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domingo, 11 de maio de 2014

Wallerstein: o sentido histórico da revolta zapatista

POR 
IMMANUEL WALLERSTEIN

140406-Zapatistas
Tratada com ironia, mesmo entre certa esquerda, insurreição de 1994 abriu caminho para retomada da ação anticapitalista, quando sistema julgava-se imbatível
Por Immanuel Wallerestein | Tradução: Gabriela Leite
Em 1º de janeiro de 2014, o Exército Zapatista de Liberação Nacional (EZLN) celebrou o vigésimo aniversário de sua insurreição em Chiapas. Este ano, eles estão se envolvendo em uma auto-avaliação. Em abril, na página web do EZLN, o Enlace Zapatista, o Subcomandante Insurgente Moisés publicou um editorial sobre a “guerra contra o esquecimento”. Ele diz que em meros dezenove anos, a luta do EZLN “toreou” o sistema que oprime os povos indígenas há 520 anos.
Quais foram as realiçações do EZLN? Em que sentido, pode-se dizer que ele teve sucesso? O EZLN tem sido tratado com ironia não apenas pena direita mundial, mas também por certos grupos  da esquerda, que o acusam de ser muito irrelevante para a luta mundial contra o imperialismo e o neoliberalismo. O que eles alcançaram, perguntam os críticos? Sua trajetória teria sido mais que um show de relações públicas?
Este tipo de crítica não compreende nada sobre a insurreição. O primeiro feito dos zapatistas tem sido sobreviver contra um exército mexicano que tem se esforçado, há vinte anos, por destruí-los. A ameaça foi evitada não por proeza militar do EZLN (seu poder  não pode ser comparado à do exército mexicano), mas por sua força política — tanto internamente, entre os povos indígenas de Chiapas, quanto externamente, no resto do mundo. É essa força que limitou os danos do exército a não mais que perseguições (algumas com assassinatos) nas margens das comunidades anôminas zapatistas.
Qual foi a múltipla mensagem do EZLN, ao governo mexicano e ao mundo, em 1º de janeiro de 1994, quando começou o levante? Primeiro, estavam reivindicando a dignidade dos povos indígenas oprimidos, ao renovar a exigência de exercer o governo de suas próprias comunidades, por meio das próprias populações, coletiva e democraticamente. Em segundo lugar, estavam dizendo que não têm nenhum interesse em chegar ao poder de Estado no México, o que seria, em sua visão, simplesmente trocar um conjunto de opressores por outro. Ao invés disso, demandavam que o governo mexicano reconhecesse formal e sinceramente sua autonomia.
Em terceiro lugar, o EZLN escolheu a data porque marcava a entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, em inglês). Ao escolher esta data, estavam afirmando sua rejeição ao papel imperialista dos Estados Unidos, no México e em todo o mundo. Quarto: afirmavam que, ao invés de focarem sua ação especificamente em Chiapas, apoiavam as lutas de todos os povos e classes oprimidas ao redor do mundo. Enfatizaram isso ao convocar mais tarde, em Chiapas, o que eles chamaram de reuniões intergaláticas; e ao se recusarem a excluir participantes que eram rejeitados por outros convidados. E em quinto lugar, solicitaram compartilhar estas visões com outros oprimidos no México através do Congresso Nacional Indígena.
O levante do EZLN foi o início de uma contra-ofensiva da esquerda mundial contra o avanço,  relativamente breve, da direita mundial, entre 1970 e 1994. A combinação do impacto político e econômico do Consenso de Washington e o aparente triunfo, com o colapso da União Soviética, permitiram à direita sonhar com a dominação permanente do sistema mundial. O que os zapatistas fizeram foi lembrá-los (e o mundo de esquerda) que há, sim, uma alternativa — a de um mundo relativamente democrático e relativamente igualitário.
Em 1º de janeiro de 1994, o EZLN abriu caminho para os protestos bem sucedidos que ocorreriam Seattle, em 1999; e em diversas outras cidades, na sequência — assim como para a fundação do Fórum Social Mundial (FSM) em Porto Alegre, em 2001. A luta contínua do FSM e do que agora tem sido chamado de movimento por Justiça Global, foi possível por causa do EZLN.
É claro que, como o Subcomandante Insurgente Moisés nos recorda, “não pode haver descanso; é preciso trabalhar duro”. Suponho que esta seja a mensagem definitiva do EZLN. Não pode haver descanso para qualquer um de nós que acredite que “outro mundo é possível”.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Zapatistas celebram 20 anos de resistência

