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domingo, 17 de junho de 2012

Grécia: Syriza reconhece derrota e reafirma oposição à austeridade



Chefe da esquerda radical Alexis Tsipras lança seu voto em um centro de votação em Atenas. Foto: AP
Alexis Tsipras lança seu voto em um centro de votação em Atenas Foto: AP
De: Terra e BBC
Alexis Tsipras, dirigente do partido esquerdista Syriza, reconheceu sua derrota nas eleições deste domingo na Grécia, mas assegurou que seguirá rejeitando o pacto de austeridade com a União Europeia como principal partido da oposição.


"Embora o Syriza não seja o partido mais votado, é a primeira força da oposição contra o memorando" (de austeridade), anunciou o jovem dirigente progressista, advertindo que exercerá uma oposição forte e reiterou que acabar com as políticas de poupança é a única saída para a Europa.
Com 26,4% dos votos, segundo a apuração ainda em progresso, o Syriza foi a segunda força mais votada, a apenas quatro pontos dos conservadores do Nova Democracia.
Tsipras indicou que seu partido lutou para que o país e a Europa mudassem de rumo e ressaltou que o resultado eleitoral mostra que há uma consistente oposição entre os eleitores às políticas de austeridade.
"Em um mês e meio o povo desaprovou o memorando em duas ocasiões. E o governo não pode fazer o que quer sem levar o povo em conta", disse em alusão também às eleições do último dia 6 de maio.

Conservadores lideram votação na Grécia

Samaras afirmou que Grécia vai manter seus compromissos
O partido de centro-direita Nova Democracia deve conseguir uma vitória por pouca diferença de votos em relação ao esquerdista Syriza nas eleições realizadas neste domingo na Grécia.
Com 60% dos votos apurados, as estimativas do Ministério do Interior afirmam que o Nova Democracia conseguiu 30,1% dos votos (ou 130 cadeiras no Parlamento), o Syriza obteve 26,5% dos votos (70 cadeiras), e o socialista Pasok, 12,6% (33 cadeiras).
O líder do Nova Democracia, Antonis Samaras, pediu que todos os partidos se juntem a um governo de salvação nacional e acrescentou que a Grécia vai cumprir seus compromissos.
"O povo grego escolheu hoje pela permanência no caminho europeu e na zona do euro. Não haverá mais aventuras. O lugar da Grécia na Europa não será colocado em dúvida", disse Samaras.
"Os sacrifícios do povo grego vão levar o país de volta à prosperidade."
O líder do Syriza, Alexis Tsipras, afirmou que Samaras deve tomar a liderança na tentativa de formação de um governo de coalizão.
Segundo o correspondente da BBC em Atenas Mark Lowen, estas declarações de Samaras sugerem que ele quer continuar com o programa de cortes de gastos exigidos pelos credores internacionais da Grécia.
A eleição parlamentar deste domingo na Grécia era vista por muitos analistas como um referendo sobre a permanência do país na zona do euro. Este foi um dos assuntos que dominaram a campanha política no último mês.
O outro assunto, que está interligado com a permanência da Grécia na zona do euro, foram os pacotes de ajuda financeira recebidos pelo país nos últimos dois anos.
A Grécia recebeu ajuda internacional de 110 bilhões de euros, em 2010, e 130 bilhões de euros, no ano passado. O dinheiro foi usado para que o país conseguisse pagar suas dívidas, mas grande parte da população está descontente com as condições do acordo, que exige medidas duras de redução de gastos públicos.
A Nova Democracia apoia os pacotes de ajuda financeira, assim como Pasok, mas defende a renegociação de alguns termos. Já o Syriza é fortemente contra as medidas de austeridade.

Coalizão

O líder do Nova Democracia, Antonis Samaras, disse depois da divulgação dos resultados parciais, que quer formar um governo o mais rápido possível.
Se as projeções estiverem corretas, o Nova Democracia deve conseguir formar uma coalizão com o partido socialista Pasok e se beneficiar de uma regra que dá ao partido que lidera a votação mais 50 assentos no Parlamento, que tem um total de 300.
Outro correspondente da BBC em Atenas, Matthew Price, afirma que este governo ainda será relativamente fraco e deve tentar negociar os termos do pacote de ajuda financeira.
O Nova Democracia também poderá convidar um pequeno partido de esquerda, o Esquerda Democrática, para se juntar à coalizão e refletir um pouco da desaprovação dos gregos em relação a esta ajuda financeira, segundo Mark Lowen.
Alexis Tsipras, do Syriza, depois de depositar seu voto na urna (AFP/Getty)
Alexis Tsipras e seu partido, o Syriza, conseguiram muitos votos, mas ficaram em segundo lugar
No entanto, de acordo com o correspondente da BBC, o Syriza conseguiu muitos votos e deve conseguir muitas cadeiras no Parlamento, o que deve dificultar a situação da futura coalizão de governo.

