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domingo, 11 de maio de 2014

Brasil atinge menor nível de desigualdade social desde 1960

País teve forte avanço durante 2011, mas ainda assim permanece entre as 12 nações mais desiguais do mundo

Mariana Durão, da Agência Estado

RIO - O Brasil atingiu em 2012 o menor nível de desigualdade desde 1960, apesar da crise na Europa, De acordo com a pesquisa "De volta ao País do Futuro" do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (CPS/FGV), o índice de Gini - que varia de 0 a 1, sendo menos desigual mais próximo de zero -, caiu 2,1% de janeiro de 2011 a janeiro de 2012, chegando a 0,5190.

A FGV mostra que a renda familiar per capita média do brasileiro cresceu 2,7% nos 12 meses encerrados em janeiro. É o mesmo crescimento registrado de 2002 a 2008, período considerado uma era de ouro mundial, e superior ao 0% de 2009, em função da crise financeira daquele ano.A projeção da FGV é que a desigualdade continue se reduzindo ano País, levando o índice a 0,51407 em 2014. "A má notícia é que ainda somos muito desiguais e estamos entre os 12 países mais desiguais do mundo. Mas a queda de 2001 para cá é espetacular e deve continuar", afirmou Marcelo Neri, coordenador da pesquisa.

A pobreza no País também caiu entre janeiro do ano passado e janeiro deste ano: -7,9%, ritmo três vezes mais rápido do que da meta do milênio da ONU. Isso depois de uma redução de 11,7% na pobreza de maio de 2010 a maio de 2011, quando o Brasil crescia mais.
Segundo Neri, a redução da desigualdade foi fundamental para este resultado na pobreza. Ele cita que na última década a renda dos 50% mais pobres do Brasil cresceu 68%, enquanto a dos 10% mais ricos cresceu apenas 10%. 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Como a desigualdade social explica o videogame de R$ 4 mil