Waldo Lao: Projeto popular enfatiza o fortalecimento da autonomia nas comunidades

Waldo Lao de San Cristóbal de las Casas, Chiapas (México)

Acompanhadas por suas bases de apoio e por milhares de simpatizantes de todo o México e de diversos países do mundo, as comunidades zapatistas celebraram nos cincoCarocoles Rebeldes, o 20º aniversário do levante armado do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).
Foi uma noite longa, com muita música e dança, onde comandantes compartilharam suas palavras. No Caracol II, zona alta de Chiapas, o Caracol mais próximo à cidade de San Cristóbal de las Casas, a comandante Hortensia proferiu: “completamos 20 anos de guerra contra um sistema social injusto, representado pelos três níveis de maus governos, fiéis marionetes do neoliberalismo”.

Ela argumentou que este sistema pretende despojar os povos indígenas de suas terras, de seus recursos naturais e desalojar de seus territórios de origem, assim como os zapatistas: “o mau governo faz o possível para nos perseguir, nos atacar em todos os aspectos, a fim de debilitar e destruir nossa organização e luta pela construção da autonomia”.

Em relação às duas décadas de levante, a comandante comentou: “aprendemos a viver e resistir de maneira organizada e estamos aprendendo a nos governar de acordo com nossas formas de pensar e viver, como faziam nossos pais e avós. Começamos a viver a autonomia.
Nos encontramos, os povos e as zonas zapatistas, para compartilhar nossas ideias e experiências. Assim entre todos, tratamos de melhorar nossos trabalhos e corrigir nossos erros”.
Sobre a defesa de seu território em resistência, argumentou que “os maus governos estão tentando retirar de nós as terras recuperadas em 1994, que estavam nas mãos dos grandes proprietários de terras que tão mal fizeram a nossos pais e avós”.
A comandante finalizou sua intervenção com uma chamada internacional de luta, por um mundo melhor onde caibam muitos mundos: “Temos as melhores armas para combater o mal, para lutar contra a morte e construir a vida nova para todos. Nossas armas são a resistência, a rebeldia, a verdade, a justiça e a razão que está ao nosso lado. Agora é tempo de fortalecer e globalizar a resistência e a rebeldia”.
Autonomia
Após a festa comemorativa, foi realizada, de 3 a 7 de janeiro, a terceira fase do primeiro nível do curso “A liberdade segundo os e as zapatistas”. A chamada escuelita foi um momento de ver e compreender, desde dentro, o exercício da construção real da autonomia, para compartilhá-lo com os de fora, como dizem os zapatistas. 
Nas suas comunidades já não obedecem ao governo, nem são manipulados pelos partidos. Dizem que uma das condições para ser zapatista é estar em resistência e não receber dinheiro do governo. Nas comunidades onde convivem zapatistas e não zapatistas – a maioria priistas – fica claro como os projetos assistencialistas do governo, como o Programa de Certifi cación de Derechos Ejidales – Procede, Procampo e Oportunidades, têm conseguido romper com o sentido da vida comunitária.
Os não zapatistas, beneficiados pelos programas de governo, têm deixado de trabalhar a terra e compram dos zapatistas, seus vizinhos, seus alimentos como o milho e o feijão, ironia das ironias.
