perderam uma década.
O Unicef afirma que a recessão foi especialmente dura com os jovens entre 15 e 24 anos. Na União Europeia, 7,5 milhões de jovens entraram na classificação de sem estudo, trabalho ou treinamento.
Nos Estados Unidos, a pobreza infantil cresceu em 34 dos 50 estados desde o início da crise. Em 2012, 24,2 milhões de crianças estavam vivendo na pobreza, um aumento de 1,7 milhão desde 2008.

domingo, 24 de março de 2013

Chipre atraiu milionários com imposto baixo e cidadania

Foto: Getty
Peso dos bancos na economia cipriota é um dos fatores que explica a crise


O sistema bancário do Chipre e a atratividade do país a milionários podem ajudar a explicar a crise que ameaça a econonomia cipriota - a pior em cerca de 40 anos.
Para se tornar atraente para o capital estrangeiro, a ilha tem um dos regimes fiscais mais favoráveis da Europa. Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o imposto sobre a renda de uma empresa no Chipre é de 10% - muito inferior à média europeia, entre 25% e 35%.
"O Chipre se tornou um oásis para os investidores estrangeiros, principalmente os oligarcas russos. A ilha é hoje o principal destino do capital russo no exterior", explica Anne Laure Delatte, especialista em mercados financeiros do Observatório Francês de Conjuntura Econômica.
Os bancos cipriotas também oferecem taxas de remuneração muito maiores do que as praticadas nos outros países da zona do euro e são conhecidos pelo pouco rigor no controle da origem do capital.
O peso do dinheiro russo na ilha é tão forte que o Chipre decidiu naturalizar alguns de seus investidores mais importantes, que podem se beneficiar do regime fiscal.
Uma medida extraordinária do governo, adotada em 2007, autoriza a nacionalização de pessoas com mais de 35 anos que tenham investido ao menos 17 milhões de euros (R$ 44 milhões) nos bancos do país ou que dirijam empresas com faturamento anual superior a 85 milhões de euros (R$ 222 milhões). Entre 2007 e 2010, cerca de 30 oligarcas russos adotaram a nacionalidade cipriota.
Segundo dados do Instituto Internacional de Finanças (IIF), no final do ano passado os depósitos nos bancos cipriotas somavam 70 bilhões de euros. Desse total, 20 bilhões seriam de clientes não residentes na União Europeia - 85% deles russos ou ucranianos.
O Chipre não é formalmente considerado um paraíso fiscal, mas a pouca transparência do sistema bancário do país contribui para a desconfiança dos governos europeus e investidores internacionais. Há suspeitas de que os russos utilizam os bancos cipriotas para atividades ilegais, como evasão fiscal e lavagem de dinheiro.
Foto: AP
Proposta de tributar depósitos causou protestos e alvoroço no país

"O dinheiro russo transita pelos bancos cipriotas e volta para a Rússia, muitas vezes para ser injetado em setores onde a corrupção é forte, como o imobiliário. Daí as suspeitas de lavagem de dinheiro", comenta Delatte.

'Epicentro da crise'

Para a Anne Laure Delatte, um dos pilares da crise no Chipre é o sistema bancário do país, que tem um peso enorme sobre a economia. "Os ativos dos bancos cipriotas representam 8% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, enquanto a média europeia é de 3,5%", diz.
O IIF também considera que "o peso descomunal do sistema financeiro cipriota se tornou o epicentro da crise no país". Os ativos dos bancos representavam, no final de 2012, 700% do PIB do Chipre.
Os bancos da ilha têm uma situação particular em relação ao resto da Europa. Eles detém pouca dívida pública e contam principalmente com os depósitos dos correntistas para financiar suas atividades.
Especialistas consideram, entretanto, que esse sistema poderia ainda sobreviver por bastante tempo se não fosse a dependência do Chipre da divida grega. "A crise grega foi fatal para o Chipre", explica Anne Laure Delatte.
Quando, há cerca de um ano, a União Europeia decidiu perdoar metade da dívida grega para evitar a falência do país, os bancos cipriotas registraram perdas entre 4 e 5 bilhões de euros.

Resgate

À beira da bancarrota, a ilha de 850 mil habitantes vive sua pior crise econômica desde 1974, quando o país sofreu um golpe de Estado e foi invadido por tropas turcas.

No dia 16 de março, representantes da União Europeia anunciaram que o Chipre seria o quinto país europeu a receber um pacote de resgate da União Europeia - depois de Espanha, Grécia, Irlanda e Portugal.
Foto: AP
Chipre é a terceira menor econonomia da zona do euro e o quinto país a pedir o resgate
O pacote prevê que dos 17 bilhões de euros necessários para recapitalizar os bancos do país e financiar a dívida pública, 10 bilhões serão disponibilizados pela UE e FMI e o governo cipriota deve levantar o restante.
Em contrapartida, Bruxelas impôs a medida inédita de tributar todos os depósitos bancários do país. A proposta inicial, que previa a cobrança de uma taxa de 6,75% em contas de 20 mil a até 100 mil euros (de R$ 52 mil a R$ 260 mil) e de 9,9% nas contas acima desse valor, causou uma corrida aos caixas eletrônicos e preocupação entre correntistas de toda a Europa.
A proposta, no entanto, foi recusada pelo parlamento do Chipre e representantes da UE, FMI e Banco Central Europeu discutem agora um plano B.
Para evitar a retirada em massa das poupanças, os bancos do país foram fechados até a próxima quinta-feira.
No sábado, em Bruxelas, o ministro das Finanças do Chipre, Michael Sarris, diz que seu país fez um ''progresso significativo'' nas negociações com a UE para um novo plano.
Ele afirmou ainda que o governo cogita agora cobrar taxas de até 25% sobre depósitos de mais de 100 mil euros feitos na ilha.

domingo, 3 de março de 2013

Portugueses protestam contra a "Troika"