por Léo Rossatto



Playstation 4 (Fonte: http://blog.br.playstation.com/)
Um texto de uma frase no blog do Playstation no Brasil desencadeou uma reação em cadeia nas redes sociais: como é possível que um videogame de 400 dólares nos EUA custe R$ 4 mil no Brasil? Nem mesmo a justificativa padrão dos empresários, de que “os impostos são muito altos no Brasil”, é capaz de justificar um preço que é quase o dobro do preço do concorrente direto.
Para começar, é conveniente fazer um cálculo direto, considerando que o valor do console nos EUA já tem embutido em si uma margem razoável de lucro. São 400 dólares no videogame. Normalmente, o governo cobra uma alíquota de 60% na importação sobre o preço original, elevando o valor do produto para US$ 400 + (60% x US$ 400) = US$ 640. Além disso, podemos inserir, sendo muito generosos, um custo de 10% do valor total do produto, já com impostos para serviços de logística: US$ 640 + (10% x US$ 640) = US$ 704.
Atualizando esse número com uma cotação GENEROSA do dólar, que segue instável no Brasil, temos que o custo final de um Playstation 4 no país deveria ser:
US$ 704 x R$ 2,40 = R$ 1689,60.
Vamos arredondar para R$ 1700,00, com custo de transporte e com os impostos cobrados. E daí constatamos que os R$ 2.300,00 adicionais que a Sony vai cobrar no console são APENAS lucro adicional.
Mas por que isso acontece no Brasil? E por que acontece não apenas com vídeo games, mas com eletrônicos em geral, com carros, com casas, com taxas bancárias, com produtos de supermercado e de todas as demais coisas que o brasileiro consome?
É simples: embora as multinacionais tentem justificar seus preços abusivos com a falácia do Custo Brasil (sim, ele realmente atrapalha, mas não é tão determinante assim), a questão é que no Brasil a maioria das empresas internacionais cobra preços abusivos por seus produtos, mesmo que eles tenham sido fabricados aqui. E essa tentativa de maximização de lucros dá certo por um único motivo: há um público específico que compra esses produtos, mesmo que eles custem preços abusivos.
Quem é esse público específico? A parcela dos mais ricos, em um país com extenso históricos de desigualdades sociais. No Brasil, a parcela de 1% dos mais ricos tem 87 vezes a renda da parcela dos 10% mais pobres. O que, a rigor, significa que eles consomem 87 vezes mais. Ou até mais, se considerarmos que nosso sistema tributário, baseado mais na tributação do consumo do que na tributação da renda, tem efeito impulsionador na desigualdade social no país.
Ainda há um agravante: no Brasil, a diferenciação se dá através do consumo. Culturalmente a ideia de ascensão social no Brasil não se baseia na criação de uma poupança interna ou na qualidade de vida das famílias, mas na noção de consumo. O próprio governo federal se aproveitou disso em seus três mandatos, promovendo um modelo de desenvolvimento baseado no incentivo ao consumo.
As empresas sabem disso, e fazem produtos voltados a esse público que quer diferenciação. É o videogame de R$ 4 mil, o carro de R$ 100 mil, e é a eclosão de estabelecimentos “gourmet”, que oferecem produtos bem mais caros apenas porque o público que vai comprar não quer apenas o produto, e sim o status diferenciado que o consumo daquele produto confere. Karl Marx já falava disso há 150 anos atrás, com o nome de “fetiche da mercadoria”.
A questão é que a desigualdade social potencializa isso no Brasil. A diferença entre ricos e pobres ainda é imensa no país e a venda de um produto desejado por alguns que vão comprá-lo por qualquer preço, como um videogame, por conta do fanatismo e do status social, incentiva as empresas a cobrarem preços absurdos em nome do lucro fácil. Façamos uma conta tosca aqui:
Suponhamos que 25% dos potenciais compradores de um PS4 compraria ele por qualquer preço, pelos fatores já elencados. E suponhamos que o custo para a Sony de um PS4 no Brasil seja de R$ 1500,00, já incluindo impostos, custo de transporte e pós-venda.
Se a Sony colocar o preço do PS4 a R$ 2000,00, por exemplo, quantos consoles ela precisaria vender para lucrar R$ 1 milhão?
A resposta é simples: R$ 1 milhão / R$ 500 de lucro por console = 2000 consoles.
Colocando o preço do PS4 a R$ 4000,00, a Sony precisaria vender quantos consoles para lucrar R$ 1 milhão?
Resposta: R$ 1 milhão / R$ 2500 de lucro por console = 400 consoles.
Se você dividir 400 por 2000, vai perceber que a Sony, quando pratica um preço abusivo, precisa vender APENAS 20% dos videogames para ter o mesmo lucro que teria se vendesse o console a um preço justo. E se a empresa sabe que 25% dos potenciais consumidores são fãs, tem dinheiro e vão comprar o Playstation 4 de qualquer jeito, ela prefere praticar o preço abusivo, porque isso vai resultar na maximização dos lucros da empresa, apesar da corrosão da sua imagem.
Ou seja: a desigualdade social e a existência desse grupo privilegiado faz com que seja justificável, para a Sony, praticar preços abusivos no Brasil. Assim como é justificável para a Apple, para as montadoras ou para as incorporadoras imobiliárias. Nos EUA e na Europa, em que a massa de consumidores médios é maior e tem mais noção do custo e da margem de lucro embutida nos produtos, a tentativa de maximização dos lucros pelo aumento dos preços, minimizando a massa consumidora, é um enorme tiro no pé.

No Brasil, por ainda existir uma elite bastante representativa em relação ao universo de potenciais consumidores desse tipo de produto, as empresas praticam preços abusivos. É lógico que outros fatores também contribuem negativamente, como a infraestrutura de transportes do país, predominantemente rodoviária, e a alta carga de impostos. Mas nem de longe explicam a viabilidade de empresas como a Sony praticarem preços abusivos no Brasil e ainda assim lucrarem. O que explica isso, além do fetiche da mercadoria, é a desigualdade social.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Vulnerabilidade das famílias brasileiras cai 19% em 10 anos

Antônio Lassance

Pesquisa do Ipea comparou os censos demográficos de 2000 e 2010

O índice de vulnerabilidade das famílias, obtido a partir dos censos demográficos de 2000 e 2010, revela que houve redução média de 19,3% da vulnerabilidade das famílias brasileiras nesse período. Em 2000 a vulnerabilidade era de 0,305, e no censo de 2010 o resultado foi de 0,246.

Dos seis componentes do índice geral, o “acesso ao trabalho” e aos “recursos financeiros” foram os maiores responsáveis pela redução média nacional: 29,4 e 36,2%, respectivamente. O “desenvolvimento infanto-juvenil” apresentou redução no índice da ordem de 16%. As dimensões com desempenho relativamente pior foram “condições habitacionais” (-13%), “acesso ao conhecimento” (-11,9%), e “vulnerabilidade social” (-9,2%).

A região Sul apresentou a queda mais significativa no índice geral, com redução de 22,1% de vulnerabilidade, resultado semelhante ao da região Centro-Oeste (21,9%). O Norte foi a região com menor evolução no período, aproximando-se do patamar da região Nordeste.

