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domingo, 11 de maio de 2014

Wallerstein: o sentido histórico da revolta zapatista

POR 
IMMANUEL WALLERSTEIN

140406-Zapatistas
Tratada com ironia, mesmo entre certa esquerda, insurreição de 1994 abriu caminho para retomada da ação anticapitalista, quando sistema julgava-se imbatível
Por Immanuel Wallerestein | Tradução: Gabriela Leite
Em 1º de janeiro de 2014, o Exército Zapatista de Liberação Nacional (EZLN) celebrou o vigésimo aniversário de sua insurreição em Chiapas. Este ano, eles estão se envolvendo em uma auto-avaliação. Em abril, na página web do EZLN, o Enlace Zapatista, o Subcomandante Insurgente Moisés publicou um editorial sobre a “guerra contra o esquecimento”. Ele diz que em meros dezenove anos, a luta do EZLN “toreou” o sistema que oprime os povos indígenas há 520 anos.
Quais foram as realiçações do EZLN? Em que sentido, pode-se dizer que ele teve sucesso? O EZLN tem sido tratado com ironia não apenas pena direita mundial, mas também por certos grupos  da esquerda, que o acusam de ser muito irrelevante para a luta mundial contra o imperialismo e o neoliberalismo. O que eles alcançaram, perguntam os críticos? Sua trajetória teria sido mais que um show de relações públicas?
Este tipo de crítica não compreende nada sobre a insurreição. O primeiro feito dos zapatistas tem sido sobreviver contra um exército mexicano que tem se esforçado, há vinte anos, por destruí-los. A ameaça foi evitada não por proeza militar do EZLN (seu poder  não pode ser comparado à do exército mexicano), mas por sua força política — tanto internamente, entre os povos indígenas de Chiapas, quanto externamente, no resto do mundo. É essa força que limitou os danos do exército a não mais que perseguições (algumas com assassinatos) nas margens das comunidades anôminas zapatistas.
Qual foi a múltipla mensagem do EZLN, ao governo mexicano e ao mundo, em 1º de janeiro de 1994, quando começou o levante? Primeiro, estavam reivindicando a dignidade dos povos indígenas oprimidos, ao renovar a exigência de exercer o governo de suas próprias comunidades, por meio das próprias populações, coletiva e democraticamente. Em segundo lugar, estavam dizendo que não têm nenhum interesse em chegar ao poder de Estado no México, o que seria, em sua visão, simplesmente trocar um conjunto de opressores por outro. Ao invés disso, demandavam que o governo mexicano reconhecesse formal e sinceramente sua autonomia.
Em terceiro lugar, o EZLN escolheu a data porque marcava a entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, em inglês). Ao escolher esta data, estavam afirmando sua rejeição ao papel imperialista dos Estados Unidos, no México e em todo o mundo. Quarto: afirmavam que, ao invés de focarem sua ação especificamente em Chiapas, apoiavam as lutas de todos os povos e classes oprimidas ao redor do mundo. Enfatizaram isso ao convocar mais tarde, em Chiapas, o que eles chamaram de reuniões intergaláticas; e ao se recusarem a excluir participantes que eram rejeitados por outros convidados. E em quinto lugar, solicitaram compartilhar estas visões com outros oprimidos no México através do Congresso Nacional Indígena.
O levante do EZLN foi o início de uma contra-ofensiva da esquerda mundial contra o avanço,  relativamente breve, da direita mundial, entre 1970 e 1994. A combinação do impacto político e econômico do Consenso de Washington e o aparente triunfo, com o colapso da União Soviética, permitiram à direita sonhar com a dominação permanente do sistema mundial. O que os zapatistas fizeram foi lembrá-los (e o mundo de esquerda) que há, sim, uma alternativa — a de um mundo relativamente democrático e relativamente igualitário.
Em 1º de janeiro de 1994, o EZLN abriu caminho para os protestos bem sucedidos que ocorreriam Seattle, em 1999; e em diversas outras cidades, na sequência — assim como para a fundação do Fórum Social Mundial (FSM) em Porto Alegre, em 2001. A luta contínua do FSM e do que agora tem sido chamado de movimento por Justiça Global, foi possível por causa do EZLN.
É claro que, como o Subcomandante Insurgente Moisés nos recorda, “não pode haver descanso; é preciso trabalhar duro”. Suponho que esta seja a mensagem definitiva do EZLN. Não pode haver descanso para qualquer um de nós que acredite que “outro mundo é possível”.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A vitória civilizatória na Cracolândia