A estrutura do governo autônomo dos povos zapatistas está dividida em três níveis de governo: a zona onde está a Junta do Bom Governo (JBG), os Municípios Autônomos Rebeldes (MAREZ) e o nível local que corresponde às próprias comunidades ou bases de apoio. Baseia-se nos sete princípios do mandar obedecendo e nas seis formas de fazer política dos povos zapatistas: propor, analisar, estudar, discutir, opinar e decidir, assim como nos regulamentos internos de cada povo. Para os zapatistas, a instância máxima de decisão é a assembleia comunitária.
Seu projeto consiste numa autonomia de autonomias, ou seja, cada povo avança conforme suas necessidades, não sendo um processo igualitário, mas sim que pretende ser equitativo, que abarque um processo de autonomia integral, desde eles e por eles, e que contemple “outras” formas de democracia, educação, saúde, justiça e uma nova forma de cultura política, onde as mulheres participam em todos os projetos dos três níveis de governo, ainda que, como conta uma zapatista: “enfrentamos dificuldades, pois ainda existe machismo dentro da organização. Há companheiros que não entenderam ainda que nós mulheres já temos o direito de participar nas diferentes áreas de trabalho”.
Para impulsionar os trabalhos de autonomia, os zapatistas estão organizados em MAREZ por Conselhos Autônomos, que correspondem às tarefas de justiça, comissão agrária e juizado civil. Promotores e promotoras participam em diversas áreas do trabalho, como saúde sexual e reprodução, assim como as hueseras – mulheres que tratam doenças de ossos e articulações –, parteiras e uso das plantas medicinais – principalmente com a participação das mulheres.
A educação é dividida em várias áreas de conhecimento: matemática, espanhol – tendo em vista que o mais importante é não perder o aprendizado da língua materna-; e vida, meio ambiente e história. Há também as áreas de comércio, vigilância e comunicação, que são os vídeos e rádios comunitárias. Todos os cargos são rotativos, não remunerados e eleitos pelas comunidades: “eleger as autoridades e retirá-las quando necessário”.
Os trabalhos coletivos, organizados por um presidente, um secretário e um tesoureiro – que podem ser assumidos por ambos os sexos – funcionam como um mecanismo de organização, resistência e fortalecimento da identidade. Alguns dos trabalhos coletivos realizados nas comunidades são: a produção de diversos alimentos, a criação de gado, as granjas, a confecção de artesanato, as tiendas – cooperativas que vendem produtos que os zapatistas não produzem – padarias, hortas agroecológicas, onde cultivam sem o uso de agrotóxicos ou transgênicos. Cada projeto corresponde de acordo à necessidade de cada comunidade.
Nesse processo de construção da autonomia, há duas décadas, a contrainsurgência é permanente e não somente se mostra como uma ofensiva militar e paramilitar, mas como ataques: políticos, econômicos, culturais, psicológicos e por parte dos meios de comunicação que se esmeram em reduzir o movimento em meras cinzas do passado, em esquecimento.
Por isso, a luta zapatista é integral e tem que ser construída constantemente. Eles falam: “a maior arma que temos é a resistência. Há que organizá-la em todos os níveis”.
Aos 20 anos da insurreição armada e 30 desde sua formação clandestina nas montanhas de Chiapas, os zapatistas seguem no seu ritmo, escutando e fortalecendo a autonomia desde suas comunidades. Seu tempo não é o nosso, para eles, a hora é a frente de combate do sudeste. Os zapatistas caminham como os Caracóis, devagarzinho, mas para frente.
Tradução: Cecilia Piva, em Brasil de Fato