Linda manifestação do povo de Portugal contra a "Troika". Um grande povo, do qual devemos ter orgulho de descender. A gente nem se lembra que eles nos colonizaram por tanto tempo. A "culpa" não é do povo português, a responsabilidade foi do sistema colonial. Acho que os brasileiros deveriam ter orgulho de terem ascendência de uma gente tão consciente da importância de sua terra e do valor de seus expoentes.Um grande povo. Uma história incrível. Um país, hoje, vilipendiado pelo capitalismo globalizado.
Há quem lamente que os holandeses não tenham conseguido se manter no Nordeste e lembrem que muitos dos holandeses que ocuparam aquele território construiram N. York. "Esquecem" que muitos dos holandeses expulsos do nordeste brasileiro foram para a atual África do Sul e construíram o "Apartheid". Devemos, sim, te rorgulho da ascendência portuguesa. Um pequeno país, o primeiro Estado-Nação europeu, que construiu um império por todo o mundo. A noção de dominação colonial é algo que temos hoje, mas na época era o caminho natural dos europeus. Vale a pena conhecer Portugal. Hoje, como em 1974, lutam pelo justo e pelo bem.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Estados Unidos vão processar S&P por avaliação de hipotecas

Boa nota dada a papéis lastreados em hipotecas de alto risco contribuiu para a crise financeira global

WASHINGTON e NOVA YORK –O Departamento de Justiça dos Estados Unidos pretende entrar com uma ação contra a agência de classificação de risco Standard & Poor's (S&P) por causa das notas atribuídas a papéis lastreados em hipotecas em 2007, antes que a crise financeira estourasse. A informação, veiculada inicialmente nos sites dos jornais “New York Times” e “Wall Street Journal”, foi confirmada pela própria agência. A notícia fez com que as ações da McGraw-Hill Companies, Inc., que controla a S&P, desabassem 13,78%, sua maior queda desde a “Segunda-feira Negra” de outubro de 1987, quando o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, despencou 22%.
As ações da Moody’s também foram afetadas: caíram 10,66%. Os papéis da Fitch Ratings, negociados em Paris, não sentiram o baque porque o mercado europeu fecha mais cedo. Apesar do tombo de S&P e Moody’s, o Dow fechou em queda ontem de apenas 0,93%, refletindo mais os temores com a zona do euro. Nasdaq recuou 1,51%.
Seria a primeira ação federal contra uma agência de rating por comportamento supostamente ilegal relacionado à crise financeira. A S&P afirmou em nota que o processo “não teria qualquer mérito factual ou legal”. “O Departamento de Justiça estaria errado em afirmar que os ratings da S&P teriam sido motivados por considerações comerciais, não emitidos de boa-fé.”
Uma fonte disse à Reuters que a ação deve ser anunciada oficialmente nesta terça-feira.
Governo queria indenização de US$ 1 bilhão
O blog DealBook, do “NYT”, afirmou, citando fontes, que o Departamento de Justiça e a S&P vinham discutindo um acordo até a semana passada. Mas as negociações foram suspensas, disseram as fontes, porque o governo queria uma indenização em torno de US$ 1 bilhão. Isso, segundo o DealBook, apagaria o lucro da McGraw-Hill no ano passado, que foi de US$ 911 milhões.
O Departamento de Justiça não comentou o assunto.
O “WSJ” afirmou, também citando fontes, que as procuradorias de vários estados americanos devem se juntar à ação federal.
As três principais agências de classificação de risco, S&P, Moody’s e Fitch, vêm sendo criticadas por investidores, políticos e órgãos reguladores por terem atribuído boas notas a milhares de papéis lastreados em hipotecas subprime (de alto risco), que se provaram impagáveis, arrastando todo o mercado.
As agências de rating são pagas pelas empresas às quais as notas são atribuídas, uma prática que levanta dúvidas sobre conflitos de interesse.
Em janeiro de 2011, a Comissão de Inquérito sobre a Crise Financeira, criada pelo Congresso, afirmou que as agências eram “peças essenciais na engrenagem da destruição financeira” e que foram cruciais para a crise.
Em julho do ano passado, a McGraw-Hill admitiu que o Departamento de Justiça e a Securities and Exchange Commission (SEC, o regulador do mercado americano) estavam investigando potenciais violações de regras na atribuição de ratings pela S&P.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/economia/estados-unidos-vao-processar-sp-por-avaliacao-de-hipotecas-7489876#ixzz2K10Ywj6C
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sábado, 3 de novembro de 2012

O referendo islandês e os silêncios da mídia

Como os eleitores aprovaram Constituição redigida de forma colaborativa — um texto que desafia as imposições financeiras, e torna públicos todos os recursos naturais da ilha
 
Por Mauro Santayana, em seu blog
Os cidadãos da Islândia referendaram no final de outubro, com cerca de 70% dos votos, o texto básico de sua nova Constituição, redigido por 25 delegados, quase todos homens comuns, escolhidos pelo voto direto da população, incluindo a estatização de seus recursos naturais. A Islândia é um desses enigmas da História. Situada em uma área aquecida pela Corrente do Golfo, que serpenteia no Atlântico Norte, a ilha, de 103.000 km², só é ocupada em seu litoral. O interior, de montes elevados, com 200 vulcões em atividade, é inteiramente hostil – mas se trata de uma das mais antigas democracias do mundo, com seu parlamento (Althingi) funcionando há mais de mil anos. Mesmo sob a soberania da Noruega e da Dinamarca, até o fim do século 19, os islandeses sempre mantiveram confortável autonomia em seus assuntos internos.
Em 2003, sob a pressão neoliberal, a Islândia privatizou o seu sistema bancário, até então estatal. Como lhes conviesse, os grandes bancos norte-americanos e ingleses, que já operavam no mercado derivativo, na espiral das subprimes, transformaram Reykjavik em um grande centro financeiro internacional e uma das maiores vítimas do neoliberalismo. Com apenas 320.000 habitantes, a ilha se tornou um cômodo paraíso fiscal para os grandes bancos.