No combate ao vício das drogas, há o tratamento compulsório, higienista, de prender e segregar os viciados; e o tratamento humanizado, chamado de “redução de danos”. Em vez de cortar imediatamente e compulsoriamente a droga, sujeitando o viciado a crises de abstinência – que quase sempre os traz de volta ao vício -, monta-se um tratamento gradativo, de redução gradual do consumo enquanto se trabalham o ambiente em que ele se encontra, as relações sociais e familiares, devolvendo-lhe a auto-estima..
No auge da onda ultraconservadora da mídia, o portal da revista Veja criminalizou os estudos de uma professora da USP, quase septuagenária, que orientava uma tese de doutorado sobre redução de danos. O tema mereceu repercussão no Jornal Nacional.
Não fosse a defesa enfática dos estudos pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) a carreira de ambas teria sido liquidada pelo sensacionalismo e haveria atrasos de décadas nos programas de combate ao vício.
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Nos anos seguintes, consolidou-se no centro de São Paulo o território livre da Cracolândia. Foram feitas duas tentativas coercitivas do governo do Estado, para acabar com o gueto. Os viciados apenas trocaram de local, espalhando-se por bairros próximos ao centro. Depois, voltaram para o lugar de origem.
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Foi essa sucessão de fracassos que levou o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, a buscar formas alternativas.
Em relação ao tratamento de viciados, a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) divide-se em duas alas: a da internação compulsória, e outra de tratamento humanizado.
Reuniões com especialistas, como Dartiu Silveira, e a ousadia da Secretaria de Assistência Social, Luciana Temer, animaram Haddad a trilhar o caminho civilizatório, lançando a Operação Braços Abertos.
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A lógica do novo modelo é que o ambiente modela as pessoas. Ou seja, mantidos na Cracolândia, não haveria nenhuma possibilidade dos viciados se libertarem do vício. Colocados em locais dignos, com parte da dignidade recuperada, emergiriam outras pessoas
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Em um primeiro momento, espontaneamente os viciados saíram das ruas para hotéis, banharam-se, vestiram roupas limpas.
Uma ação conjunta das Secretarias de Assistência Social, da Segurança Urbana, e da Coordenação de Subprefeituras, mais a de Trabalho e de Saúde – em parceria com o governo do estado – criou a rede que será a base da reciclagem dos viciados.
Foram atendidos pelo serviços de saúde, para uma primeira checagem e ganharam empregos temporários no sistema de varrição da cidade, quatro horas de trabalho a R$ 15,00 por dia.
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Todos os passos do programa foram negociados diretamente com eles, inclusive a promessa de não mais voltarem para o local. Para tanto, Haddad abriu as portas da Prefeitura, expôs a proposta, ouviu as ponderações. De uma viciada ouviu a promessa: “Se eu largar o vício o senhor me garante emprego com carteira assinada?”.
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E o centro da cidade amanheceu em paz. No dia seguinte, jornalistas incrédulos testemunharam viciados ajudando a limpar a cidade. Despidos dos andrajos e da sujeira, um deles foi reconhecido por um colega que fez doutorado com ele em Portugal; outro foi localizado pela família, que o reconheceu em um programa de televisão.
Que o caminho aberto seja trilhado por outros prefeitos de boa vontade.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

