terça-feira, 19 de junho de 2012

Brasileiros dizem que não dá mais para ficar em Portugal

Luís Carrasquinho aconselha na sede da OIM em Portugal.
Luís Carrasquinho aconselha na sede da OIM em Portugal. (swissinfo)
Por Filipa Soares, swissinfo.ch

Não há um número, certo ou aproximado, relativo aos imigrantes brasileiros que têm vindo a abandonar Portugal, mas a Organização Internacional para as Migrações (OIM) não tem dúvidas que são bastantes. A saída de cidadãos brasileiros intensificou-se nos últimos anos. A crise é a explicação apontada pela OIM e pelos imigrantes que entrevistámos.

Bernadete, Bruno, Josias e Ronaldo (nome fictício) deixaram o Brasil há alguns anos para trabalhar em Portugal. Quando chegaram não tiveram dificuldades em encontrar emprego, mas o país de acolhimento entrou em crise e alguns deles estão, agora, sem trabalho. Ponderam regressar ao Brasil. O mesmo acontece com os que estão empregados…
Ronaldo chegou a Portugal há onze anos. Arranjou logo trabalho, algo que deixou de ter há cerca de um ano e meio. Na falta de um emprego fixo, este operário da construção civil vai fazendo “uns biscates”, enquanto a mulher “faz bolos por conta própria”. O que os dois recebem não dá pagar todas as despesas de uma família com quatro filhos: “É impossível! Só vamos acumulando dívida”. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a água e a luz, que já foram cortadas mais do que uma vez. Para conseguirem que seja restabelecida a ligação, depois de cada corte, colocam como titular outro familiar.
“Eu já tentei o que podia e não teve jeito. Agora, a esperança é voltar para o Brasil e ver se as coisas melhoram. Em princípio, está melhor do que aqui”, sublinha Rogério, cuja data de regresso “é para ontem”. Em Terras de Vera Cruz, a família tem casa própria, perspectivas de trabalho e parentes, que, em caso de necessidade, podem ajudar.

Com o Brasil no horizonte

BernadetePelissari está em Portugal há quase dez anos
BernadetePelissari está em Portugal há quase dez anos (swissinfo
Bernadete Pelissári também está desempregada. Deixou o trabalho que tinha em Janeiro, por inadaptação, mas agora está a ter dificuldades para encontrar novo emprego.  “Quando vou às entrevistas tem muitas pessoas à espera. Tem sido mais complicado do que antes. Antes saía de um trabalho e entrava logo noutro”, realça a brasileira que está em Portugal há quase dez anos.
A imigrante acredita que vai encontrar um emprego, mas já tem no horizonte o regresso ao Brasil no próximo ano. “Conheço muita gente que está a pensar voltar, que tem uma expectativa muito boa do Brasil, porque aqui está bem cotado, bem falado. A gente ouve falar que lá está melhor”, destaca.
Após oito anos em terras lusas, Bruno Nascimento decidiu que “está na altura de voltar” ao Brasil, mesmo, se ao contrário de Ronaldo e Bernadete, tem trabalho num restaurante perto do Porto. O imigrante de 26 anos soube através dos media que “o Brasil está muito bom” e pensou que tinha chegado a hora de ajudar os negócios dos pais “a crescer”.