Os dados fazem parte do Texto para Discussão nº 1835 - Índice de Vulnerabilidade das Famílias (2000-2010), produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O índice
No TD 1835, vulnerabilidade é a incapacidade da família em responder adequadamente, em tempo hábil, a eventos inesperados de ordem ambiental ou social, como inundações, perda de emprego e renda pelo(s) adulto(s) da família, doença do responsável ou inadequações temporárias da residência e sua acessibilidade.

O índice geral de vulnerabilidade se fundamenta nas dimensões “vulnerabilidade social”; “acesso ao conhecimento”; “acesso ao trabalho”; “escassez de recursos”; “desenvolvimento infanto-juvenil”; e “condições habitacionais”.

Estados
A análise revela que o estado que apresentou menor diminuição no indicador de vulnerabilidade foi Roraima (12,8%). O Maranhão obteve redução próxima à média nacional, mas tem a maior vulnerabilidade: 0,348.
A segunda e terceira colocações permanecem, respectivamente, com Piauí (0,331) e Alagoas (0,328). Estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste apresentaram boa redução, acima dos 20%, e acentuaram a distância em relação à média nacional. O Distrito Federal é o que apresenta menor vulnerabilidade: 0,183.

Regiões Metropolitanas
A Região Metropolitana de São Paulo apresentou melhora pequena no período, de apenas 15,95%. Mesmo assim, seu patamar de vulnerabilidade, de 0,196, ainda é menor que o da média das RM's, de 0,212, e a nacional, 0,246.

Quatro RMs tiveram boa evolução no período, da ordem de 25%: RM de Belo Horizonte, RM de Chapecó, RM de Grande São Luís e RM do Norte e Nordeste Catarinense.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Em dez anos, renda dos mais pobres cresceu 90%

Em dez anos, renda dos mais pobres cresceu 90%
 
De: IPEA
 
Parcela mais pobre da população obteve maior melhoria acumulada, de 2001 a 2011

Nos últimos dez anos, entre 2001 e 2011, os 10% mais pobres do país tiveram um crescimento de renda acumulado de 91,2%, enquanto a parcela mais rica da população obteve nesse mesmo período um incremento de 16,6% da renda acumulada. Portanto, a variação do aumento de ganhos reais foi 5,5 vezes (550%) mais rápida para o décimo mais vulnerável dos brasileiros.
“Estatisticamente, em 2011 o Brasil atingiu o menor nível de desigualdade de sua história”, declarou nesta terça-feira, 25, o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcelo Neri, durante a coletiva pública de lançamento do Comunicado do Ipea nº 155 – A década inclusiva (2001-2011): Desigualdade, pobreza e políticas de renda. O estudo, apresentado por ele com a participação do técnico de Planejamento e Pesquisa do Instituto Pedro Souza, foi elaborado a partir da recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2011, divulgada pelo IBGE, complementado por dados inéditos até agosto de 2012.
Marcelo Neri afirmou que a renda em crescimento e a redução da desigualdade são o caminho que o Brasil tem feito desde 2003. Ele também destacou que o ajuste nominal do salário mínimo, programas sociais como o Brasil Carinhoso, Brasil sem Miséria, Minha Casa Minha Vida e outras políticas do governo federal atuam na mesma direção da melhoria da renda do trabalho. “Os brasileiros acham que estão em um país, os macroeconomistas, em outro. O que é mais importante para explicar a renda das pessoas se não a renda do trabalho?”, afirmou.

Desigualdade horizontal
A pesquisa aponta que o combate à desigualdade horizontalizou melhorias de renda. Nesses dez anos, pessoas que vivem em famílias chefiadas por analfabetos tiveram 88,6% de aumento da renda, contra 11,1% de decréscimo para aquelas cujo chefe familiar possui 12 anos de instrução regular ou mais.
No Nordeste, a renda cresceu 72,8%, já no Sudeste, região mais rica do país, essa taxa foi de 45,8%. Entre aqueles que se consideram negros, o aumento de renda foi de 66,3%, e a população declarada como parda obteve melhoria de 85,5% do ganho pelo trabalho. Para os que se dizem brancos, o crescimento de renda foi de 47,6%.
Segundo o presidente do Ipea, a desigualdade mundial de renda caiu em grande parte devido o crescimento da China, bastante expressivo ao longo das últimas décadas, e da Índia, sobretudo nos anos 1990 e 2000. “Por mais que a desigualdade dentro desses e de outros países esteja crescendo, o avanço econômico e a melhoria de renda das suas populações têm causado o efeito mundial, pois esses países abrigam metade dos pobres do mundo”, frisou Neri.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Os ricaços e os 13 jatinhos ilegais