David Harvey: ser zapatista não é endeusar Marcos

Vinte anos depois do levante no México, geógrafo avalia: movimento pode transformar esquerda, desde que não o mistifiquemos…
Por Pedro Locatelli, em Carta Capital
140103-MarcosPesquisador de revoltas recentes ao redor do mundo, o geógrafo britânico David Harvey reconhece a influência dos zapatistas nos novos levantes que têm surgido. Mas ele pondera que algumas das suas características são ignoradas pela esquerda em diversos países.
O geógrafo concedeu uma entrevista à reportagem de CartaCapital, na qual fala sobre o legado do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), que há vinte anos tomou o controle de parte da pobre província mexicana de Chiapas.
Harvey destaca as novidades trazidas pelo levante, como a ênfase no direito das mulheres. Ele, porém, se diz “cansado” das pessoas acharem que a revolução “sairá de Chiapas”. Para o geógrafo, a esquerda deve achar uma forma própria de se organizar na cidade. Leia abaixo as falas do geógrafo sobre o levante:
Movimento indígena com características ocidentais
O zapatismo é retratado às vezes como somente um movimento indígena. Mas ele não é isso. É um movimento indígena com caraterísticas ocidentais. Um movimento horizontal, mas com formas militares hierarquizadas. Ou seja, é uma forma híbrida.
Obviamente o zapatismo teve um impacto muito grande na esquerda. A esquerda mundial ficou muito impressionada com suas formas horizontais de governança, mas falhou em reconhecer que a parte militar dessa organização a modificou muito.
Direitos das mulheres
Os zapatistas abordaram muitas questões importantes para essas sociedades (indígenas), como os direitos das mulheres, de uma maneira muito importante. Foi muito excitante ver a questão de gênero, em toda sua dimensão, ser propriamente abordada e articulada pelos zapatistas. [Diversas das figuras mais proeminentes do movimento eram mulheres e, logo após o levante, os zapatistas fizeram uma serie de reivindicações específicas em relação a elas].
Os direitos das mulheres estavam arraigados muito neste movimento, o que não é necessariamente verdade em outras populações indígenas e na esquerda. Mais uma vez, nessa questão, eles tinham características especiais.
Teologia da libertação
O movimento era uma combinação brilhante de pensamento indígena com perspectivas do iluminismo ocidental. Particularmente, havia uma influência de doutrinas do catolicismo, como dos franciscanos [conjunto de ordens católicas com forte presença na América Latina]. Eu acho que foi a expressão de ideias como respeito e dignidade, vindas de Chiapas, que agarraram a imaginação do mundo.
Foi uma combinação peculiar, onde a posição do subcomandante Marcos foi extremamente crucial. Não só em termos de organizar a parte militar, mas também de apresentar suas ideias ao mundo, que muito dificilmente poderiam ser entendidas. Então, quando ele falava de respeito e dignidade, ele estava em uma longa história da teologia da libertação, por exemplo. E as pessoas responderam a isso.
Ação fora do Estado
Havia também a característica de que aquele não era um partido político, não queria tomar o poder do Estado. Os zapatistas só queriam autonomia, e isso foi atraente para muitas pessoas ao redor do mundo. Eles estavam, desta forma, se protegendo da exploração. Quando se faz isso, você mantém-se fora dos limites, mas isso também gera muitos problemas. Eles precisam de recursos, eles precisam de armas, é uma história muito complicada.
A revolução não sairá de Chiapas
As vezes eu fico um pouco cansado porque em partes da Europa e da América do Norte as pessoas acham que a revolução vai sair de Chiapas e salvar a nós todos. Meu argumento é que a gente não pode simplesmente tirar aquilo do México e trazer para cá, nós temos de inventar nossas próprias maneiras de fazer política, de acordo com as nossas próprias circunstâncias.
Nós não estamos vivendo em Chiapas, nós estamos vivendo em Pittsburgh, em Detroit, em São Paulo. E a gente precisa pensar nas nossas próprias formas de se organizar em grandes cidades como essas.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Pancadaria, segundo testemunhas, teria começado quando os skinheads xingaram o grupo de esquerda

