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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

NORDESTE, NORDESTES, por Wilson Gomes

Esperei até a madrugada para ver se algum dos profundos analistas políticos de televisão arrumavam algum argumento sofisticado para explicar o êxito eleitoral de Dilma e, consequentemente, o fracasso de Aécio. Até agora, nada que supere o rés do chão da reação visceral dos torcedores políticos derrotados, registrada no Twitter, no Facebook e no WhatsApp: quem decidiu a eleição foi o programa bolsa família, quem elegeu Dilma foi o Nordeste. São dois argumentos e um só ao mesmo tempo, uma vez que para a percepção eleitoral disseminada nordestinos e beneficiários do bolsa família são praticamente sinônimos. Aliás, beneficiários de bolsa família são nordestinizados, para fins da equação que explica tudo. Aécio mesmo já havia dito que Minas tinha o seu próprio e particular Nordeste, no norte do estado, cheio dependentes dos programas do governo. E hoje muitos insistiram que "os bolsa família" do Rio e de Minas é que melaram o jogo no Sudeste. Tudo nordestino, claro.
Por fim, o meu arjumentista preferido, Diogo Mainardi, enunciou no Manhattan Connection o que tantos desejavam dizer: "O Nordeste sempre foi retrógrado e bovino. É uma região atrasada, pouco educada, pouco instruída" que sustenta eleitoralmente a fraude que é PT. Todos assentiram. Então, estamos combinados que foi o Nordeste, sua pobreza, sua dependência, o seu atraso, suas faltas de inteligência e discernimento e a sua falha moral a eleger Dilma, certo? A depender do aluvião de insultos aos nordestinos que foram despejados em sites de redes sociais (até mesmo por outros nordestinos) esta noite, não há sequer dúvida disso.
Será? O que dizem os fatos? Dilma Rousseff foi eleita com exatos 54.500.287 votos. Mas, vejam só, os habitantes do antigo Nordeste só lhe conseguiram dar 17.650.817 de votos. Ora, isso representa apenas 32,4% dos votos com que ela se elegeu, meus amigos. Falta ainda ainda 67,6% nessa conta. De onde vieram? O Nordeste é bovino e atrasado, "o câncer do Brasil", numas das mais amáveis expressões das mais retuitadas nesta noite simpática, mas Minas, Rio, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande Sul são lugares civilizadíssimos, não é mesmo? Vejam que nem incluí o Espírito Santo na equação, uma vez que do ES se duvida da pureza sudestina. Fiquei só com a nata, para não haver dúvida. Pois não é que dos nordestinos desses estados avançadíssimos vieram 25.715.896 votos? Pois é isso mesmo: SP, MG, RJ, PR, SC e RS, estados de puríssimas castas, deram a Dilma 47,2% dos seus votos. Contra apenas 32,4% do NE bovino, comprado à base de bolsas-esmola.
Sendo assim, gostaria de dar boas-vindas aos novos nordestinos. Aos 26,7 milhões de nordestinos das melhores castas do Sul e do Sudeste, mas também aos outros 11,1 milhões de nordestinos dos demais estados brasileiros, que se juntam esta noite aos 17,6 mi de nordestinos mal nutridos e educados do velho Nordeste, que ousaram desafiar os outros 48,4% de brasileiros e preferiram votar em Dilma Rousseff. E, o que é ainda mais atrevido e imperdoável, atreveram-se a vencê-los numa eleição justa e limpa.
A estupidez humana não conhece limites, meus amigos. Ainda mais em tempos sombrios.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A memória seletiva e sem-vergonha de Aécio. Wilson Gomes, mais uma vez, brilhante