Instituições como o Lehman Brothers usavam o crédito internacional do país a fim de atrair investimentos europeus, sobretudo britânicos. Esse dinheiro era aplicado na ciranda financeira, comandada pelos bancos norte-americanos. A quebra do Lehman Brothers expôs a Islândia, que assumiu, assim, dívida superior a dez vezes o seu produto interno bruto. O governo foi obrigado a reestatizar os seus três bancos, cujos executivos foram processados e alguns condenados à prisão.
A fim de fazer frente ao imenso débito, o governo decidiu que cada um dos islandeses – de todas as idades – pagaria 130 euros mensais durante 15 anos. O povo exigiu um referendum e, com 93% dos votos, decidiu não pagar dívida que era responsabilidade do sistema financeiro internacional, a partir de Wall Street e da City de Londres.
A dívida externa do país, construída pela irresponsabilidade dos bancos associados às maiores instituições financeiras mundiais, levou a nação à insolvência e os islandeses ao desespero. A crise se tornou política, com a decisão de seu povo de mudar tudo. Uma assembléia popular, reunida espontaneamente, decidiu eleger corpo constituinte de 25 cidadãos, que não tivessem qualquer atividade partidária, a fim de redigir a Carta Constitucional do país. Para candidatar-se ao corpo legislativo bastava a indicação de 30 pessoas. Houve 500 candidatos. Os escolhidos ouviram a população adulta, que se manifestou via internet, com sugestões para o texto. O governo encampou a iniciativa e oficializou a comissão, ao submeter o documento ao referendum realizado ontem.
Ao ser aprovado ontem (21/10), por mais de dois terços da população, o texto constitucional deverá ser ratificado pelo Parlamento.
Embora a Islândia seja uma nação pequena, distante da Europa e da América, e com a economia dependente dos mercados externos (exporta peixes, principalmente o bacalhau), seu exemplo pode servir aos outros povos, sufocados pela irracionalidade da ditadura financeira.
Durante estes poucos anos, nos quais os islandeses resistiram contra o acosso dos grandes bancos internacionais, os meios de comunicação internacional fizeram conveniente silêncio sobre o que vem ocorrendo em Reykjavik. É eloqüente sinal de que os islandeses podem estar abrindo caminho a uma pacífica revolução mundial dos povos.
Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Um país estranho: Islândia por: Vladimir Safatle

Folha de S.Paulo, 22/10/2012
A Islândia é uma ilha com pouco mais de 300 mil habitantes que parece decidida a inventar a democracia do futuro.
Por uma razão não totalmente clara, esse país que fora um dos primeiros a quebrar com a crise financeira de 2008 sumiu em larga medida das páginas da imprensa mundial. Coisas estranhas, no entanto, aconteceram por lá.
Primeiro, o presidente da República submeteu a plebiscito propostas de ajuda estatal a bancos falidos. O ex-primeiro-ministro grego George Papandreou foi posto para fora do governo quando aventou uma ideia semelhante. O povo islandês, todavia, não se fez de rogado e disse claramente que não pagaria nenhuma dívida de bancos.
Mais do que isso, os executivos dos bancos foram presos e o primeiro-ministro que governava o país à época da crise foi julgado e condenado.
Algo muito diferente do resto da Europa, onde os executivos que quebraram a economia mundial foram para casa levando no bolso "stock options" vindos diretamente das ajudas estatais.
Como se não bastasse, a Islândia resolveu escrever uma nova Constituição. Submetida a sufrágio universal, ela foi aprovada no último fim de semana. A Constituição não foi redigida por membros do Parlamento ou por juristas, mas por 25 "pessoas comuns" escolhidas de maneira direta.
Durante sua redação, qualquer um podia utilizar as redes sociais para enviar sugestões de leis e questionar o projeto. Todas as discussões entre os membros do Conselho Constitucional podiam ser acompanhadas do computador de qualquer cidadão.
O resultado é uma Constituição que estatiza todos os recursos naturais, impede o Estado de ter documentos secretos sobre seus cidadãos e cria as bases de uma democracia direta, onde basta o pedido de 10% da população para que uma lei aprovada pelo Parlamento seja objeto de plebiscito.
Seu preâmbulo não poderia ser mais claro a respeito do espírito de todo o documento: "Nós, o povo da Islândia, queremos criar uma sociedade justa que ofereça as mesmas oportunidades a todos. Nossas diferentes origens são uma riqueza comum e, juntos, somos responsáveis pela herança de gerações".
Em uma época na qual a Europa afunda na xenofobia e esquece o igualitarismo como valor republicano fundamental, a Constituição islandesa soa estranha. Esse estranho país, contudo, já não está mais em crise econômica.
Cresceu 2,1% no ano passado e deve crescer 2,7% neste ano. Eles fizeram tudo o que Portugal, Espanha, Grécia, Itália e outros não fizeram. Ou seja, eles confiaram na força da soberania popular e resolveram guiar seu destino com as próprias mãos. Algo atualmente muito estranho.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Os vira-latas complexados do país