Por Altamiro Borges
Numa ação conjunta da Polícia Federal e da Receita Federal, realizada na madrugada desta quinta-feira (21), foram apreendidos 13 jatinhos de luxo utilizados ilegalmente por ricaços brasileiros. Batizada de Operação Pouso Forçado, ela envolveu 50 agentes da PF e 25 auditores fiscais e percorreu os aeroportos de Congonhas (SP), do Galeão (RJ) e de Jundiaí e Viracopos, no interior paulista.
Segundo os responsáveis pela operação, o esquema de importação irregular de jatos executivos causou prejuízos de pelo menos R$ 192 milhões com a sonegação de impostos. O valor total das aeronaves ultrapassa R$ 560 milhões – apenas um dos jatos custa cerca de R$ 100 milhões. Segundo relatou à Folha o superintendente-adjunto da Receita Federal, Marcos Prado Siqueira, essa foi a maior apreensão de bens do órgão em uma única operação.
Empresa de fachada em paraísos fiscais
As investigações da Operação Pouso Forçado começaram há um ano. Pelo esquema, brasileiros criavam uma empresa de fachada em paraísos fiscais, que firmava contrato com um banco estrangeiro para que o avião fosse registrado nos EUA. Com isso, os jatos voavam para o Brasil como se estivessem a serviço da empresa estrangeira e não pagavam os impostos de importação.
“Havia uma ocultação dos reais proprietários dessas aeronaves. Elas ficavam aqui, mantidas por brasileiros, que pagavam pilotos e arcavam com todos os custos de manutenção e de aluguel de hangares. E era para essas pessoas que as aeronaves voavam... Houve casos em que os jatos eram alugados para terceiros, funcionando como um táxi aéreo”, explica Marcos Prado Siqueira.
Globo vai mostrar a cara dos criminosos?
Os nomes dos ricaços envolvidos na ação criminosa não foram divulgados. Segundo a Polícia Federal, os responsáveis podem ser indiciados pelos crimes de descaminho e falsidade ideológica. Será que as emissoras de televisão, que adoram explorar as imagens de ladrões de galinha sendo presos e humilhados, irão atrás destes ricaços caloteiros. Como já adiantou Marcos Siqueira, os criminosos “são de gente com altíssimo poder aquisitivo, que tem todas as condições para recolher os impostos”.

sábado, 21 de abril de 2012

Brasília faz 52 anos e cresce a desigualdade, diz presidente do Ipea

Folha/UOL FERNANDO RODRIGUES DE BRASÍLIA

Ao completar 52 anos neste sábado (21), Brasília continua inviável do ponto de vista econômico. De cada R$ 10 gastos para sustentar a capital da República, R$ 4 têm de sair dos bolsos de todos os brasileiros. A cidade também tem aumentado o seu grau de desigualdade, a distância entre os mais pobres e os mais ricos, diz o presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), Márcio Pochmann. Ele falou ao "Poder e Política - Entrevista", programa do UOL e da Folha realizado no estúdio do Grupo Folha em Brasília. Leia a transcrição da entrevista de Pochmann à Folha e ao UOL Veja fotos da gravação da entrevista com Pochmann Pochmann é também pré-candidato a prefeito pelo PT na cidade de Campinas (SP), indicado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nos próximos dias ou semanas ele deve deixar a presidência do Ipea para se dedicar à eleição. Ao falar sobre economia nacional, Pochmann diz que faltou uma calibragem melhor por parte da equipe econômica em 2011 quando houve a decisão de colocar um freio na economia. Abaixo, trechos da entrevista de Pochmann e também a íntegra da entrevista. Atranscrição completa também está disponível.