O encontro entre skinheads de extrema direita que voltavam de um protesto de médicos e militantes de esquerda que participavam do encontro do Foro de São Paulo terminou em pancadaria, quatro pessoas levadas para a delegacia e a destruição de um bar, quarta-feira à noite, no centro da cidade.
Segundo o boletim registrado no 78º distrito policial, a polícia encontrou um canivete com um dos skinheads e um explosivo no chão. Ainda de acordo com o boletim, um militante de esquerda afirmou ter sido agredido e foi levado ao Instituto Médico Legal para fazer exame de corpo de delito. Os skinheads negam a agressão.
A confusão começou por volta das 22h de quarta-feira. Um grupo de aproximadamente 25 skinheads passava pela rua Martins Fontes depois de apoiar um protesto organizado por médicos contra o governo federal enquanto integrantes do Foro de São Paulo jantavam e tomavam cerveja em um bar ao lado do hotel onde acontece o encontro dos partidos de esquerda.
O boletim não identifica quem começou a briga, mas testemunhas que trabalham no local e não quiseram ter seus nomes identificados disseram que os skinheads começaram a confusão. Eles teriam provocado e xingado os militantes de esquerda que teriam respondido com gritos de “fascistas”. Segundo relatos, um skinhead jogou uma lata de cerveja e um esquerdista revidou atirando um copo.
“Eles chamaram uma menina do nosso grupo de puta e um dos nossos respondeu de uma forma mais exaltada. Depois disso começou a confusão. Chegaram a jogar uma cadeira em uma mulher de mais de 50 anos que participava do Foro de São Paulo”, disse Renan Moreira, 26 anos, militante de esquerda. “Todos tinham as cabeças raspadas e lutavam artes marciais. Ninguém se machucou seriamente, mas fiquei com vários hematomas”, completou.
A partir de então a confusão foi generalizada. Cadeiras e garrafas voaram, a porta de vidro do bar foi quebrada. Quatro pessoas foram levadas para o 78 DP, os direitistas Marco Antonio Boncompanho Lieb, 30 anos, e R.M.M., 17 anos, que portava o canivete, e os esquerdistas Ismael de Almeida Cardoso, 27 anos, e Renan Thiago Alencar Moreira, 26 anos.
Lieb foi procurado, mas não atendeu os telefonemas. Em sua página no Fabebook, ele se diz fã do deputado Jair Bolsonaro, grupos anticomunistas e do movimento integralista, corrente ideológica ultranacionalista brasileira que possui vínculos com o nazismo e o fascismo.
O menor R. admitiu ser skinhead, mas negou ligações com o nazismo. “Somos nacionalistas e integralistas. Não temos nada a ver com os fascistas”, disse R., que faz parte do grupo Comando, da Zona Sul. Ele afirmou portar o canivete para se defender de possíveis agressões de grupos skinheads intitulados antifascistas como RASH (Red Anarquist Skin Heads).
Os skinheads carregavam uma faixa defendendo a volta dos militares ao poder com as siglas do Movimento de Combate à Corrupção (MCC), Organização de Combate à Corrupção (OCC), Associação Nacional dos Militares do Brasil (ANMB), grupos de direita que participaram dos protestos de junho.
Desde a semana passada, integrantes destes grupos convocam no Facebook militantes de direita a participarem de “ações” contra o Foro de São Paulo.
Ninguém foi indiciado e a Polícia Civil não instaurou inquérito.
É prevista a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dos presidentes da Venezuela, Nicolás Maduro, e Bolívia, Evo Morales, no encontro do Foro que vai até domingo.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Chomsky desanca Žižek e Lacan: "falsários intelectuais, carentes de todo conteúdo”.