Por Sergio Leo
"Existe só no Brasil e não é jabuticaba? Não presta". Poucos ditados concentram tão bem, em mensagem tão convincente, uma ideia tão equivocada.
Oscar Niemeyer é uma jabuticaba arquitetônica. O Bolsa Família é jabuticabalmente admirado e copiado pelas instituições internacionais que lidam com pobreza. A agilidade do sistema financeiro brasileiro, jabuticanabolizada pela sobrevivência à hiperinflação, não tem igual no mundo. O Plano Real, baseado em experiências internacionais e aclimatado para o solo brasileiro, foi uma jabuticabeira providencial, que rende frutos até hoje.
O ditado da jabuticaba é uma versão pouco frutuosa do que o economista Albert Hirschman, baseado em sua experiência como consultor internacional, especialmente na América Latina, chamava de "fracassomania": a incapacidade de ver os méritos nas adaptações e soluções locais, o pessimismo em relação às políticas - inclusive os aperfeiçoamentos incrementais e heterodoxos do capitalismo. Fernando Henrique Cardoso, amigo e admirador de Hirschman (como, aliás, José Serra), foi um dos que popularizam o termo fracassomania (que, curiosamente, Hirschman aplicou também a certos aspectos da teoria cardosiana da dependência).
Complexo de vira-lata não é um problema do Brasil
Hirschman desenvolveu sua tese a partir de outra expressão, em francês, também sacada da experiência em países em desenvolvimento: "la rage de vouloir conclure", a raiva de querer concluir: na ânsia de soluções e na pressa de terminar obras, governos, economistas, especialistas, inclinam-se pela aplicação dogmática de fórmulas já prontas e testadas em algum outro lugar, de preferência em países comprovadamente bem-sucedidos - sem notar que a receita de sucesso de um pode ser o caminho para o fracasso de outro, sujeito a condições diferentes.
A insistência em apontar as dificuldades e não reconhecer os avanços, ainda que incipientes ou insuficientes, está na raiz da fracassomania, como se queixava Fernando Henrique - que, porém, usou o termo equivocadamente ao defender, contra os críticos, a política de dólar desvalorizado dos anos 90. Ao rejeitar políticas originais e inovadoras como fatalmente ineficazes e destinadas ao fracasso, a ortodoxia, à direita e à esquerda, parece ignorar que situações inéditas podem exigir ações também singulares.
Não cabem metáforas de jabuticaba para analisar soluções e problemas que frutificaram por aqui. A emergência dos tais 40 milhões de novos integrantes da classe média, por exemplo, impulsionada por aumentos reais no salário mínimo e extensão da rede de proteção social, que foram possíveis devido a condições favoráveis no país e no mercado externo, trouxe ao Brasil novos padrões de consumo e poupança, ainda não inteiramente compreendidos. Essa jabuticaba merece mais que as preguiçosas avaliações sobre o esgotamento iminente do crescimento baseado no consumo.
Também faltam "jabuticabólogos" para orientar a excepcional situação do Brasil no cenário de comércio internacional, como grande produtor e exportador de commodities agrícolas e minerais, e portador, ao mesmo tempo, de um vigoroso mercado interno e uma complexa e diversificada estrutura industrial.
A ideia de partir para a liberalização da economia com a derrubada de barreiras a importados não encontra solo fértil em um país tão sensível aos lobbies industriais; mas a aplicação sem nuances de exigências de conteúdo nacional e de novas barreiras aos importados também entra em choque com um mundo de produção internacionalizada e pressão global por acordos de livre comércio, especialmente nas economias dinâmicas da Ásia.
Fazem falta no debate público vozes originais e tropicalizadas, como a do economista Antônio Barros de Castro, um dos primeiros a apontar a necessidade de uma estratégia mais sofisticada para lidar com o fortalecimento da China e com bilhetes premiados do Brasil, como as reservas do pré-sal, para as quais ele defendia uma política de exploração controlada, sem a urgência dos interessados em rentabilidade imediata.
A tese da fracassomania, que rejeita a singularidade da jabuticaba, se liga a outro clichê nacional equivocado: o complexo de vira-lata, diagnosticado pelo escritor Nelson Rodrigues para descrever a baixa auto-estima do brasileiro quando confrontado com o resto do mundo. Apesar do pedigree literário, essa é outra metáfora infeliz; Nelson Rodrigues estava correto ao criticar o narcisismo "às avessas" do brasileiro que "cospe em sua própria imagem"; mas errou ao eleger o malandro vira-lata como termo de comparação.
No imaginário popular, o mais conhecido vira-lata é um personagem de desenho animado, a quem Walt Disney deu independência e autoconfiança invejáveis. Disso entendem os Estados Unidos, que sempre louvaram suas jabuticabas, a ponto de transformar em ponto de honra a "excepcionalidade americana".
O vira-lata, mestiço e sem dono, não conhece limites, adapta-se às circunstâncias, sobrevive mesmo em condições precárias e reage às ameaças com sabedoria. Não merece ser comparado aos que, fracassomaníacos, desconfiam da própria capacidade de evitar os becos sem saída.
Quem se submete às vontades alheias, tem campo de ação regulado e costuma trocar a criatividade por truques ensinados pelo dono, são os cães de raça - todos, aliás, descendentes de vira-latas, resultado de gerações de cruzamentos para eliminar o inesperado e consolidar certas características especializadas.
Os cães de raça sempre serão úteis. Confiáveis, executam bem as ordens que recebem. Mas são os vira-latas que, na balbúrdia da rua, podem descobrir os melhores caminhos, com a autoconfiança que lhes garante a sobrevivência. Desde, é claro, que se livrem da coleira.
Nelson Rodrigues estava errado. O problema do Brasil não é o complexo de vira-lata. São os vira-latas complexados.
Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras

sábado, 29 de setembro de 2012

Capitalismo e o grande cassino internacional


Foto de arquivo de cassino em Las Vegas (BBC)Por que cassinos evitam espelhos?


Para arquiteto, segredo do sucesso de cassino é a ilusão de glamour
Nos anos 1970 e 80, Las Vegas cresceu a uma velocidade alucinante, mas o atual estado cambaleante da economia global faz com que a cidade americana famosa por seus cassinos olhe com um pouco de inveja para suas semelhantes na China - ainda que estas possam estar seguindo o mesmo caminho.
Las Vegas ilustra o quanto a arquitetura de cassinos é variada: abriga desde pirâmides a castelos medievais e circos. "Vale tudo", diz Paul Steelman, arquiteto especializado na construção de cassinos.
Mas Steelman revela que existe uma regra de ouro: nada de espelhos.
"Isso porque a chave dos cassinos é a ilusão", explica ele. "Você entra num cassino para sentir-se como James Bond. A última coisa que quer é dar uma olhada em si mesmo pelo espelho. Você verá sua barriga flácida ou as espinhas na sua cara e, num segundo, a ilusão se desintegrará e você parará de jogar."
Mas, na conhecida Strip, em Las Vegas, a indústria do cassino - assim como o apostador que acaba de se olhar no espelho - está sendo forçada a lidar com seus entraves.
A cidade ainda anda cheia de visitantes e de atrações, mas uma construção específica exemplifica os problemas enfrentados por Las Vegas: o Fontainbleau era para ter sido um complexo com 3.889 quartos de hotel, 24 restaurantes e - é claro - um enorme cassino. Mas ele nunca abriu suas portas.
Kangbashi, na ChinaSeus financiadores foram à falência após gastar US$ 3 bilhões no local. Agora, o Fontainbleau é apenas um esqueleto na paisagem.
Será que esta cidade fantasma chinesa estará repetindo os mesmos erros de Las Vegas?
A construção do complexo - bem como a boa fase de Las Vegas - foi interrompida em plena crise financeira global, quando, após décadas de crescimento ininterrupto, a "Sin City" tornou-se a capital da reintegração de propriedades nos EUA.