Salário “não é compatível” com as despesas

A pujança da economia brasileira contrasta com a crise em que Portugal mergulhou. “O negócio aqui está ficando cada vez pior. Quando cheguei era bem diferente. A gente conseguia juntar um dinheiro. Na época boa, consegui mandar muito dinheiro para o Brasil. Hoje, temos que largar muitas coisas que fazíamos para poder juntar algum”, lamenta Bruno, considerando que trabalhar em Portugal já não compensa no caso dos imigrantes.
 Josias Oliveira também tem trabalho em Portugal, “mas actualmente não está dando mais para ficar”. É que o salário “não é compatível” com as despesas de aluguer, água, telefone, electricidade, combustíveis e impostos. Este cozinheiro, que chegou a Portugal há quase quatro anos, está, por isso, a pensar regressar ao Brasil. Como data-limite traçou Maio do ano que vem. Para já, não tem perspectivas de emprego. Ele, a mulher e dois dos três filhos vão apenas “com a cara e a coragem”, tal como quando chegaram a Portugal. O outro filho deve continuar em território luso: “Ele está a trabalhar. Para um solteiro talvez dê, com um quartinho”.
 A swissinfo.ch contactou o Consulado-Geral do Brasil no Porto, que remeteu quaisquer questões sobre o retorno dos imigrantes brasileiros para o Ministério das Relações Exteriores. Brasília não respondeu às informações que solicitámos por e-mail.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Assessora da Comissão da Verdade vai acessar depoimentos de Dilma sobre sessões de tortura

Danilo Macedo  Repórter da Agência Brasil

Brasília - O coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Gilson Dipp, ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), disse que uma assessora está em Belo Horizonte e que vai acessar o arquivo do Conselho de Direitos Humanos de Minas (Conedh-MG), que guarda o depoimento da presidenta Dilma Rousseff sobre as torturas que sofreu quando estava presa no período da ditadura militar.
“A pesquisadora já estava lá, com pesquisas que tem na Universidade Federal de Minas Gerais [UFMG], e vamos aproveitar para que ela faça esse contato”, disse Dipp à Agência Brasil. Segundo ele, a assessora poderá auxiliar a comissão verificando, além dos arquivos divulgados ontem (17) e hoje (18) pelos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, outros documentos que ainda não tenham sido abertos.
No testemunho prestado em 2001, Dilma Rousseff descreve as sessões de tortura às quais foi submetida em 1972, em Juiz de Fora. Ela revelou que chegou a ser agredida com socos no maxilar. “Minha arcada girou para outro lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente se deslocou e apodreceu”, relatou Dilma. “Só mais tarde, quando voltei para São Paulo, o Albernaz [capitão Alberto Albernaz, do DOI-Codi] completou o serviço com um soco, arrancando o dente”.
Gilson Dipp disse que ainda não foi discutida, dentro do grupo, a possibilidade de ouvir a presidenta sobre as torturas que ela sofreu em Minas Gerais.
Segundo as reportagens publicadas pelos jornais, do grupo Diários Associados, Dilma tinha 22 anos quando foi presa. Ela militava no Comando de Libertação Nacional (Colina), grupo considerado terrorista pelos militares, e usava codinomes como Estela, Stela, Vanda, Luíza, Mariza e Ana.
Edição: Vinicius Doria

A Intrigante Capela dos Ossos

Se algum dia pararmos para pensar se nossa existência é mesmo distinta ou aleatória e o porquê de estarmos nesse planeta e nesse tempo, talvez fosse interessante se pudéssemos observar o interior dessa capela. Ao mesmo tempo assustadora e bonita, sua decoração parece ter sido feita para nos lembrar da nossa condição.
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A Capela dos Ossos é um dos mais conhecidos monumentos de Évora, em Portugal. Está situada na Igreja de São Francisco. Foi construída no sécurlo XVII por iniciativa de três monges que, dentro do espírito da contra-reforma religiosa, de acordo com as normativas do Concílio de Trento, pretendeu transmitir a mensagem da transitoriedade da vida, tal como se depreende do célebre aviso à entrada: "Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos". Fala-se que foi calculado por volta de 5000 ossos, provenientes dos cemitérios, situados em igrejas e conventos da cidade.
Poemas dentro da capela:
Poema sobre as caveiras
As caveiras descarnadas
São a minha companhia,
Trago-as de noite e de dia
Na memória retratadas
Muitas foram respeitadas
No mundo por seus talentos,
E outros vãos ornamentos,
Que serviram à vaidade,
E talvez…na eternidade
Sejam causa de seus tormentos.
Poema sobre a existência
Aonde vais, caminhante, acelerado?
Pára…não prossigas mais avante;
Negócio, não tens mais importante,
Do que este, à tua vista apresentado.
Recorda quantos desta vida tem passado,
Reflete em que terás fim semelhante,
Que para meditar causa é bastante
Terem todos mais nisto parado.
Pondera, que influído d'essa sorte,
Entre negociações do mundo tantas,
Tão pouco consideras na morte;
Porém, se os olhos aqui levantas,
Pára…porque em negócio deste porte,
Quanto mais tu parares, mais adiantas.
Este soneto é atribuído ao Padre António da Ascensão Teles, pároco da freguesia de São Pedro na igreja de São Francisco) entre 1845 e 1848.
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Alicè - A arte Urbana no feminino