Chomsky, sobre Žižek e Lacan: “Não me interessam estes falsários intelectuais, carentes de todo conteúdo”.
Entrevista
 
     
Noam Chomsky. Artigo tirado de Sin Permiso (aqui) e traduzido por  revolta entre a mocidade. Avram Noam Chomsky é professor emérito de linguística e filosofia no Instituto Tecnológico de Massachusetts em Cambridge, Mass.
Faz em umas poucas semanas penduraram-se em youtube umas declarações de Chomsky sobre Žižek e Lacan. Julie Wark, membro do Conselho Editorial de SinPermiso e amiga pessoal de Chomsky, tem-as transcrito e traduzido para SP. Não é nova a hostilidade do grande cientista e veterano ativista político estadounidense para todas as variantes do obscurantismo pós-modernista em general, e designadamente,  da French Theory e os seus múltiplos derivados. Já faz duas décadas, por exemplo, escrevia:

"Os intelectuais de esquerda participaram ativamente na vida animada da cultura operária. Alguns procuraram compensar o carácter de classe das instituições culturais com programas de educação operários ou mediante obras de divulgação -que conheceram um sucesso muito grande- sobre matemáticas, ciências e outros temas. É ferinte constatar que hoje em dia os seus pretendidos herdeiros com frequência privam aos trabalhadores destes instrumentos de emancipação, nos informando, de passagem, de que o -projeto dos Enciclopedistas- está finado, que há que abandonar as "ilusões" da ciência e da racionalidade. Será uma mensagem que fará felizes aos poderosos, satisfeitos de monopolizar esses instrumentos para o seu próprio uso."

E faz pouco mais de 8 anos, Chomsky explicava que quando abre uma revista especializada de matemáticas, normalmente não entende grande coisa, mas se tem interesse em compreender algum tema em especial, "sei que tenho que fazer". Dirige-se a um amigo ou colega com conhecimentos sobre o tema do que procura uma explicação, e lhe pede que lho clarifique. O objetivo cumpre-se de forma habitual. Mas, em notabilíssimo contraste, quando trata de ler algo escrito pelos pós-modernos que não entende, e se dirige a um especializado em pós-modernismo para que lho explique, não serve de nada. "Os que praticam estas artes não parecem capazes de me explicar o conteúdo do que se diz". E acrescenta a seguir: "é o contrário do que ocorre habitualmente nas ciências, as matemáticas, a composição musical ou em outros domínios."
 
A pequena entrevista que a seguir transcrevemos e traduzimos segue esta mesma linha, que expressa com simpática contundência a indignação do homem de ciência e do homem de ação contra o não tão inócuo charlatão de salão. [SP]

ENTREVISTA

George Hegel: Em uma das nossas conversas no passado, você disse que não lhe interessa muito a teoria, nem pensa que seja útil ou que tenha aplicações práticas à hora de combater e mudar estes sistemas de poder. Não obstante, nos nossos tempos um dos intelectuais esquerdistas mais polifacéticos, Slavoj Žižek, tem uma perspectiva quase diametralmente oposta no seu trabalho. Ele se baseia no trabalho de Derrida e Lacan e outros para explicar a sua crítica do capitalismo global, a ideologia do império, e assim sucessivamente. Explica-me por que você não escreveu mais livros sobre a teoria política, económica ou social e daí pensa do trabalho de Slavoj Žižek, na medida em que você o tenha lido ou conheça, o seu uso do trabalho do psicanalista francês Lacan e, por suposto, de Derrida, o deconstrucionismo e todo o seu legado?