Prazos e renegociações

O ministro do Exterior da Alemanha, Guido Westerwelle, disse neste domingo que a Grécia deve manter seus acordos com os credores internacionais, mas sugeriu que o governo grego tenha mais tempo para cumprir estes acordos.
"Não pode haver mudanças substanciais nos acordos, mas eu consigo imaginar voltar a negociar os prazos", disse.
Já para Angel Gurria, diretor da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o novo governo grego deveria ter uma chance de renegociar pelo menos parte do acordo de resgate.
"Se esta é a condição para que a Grécia fique [na zona do euro] e siga em diante, eu diria que é provavelmente algo que deveria ser tentado", afirmou Gurria.
Os gregos haviam eleito seus representantes no mês passado, mas nenhum partido conseguiu formar um coalizão para governar e por isso a nova eleição foi convocada para este domingo.

sábado, 26 de maio de 2012

Wallerstein: por que o futuro da Europa é importante

Alexis Tsipras, da coalizão grega Syriza, e Jean-Luc Mélenchon, da Frente de Esquerda francesa

De: Outras Plalavras

Num cenário conturbado, Grécia e França empurram continente à esquerda, pressionando Alemanha. Se esta ceder, toda conjuntura global mudará
Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Daniela Frabasile
As eleições nos sistemas parlamentares ocidentais sempre têm a ver com o centro. A situação mais comum é aquela em que existem dois partidos dominantes – um mais à direita e outro mais à esquerda do centro. Existem diferenças entre as políticas que esses partidos colocam em prática quando estão no poder, mas também enormes semelhanças. A eleição nunca expressa uma divisão política profunda. Seu papel é, em vez disso, o de de redefinir e relocalizar o centro – o ponto de alavanca, na gangorra entre os partidos.
Uma situação muito mais rara é o repúdio ao centro e, portanto, aos dois partidos – anteriormente principais – que se posicionam próximos ao ponto central. Esse resultado joga as políticas nacionais em um grande turbilhão, o que por vezes tem impactos consideráveis fora do país.
As últimas eleições na França e na Grécia ilustram bem essas duas situações. Na França, os socialistas derrotaram o partido conservador UMP, e deslocaram o centro. Num cenário caótico do sistema-mundo, e particularmente na União Europeia, o deslocamento o centro na França terá grande impacto. Mas não espere que as políticas reais de François Hollande sejam radicalmente diferentes daquelas de Nicolas Sarkozy.
Na Grécia, aconteceu o contrário. O centro foi dramaticamente repudiado. Os dois maiores partidos – o conservador Nova Democracia e o socialista Pasok – perderam mais de metade dos votos que normalmente obtinham. Somados, caíram de aproximadamente 2/3 para 1/3 do eleitorado. O Pasok despencou para o terceiro lugar, ultrapassado por uma coalizão de partidos mais à esquerda, a Syriza, considerada a grande vencedora da eleição. O tema central das eleições foi o programa de austeridade imposto à Grécia pelas forças estrangeiras, e mais fortemente pela Alemanha. Todos os partidos, exceto os dois tradicionalmente maiores, anunciavam repúdio às medidas de austeridade. O líder da Syriza, Alexis Tsirpas, afirmou que os resultados da eleição anulam o comprometimento do governo anterior com o programa de austeridade.