Alice Pasquini é uma multifacetada artista italiana. Trabalha com design, cenografia e pintura, expondo em várias galerias, e deixando a sua marca por um sem número de cidades Europeias. Gosta de representar o lado humano mais agradável, a inocência, a amizade o amor. Tem trabalhos expostos em várias galerias italianas.
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Alice Pasquini, ou Alicè é uma lufada de ar fresco na arte urbana. Talvez por trabalhar em áreas diferentes, embora complementares, como o design, a pintura e a cenografia, tenha a capacidade de apreender o mundo de uma maneira mais sensorial. A sua temática é diferente daquelas a que nos habituaram os artistas deste género. Aqui não se pintam sentimentos negativos, nem rabiscos imperceptíveis, que pouco contribuem para melhorar o espaço onde está inserido.
A artista gosta de pintar as pessoas e a maneira como estas se relacionam entre si, dos seus sentimentos humanos mais nobres, como amor, felicidade, amizade, inocência. Numa forma de arte ainda muito associado aos homens, Alicé tem uma particular predilecção para a representação de mulheres fortes, autónomas e independentes.
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Actualmente a sua residência é em Roma, e é na Itália que cria grande parte da sua arte, e onde expões em galerias. Tem o seu trabalho espalhado pelo mundo inteiro, embora com principal incidência na Europa. O facto de já ter vivido no Reino Unido, França, e Espanha confere-lhe um conhecimento mais profundo das diferentes sociedades europeias.
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Mas é em Roma com seu M.U.R.O (Museo Urban di Roma, o museu de arte urbana de Roma), contribuem para a utilização da rua como fonte primordial de exposições urbanas de Alicè, torna a arte acessível a toda a gente, sem filas, sem bilhete, mas com muita beleza.
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A sua obra é bastante variada, seja na cor ou na temática. Possui elementos que atraem aspessoas, criando uma empatia com a sua obra, e é nas pessoas reais que reside a sua fonte de inspiração.
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Como artista multifacetada que é, já teve inúmeros convites para a participação em projectos de ilustração e design gráfico, de onde se destaca a novela gráfica “vertigine ed rizzoli”.
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Usa todos os tipos de tela urbana, como fachadas de casas, muros, portas e portões, mas também a parte de trás de sinais de trânsito, bancos de jardim, caixas de luz. Podemos ser surpreendidos numa esquina com um mural de grandes dimensões, ou então com um caixote do lixo decorado de uma forma soberba. Exemplo perfeito da função da arte enquanto elemento de enriquecimento urbano.
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Ricos jogam salvação da Europa para emergentes

Ricos jogam salvação da Europa para emergentes Foto: Divulgação_Reuters

Os Estados Unidos já disseram que não irão participar da recapitalização do FMI, aumentando ainda mais a pressão sobre bloco liderado pelo Brasil, Rússia e China, no G20. Christine Lagarde, quer aumentar a capacidade de empréstimo do Fundo para US $ 500 bi