Competição chinesa

Ainda assim, Paul Steelman tem trabalhado bastante. Isso porque a liderança de Las Vegas está sendo superada por concorrentes chineses.
Steelman está projetando cassinos em Macau, o pequeno território localizado em Mar do Sul da China.
Em 2006, Macau eclipsou Las Vegas ao superá-la nas receitas produzidas pelos jogos de azar. Agora, a ilha fatura US$ 30 bilhões com o setor anualmente, cinco vezes mais do que a "Sin City".
Um detalhe, porém: neste ano, o crescimento de Macau perdeu fôlego pela primeira vez desde que o jogo de azar foi liberado na ilha, há uma década. O motivo pode estar na concorrência de diversos cassinos construídos na China continental, inclusive imitando o Fontainbleau.
Cassino em Macau
Macau está atraindo investimentos em cassinos e ofuscando a 'Sin City'
O impressionante é que, assim como o Fontainbleau, muitos desses empreendimentos estão vazios, apesar dos bilhões investidos nas construções de suas enormes torres, muitas com prédios residenciais nunca ocupados.
Um exemplo é Kangbashi, uma verdadeira cidade fantasma no interior da China. Ali há centenas de prédios nunca ocupados, rua após rua.

A cidade foi projetada para abrigar mais de 1 milhão de moradores, mas hoje tem apenas um bar - e a reportagem da BBC era a única clientela na noite em que visitou o local.

Apostas malsucedidas

Um empreendedor de Las Vegas comentou que, antes da crise, em 2006, cerca de um terço da população da cidade americana estava empregada na construção civil. Vegas estava "apostando no jogo de azar do crescimento", ele ironizou.
Hoje, vemos que essa aposta não se pagou: o ciclo de crescimento foi quebrado e a riqueza da cidade evaporou à medida que os preços dos imóveis entraram em colapso, assim como em outras cidades americanas.
A China é, atualmente, um dos poucos pontos de expansão econômica do mundo. Mas, diante de seus empreendimentos fantasmas, talvez precise pensar na advertência de Paul Steelman quanto a olhar-se no espelho em cassinos.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Realidad y narración - Almodóvar e as manifestações na Espanha

A veces ocurre que, cuando estás en plena tarea, construyendo una ficción, te invade la sensación de que lo importante está ocurriendo fuera, algo mucho más poderoso que la historia que tú estás creando con mimo y obsesión. Es cierto que el ser humano contemporáneo necesita una dosis diaria de ficción, sin la que no sabría vivir, pero también es cierto que en muchas ocasiones los rugidos de la realidad que atraviesan nuestras televisiones y las pantallas de nuestros ordenadores son tan potentes que te dejan sin aliento y con la sensación de que una película es algo insignificante comparado con ellos. Me ocurrió el martes mientras montaba la mía y un impresionante tsunami ciudadano bramaba en la Plaza de Neptuno por su derecho a disentir con los políticos que dicen representarles, reunidos a la sazón en el Congreso. Los gritos de esta marea, cercada y en ocasiones apaleada y arrastrada por los 1.300 policías en la Plaza de Neptuno, han llenado las primeras páginas de todos los periódicos del mundo pero no han conseguido hacer vibrar el tímpano de Mariano Rajoy, en sus días neoyorquinos. En su conferencia en la American Society/Council of the Americas, Rajoy ha vuelto a editar la realidad a su antojo, agradeciendo desde Nueva York a "la mayoría silenciosa de los españoles que no se manifiesta".
Sr. Rajoy, yo soy parte de esa mayoría silenciosa que no se manifestó el 25S y le ruego que no tergiverse y mucho menos se apropie de mi silencio. Que no estuviera físicamente en Neptuno no significa que no me indigne ante las cargas policiales, la desmedida reacción de la delegada del Gobierno, la manipulación por parte de la televisión estatal de las imágenes de lo ocurrido, la chulería de los agentes que se negaron a identificarse en la estación de Atocha e intimidaron a los viajeros (todo ello lejos del Congreso) mientras le prohibían a algunos fotógrafos que siguieran trabajando, el empeño en que los madrileños nos encontráramos desde por la mañana con una ciudad sitiada y que esta circunstancia nos predispusiera contra los manifestantes (misión fallida, los madrileños sufrimos en silencio o a gritos, pero no nos creemos a las personas que nos gobiernan desde el Ayuntamiento o en nuestra Comunidad, personas electas por la fatalidad y por las ventajas de estar incluidas en una lista electoral cerrada).
Las imágenes y todo lo que las rodea son manipulables, el color, las palabras, los gestos, las intenciones, todo depende del narrador. Cualquier realidad puede significar algo o lo contrario, según los intereses de quien la narre. Los voceros del gobierno, el propio presidente, pueden narrar lo ocurrido en Neptuno como les plazca, lo hacen cada día, pero por suerte en los tiempos que corren resulta imposible ser el único narrador, por muchos mamporros que la policía esté dispuesta a repartir a todo aquel que porte una cámara.
Vivimos en un mundo dominado por las nuevas tecnologías (en esta ocasión, benditas sean), además de múltiples cámaras profesionales (impresionante verlos trabajar en el centro mismo del seísmo, a la manera de los reporteros de guerra. Admirable el testimonio que han dejado, tanto por su valor moral como artístico) la mayoría de los manifestantes portan además de gritos y eslóganes muy certeros ("Roban, pegan, no nos representan") una cámara de fotos o un simple teléfono, cuyas imágenes no verán la luz en TVE pero uno puede contemplarlas en otros medios digitales, o en YouTube. En esas imágenes podemos ver con toda nitidez la porra, absolutamente real, de un policía enmascarado, (todos lo están, excepto algún infiltrado, que también los hubo y también hay testimonio de ello), y el rostro descubierto de su víctima, pálido, con una brecha en la cabeza, una brecha tan real que mana abundante sangre que a su vez resbala por las mejillas de la víctima y le salpica la camisa. Sangre roja, documentada, narrada por cualquiera de los asistentes al "acto".
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Un hombre herido por la policía. Foto: EFE.