O que acontecerá nos próximos meses? Na Grécia, como os três partidos com mais votos – Nova Democracia, Syriza e Pasok – não conseguiram formar um governo, haverá novas eleições [em 17/6]. A Syriza pode até ser o primeiro colocado, no próximo pleito. Como o governo grego não receberá mais apoio internacional, não conseguirá pagar os empréstimos. O ministro de relações exteriores da Alemanha já ameaçou uma expulsão da zona do euro. Porém, não existe forma legal de fazer isso. E como a população grega parece pensar que sair da zona do euro não resolveria nada e provavelmente pioraria a situação, haverá um impasse. Os gregos irão sofrer muito. Mas muitos bancos europeus também. Assim como a população alemã, mesmo que esta ainda não esteja consciente disso.
Enquanto isso, haverá novas eleições na França, agora para o Legislativo [em 10 e 17/6]. Analistas preveem uma ampla vitória socialista, porém com significativo contingente de votos para o equivalente francês da Syriza, a Frente de Esquerda. A clara posição de Hollande é que o crescimento europeu deve ter prioridade em relação à austeridade – um desafio direto à posição alemã. Por isso, o centro será ainda mais deslocado para a esquerda.
Os alemães estão agora sob enorme pressão. Existe um descontentamento interno, que leva a perdas eleitorais do partido da chanceler Angela Merkel, o CDU, e sua coalizão neoliberal parceira, a FDP. Os outros partidos social-democratas na Europa foram encorajados pela vitória de Hollande a se moverem de algum modo para a esquerda. Os dois partidos conservadores na coalizão do governo da Itália sofreram perdas graves nas eleições municipais de maio. Também existe pressão dos Estados Unidos sobre a Alemanha, para se mover na direção que Hollande apoia – o que é estranho, porém importante.
Os alemães podem resistir a tudo isso – até 31 de maio, a data do plebiscito irlandês. O governo irlandês é o único membro da zona do euro que depende de um plebiscito para aprovar o novo tratado de austeridade em que Merkel tanto insistiu, com apoio de Sarkozy. As pesquisas sugerem uma disputa acirrada. O governo irlandês está confiante de que poderia ganhar votos em favor do “sim”, mas a vitória de Hollande pode influenciar os eleitores para que o “não” prevaleça, o que anularia o tratado de austeridade. Isso iria enfraquecer a posição alemã ainda mais que o repúdio grego ao centro.
O que acontecerá, então? A chave é o cenário alemão. Angela Merkel, como qualquer líder político, tenta ver para que lado os ventos sopram. Por isso, sua linguagem já começa a evoluir. Pode ser até que, secretamente, ela comemore as pressões externas para fazer o que, do ponto de vista da Alemanha, é a coisa sensata: fortalecer o poder de compra (para produtos alemães, entre outras coisas) no resto da União Europeia.
Se a Alemanha se mover nessa direção, o euro e a União Europeia irão sobreviver, e continuar a ser um grande ator (ainda que chamuscado…) na cena geopolítica. No plano mundial, o deslocamento do centro na Europa como um todo não irá congelar o status quo, mas acelerar os realinhamentos geopolíticos que são inevitáveis. Além disso, o deslocamento do centro na Alemanha pode ajudar a Europa a resistir melhor ao tsunami – de colapso de fundos soberanos e do dólar como moeda de reserva – que se aproxima.
O mundo inteiro está nadando em águas muito agitadas. A Alemanha pode logo se juntar à lista de estados que começam a entender como navegar em meio ao caos. Governos inflexíveis são seus próprios piores inimigos

sexta-feira, 25 de maio de 2012

A pólis e a suástica

Num contexto de crise econômica, a Grécia vê amadurecer o neofascismo na política. Nas últimas eleições parlamentares, o partido de extrema-direita Amanhecer Dourado obteve parcela significativa dos votos