247 com agências internacionais - Os líderes das 20 maiores economias do mundo que se encontram em Los Cabos, no México, têm a difícil missão de encontrar uma solução para a crise financeira e econômica da Europa e o aumentar a barreira de proteção do Fundo Monetário Internacional (FMI), que atualmente está em US$ 430 bi. "Não quero ficar especulando, mas espero que consigamos acordar uma maior capitalização dessa barreira", disse, neste sábado, 16, a repórteres, o presidente Felipe Calderón, do México, o anfitrião da reunião do grupo.
Os Estados Unidos já disseram que não irão participar da recapitalização do FMI, aumentando ainda mais a pressão sobre os países emergentes. Em abril, vários países membros do G20 já tinham anunciado a intenção de aumentar expressivamente os recursos do FMI, mas o montante estimado não contava com as contribuições da China, da Rússia e do México, que não haviam divulgado o valor de suas doações. "Será a primeira vez que o Fundo será recapitalizado sem a ajuda dos EUA, aumentando a importância dos países emergentes nesse processo", disse Calderón.
Em fevereiro, o ministro brasileiro da Fazenda, Guido Mantega, disse que os países emergentes darão mais recursos ao FMI desde que os europeus reforcem suas medidas para enfrentar a crise e cumpram com a reforma que prevê maior poder de decisão a estas economias no Fundo Monetário Internacional. "Não podemos acertar um aumento de recursos sem a aplicação desta reforma no FMI", disse Mantega.
Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, quer aumentar a capacidade de empréstimo do Fundo para US $ 500 bilhões. Ela acredita que a cifra poderá ajudar a evitar novas crises, que, por acaso, venham minar a economia mundial. Lagarde cancelou a viagem ao Rio+20, para se dedicar a esta questão.

Cabecinha no ombro

domingo, 17 de junho de 2012

Copa na África do Sul: “Legado para quem?”

ReproduçãoEddie Cottle e a Copa na África do Sul: “Legado para quem?”