He puesto como ejemplo una sola foto, pero en los medios no estatales hay muchísimas más, tantas como narradores que contradicen las versiones oficiales y que al menos por esta vez, están encontrando un amplio eco en los medios internacionales. Pueden seguir sucediendo barbaridades como las de esta semana, pero nuestra cruda realidad ("cruda" en sentido fotográfico, es decir, la primera imagen de la realidad cuando no está retocada), tan compleja y a la vez tan simple, va a tener múltiples narradores y muchos puntos de vista. A los responsables del orden público les va a resultar extremadamente difícil silenciarlos. No bastará con disparar pelotas ni arrastrar a los manifestantes por el asfalto.

domingo, 23 de setembro de 2012

Após protestos, Portugal suspende aumento de contribuição social

 
De: DW
Sob pressão de manifestações em todo o país, governo português recua quanto ao seu plano de reajuste de 11% para 18% da Taxa Social Única. Decisão, porém, pode ameaçar acordos que garantiram pacote de ajuda ao país.
Enquanto milhares de pessoas protestavam diante do Palácio de Belém, sede da presidência portuguesa, o presidente Aníbal Cavaco Silva e o Conselho português de Estado (órgão político de consulta) chegavam a um acordo sobre a chamada Taxa Social Única (TSU).
Após oito horas de negociações, os conselheiros anunciaram que o governo prometeu estudar alternativas para o já anunciado aumento das contribuições sociais.
Em outras palavras, o governo português não vai implementar as novas e polêmicas medidas de austeridade no país diante de tamanha impopularidade. As medidas haviam sido anunciadas há duas semanas e atendem a compromissos assumidos pelo governo de Portugal com os países europeus ao receber o pacote de ajuda financeira.
Muita indignação
Ainda de acordo com o Conselho, o governo pretende se reunir o mais rapidamente possível com empregadores e sindicatos, a fim de discutir saídas. Lisboa havia anunciado um reajuste na contribuição do seguro social único de 11% para 18% para os trabalhadores e, na expectativa de criar novas vagas de emprego, um corte de 23,75% para 18% para os empregadores.
Isso vem gerando uma série de protestos indignados da população há dias. A oposição socialista já ameaça não mais apoiar o rumo adotado pelo governo para lutar contra a crise econômica.
Presidente Cavaco Silva reunido com o Conselho de Estado Presidente Cavaco Silva reunido com o Conselho de Estado
Mais tempo
Altamente endividado, Portugal vem dependendo das parcelas da ajuda financeira repassadas pelos países-membros da zona do euro e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 2011 o país tomou 78 bilhões de euros emprestados.
Em contrapartida, Portugal se viu obrigado a adotar drásticas medidas de contenção de gastos e reformas. Desde então a economia está debilitada e as taxas de desemprego chegaram a 15%. Credores de Portugal concederam ao país um ano a mais para conseguir sanear suas contas públicas.
MSB/afp/rtr
Revisão: Carlos Albuquerque

terça-feira, 19 de junho de 2012

Ajuda a países pobres financia empresas de países ricos

Estudo revela que metade do valor doado pela comunidade internacional para iniciativas privadas em países pobres vai para empresas da OCDE

Em convenções mundiais sobre desenvolvimento e ajuda humanitária, como o 4º Fórum para Efetividade da Ajuda Humanitária, que ocorreu no ano passado, os governos repetem sempre a mesma coisa: que a maneira mais eficaz e justa de administrar a ajuda internacional é deixar nas mãos dos governos que recebem o auxílio financeiro.
Mas uma nova pesquisa mostra que os governos doadores acabam muitas vezes investindo dinheiro público em empresas privadas – muitas delas sediadas nos mesmos países ricos.
Um novo relatório publicado pela Rede Europeia para Dívidas e Desenvolvimento (Eurodad, na sigla em inglês) examinou cerca de US$ 30 bilhões de investimentos no setor privado voltado para o desenvolvimento nos países mais pobres do mundo.
As doações foram feitas por governos europeus, pelo Banco Europeu de Investimento (BEI) e pelo Banco Mundial, entre outros.
Quase metade desses investimentos foi para empresas dos países que fazem parte da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), cujos 34 membros reúnem mais da metade da riqueza mundial.
O estudo mostrou que muitas destas empresas contratadas são grandes corporações e suas subsidiárias. Cerca de 40% estão listadas em alguma das maiores bolsas de valores do mundo.
Dentre os 15 maiores investimentos do BEI e da Corporação Financeira Internacional do Banco Mundial (IFC, na sigla em inglês), dois foram para empresas sediadas no Reino Unido: Helios Towers e Vodafone Ghana. Ao mesmo tempo, apenas 25% das empresas financiadas pelo EIB e pelo IFC estão sediadas em países em desenvolvimento.
Até em paraísos fiscais
A pesquisa da Eurodad também descobriu que muitos dos grandes investimentos em ajuda internacional estão indo, na verdade, para empresas sediadas em paraísos fiscais.
O relatório foi além. Descobriu que 50% da ajuda dada pelo BEI foi enviada por meio de intermediários do setor financeiro. Esses intermediários financeiros incluíam bancos, hedge funds e fundos privados com sistemas de relatório extremamente opacos.
O resultado? É muito difícil de acompanhar como o dinheiro está sendo investido.
“Investimentos em empresas privadas onde são necessários e apropriados podem ser valiosos, mas há pouca evidência de que doadores e instituições internacionais têm um plano claro. Muito do dinheiro público acaba financiando empresas de países ricos. Muito pouco vai para nutrir o setor privado dos países mais pobres do mundo”, diz Jeroen Kwakkenbos, analista financeiro da Eurodad e autor do relatório.
Em conclusão, o relatório da Eurodad prevê que até 2015 um terço de todo o financiamento de governos de países ricos destinado a países em desenvolvimento irá acabar nas mãos de empresas do setor privado. O relatório pode ser baixado na íntegra, em inglês, através deste link.

Brasileiros dizem que não dá mais para ficar em Portugal

Luís Carrasquinho aconselha na sede da OIM em Portugal.
Luís Carrasquinho aconselha na sede da OIM em Portugal. (swissinfo)
Por Filipa Soares, swissinfo.ch

Não há um número, certo ou aproximado, relativo aos imigrantes brasileiros que têm vindo a abandonar Portugal, mas a Organização Internacional para as Migrações (OIM) não tem dúvidas que são bastantes. A saída de cidadãos brasileiros intensificou-se nos últimos anos. A crise é a explicação apontada pela OIM e pelos imigrantes que entrevistámos.