Alexandre Enrique Leitão de: Revista de História
    Conflito entre civis e policiais na Grécia
    Conflito entre civis e policiais na Gréc
  • Vivendo sob o governo de um gabinete parlamentar provisório, a Grécia, berço do conceito de democracia, parece cada dia mais pronta para questionar os ditames do regime liberal. O último pleito, realizado no dia 6 de maio, marcou a queda da Nova Democracia (de centro direita) e do Partido Socialista (PASOK). A partir de então, a nova grande força política na península se tornou a Frente de Esquerda, coligação formada por várias vertentes de inspiração comunista e ambientalista. Tendo ficado em segundo lugar, impossibilitou a criação de um gabinete de coalizão, e será provavelmente um fator de destaque no futuro próximo do país – já que novas eleições foram convocadas para o dia 17 de junho. A surpresa, entretanto, travou-se ao lado da direita, com o sucesso eleitoral obtido pelo movimento nacionalista radical conhecido como Amanhecer Dourado.
    Movimentos xenofóbicos europeus, como o Amanhecer, veem-se hoje diante de uma encruzilhada bem diferente daquela que o Partido Nazista encarou na década de 1930. Nestes 67 anos, desde a morte de Adolf Hitler, países que antes podiam se definir como étnica e religiosamente homogêneos, viram o aumento dos índices de imigração, com a chegada de populações negras (da África e das Antilhas), indianas, árabes e persas.
    Se a direita ultranacionalista, em um primeiro momento, protagonizou a crítica ao processo de multiculturalismo, atualmente tenta se valer dele para obter possíveis vitórias eleitorais. Esse é o caso do Front National francês, cuja líder e candidata derrotada à presidência, Marine Le Pen, buscou reinventar seu discurso político, de forma a incluir negros e judeus. Seu alvo deixa de ser a troca multicultural e étnica para tornar-se a religião muçulmana, considerada incapaz de coexistir em um Estado laico como o francês. Na votação francesa que ocorreu também no dia 6 de maio deste ano, Le Pen obteve mais de 17% dos votos.
     
    Manifestação do partido Amanhecer Dourado
    Manifestação do partido Amanhecer Dourado
    O fascismo helênico
     
    Mas, voltando à Grécia, o que chamou mais atenção na última eleição parlamentar e que vem sendo surpreendentemente pouco discutida é justamente a expressividade de votos que obteve o partido Amanhecer.
    Assolada por uma crise financeira que afundou o país numa dívida de bilhões de euros, e por uma taxa de desemprego de mais de 21% (54%, entre os jovens na faixa de 15 a 24 anos), a República Helênica foi tomada pelas mais intensas manifestações de rua desde a eclosão da crise financeira de 2008. Os seguidos pacotes de ajuda econômica negociados no seio da União Européia, se por um lado propõem imensos empréstimos ao país, por outro impõem a ele a aceitação de medidas financeiras monetaristas, como a redução de salários e aposentadorias. O cenário constituído nos últimos dois anos é o de uma península insuflada pelo arrocho, a instabilidade política e as explosões de fúria dos sindicatos trabalhistas, participantes de mobilizações que mais de uma vez redundaram em quebra-quebras generalizados.
    No último mês, enquanto a imprensa estrangeira se focava a cobertura nas eleições francesas, a Grécia vivenciava a campanha política para o Parlamento. A escolha se deu entre os dois maiores partidos do país, a Nova Democracia e o PASOK, favoráveis a um plano de saneamento econômico, e todos os demais, contrários às medidas de arrocho fiscal. Ao término da contagem dos votos, nem a Nova Democracia nem o PASOK tinham votos o suficiente para formar um gabinete parlamentar.
    A surpresa, entretanto, deu-se a poucos dias do pleito, quando institutos de pesquisa apontavam para dois fatos marcantes: o crescimento da Frente de Esquerda, e do grupo de extrema-direita Amanhecer Dourado. A mídia grega viu-se diante de um dilema, sendo agora obrigada a reportar sobre os eventos do Amanhecer, cujos militantes, costumeiramente, fazem a saudação fascista. Xenia Kounalaki, editora do jornal Kathimerini, explicou em um artigo no site da revista alemã Der Spiegel que decidira parar de noticiar qualquer informação a respeito do grupo, mais por uma questão de segurança do que política. Após publicar em seu jornal um artigo chamado “A Banalidade do Mal”, no qual defendia o isolamento midiático do Amanhecer Dourado, de forma a não criar uma plataforma para suas idéias, o partido publicou um manifesto online contra a jornalista, mencionando inclusive sua filha de 13 anos. Agora, parar de falar do movimento tornava-se imperativo para a jornalista. Mesmo assim, as pesquisas continuaram a mostrar que ele provavelmente iria superar a barreira imposta pela legislação eleitoral grega, pois para ter assento no parlamento qualquer partido deve superar a marca dos 3% dos votos.
     