Noam Chomsky: Você se refere à "Teoria" e quando disse que não me interessa a teoria, o que queria dizer é que não me interessa esta adoção de posturas mediante o uso de termos extravagantes compostos de arquissílabos, nem, menos, a fantasiada ficção de dispor de uma "teoria",  quando não há nenhuma teoria em absoluto. Não há nada de teoria em todo este rolho, não, desde depois, no sentido de "teoria" de quem esteja minimamente familiarizado com as ciências, ou com qualquer outro campo sério. Tente você procurar em todo o trabalho que mencionou alguns princípios desde os quais seria possível deduzir conclusões ou proposições empiricamente verificáveis e a um nível algo mais alto do que se possa explicar a um menino de doze anos em cinco minutos. A ver se você pode encontrar algo assim, uma vez decodificados todos a verba extravagante. Eu, não posso. Carece, pois, de interesse para mim este tipo de pavoneio presuntuoso. Žižek representa um exemplo extremo do mesmo. Não vejo o menor contido no que diz. Com respeito a Jacques Lacan, o certo é que cheguei ao tratar pessoalmente. E nesse plano, gostava bastante. Reuníamo-nos de vez em quando em Paris. Mas, a dizer verdade, sempre pensei que era um charlatão integral. Não fazia senão coqueteios ante as câmaras de televisão, à maneira típica de tantos intelectuais de Paris. Não tenho a menor ideia de por que tudo isto lhe parece a você tão influente. Eu não vejo nada que mereça ter essa influência. Quiçá você me pode explicar por que pensa que é influente; se há algo importante, eu, sou incapaz do ver. Não me interessam os falsários intelectuais carentes de todo o conteúdo.

George Hegel: Acho que interessa-lhe a muita gente..., sobretudo porque este trabalho é a cada vez mais popular em ambientes contestatários... lembrança que ouvi o nome de Žižek faz poucos anos, e agora quando vou a diferentes círculos organizadores de acontecimentos, protestos, encontros ou assembleias, ouço com frequência o seu nome ou comentários sobre o seu trabalho... e parece-me que você, faz pouco, teve uma reunião com Angela Davis, uma conversa em Boston moderada por Vijay Prashad. Gostaria de ver mais conversas deste tipo, até entre gente com diferentes perspectivas, por exemplo você mesmo com Slavoj Žižek, o trabalho do qual é a cada vez mais influente... Pensa você que seria útil fazer esse tipo de debates, no mínimo conversas com outras pessoas da esquerda que oferecem trabalhos a gente que sim que os encontram interessantes? Acha que temos que pensar nisto?

Noam Chomsky: Diz que o seu trabalho é a cada vez mais influente? Permita-me que o duvide. Acho que os seus poses e posturinhas são a cada vez mais influentes. Pode-me você dizer a que trabalho se refere? Porque o que é eu, não o encontro. É um bom ator. Faz postas em cena e que as coisas pareçam apaixonantes, mas encontra você algum conteúdo? Eu, não. Não tenho o menor interesse em ter uma conversa com ele, e suponho que ele também não quereria c charlaromigo. Em mudança, a conversa com Angela Davis foi boa. É uma pessoa intelectualmente estimável, pensa seriamente e tem coisas que dizer, e algumas, interessantes.   

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Aécio e Serra se encontram nesta quinta-feira em conferência do PPS