Brasília contraria país e aumenta injustiça social

Os números compilados por Pochmann mostram que Brasília é ao mesmo tempo uma cidade muito rica, mas com bolsões de subdesenvolvimento nos quais vivem os mais pobres. Uma forma mais científica de medir desigualdade social é o Índice Gini, que considera a renda de toda a sociedade. O Índice Gini vai de 0 (menos desigualdade) a 100 (mais desigualdade). Pois em 2005, o índice de Gini para Brasília, era de 60,34. Em 2009, já era de 61,95. No mesmo período, o índice de Gini para o Brasil todo recuou de 56,75 para 54,01. Ou seja, enquanto o Brasil melhora, Brasília anda para trás na redução da desigualdade. Já quando se trata de números macroeconômicos no atacado, a capital da República e os seus cerca de 2,6 milhões de habitantes se destacam do restante do Brasil. O PIB per capita (Produto Interno Bruto) de Brasília é o maior do país: R$ 50.438,46. O segundo lugar fica com São Paulo, com R$ 26.202,22. A renda domiciliar per capita de Brasília também é mais do que o dobro da média brasileira. Na capital federal, o valor é de R$ 1.326,23. No Brasil, R$ 631,71.
A internet está disseminada de maneira ampla entre os brasilienses: 53,7% das casas têm acesso à web. No Brasil, a média é de 28,1%. Os problemas começam quando se observa a fonte dos recursos para tanta riqueza. Brasília padece do mal da "esatdodependência" de forma aguda. Não produz receita própria. Criada entre outras razões para trazer desenvolvimento para o interior do Brasil, a capital não cumpriu ainda essa missão. O PIB do Distrito Federal é derivado basicamente de dinheiro público: 93% são serviços. E quem paga por esses serviços? Os funcionários públicos que ganham os melhores salários. Quase não existe indústria em Brasília (só 6% do PIB) e a agropecuária é nula (0,5% do PIB). Esse quadro tem se mantido estagnado há mais de uma década. Uma outra análise possível é sobre os salários e os empregos em Brasília. Fica evidente que a capital federal é dependente de maneira extrema do Estado.
Em 2001, os servidores públicos representavam 16,1% de toda força de trabalho empregada no Distrito Federal. Em 2009, último dado disponível, o percentual teve leve elevação, para 16,8%. Mas mesmo com um percentual pequeno na força de trabalho total, os funcionários públicos são os donos da maior renda. Em 2001, os salários dos servidores em Brasília representavam 32,8% de todo o Distrito Federal. Em 2009, o percentual pulou para 40,8%. Ou seja, embora apenas 17 de cada 100 empregos em Brasília sejam no setor público, de cada R$ 100 pagos em salários, R$ 41 vão para o bolso de algum servidor do Estado.
Como não há receita própria que sustente a riqueza local, quem banca essa realidade são todos os brasileiros por meio do Fundo Constitucional do Distrito Federal: um dinheiro que é doado anualmente pela União para Brasília. No ano passado, o Fundo Constitucional do Distrito Federal foi de R$ 8,3 bilhões. Correspondeu a 39,1% de tudo o que foi gasto na capital. Ou seja, todos os brasileiros precisam dar compulsoriamente esse dinheiro, anualmente, para que Brasília possa continuar a existir. Neste ano de 2012, o valor previsto para o Fundo Constitucional de Brasília é de R$ 10 bilhões. Ainda assim, mesmo com tanto dinheiro público recebido de mão beijada, a cidade não consegue resolver alguns problemas crônicos. Um deles é a pobreza nas regiões administrativas mais afastadas do centro -as chamadas "cidades satélites", uma expressão hoje considerada politicamente incorreta pelos brasilienses. Brasília tem a segunda maior favela do Brasil, o Condomínio Sol Nascente, com 56.483 moradores, segundo o IBGE divulgou em dezembro de 2011. A Sol Nascente perde apenas para Rocinha, no Rio, com uma população oficial de 69.161 pessoas. Essa favela fica em Ceilândia, uma outra história triste de segregação dentro do Distrito Federal. No final dos anos 60 e início dos 70, começaram a surgir pequenas favelas perto do centro de Brasília. A ditadura militar então criou, em 1971, a Campanha de Erradicação de Invasões: CEI. Hoje, Ceilândia tem perto de 400 mil habitantes de baixa renda, todos estrategicamente instalado a 26 quilômetros de distância do centro rico da capital federal.
Para Marcio Pochmann, está em formação uma região em Brasília parecida com a Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. "A realidade que nós temos hoje aqui na capital federal decorre de um desvio do projeto original estabelecido pelo presidente Juscelino Kubitschek, que era de interiorização do desenvolvimento e atração da indústria para o Centro-Oeste", diz o presidente do Ipea. A partir da ditadura militar (1964-1985), segundo Marcio Pochmann, o eixo de desenvolvimento para o Centro-Oeste passou a ser apenas a agricultura. "Mas a agricultura por si só não é suficiente para gerar empregos e renda suficientes para dar um grau de economia para o DF que nós não temos hoje". Mas já se passaram 27 anos desde o fim da ditadura militar. Por que nada foi feito para corrigir a falta de industrialização? "O discurso dos governos democráticos nesses últimos 27 anos são diferentes do discurso do regime militar. Mas a prática não se revelou diferente", constata Pochmann. Tudo considerado, Brasília completa 52 anos muito rica. Sua população é bem instruída. Entre os adultos com 15 anos ou mais, a média de estudo é de 9,6 anos. A média nacional é de 7,6 anos de estudo. Mas o entorno do núcleo abastado é miserável e a cidade tem a mais alta taxa de homicídios do Brasil (121 para cada 100 mil homens de 15 a 29 anos) -apesar de os policiais militares locais terem o maior salário entre PMs do país. As perspectivas de melhoria são pequenas.
O governador de Brasília, Agnelo Queiroz , foi indagado pela Folha e pelo UOL em 2011 sobre quando a capital federal poderia caminhar com as próprias pernas, ter uma economia robusta e prescindir do Fundo Constitucional. Ele não respondeu de forma direta. Mas deu a entender que esse é um projeto de longo prazo: "Nosso planejamento tem que ser para os próximos 50 anos". Saiba mais sobre Brasília, as razões que levaram a cidade a ser construída onde está e o histórico de escândalos recentes no Blog do Fernando Rodrigues.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Maior Queda da Desigualdade de Renda no Brasil