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Pasan los años y los zapatistas siguen presentes

Publicado en 

Hace veinte años el Subcomandante Marcos y su movimiento tomaron las calles para exigir un reparto más equitativo de las riquezas y la propiedad de las tierras. En Chiapas, donde conviven lo moderno y lo antiguo, se los evoca.
Por Eduardo Febbro, Desde San Cristóbal de las Casas, Chiapas
Gaspar Morquecho Escamilla se acuerda como si fuera ayer mismo de la plaza central de San Cristóbal de las Casas. Pasaron 20 años desde aquel 1º de enero de 1994. La madrugaba asomaba en el cielo cuando, en el entrevero de la plaza ocupada por los zapatistas, apareció el Subcomandante Marcos. Fue el primer periodista que le habló en aquel naciente Año Nuevo que iba a marcar para siempre la historia de México y de América latina. Ya pasaron años y años, y también balas y muertos y arrestos e injusticias. Pasaron críticas y burlas, pero Marcos y los zapatistas siguen acá, presentes. Los dieron por muertos, olvidados, por caídos en el pozo de la historia. Pero no. Felipe Arizmendi Esquivel, el obispo de la diócesis local, dice: “Mucha gente se pregunta si subsiste el Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN) y yo les digo que no sólo subsiste, sino que existe, tiene presencia, fortaleza, planes y proyectos, no es algo del pasado ni semimuerto”.
Pasaron tantas cosas que no hace falta detallarlas por abecedario. Se ven así, a cielo abierto, a un lado de la plaza, frente a la catedral. Ahora han instalado una pista para patinar sobre el hielo y un tobogán para deslizarse en el presente. La calle Real de Guadalupe es una miniatura de la oferta ultraliberal. Las marcas internacionales tienen su lugar, se ofrece “pan europeo”, hay bares en inglés, no menos de cuatro restaurantes argentinos y un sin fin de boutiques de lujo que venden ropa y esa piedra suave como la luna que es el ámbar. “Los indígenas surfean entre estas modernidades”, dice con un tono de lucidez neutra uno de los mozos de los muchos bares de moda que surgen semejantes a semillas nuevas a lo largo de Real Guadalupe.
En un mundo muy distinto a éste, Gaspar Morquecho Escamilla se topó en la plaza con el Subcomandante. Este periodista se instaló en San Cristóbal y siempre trabajó con comunidades y pueblos indígenas “con la pretensión de crear organizaciones sociales y políticas para hacer la revolución en este país”. Y precisamente en este lugar “nos agarró el ’94”. Gaspar recuerda que en 1993 el tema de los movimientos armados en Chiapas era frecuente. En diciembre de ese año la agitación se hizo más visible, pero nadie calculó que la ofensiva iba a explotar tan pronto. Gaspar Morquecho Escamilla recuerda que una mujer de las comunidades indígenas le preguntó “¿será que va a haber guerra?”. Y la hubo, a pesar de las condiciones adversas que en aquel momento había dentro para lanzarla contra el gobierno del entonces presidente Carlos Salinas de Gortari. Chiapas ha sido y es pobre. Los frutos de la reforma agraria aplicada luego de la revolución de 1910 no llegaron a estas tierras. Marcos y los zapatistas tomaron las calles para exigir un reparto más equitativo de las riquezas y la propiedad de las tierras que nunca fueron a manos de los campesinos. En la declaración de la Selva de Lacandona (1993) los zapatistas expresaron claramente los objetivos: “Lucha por trabajo, tierra, techo, alimentación, salud, educación, independencia, libertad, democracia, justicia y paz… lograr el cumplimiento de estas demandas básicas de nuestro pueblo formando un gobierno de nuestro país libre y democrático”.
En una carta del Subcomandante de febrero de 1994, Marcos amplió los objetivos con esa poesía e ironía verbal que lo caracteriza: “¿La toma del poder? No, apenas algo más difícil: un mundo nuevo”. En diciembre de 1993, el Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN) apeló al artículo 39 de la Constitución mexicana como argumento para el derrocamiento del presidente Carlos Salinas de Gortari, a quien acusaban de haber ganado las elecciones de 1988 con un “fraude electoral de enormes proporciones”. En las primeras horas de enero del ‘94 el EZLN ocupó San Cristóbal de las Casas y otros seis municipios. “En ese momento, en la plaza, yo era el único periodista que estaba”, dice Gaspar.
Desde luego, en veinte años, el mundo se ha renovado en Chiapas, pero según el orden impuesto por el consumo universal. Las estadísticas son una constante hacia abajo: casi el 79 por ciento de la población vive en un esquema de pobreza. La adversidad azota a las etnias tzeltal, tzotzil, tojolabal o chol, siempre marginadas. Los datos no le sacan el optimismo a Gaspar Morquecho Escamilla. “Estamos frente a un movimiento, el EZLN, que tiene 44 años. Declararon la guerra en las peores condiciones que puedan haber en el mundo y localmente, un escenario adverso para cualquier movimiento armado. Pero ya llevan 20 años de resistencia con una campaña de contrainsurgencia que empezó en 1995. Y ahí están. Es un movimiento de resistencia con grandes capacidades en términos de organización y movilización, con sistemas de salud, de transporte, de producción, de abasto y de comunicación.” De ello no hay dudas. El EZLN lleva muchos años impulsando un proceso que tiende a dejar en manos del pueblo la gestión política y las organizaciones sociales. Así fueron surgiendo los municipios autónomos que luego pasaron a formar parte de los cinco caracoles y las cinco juntas de buen gobierno regidas por siete principios: 1) Servir y no servirse. 2) Representar y no suplantar. 3) Construir y no destruir. 4) Obedecer y no mandar. 5) Proponer y no imponer. 6) Convencer y no vencer. 7) Bajar y no subir. “Aquí manda el pueblo y el gobierno obedece”, proclama un cartel de una zona bajo control zapatista. La utopía tiene voz y rostro. Y muchas amenazas que la cercan.