    Resultados das urnas
    Poucas horas depois de fechadas as urnas, os primeiros resultados começaram a chegar. Superando as sondagens iniciais, a Frente de Esquerda não apenas ampliou sua base parlamentar como tornou-se também o segundo maior partido do país, inviabilizando que o esperado governo de coalizão entre o Nova Democracia e o PASOK fosse realizado. O Amanhecer, por sua vez, conseguiu 7%, obtendo assim 21 cadeiras parlamentares. Seus militantes são acusados muitas vezes de se valer da violência em suas manifestações, e mais de uma vez, seus líderes tiveram expostas as idiossincrasias da direita radical européia. O líder do partido, Nikos Michaloliakos, por exemplo, após afirmar que a saudação nazista não era procedimento oficial do Amanhecer Dourado, teve um vídeo seu, fazendo a saudação em uma reunião do conselho municipal de Atenas, transmitido nas televisões gregas.
     
     
    Ao ser questionado pelo jornal londrino The Times, se acreditava na ocorrência histórica do Holocausto, Michaloliakos viu-se ainda diante de outra polêmica. Afirmou: “Eu penso que toda história é escrita pelos vencedores”. Seu porta-voz oficial, Ilas Kasidiaris, porém, foi mais longe, asseverando: “A visão predominante na Europa é de que seis milhões de judeus foram mortos. A história mostrou que isso é uma mentira”. A ira do movimento, tal qual no caso francês, é voltada contra os imigrantes, tendo inclusive proposto que a fronteira com a Turquia fosse minada. O problema está em que, mesmo vendendo cópias do livro Mein Kampf (Minha Luta) em sua sede, o partido continua negando adotar tendências nazistas.
    Na coletiva de imprensa, realizada logo após a divulgação dos resultados, Michaloliakos causou tensão na sala de conferências do partido. Ao entrar, acompanhado de skinheads, os membros do Amanhecer ordenaram aos repórteres presentes que se erguessem, diante da chegada de seu líder. Aqueles que reclamaram do tratamento dado à imprensa foram convocados a se retirar.
    O destino da Grécia, neste momento, pende em uma tênue balança, pois sem acordo para a formação de um gabinete parlamentar de coalizão entre os maiores partidos, a Grécia corre o risco de deixar a zona do Euro. Por isso, novas eleições parlamentares foram convocadas. O que se pode ter certeza é de que na Europa do início do século XXI, a mais simples alusão aos movimentos fascistas das décadas de 1920 e 1930, representa um ônus político, cabendo à extrema-direita, criar novas representações de si mesma, reclamando novos símbolos ou, simplesmente, escondendo aqueles que parecem politicamente perigosos ou antiquados. O passado, neste caso, não se repete, ou ao menos, tenta se reconstruir a partir de experiências de transformação culturais e étnicas que continuam a se espalhar pelo continente.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Crise incentiva tráfico de tesouro arqueológicos gregos


Por provável encomenda de colecionadores milionários, crescem roubos de peças históricas. “Quando Estado e suas estruturas desmoronam, traficantes exploram a situação com rapidez”, explica jornalista 
Por Apostoli Fotiadis, na Envolverde/IPS