Nas duas últimas décadas, a desigualdade de renda cresceu em 14 de 18 países do G-20. De acordo com relatório divulgado pela ONG Oxfam, as quatro nações em que o crescimento econômico veio acompanhado por divisão mais equitativa da renda foram Brasil, Coreia do Sul, Argentina e México. Para fazer a análise, a Oxfam acompanhou a evolução do índice Gini dos países do G-20 ao longo das duas últimas décadas. Criado pelo estatístico italiano Corrado Gini, esse índice mede a desigualdade de renda de uma população. Varia de zero a 1, em que zero significa a perfeita igualdade e 1 a máxima desigualdade.
“Se o G-20 pretende atacar a pobreza, precisa fazer mais do que promover crescimento. Precisa adotar políticas que impulsionem a renda dos pobres e os protejam da degradação ambiental”, disse Caroline Pearce, coautora do relatório “Deixados para trás pelo G20? (Desigualdade e degradação ambiental ameaçam excluir os pobres dos benefícios do crescimento econômico)“.
A Oxfam destaca o Brasil como o país em que houve a maior queda na desigualdade de renda a partir de 1990. “O desempenho do Brasil mostra como um país com alta desigualdade e comparativamente baixo crescimento pode reduzir substancialmente a pobreza por meio do enfrentamento da desigualdade. Indo além, nosso modelo indica que, se os formuladores de políticas públicas puderem intensificar seu foco na desigualdade enquanto o crescimento acelera – ou seja, na promoção de crescimento verdadeiramente inclusivo -, eles poderão virtualmente erradicar a miséria”, afirma o relatório.
Segundo a Oxfam, são cinco as políticas governamentais cruciais para diminuir a desigualdade:
  1. transferência de renda;
  2. investimentos em acesso universal à saúde e à educação;
  3. impostos progressivos;
  4. promoção dos direitos e de oportunidades para as mulheres;
  5. reforma agrária.
No G-20, grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo, os países em que a desigualdade avançou com maior velocidade são Rússia, China, Japão e África do Sul. Mesmo nações ricas como Canadá, Reino Unido e Alemanha apresentaram aumento na distância entre milionários e pobres.

domingo, 12 de dezembro de 2010

O censo 2010 constatou que o número de residências desocupados é maior que o déficit habitacional brasileiro. Isso mostra o quanto a feber na construção civil tem de especulativa e o quanto os sucessivos favorecimentos à indústira da construção civil, via flexibilizações dos planos diretores, nada tem a ver com alguma necessidade social.
Claro que os números são brutos. Nem todas as chabitaões vazias serviriam para abrigar a população que, hoje, vive em condições sub-humanas. Ou seja, não basta abrir os apartamentos fechados na Av. Independência para receber as famílias da vila Chocolatão. Porém, o fato de que, matematicamente, há mais casas vazias do que pessoas sem moradia decente, mostra que há algo muito errado no Brasil. A concentração da propriedade imobiliária é uma das faces da concentração de renda no país.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Brasil: é preciso avançar muito no combate às desigualdades II