Maria Lima, em O GLOBO
BRASÍLIA — No meio de um processo delicado de negociação para manter espaço de destaque no seu partido, o PSDB, e promover reaproximação com os tucanos mineiros, o ex-ministro José Serra terá oportunidade de mostrar nesta quinta-feira, de público, se a relação com o senador Aécio Neves (PSDB-MG) realmente está se distensionando ou se permanece o mal-estar em relação ao provável candidato do partido a presidente. No momento em que circulam notícias sobre a possível saída do ex-governador paulista do PSDB, Serra e Aécio vão comparecer, juntos, à abertura da conferência “A Esquerda Democrática pensa o Brasil”, promovido pelo PPS. O PPS é justamente o partido que articula a ida de Serra para uma nova legenda, se vingar a fusão com o PMN.
Gabeira está confirmado
Foram convidados para o encontro de hoje outros pré-candidatos à sucessão da presidente Dilma Rousseff, como Eduardo Campos (PSB) e Marina Silva. Mas só Fernando Gabeira (PV) e Aécio confirmaram presença. Campos viajou para os Estados Unidos para uma reunião no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, convidado, também não comparecerá.
Inicialmente, Aécio e Fernando Henrique participariam nesta quinta-feira, e Serra só discursaria sexta-feira, com Marina Silva. Como os demais convidados não confirmaram presença, Serra acabou sendo convidado a participar da solenidade de abertura do seminário, junto com Aécio. O presidente do PPS, deputado Roberto Freire (SP), conversou com Aécio e Serra para averiguar se haveria algum constrangimento.
— Conversei com o Serra e ele me garantiu que está tudo bem. Não vai haver nenhuma saia-justa. São civilizados — disse Freire.
Campos será representado
Serra, Aécio e Gabeira devem discursar. Todos com críticas ao governo e à presidente Dilma Rousseff. O líder do PSB, senador Rodrigo Rollemberg (DF), representará Eduardo Campos.
— Vai dar tudo certo. Eu e o Serra somos mais próximos do que vocês imaginam — disse Aécio, ontem.
A conferência do PPS vai até sábado e será realizada no plenário Nereu Ramos da Câmara dos Deputados. O tema do debate de abertura será “Desafios do Brasil: Desenvolvimento, Sustentabilidade e Equidade”. No encerramento, o PPS deverá reunir seu Diretório Nacional para discutir a possibilidade de fusão com o PMN, o que abriria uma janela para a adesão dos descontentes, inclusive Serra, se for o caso.
— Se avançarem as articulações sobre a fusão do PPS com o PMN, o Diretório Nacional precisa convocar um congresso nacional do partido para deliberar. Então, vamos começar a discutir essa possibilidade com a direção do partido, para não ficar só eu falando sobre isso — disse Freire.
Também hoje em Brasília, o PSD, partido criado pelo ex-prefeito de SP Gilberto Kassab, fará nova rodada de reunião com diretórios estaduais para discutir a posição do partido nas eleições presidenciais do ano que vem. Prevalece a ideia de apoiar a reeleição de Dilma, mas sem comprometimento com o governo (Maria Lima).

Leia mais sobre esse assunto em o e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

sábado, 21 de julho de 2012

Você quer uma Revolução?


 

Revolução

Você diz que você quer uma revolução
Bem, você sabe..
Todos nós queremos mudar o mundo

Você me diz que isso é uma evolução
Bem, você sabe
Todos nós queremos mudar o mundo

Mas quando você fala em destruição,
Você já sabe que não pode contar comigo

Não sabe que vai acabar tudo bem?

Tudo bem
tudo bem, tudo bem...

Você diz que você tem a solução real
Bem, você sabe..
Todos nós adoraríamos ver o plano

Você me pede uma contribuição
Bem, já sabe..
Todos nós fazemos o que podemos

Mas se você quer o dinheiro para pessoas que só tem ódio na mente
Tudo o que posso dizer, irmão, você vai ter que esperar

Não sabe que vai acabar tudo bem?

Tudo bem
tudo bem, tudo bem...

Você diz que você mudará a constituição
Bem, você sabe..
Todos nós queremos mudar a sua cabeça

Você me diz que isso é a instituição,
Bem, você sabe..
É melhor você libertar sua mente

Mas se você vai andar com fotos do Presidente Mao
Também não vai convencer a ninguém

Não sabe que vai acabar tudo bem?

Tudo bem
tudo bem, tudo bem...

Ah, ah ah ah ah ah ah ah ah ah
Tudo bem, tudo bem, tudo bem .