Pesquisador sul-africano que escreveu livro sobre a Copa na África diz que seu verdadeiro legado foram dívidas e desemprego
O sul africano Eddie Cottle, autor do livro “Copa do Mundo da África do Sul: um legado para quem?”, acompanhou o megaevento de 2010 com olhos atentos. Ele coordenou a campanha por trabalho decente entre os sindicatos da construção no país. E após pesquisar o antes, durante e pós Copa, garante que as perspectivas de crescimento do país, aumento do número de empregos e no número de turistas nunca se concretizou por lá.
Ele acredita para o Brasil a coisa pode ser ainda pior, principalmente por causa do grande número de despejos que já aconteceram por aqui. “Olhando para o que está acontecendo no Brasil, o que se pode esperar é um aumento pequeno dos níveis de emprego a curto prazo, salários baixos, e a maioria dos fundos públicos sendo desviados para os lucros das grandes empresas”.
Quais eram as promessas para o evento na África do Sul? E quem mais encorajou esta “ilusão”? A mídia? O governo? A própria Fifa?
Uma das maneiras mais perniciosas de se criar a aceitação geral da Copa do Mundo é através da divulgação de números exagerados de geração de empregos. Nesse sentido, o evento de 2010 parecia muito interessante. O número de postos de trabalho foi estimado em 695.000 para os períodos pré e durante a Copa do Mundo. E o que aconteceu na realidade? No segundo trimestre de 2010, as taxas de empregabilidade diminuíram em 4,7%, ou seja, perdemos 627.000 postos de trabalho. No setor da construção civil, onde se tinha a sensação de que os ‘bons tempos’ seriam sentidos por todos, o emprego diminuiu 7,1% (ou 54.000 postos de trabalho) neste período. Na verdade, o ano de 2010 testemunhou com menos 111.000 postos de emprego na construção. Olhando para o que está acontecendo no Brasil, o que se pode esperar é um aumento pequeno dos níveis de emprego a curto prazo, salários baixos, e a maioria dos fundos públicos sendo desviados para os lucros das grandes empresas. Quando o termo “legado” é usado pelas comissões de licitação, pela Fifa, pelos Comitês Organizadores Locais, funcionários do governo e as principais consultorias econômicas, ele é assumido como inteiramente positivo, com o argumento de que os benefícios do crescimento econômico e do desenvolvimento urbano irão para as comunidades como uma coisa natural. Essas são mentiras absurdas. Nunca são feitos estudos sérios acerca dos investimentos feitos pelo governo e a que custo eles acontecem; sobre o impacto da Copa sobre o meio ambiente ou os custos sociais de sediar a Copa. O relatório econômico oficial é mantido sob sigilo e longe da discussão pública, simplesmente porque são falhos.
Qual foi o acordo de anfitrião feito entre a Fifa e a África do Sul? Foram criadas leis específicas como no Brasil? 
O maior problema que o Brasil irá enfrentar é a promulgação das “Leis da Fifa”, que serão o elo entre o governo brasileiro e a Fifa. Estas leis dão garantias para a Fifa que incluem uma “bolha” livre de impostos; importação e exportação irrestrita de todas as moedas do e para o Brasil, bem como a sua troca e conversão em dólares, euros ou francos-suíços; a suspensão de qualquer legislação trabalhista que possam restringir a Fifa, seus parceiros comerciais, a imprensa e os membros de sua equipe de transmissão dos jogos; segurança e assistência médica gratuita [para a Fifa]; a proteção dos direitos de propriedade intelectual da Fifa e garantias para indenizá-la por quaisquer contestações judiciais ou processos que possa vir a sofrer. Para fazer cumprir estas concessões da soberania da África do Sul, a Fifa exigiu que o Estado criasse e financiasse juizados especiais. E para além disso, durante a competição, nenhuma grande obra foi permitida nas cidades-sede, o que significa reduzir o crescimento econômico.
Como estão hoje as vítimas de remoções forçadas? Você sabe?
Eu não tenho notícias… Mas acho que no Brasil a situação será pior, porque na África não tinham tantas pessoas morando ao redor dos estádios.
A África do Sul ganhou ou gastou mais dinheiro com a Copa?
Em 2003, a consultoria internacional Grant Thornton estimou que as despesas da África do Sul com a Copa do Mundo seriam “mínimas”. Ela viria ao custo de US$ 2,3 bilhões, mas, com a renda da tributação da Copa estimada em US$ 954 milhões, seria um lucro enorme. O panorama atual dos gastos é estimado em US$ 5,2 bilhões, um gritante aumento na estimativa inicial. Mesmo assim, nós não temos ainda a contagem final para os custos de hospedagem da Copa do Mundo e provavelmente nunca a teremos. O South African Reserve Bank indicou custos muito mais elevados para o Estado, inclusive através de empresas estatais que investiram US$ 17 bilhões em formação de capital, a maior parte desse valor relacionado com a Copa do Mundo, e que agora estão incorrendo em um déficit de financiamento de US$ 8,3 bilhões como resultado. A avaliação atual para o Brasil e para qualquer outro país que sedie o evento é um destino semelhante de um gasto sem precedentes de fundos públicos, cujas despesas não serão totalmente contabilizadas.
E as obras de mobilidade urbana e reforma dos estádios? Isso realmente ajudou a população depois do evento?
Diz-se que, para a Copa de 2002, a Coreia do Sul e o Japão gastaram US$ 2 bilhões e US$ 4 bilhões respectivamente nos estádios, enquanto na Alemanha os custos dos estádios foram de US$ 2,2 bilhões. A África do Sul gastou US$ 2,5 bilhões nos estádios da Copa do Mundo (excluindo outras infraestruturas). Será extremamente difícil para quase todos os estádios cobrirem suas despesas operacionais, e atender aos interesses do capital e do pagamento de juros.  Isso significa que os impostos municipais locais aumentaram e mais fundos provenientes do orçamento nacional foram destinados aos estádios para suprir os custos excedentes, ficando menos disponíveis para investir nos custos sociais.
Sobre as zonas de exclusão ao redor dos estádios, o que aconteceu com os ambulantes? 
A Copa do Mundo é um eufemismo para o que eu tenho chamado de “complexo de acumulação esportiva da Fifa” que impulsiona a exploração das nações anfitriãs e dos trabalhadores. A maioria das análises não consegue ver os interesses de classe que são atendidos pelos megaeventos como a Copa. A Fifa leva uma classe mercantil globalizada a colocar pressões significativas sobre produtores que, por sua vez, se engajam em repressões salariais agressivas sobre os trabalhadores. Na África do Sul, o mascote da FIFA, por exemplo, licenciado pelo Global Brands Group, foi produzido por trabalhadores chineses que receberam apenas três dólares por dia. Como os direitos de propriedade pertencerão 100% à Fifa, apesar de o Brasil estar sediando o evento, os comerciantes locais serão marginalizados e será ilegal para eles usar marcas que estejam fora do rol da Copa do Mundo, então eles serão os perdedores. Na África do Sul, por exemplo, nós fomos forçados a vender cerveja americana, a Budweiser, mesmo contando com grandes cervejarias em nosso país. Cerca de 100.000 comerciantes informais perderam suas fontes de renda durante a Copa do Mundo e não puderam ir aos estádios e, a julgar pelas semelhanças entre os nossos países, isso também deve acontecer no Brasil.
Colaborou Ciro Barros