O total de milionários no país atingiu 147 mil pessoas em 2009. Possuem ativos de ao menos US$ 1 milhão, desconsiderando a principal residência, segundo  critério do estudo de Capgemini e Merrill Lynch. Estima-se que cerca de 87% da riqueza dos milionários no Brasil está concentrada nas mãos dos ultramilionários, isto é, aqueles que têm ao menos US$ 30 milhões. Na média global, os ultramilionários concentram 35,5% da riqueza. Entre os 12 países com mais milionários, o crescimento brasileiro nesse ano só foi maior que os de Alemanha e Itália. Na média, o número de milionários no mundo avançou 17%. Portanto, o crescimento no número de milionários no Brasil não acompanhou a média mundial no ano de 2009. Mas não é negativo o país ter perdido uma posição no ranking dos que concentram mais ricos…
Os ricos ficaram mais ricos no ano em que o mundo passava pela pior recessão em oito décadas. Fundamentalmente, as reavaliações no mercado de ações levaram o número de milionários ao redor do mundo aumentar 17%, para 10 milhões de pessoas. A riqueza na mão dos milionários cresceu para US$ 39 trilhões, quase recuperando as perdas sofridas com a crise financeira. As constatações estão no mais recente relatório Merrill Lynch-Capgemini sobre a riqueza no mundo, segundo resumo de Valor (23/06/10).
O valor das ações aumentou 50%, enquanto os fundos hedge recuperaram a maior parte das perdas sofridas em 2008. O crescimento mais acelerado da riqueza ocorreu na Índia, China e Brasil, alguns dos mercados mais duramente atingidos em 2008.
O número de milionários subiu para 3 milhões na Ásia, igualando a Europa pela primeira vez. As fortunas combinadas dos milionários asiáticos cresceram para US$ 9,7 trilhões, superando o total da Europa, de US$ 9,5 trilhões. Na América do Norte, a fortuna dos milionários subiu para US$ 10,7 trilhões.
Os Estados Unidos continua o lar da maioria dos milionários em 2009 (2,87 milhões), seguidos do Japão (1,65 milhão), Alemanha (861 mil) e China (477 mil). A Suíça teve a maior concentração de milionários: quase 35 para cada 1 mil habitantes adultos.
Mas, mesmo com a recuperação dos portfólios de investimentos, os investidores continuaram cautelosos, depois que o colapso eliminou uma década de ganhos com as ações, provocou a contração da economia mundial e fez disparar o desemprego.
O relatório Merrill Lynch-Capgemini, baseado em pesquisas com mais de 1.100 investidores milionários que operam com 23 administradoras de fortunas, constatou que eles diversificaram suas aplicações por grande variedade de investimentos, incluindo commodities e imóveis. Os ricos ampliaram seus investimentos, em vez de concentrá-los.
Os milionários aplicaram volume maior em investimentos de renda fixa, buscando retornos previsíveis e fluxo de caixa. O desafio foi convencer os clientes a abandonar posturas mais defensivas e partir para investimentos mais arriscados e de maiores retornos. Ainda havia certa indecisão. A liquidez era importante para as pessoas que precisavam de fluxo de caixa para preservar seus estilos de vida.
O estudo constatou que a confiança dos investidores nos consultores e nas autoridades reguladoras continuava abalada. Os ricos estavam administrando ativamente seus investimentos, buscando aconselhamento personalizado e a transparência sobre os títulos que compram. Mas os investidores também estavam cada vez menos preocupados, revelou o estudo. As famílias, que “mantiveram seu dinheiro mais perto de casa”, durante a pior parte da crise, começaram a transferir dinheiro para mercados estrangeiros, especialmente os mercados emergentes.
Os investidores americanos e europeus aumentaram suas exposições aos mercados asiáticos, que, segundo projeções, deverão liderar a expansão da economia mundial. Os ricos da Europa também estão aumentando suas posições em ativos americanos e canadenses.
Os clientes mais ricos estão olhando com mais atenção as ações de companhias que pagam dividendos mais elevados, como alternativa aos rendimentos menores dos bônus pagos aos executivos. Eles estão abertos a áreas que não mereciam atenção antes, na medida em que tentam preservar seus estilos de vida. O relatório ressalta que os clientes não estão mais tão inclinados a permanecer em contas de renda fixa que rendem no máximo 1% ao ano nos países maduros – e até 1% ao mês no Brasil.

domingo, 25 de julho de 2010

Portugal é o segundo país mais desigual na Europa

Os índices da desigualdade entre ricos e pobres mostram que pouco ou nada mudou no país nos últimos 20 anos. A não ser o aumento da precariedade, que fez de Portugal o segundo país europeu com mais recibos verdes.
O coeficiente de Gini mede a distribuição dos rendimentos e pouco tem variado no caso português. Era de 36% em 1997 e assim continua em 2008, 6% acima da média da União Europeia. Neste índice, quanto maior o valor, maior a disparidade entre os rendimentos dos mais ricos e dos mais pobres.
Portugal é acompanhado pela Bulgária e Roménia no segundo lugar deste pódio nada invejável, e fica apenas a 2% de distância da Letónia. No outro lado da tabela figura a Eslovénia, quye com 23% é o país europeu com maior equilíbrio na distribuição de rendimentos.
São os rendimentos do trabalho que determinam a desigualdade em Portugal, país onde a diferença entre os salários mais altos e os mais baixos é das maiores na Europa, voltando a disputar as três primeiras posições com a Bulgária e a Letónia. Em 2008, os salários recebidos pelos 20% mais ricos foram mais de seis vezes superiores aos dos 20% mais pobres.
O aumento da precariedade em Portugal também é confirmado pelos estudos comparativos internacionais. Um inquérito do Eurofound concluiu que 75% dos empresários portugueses utilizaram trabalhadores temporários, a recibo verde ou com contrato a prazo. Isto coloca o país no segundo lugar entre 30 países europeus no que respeita ao recurso a recibos verdes e no sétimo maior utilizador de contratos a prazo. Quanto ao trabalho temporário, o resultado do inquérito diz que Portugal ocupa a 12ª posição. Se juntarmos estas três categorias do trabalho precário, os empresário portugueses são os oitavos a nível europeu a recorrer a contratos instáveis.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Brasil: é preciso avançar muito no combate às desigualdades