Veja o original

terça-feira, 28 de junho de 2011

Tarso e a Previdência Pública


É preciso pensar no Brasil

Excelente o texto do Governador Tarso Genro sobre as mudanças propostas para a previdência pública no RS (leia aqui).
Na conclusão, o governador afirma "A agenda do atual governo remete principalmente para o destino dos direitos conquistados pelos servidores - mantê-los com sustentabilidade - e para uma 'utopia concreta', como diria Ernst Bloch. A utopia de viabilizar os direitos de todos 'aqui e agora': para as próximas décadas. Sem assistir passivamente, como fizeram os socialistas gregos e portugueses, à decadência do Estado capturado por corporativismos subsidiados por toda a sociedade, pelos servidores de salários mais modestos, ou capturado pela tutela do capital financeiro, que transforma o Estado endividado - no momento em que a crise estoura - num ajoelhado devoto das receitas de cortar políticas sociais, salários, aposentadorias e investimentos. "
É esperado da oposiçãoque oponha às propostas do governo. Os fundos fictícios criados por Britto e Yeda não se destinavam à sustentar à previdência. Eram uma invenção para, no futuro, viabilizar o processo de privatização da previdência, através da constituição da previdência complementar. O problema está em as direções sindicais - corporativas, é bom que se diga - taxarem de neoliberal uma proposta que busca garantir a sustentabilidade do regime público de previdência.
Essa incapacidade em diferenciar o que é visão neoliberal de uma visão do papel e das condições do Estado em um mundo em transformação, deixou a esquerda europeia (mesmo que seja uma esquerda meia-boca) amarrada e incapaz de apresentar-se como alternativa consistente, como escreveu Tarso Genro. É bom que se diga que na Europa existem partidos de esquerda radicalizados. Alguns com visões muito semelhantes aos que taxam de neoliberal qualquer proposta diferente do catecismo de uma visão ultrapassada no tempo. Não é essa esquerda que está se aproveitando da crise gerenciada pela social-democracia europeia, mas a direita.
O Brasil vem construindo a ascenção de uma nova classe média. As classes C e B aumentam, baseados no emprego formal. O corporativismo do servidor público expressa-se quando as demandas da categoria sufocam as demandas da sociedade. Não é à toa que a sociedade em geral costuma ser crítica aos servidores e ao que considera privilégios (carga horária e estabilidade, por exemplo). Essa nova classe média, mas não só ela, vai se tornar cada vez mais exigente em relação aos serviços públicos. Enquanto isso, os servidores permanecem olhando para trás. Baseiam-se em discursos doutrinários e encaram o governante como um patrão (caso da presidenta do Cpers). Agindos assim, vão de encontro à sociedade e cavam um fosso cada vez maior entre esta e o servidor público.
Se a esquerda não fizer as reformas do Estado a partir dos seus pressupostos, a direita os fará, ou as mudanças acontecerão de modo incontrolável e contra a maioria.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Nemo Plínio nem o povo foram ao debate da "esquerda"


Com todo o respeito aos companheiros, mas PCB, PCO e PSTU falam uma linguagem completamente distante da realidade. Desses, o PSTU ainda é o que possui alguma base social e militância nos movimentos. Os demais, falam em nome de um povo que sequer os escuta. Tudo bem qie a eleição presidencial é tudo coisa da burguesia e tal, mas PCB e PCO poderiam poderiam, ao menos, fazer uma panfletagem ou aparecer na rua. Os caras se escondem a campanha toda e só aparecem fazendo um discurso doutrinário no horário gratuito que a legislação burguesa estabeleceu. PSTU ainda junta algumas ideias com sentido, mas parece recitar uma cartilha.
Tradicionalmente, a esquerda adora discutir quem está mais à esquerda que o outro, numa discussão sem fim. Mas até o esquerdismo tem que ter algum limite. 
As massas das quais eles tanto falam passam longe dos atos que eles promovem.
Pode ser tudo fruto do meu espírito reformista pequeno-burguês, mas acho que tem alguma coisa errada com esses caras