As vitrines quebradas do Museu Arqueológico da cidade grega de Olímpia, onde há milhares de anos aconteceram os primeiros Jogos Olímpicos, deixaram atônito o pessoal do Serviço Arqueológico, que vem registrando o desaparecimento de várias relíquias. Segundo a presidente da Associação de Arqueólogos Gregos, Despina Koutsoumpa, já despareceram do museu tesouros dos períodos Clássico, Helênico e Bizantino, incluído “um anel de ouro gravado, esculturas de cobre do Século 7 antes de Cristo, moedas e vasilhas de argila”.
Os furtos de fevereiro na Galeria Nacional e na Municipal, bem como o roubo à mão armada no Museu de Olímpia no dia 5 de março revelam a escassa proteção do patrimônio cultural neste país, que piorou com a aplicação das medidas de austeridade que reduziram todos os orçamentos dos serviços públicos nacionais.
Para piorar, o Ministério da Cultura cortou em 20% os fundos para a segurança dos museus. E, segundo uma nova lei, o governo reduzirá o pessoal da própria pasta entre 30% e 50%. Além disso, a lei prevê integrar várias repartições dos serviços arqueológicos em uma só para “reduzir gastos”, o que deixa descoberto setores que precisam de proteção específica, devido ao drástico ajuste orçamentário que prejudica todos os setores da sociedade.
A Associação de Arqueólogos se mobilizou contra as medidas e expôs estes problemas em uma entrevista coletiva em março que atraiu grande atenção internacional. De fato, a entidade ainda recebe mensagens de solidariedade de todas as partes do mundo. Na verdade, o serviço arqueológico nunca contou com um orçamento adequado, disse Koutsoumpa. “O ministério nunca recebeu mais do que um por cento do orçamento nacional e sempre sofreu com falta de pessoal. Mais de 60% do dinheiro, viesse do orçamento ou de fundos europeus, eram destinados aos salários”, afirmou à IPS.
Atualmente, 66 departamentos de antiguidades do país administram o trabalho e a proteção do patrimônio grego, incluídas autorizações para usar terrenos onde se acredita haver tesourosantiquíssimos enterrados; organização e gestão dos sítios e museus arqueológicos; escavações e prospecções, bem como outras pesquisas científicas.
O Ministério de Cultura e Turismo conta com sete mil funcionários, entre eles 950 arqueólogos e dois mil vigias diurnos e noturnos. Todos os anos ingressam 3.500 pessoas com contrato por tempo determinado. Mas em novembro de 2011, 10% do pessoal da pasta, os de maior trajetória e co mais de 33 anos de experiência, tiveram que se aposentar dentro de um plano para reduzir a quantidade de funcionários públicos. As novas reduções deixarão o ministério sem capacidade para cumprir nem mesmo suas funções básicas.
Há décadas os empregados do Serviço Arqueológico têm baixos salários. O salário líquido de um profissional oscilava, em 2009, entre o equivalente a US$ 1.150, para os recém-contratados, e US$ 2.027 para quem tinham mais de 35 anos de experiência. Este ano, um arqueólogo que entra recebe US$ 876, sem contar impostos e contribuições sociais, o que representa “uma queda de 35%”, detalhou Koutsoumpa. No ano passado, o orçamento do Serviço Arqueológico foi de 12 milhões de euros (cerca de US$ 15 milhões), 35% menos do que em 2010, e ainda pode sofrer cortes mais severos este ano.
Além de oferecer proteção, este serviço é responsável por 210 museus com coleções pré-históricas, antiguidades clássicas e bizantinas; 250 sítios arqueológicos organizados e 19 mil monumentos históricos. Também gerencia 366 projetos com fundos da União Europeia com orçamento equivalente a US$ 651 milhões. Na medida em que diminui a capacidade do ministério para cumprir seu mandato de proteger os sítios arqueológicos antigos, também o faz o futuro de vários projetos de conservação.
O jornalista Nikolas Zirganos, conhecido por suas pesquisas em matéria de comércio ilegal de antiguidades, explicou à IPS que a queda do gasto público prepara o caminho para o florescimento do tráfico. Suas investigações permitiram repatriar uma coroa de ouro da Macedônia que chegara ao Museu J. Paul Getty, de Los Angeles, na Califórnia (Estados Unidos).
“Os mecanismos do crime organizado são sensíveis e reagem mais rápido do que as autoridades. Quando um Estado e suas estruturas desmoronam, como ocorreu no Iraque, Afeganistão, na hoje extinta União Soviética, os traficantes exploram a situação com rapidez. Em momentos de crises sociais e políticas, esses países sofreram graves perdas do patrimônio cultural”, destacou Zirganos.
O Ministério da Cultura tentou minimizar os roubos, caracterizando-os como episódios isolados, mas para Zirganos não é assim. “Duvido que uma pessoa roube um museu, leve antiguidades famosas que estão registradas e tende vendê-las no mercado ilegal”, afirmou. Essas ações “costumam ter origem em ordens de certos colecionadores ricos da Europa ocidental e dos Estados Unidos”, acrescentou o jornalista.
Também houve aumento nas escavações ilegais nos últimos anos, mas a quantidade de policiais destinados a combater o tráfico de antiguidades é limitada, ponderou Zirganos. “O departamento de polícia responsável pelo comércio ilegal de antiguidades está comprometido com sua tarefa, mas é uma piada pensar que 40 pessoas podem deter uma onda de tráfico organizado”, ressaltou.

sábado, 15 de maio de 2010

Grécia e Portugal

Do blog Com Texto Livre.

"Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada econômica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal".

Eça de Queiros, As Farpas, 1872.