Com desigualdade, IDH do Brasil cai 19%, aponta novo método elaborado pelo PNUD
As condições de vida desiguais no Brasil corroem quase 1/5 do padrão de desenvolvimento do país, segundo um relatório divulgado nesta sexta-feira pelo PNUD. O estudo traz o cálculo do IDH-D (Índice de Desenvolvimento Humano ajustado à Desigualdade) que “penaliza” as diferenças de rendimentos, de escolaridade e de saúde. O IDH brasileiro cai 19% quando, em vez de levar em conta as médias nacionais como ocorre geralmente, considera essas disparidades. Ajustado de acordo com o mesmo método, o índice da América Latina e do Caribe tem queda semelhante (-19,1).
Os dados estão no Relatório Regional sobre Desenvolvimento Humano para a América Latina e o Caribe 2010, intitulado “Atuar sobre o futuro: romper a transmissão intergeracional da desigualdade”. A publicação constata que a desigualdade na região é alta, persistente e ocorre em um contexto de baixa mobilidade social.
O texto aborda o fosso entre vários grupos (homens e mulheres, zona rural e urbana, brancos e negros/índios) e sob vários aspectos, mas a medida mais sintética apresentada é o novo IDH. A metodologia que “pune” os locais mais desiguais já havia surgido em pesquisas do PNUD no México e na Argentina, mas é a primeira vez que é aplicada para uma região do globo.
O novo índice não pode ser comparado ao divulgado nos relatórios internacionais, pois usa indicadores diferentes (veja quadro ao lado). No estudo para a América Latina, o PNUD desenvolveu um IDH parecido com o original, levando em conta as médias de cada país, e depois o ajustou de acordo com a desigualdade, dando maior peso aos domicílios que estão na parte mais baixa da escala social. Os aspectos considerados foram os mesmos do IDH tradicional: renda, educação e saúde.
Num cenário em que se dá grande ênfase à disparidade, os países mais penalizados foram Nicarágua (em que o IDH-D é 47,3% menor que o IDH), Bolívia (-41,9%), Honduras (-38,4%) e Colômbia (-26,9%). Isso significa que, nessas nações, o “custo da desigualdade” é maior. Na outra ponta estão Uruguai (-3,9%), Argentina (-5,9%) e Chile (-6,5%). Os dados são de 2005 a 2008, de acordo com o país.
No Brasil, a desigualdade de renda é a que mais pesa sobre o IDH ajustado (queda de 22,3%), seguido de educação (-19,8%) e saúde (-12,5%), segundo o cálculo, feito com base em números de 2008. Na América Latina a tendência é a mesma, mas com intensidade menor (queda de 18,8% na dimensão renda, 16,6% em educação e 12% em saúde).

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Do que o Brasil precisa?


Ler Guimarães Rosa (e outras dez sugestões para fazer deste 
um país melhor para nós e os nossos filhos) *

Diminuir a desigualdade social. Ainda somos um dos países de pior distribuição de renda no planeta, em poucos lugares há tanta diferença entre ricos e pobres. A miséria num país tão rico, os sem-teto e os sem-terra, são uma vergonha, um atestado de incompetência da sociedade brasileira e de seus muitos governos. Se não por questões humanitárias, que já deveriam ser suficientes, a sociedade brasileira poderia apoiar políticas de distribuição de renda e erradicação da miséria pensando ao menos no bem-estar de seus filhos, já que os índices de violência estão diretamente relacionados com os indicadores sociais.
  Aumentar o salário dos professores. O Brasil precisa melhorar muito a qualidade do ensino, especialmente do ensino público. Acredito que a maneira mais rápida e eficiente de fazer isso é aumentar muito o salário dos professores. Internet nas escolas, boas bibliotecas e bons prédios são importantes, mas o que mais determina a boa qualidade do ensino são os bons professores, que só existirão se profissionais competentes e preparados pensarem que pode ser uma boa ideia ensinar.