A Rio+20 é o de menos

Sem querer ser estraga-prazer, nem desmerecer a importância da consciência ecológica, muito menos o esforço da diplomacia ambiental brasileira, o fato é que a Rio+20 é o de menos. Seus impasses são decorrentes das contradições que a ONU enfrenta em um mundo que virou de ponta a cabeça desde a Segunda Guerra Mundial.

Simultaneamente à Rio+20, uma guerra civil desaba sobre a Síria e um novo capítulo da crise econômica internacional se abre. O que esses três eventos têm em comum? Todos envolvem diretamente o chamado sistema ONU, ou seja, sua Assembleia, seu Conselho de Segurança e seus inúmeros organismos, programas, fundos e agências especializadas, como o FMI e o Banco Mundial.
Sem querer ser estraga-prazer, nem desmerecer a importância da consciência ecológica, muito menos o esforço da diplomacia ambiental brasileira, o fato é que a Rio+20 é o de menos. Seus impasses são decorrentes das contradições que a ONU enfrenta em um mundo que virou de ponta a cabeça desde a Segunda Guerra Mundial.
Os Estados Unidos, arquitetos fundamentais da formação da Organização, nos tempos de Franklin Roosevelt, abandonaram sua defesa do multilateralismo desde que mergulharam na Guerra Fria. Do final dos anos 1940 até hoje, consolidaram uma diplomacia unilateral e predatória, bem representada na metáfora dos "falcões", seus mais agressivos idealizadores.
A União Soviética desapareceu do mapa e a Rússia, âncora de um bloco que já foi apelidado de Segundo Mundo, hoje tem a seu favor, na melhor das hipóteses, uma posição entre os BRICS.
A China, em 1945, sequer havia feito sua revolução comunista, menos ainda sua revolução industrial. Reino Unido e França são potências em franca decadência, cercadas por um continente em crise profunda, não apenas econômica, mas política, social e cultural. O território ímpar do Estado de bem-estar social se tornou esteio do neoliberalismo e tem como seus mais importantes símbolos uma moeda, o Euro, seu guardião, o Banco Central Europeu, e a coveira da desunião europeia, Angela Merkel.
O Banco Mundial e o FMI, o que se tornaram? Cassandras. Podem estar certos em suas previsões catastrofistas, mas sua atuação não ajuda em nada. Ao contrário, têm atrapalhado bastante, a cada vez que acrescentam detalhes mórbidos ao clima de pessimismo já reinante. O Banco Mundial tem disseminado a previsão de que os países estão cada vez menos preparados para enfrentar a crise. A diretora-presidente do FMI marcou um "deadline" de três meses para o Euro. Com agências desse tipo, quem precisa de inimigos?
A ONU vive ultimamente de distribuir sanções, patrocinar intervenções e disseminar ilusões. Estamos na semana das promessas e das boas intensões, quando tudo se resume a uma questão de métrica, prazos e esforços: dos governos, da "sociedade" e, cada vez mais é isso que se martela, dos indivíduos. Salvar o mundo? É só ter consciência e atitude.
Uma semana antes da Rio+20, pudemos ver duas cenas patéticas. Burocratas da ONU, em ternos impecáveis e capacetes azuis, pedalando bicicletas posicionadas perto o suficiente para que não chegassem suados ao local de suas reuniões. Mais tarde, Giselle Bündchen, embaixadora do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), fez uma graça, plantando uma árvore e colocando uma pá de cal nos ataques que sofreu por desfilar com casacos de pele de animais. O marketing travestido de consciência ambiental mandou trocar a velha e boa calça desbotada da sustentabilidade para dar lugar ao lema sem leme da “economia verde”.
Como toda superprodução que precisa de mocinhos e de final feliz, a aventura de salvar o planeta também demanda vilões. Por exemplo, emergentes como a China, a Índia e a Rússia. E o Brasil que se cuide. Ao que parece, eles andam usando petróleo, abusando das emissões de gases de efeito estufa, desmatando os pulmões do planeta, contaminando a água que todo o mundo precisa beber. Ao mesmo tempo, estudos "científicos", reproduzidos por inúmeras mídias, concluem que práticas diárias de cidadãos comuns prejudicam tanto ou mais do que os grandes poluidores. Gente que cria cabras e queima lenha em fogões antigos está acabando com o planeta, vejam só.
Alguém precisa fazer alguma coisa. O Brasil pode fazer alguma coisa. Pode ampliar seu investimento em ciência e tecnologia, com fundos de parte dos royalties do petróleo, para financiar pesquisas que inaugurem um protagonismo tecnológico rumo a um novo padrão de desenvolvimento. Enquanto isso, o sistema ONU continuará, entre sanções e intervenções, atualizando relatórios que mostram que o mundo que a criou já não existe mais.
Antonio Lassance é cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente opiniões do Instituto.