Bernadete, Bruno, Josias e Ronaldo (nome fictício) deixaram o Brasil há alguns anos para trabalhar em Portugal. Quando chegaram não tiveram dificuldades em encontrar emprego, mas o país de acolhimento entrou em crise e alguns deles estão, agora, sem trabalho. Ponderam regressar ao Brasil. O mesmo acontece com os que estão empregados…
Ronaldo chegou a Portugal há onze anos. Arranjou logo trabalho, algo que deixou de ter há cerca de um ano e meio. Na falta de um emprego fixo, este operário da construção civil vai fazendo “uns biscates”, enquanto a mulher “faz bolos por conta própria”. O que os dois recebem não dá pagar todas as despesas de uma família com quatro filhos: “É impossível! Só vamos acumulando dívida”. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a água e a luz, que já foram cortadas mais do que uma vez. Para conseguirem que seja restabelecida a ligação, depois de cada corte, colocam como titular outro familiar.
“Eu já tentei o que podia e não teve jeito. Agora, a esperança é voltar para o Brasil e ver se as coisas melhoram. Em princípio, está melhor do que aqui”, sublinha Rogério, cuja data de regresso “é para ontem”. Em Terras de Vera Cruz, a família tem casa própria, perspectivas de trabalho e parentes, que, em caso de necessidade, podem ajudar.

Com o Brasil no horizonte

BernadetePelissari está em Portugal há quase dez anos
BernadetePelissari está em Portugal há quase dez anos (swissinfo
Bernadete Pelissári também está desempregada. Deixou o trabalho que tinha em Janeiro, por inadaptação, mas agora está a ter dificuldades para encontrar novo emprego.  “Quando vou às entrevistas tem muitas pessoas à espera. Tem sido mais complicado do que antes. Antes saía de um trabalho e entrava logo noutro”, realça a brasileira que está em Portugal há quase dez anos.
A imigrante acredita que vai encontrar um emprego, mas já tem no horizonte o regresso ao Brasil no próximo ano. “Conheço muita gente que está a pensar voltar, que tem uma expectativa muito boa do Brasil, porque aqui está bem cotado, bem falado. A gente ouve falar que lá está melhor”, destaca.
Após oito anos em terras lusas, Bruno Nascimento decidiu que “está na altura de voltar” ao Brasil, mesmo, se ao contrário de Ronaldo e Bernadete, tem trabalho num restaurante perto do Porto. O imigrante de 26 anos soube através dos media que “o Brasil está muito bom” e pensou que tinha chegado a hora de ajudar os negócios dos pais “a crescer”.

Salário “não é compatível” com as despesas

A pujança da economia brasileira contrasta com a crise em que Portugal mergulhou. “O negócio aqui está ficando cada vez pior. Quando cheguei era bem diferente. A gente conseguia juntar um dinheiro. Na época boa, consegui mandar muito dinheiro para o Brasil. Hoje, temos que largar muitas coisas que fazíamos para poder juntar algum”, lamenta Bruno, considerando que trabalhar em Portugal já não compensa no caso dos imigrantes.
 Josias Oliveira também tem trabalho em Portugal, “mas actualmente não está dando mais para ficar”. É que o salário “não é compatível” com as despesas de aluguer, água, telefone, electricidade, combustíveis e impostos. Este cozinheiro, que chegou a Portugal há quase quatro anos, está, por isso, a pensar regressar ao Brasil. Como data-limite traçou Maio do ano que vem. Para já, não tem perspectivas de emprego. Ele, a mulher e dois dos três filhos vão apenas “com a cara e a coragem”, tal como quando chegaram a Portugal. O outro filho deve continuar em território luso: “Ele está a trabalhar. Para um solteiro talvez dê, com um quartinho”.
 A swissinfo.ch contactou o Consulado-Geral do Brasil no Porto, que remeteu quaisquer questões sobre o retorno dos imigrantes brasileiros para o Ministério das Relações Exteriores. Brasília não respondeu às informações que solicitámos por e-mail.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Ricos jogam salvação da Europa para emergentes

Ricos jogam salvação da Europa para emergentes Foto: Divulgação_Reuters

Os Estados Unidos já disseram que não irão participar da recapitalização do FMI, aumentando ainda mais a pressão sobre bloco liderado pelo Brasil, Rússia e China, no G20. Christine Lagarde, quer aumentar a capacidade de empréstimo do Fundo para US $ 500 bi


247 com agências internacionais - Os líderes das 20 maiores economias do mundo que se encontram em Los Cabos, no México, têm a difícil missão de encontrar uma solução para a crise financeira e econômica da Europa e o aumentar a barreira de proteção do Fundo Monetário Internacional (FMI), que atualmente está em US$ 430 bi. "Não quero ficar especulando, mas espero que consigamos acordar uma maior capitalização dessa barreira", disse, neste sábado, 16, a repórteres, o presidente Felipe Calderón, do México, o anfitrião da reunião do grupo.
Os Estados Unidos já disseram que não irão participar da recapitalização do FMI, aumentando ainda mais a pressão sobre os países emergentes. Em abril, vários países membros do G20 já tinham anunciado a intenção de aumentar expressivamente os recursos do FMI, mas o montante estimado não contava com as contribuições da China, da Rússia e do México, que não haviam divulgado o valor de suas doações. "Será a primeira vez que o Fundo será recapitalizado sem a ajuda dos EUA, aumentando a importância dos países emergentes nesse processo", disse Calderón.
Em fevereiro, o ministro brasileiro da Fazenda, Guido Mantega, disse que os países emergentes darão mais recursos ao FMI desde que os europeus reforcem suas medidas para enfrentar a crise e cumpram com a reforma que prevê maior poder de decisão a estas economias no Fundo Monetário Internacional. "Não podemos acertar um aumento de recursos sem a aplicação desta reforma no FMI", disse Mantega.
Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, quer aumentar a capacidade de empréstimo do Fundo para US $ 500 bilhões. Ela acredita que a cifra poderá ajudar a evitar novas crises, que, por acaso, venham minar a economia mundial. Lagarde cancelou a viagem ao Rio+20, para se dedicar a esta questão.

sábado, 16 de junho de 2012

O que há por trás do pacote de 20 bi para os Estados?