Se não sabes aonde vais, por que teimas em correr?

Grécia: Syriza reconhece derrota e reafirma oposição à austeridade



Chefe da esquerda radical Alexis Tsipras lança seu voto em um centro de votação em Atenas. Foto: AP
Alexis Tsipras lança seu voto em um centro de votação em Atenas Foto: AP
De: Terra e BBC
Alexis Tsipras, dirigente do partido esquerdista Syriza, reconheceu sua derrota nas eleições deste domingo na Grécia, mas assegurou que seguirá rejeitando o pacto de austeridade com a União Europeia como principal partido da oposição.


"Embora o Syriza não seja o partido mais votado, é a primeira força da oposição contra o memorando" (de austeridade), anunciou o jovem dirigente progressista, advertindo que exercerá uma oposição forte e reiterou que acabar com as políticas de poupança é a única saída para a Europa.
Com 26,4% dos votos, segundo a apuração ainda em progresso, o Syriza foi a segunda força mais votada, a apenas quatro pontos dos conservadores do Nova Democracia.
Tsipras indicou que seu partido lutou para que o país e a Europa mudassem de rumo e ressaltou que o resultado eleitoral mostra que há uma consistente oposição entre os eleitores às políticas de austeridade.
"Em um mês e meio o povo desaprovou o memorando em duas ocasiões. E o governo não pode fazer o que quer sem levar o povo em conta", disse em alusão também às eleições do último dia 6 de maio.

Conservadores lideram votação na Grécia

Samaras afirmou que Grécia vai manter seus compromissos
O partido de centro-direita Nova Democracia deve conseguir uma vitória por pouca diferença de votos em relação ao esquerdista Syriza nas eleições realizadas neste domingo na Grécia.
Com 60% dos votos apurados, as estimativas do Ministério do Interior afirmam que o Nova Democracia conseguiu 30,1% dos votos (ou 130 cadeiras no Parlamento), o Syriza obteve 26,5% dos votos (70 cadeiras), e o socialista Pasok, 12,6% (33 cadeiras).
O líder do Nova Democracia, Antonis Samaras, pediu que todos os partidos se juntem a um governo de salvação nacional e acrescentou que a Grécia vai cumprir seus compromissos.
"O povo grego escolheu hoje pela permanência no caminho europeu e na zona do euro. Não haverá mais aventuras. O lugar da Grécia na Europa não será colocado em dúvida", disse Samaras.
"Os sacrifícios do povo grego vão levar o país de volta à prosperidade."
O líder do Syriza, Alexis Tsipras, afirmou que Samaras deve tomar a liderança na tentativa de formação de um governo de coalizão.
Segundo o correspondente da BBC em Atenas Mark Lowen, estas declarações de Samaras sugerem que ele quer continuar com o programa de cortes de gastos exigidos pelos credores internacionais da Grécia.
A eleição parlamentar deste domingo na Grécia era vista por muitos analistas como um referendo sobre a permanência do país na zona do euro. Este foi um dos assuntos que dominaram a campanha política no último mês.
O outro assunto, que está interligado com a permanência da Grécia na zona do euro, foram os pacotes de ajuda financeira recebidos pelo país nos últimos dois anos.
A Grécia recebeu ajuda internacional de 110 bilhões de euros, em 2010, e 130 bilhões de euros, no ano passado. O dinheiro foi usado para que o país conseguisse pagar suas dívidas, mas grande parte da população está descontente com as condições do acordo, que exige medidas duras de redução de gastos públicos.
A Nova Democracia apoia os pacotes de ajuda financeira, assim como Pasok, mas defende a renegociação de alguns termos. Já o Syriza é fortemente contra as medidas de austeridade.

Coalizão

O líder do Nova Democracia, Antonis Samaras, disse depois da divulgação dos resultados parciais, que quer formar um governo o mais rápido possível.
Se as projeções estiverem corretas, o Nova Democracia deve conseguir formar uma coalizão com o partido socialista Pasok e se beneficiar de uma regra que dá ao partido que lidera a votação mais 50 assentos no Parlamento, que tem um total de 300.
Outro correspondente da BBC em Atenas, Matthew Price, afirma que este governo ainda será relativamente fraco e deve tentar negociar os termos do pacote de ajuda financeira.
O Nova Democracia também poderá convidar um pequeno partido de esquerda, o Esquerda Democrática, para se juntar à coalizão e refletir um pouco da desaprovação dos gregos em relação a esta ajuda financeira, segundo Mark Lowen.
Alexis Tsipras, do Syriza, depois de depositar seu voto na urna (AFP/Getty)
Alexis Tsipras e seu partido, o Syriza, conseguiram muitos votos, mas ficaram em segundo lugar
No entanto, de acordo com o correspondente da BBC, o Syriza conseguiu muitos votos e deve conseguir muitas cadeiras no Parlamento, o que deve dificultar a situação da futura coalizão de governo.

Prazos e renegociações

O ministro do Exterior da Alemanha, Guido Westerwelle, disse neste domingo que a Grécia deve manter seus acordos com os credores internacionais, mas sugeriu que o governo grego tenha mais tempo para cumprir estes acordos.
"Não pode haver mudanças substanciais nos acordos, mas eu consigo imaginar voltar a negociar os prazos", disse.
Já para Angel Gurria, diretor da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o novo governo grego deveria ter uma chance de renegociar pelo menos parte do acordo de resgate.
"Se esta é a condição para que a Grécia fique [na zona do euro] e siga em diante, eu diria que é provavelmente algo que deveria ser tentado", afirmou Gurria.
Os gregos haviam eleito seus representantes no mês passado, mas nenhum partido conseguiu formar um coalizão para governar e por isso a nova eleição foi convocada para este domingo.