De: Antonio Lassance

Foi detectado que os Estados pisaram no freio dos investimentos, em 2011.
Como os Estados respondem por parcela importante do crescimento nacional, não adianta o Governo Federal agir diretamente sobre alguns setores se os Estados agirem na direção contrária. 
Outro fato relevante: o governo quer induzir o modelo de associação empresarial entre setor público e setor privado, mais conhecido como Parcerias Público-Privadas (PPPs).
Em resumo, o Governo Federal deciciu o seguinte:
  • Liberação de R$ 20 bilhões para investimentos em infraestrutura nos estados;
  • Os recursos, que fazem parte de uma linha de crédito do BNDES chamada Pró-Investe, terá financiamento de 20 anos, um ano de carência e taxa de juros que vai de 7,1% a 8,1% ao ano (TJLP mais 1,1% ao ano para operações com aval da União e TJLP mais 2,1% para operações sem essa garantia);
  • Redução de tributos incidentes nas Parcerias Público-Privadas (PPPs) (parceria que União e estados fazem com o setor privado para investimentos);
  • Ampliação de 3% para 5% da receita corrente líquida que cada estado poderia comprometer com estas operações;
  • Atualização das regras do Programa de Ajuste Fiscal (PAF) para ampliar a capacidade de investimento dos estados e viabilizar projetos de médio e longo prazo.

sábado, 2 de junho de 2012

Madonna, um show histórico e o assalto aos cofres públicos em Montenegro

Como um show da diva pop levou a um enorme prejuízo pago com dinheiro público no pequeno país do leste europeu

O dia 25 de setembro de 2008 foi um grande dia para Montenegro, um pequeno país na costa do Mar Adriático. Madonna escolheu a bonita Jazz Beach, na cidade de Budva, para seu show de estreia na região dos Balcãs.
Entre 50 e 60 mil fãs e mais de 400 jornalistas, fotógrafos e equipes de televisão de toda a antiga Iugoslávia e da Europa foram assistir ao que foi descrito como o evento mais importante na história da música de Montenegro.
Madonna chegou de helicóptero do Hotel Splendidi, perto de Budva, onde estava hospedada com a família em uma luxuosa suíte presidencial. E se apresentou em um palco tão comprido quanto um campo de futebol, acompanhada de 20 dançarinos e 12 músicos.
A turnê Sticky & Sweet, de Madonna, foi uma das cinco mais vendidas no mundo naquele ano, levantando US$ 281,6 milhões.
A população de Montenegro não chega a 1 milhão de habitantes. Mesmo assim, os cofres do governo acabaram bancando uma conta altíssima: o governo pagou cerca de US$ 5,3 milhões para reembolsar o banco privado First Bank, que pagou pelo show.
O First Bank é controlado pela família de Milo Djukanovic, presidente do partido no poder e ex-primeiro ministro. Seu irmão, que já foi promoter de shows, é o maior acionista.
Quando anunciaram o show, os organizadores garantiam que nenhum dinheiro do público seria gasto com Madonna. Mas no final quem acabou pagando foram os cidadãos de Montenegro.
O show esvaziou as reservas do banco no momento em que ele estava tendo problemas para cumprir com os pedidos de transferência eletrônica de seus próprios clientes.
Documentos do Banco Central de Montenegro obtidos pelo OCCRP, parceiro da Pública, mostram que mais de 200 pedidos de clientes que tinham dinheiro suficiente no banco foram rejeitados nos dias seguintes ao pagamento de Madonna.

O banco, a família do ex-primeiro-ministro e um monte de mentiras
Publicamente, o show foi organizado pela Prefeitura de Budva, a Organização Nacional de Turismo de Montenegro e a Organização de Turismo de Budva (TOB) e por meio da contribuição de Svetozar Marovic, vice-presidente do Partido Democrata dos Socialistas, o mesmo do ex-primeiro-ministro. “O projeto inteiro será financiado por patrocinadores e nenhum centavo será tirado do orçamento do estado ou do município”, garantiu Marovic na época.
Essa afirmação se provaria falsa. Alguns dias antes do anúncio do show, um total de US$ 7,5 milhões foi transferido de contas do próprio First Bank para a conta da Agência Solo, agente de Madonna.
Publicamente, os organizadores anunciaram que o First Bank venderia parte dos 66 mil ingressos para o show. Mas na mesma época do show, o First Bank encarou uma crise grave de liquidez e começou a ter problemas em pagar os pedidos de transferências eletrônicas dos seus clientes. O banco privado precisavam de dinheiro, e rápido.
De acordo documentos do Banco Central, um negócio foi fechado. A TOB, subsidiária da Organização de Turismo de Budva, e o First Bank assinaram um acordo que transformou o pagamento do banco ao agente de Madonna em um empréstimo a curto prazo de US$ 4,7 milhões para a organização turística – a finalidade declarada do empréstimo era organizar o show.
No mesmo dia, uma empresa privada, a Zavala Invest, transferiu US$ 1,2 milhão para o banco para patrocinar o show. Quatro dias depois, o governo de Montenegro também enviou US$ 600 mil ao First Bank para reembolsá-los por pagamentos realizados em relação ao show.
Tanto esforço governamental para cobrir o buraco não foi suficiente. No dia do show, os clientes do First Bank pediram ao banco transferências no valor de US$ 16 milhões que o banco simplesmente não tinha.
Três semanas depois, o negócio provocou uma auditoria do Banco Central de Montenegro. Os auditores questionaram a transferência para a conta de Madonna e pediram para ver a papelada.
O Banco Central concluiu: “[First Bank] inicialmente financiou o projeto do show da cantora Madonna no começo de Junho de 2008, sem acordar previamente com uma estrutura financeira e com obrigações de todos os participantes do projeto.”

O desespero de um banco muito bem relacionado
No final daquele ano, os problemas de liquidez no banco continuavam, e o First Bank fez um pedido de resgate urgente ao Ministério das Finanças, no valor de US$ 54 milhões – a serem pagos com dinheiro dos contribuintes. O banco devia US$ 40 milhões, incluindo a clientes que precisavam acessar o dinheiro de suas próprias contas.
Não parou por aí. Dois meses depois do show, o First bank pediu à Organização de Turismo de Budva para pagar imediatamente seu “empréstimo” de US$ 4,7 milhões.  A “dívida” foi paga em dezembro daquele ano, através de uma empresa hoteleira pública.
“Recomendamos que o banco não se envolva em projetos que não estão definidos por contratos pré-estabelecidos e que possuem claro motivo e construção financeira”, diz o relatório do Banco Central.
Também não ficou claro quem ficou com o dinheiro das vendas dos ingressos e porque a empresa hoteleira pública, que nunca foi listada como organizadora, saiu com uma dívida de US$ 4,7  milhões do show.
Mais um motivo para o show de Madonna ficar para sempre na memória dos montenegrinos.
Reportagem publicada pelo Organized Crime and Corruption Reporting Project. Clique aqui para ler o texto original.