Engraçado como é a memória da gente, né? Sempre pregando as suas peças. Aécio fala em "crescimento econômico", minha memória volta aos anos noventa e lembra "arrocho salarial". Aécio fala em "tornar o Estado menos aparelhado, valorizando um governo de técnicos e de funcionários públicos", mas o que a danada da minha memória recolhe dos anos 1990 é "corte no orçamento", "demissão de funcionários públicos", "suspensão de aumento salarial do funcionalismo". Aécio fala de "avanço em Ciência e Tecnologia", mas na minha memória se forma a lembrança de um CNPq à beira da falência, de Universidades com a luz e o telefone cortados por falta de pagamento e de todos os meus colegas professores-pesquisadores irremediavelmente pendurados no cheque especial. Aécio fala em "fim da corrupção" e eu lembro dos escândalos da compra de votos para a emenda da reeleição de FHC.
Aécio continua falando, falando e falando...enquanto na minha indócil memória a lateja a palavra-chave mais anos noventa dentre todas, para quem estava no Serviço Público naquela época, "contingenciamento, contingenciamento, contingenciamento".
Acho que esse é o grande problema da candidatura de Aécio para pessoas como eu: a memória. Aécio me lembra a propaganda de um candidato a prefeito de Salvador que adotou o slogan "quem conhece fulano, vota em fulano", quando, na verdade, quem o conhecia não votou nele de jeito algum. Se eu fosse Aécio, não fica remexendo nos "gloriosos" anos 1990, em que, segundo a nova lenda, FHC inventou o mundo e todas as suas virtudes. Meus amigos, não faz mais que duas semanas que FHC foi canonizado; quando terminou o seu segundo mandato, a popularidade não lhe garantiria nem eleição para deputado estadual. Na verdade, nem houve segundo mandato, porque FHC chegou nele tão fraco politicamente e tão anêmico em termos de popularidade que não conseguiu fazer absolutamente nada. Se Serra e Alckmin tivessem podido usar o governo tucano de FHC como vitrine, por que vocês acham que o esconderam esses anos todos? Só agora, que o tempo esmaeceu as lembranças e eleitores que eram muito jovens nos anos 1990 entraram no jogo, é que FHC foi transformado, retoricamente, em um gigante sobre cujos ombros se encontra Aécio.
Eu, infelizmente, tenho esta memória que me castiga. E assim como o PT está sitiado pelo antipetismo, os tucanos enfrentam, uma eleição após a outra, o obstáculo dos eleitores que se lembram dos anos 1990. Eu lembro. Aécio vai ter que se esforçar muito se votos como o meu lhe interessam. O pior é que lhe parece suficiente ser candidato dos antipetistas que decidiram, por alguma revelação divina, que a corrupção é fruto da "vontade política" e que, uma vez empossado um tucano, ela cessará automaticamente no início de janeiro. E para quem tem tristes memórias dos anos 1990 e não crê em estultices como esta, Aécio vai dizer o quê?

domingo, 7 de setembro de 2014

Wilson Gomes e uma análise brilhante sobre a "fonte ideológica" do voto

Pesquisa do Datafolha sobre a fonte ideológica do voto confirma o que venho dizendo sobre a segmentação eleitoral brasileira em quem as campanhas deveriam prestar atenção.

1. Os estoques mais apetitosos de votos estão no centro, não na esquerda (7%) nem na direita (13%), que representam os dois menores segmentos do mercado eleitoral. Criou-se um dogma de que a "voz das ruas" do ano passado tinha uma pauta à esquerda e que, em virtude da "pressão da sociedade", o sistema político deveriam ir nessa direção. Eu sempre disse que isso não tinha fundamento, que a esquerda pode ser mais ruidosa mais eleitoralmente conta pouco e representa pouco. Aliás, representa menos que no ano passado, pois caiu de 10 para 7%, enquanto a direita avançou de 10 para 13%. Não quero infligir sofrimento a ninguém, mas as evidências indicam que os protestos de rua nos fizeram mais conservadores.

2. 80% dos votos estão no centro: 20% exatamente no meio, 28% na centro-esquerda, 32% na centro-direita. É aqui que dever-se-iam concentrar as campanhas. Há uma ligeira vantagem no vetor que vem da centro-direita para o centro (52% de votos), versus o vetor da centro-esquerda para centro (48%), mas vindo de qualquer lado dá para ganhar a eleição. Notem que a centro-direita também cresceu 3 pontos percentuais do ano passado pra cá.

3. Atualmente, a diferença entre Dilma e Marina nos três segmentos do centro é pequena, com maior vantagem de Dilma à esquerda e Marina à direita. Dilma ganha de 38 a 35% na centro-esquerda e de 37 a 33% no centro, mas perde de 32 a 35% na centro-direita. Mesmo na direita, a disputa é apertada: Marina ganha de 32 a 30%. Só no menor segmento, a esquerda, Dilma ganha com folga: 42 a 33%. A ideia de que Marina é a candidata da direita não é tão simples, mesmo que se junte direita e centro-direita, o que não é lá muito bento. Do ponto de vista da distribuição pelos cinco segmentos, Marina vai bem em quatro deles e mesmo na esquerda tem 1/3 dos votos. Na verdade, está ainda disputando o centro com Dilma. Do ponto de vista do acúmulo é que há maior número de eleitores marinistas de centro-direita do que de qualquer outro segmento, mas simplesmente porque este é o maior segmento eleitoral brasileiro. Dilma é que precisaria melhorar aí se quiser ter alguma chance no segundo turno.

4. Ao contrário do que pensam os torcedores eleitorais, que os temos em abundância por aqui, campanha é menos para você converter as pessoas, fazendo-as desejar consumir o que você tem para oferecer, e mais para você descobrir o que as pessoas desejam para oferecer um produto com chance de sucesso. Dilma Rousseff e Marina Silva não podem querer converter a centro-esquerda em esquerda - esse é o trabalho de Luciana Genro, Eduardo Jorge e os outros nanocandidatos de esquerda que falam apenas para os 7% que lhes prestam atenção. O que está em poder das campanhas é tentar falar para as pessoas onde elas já estão e convencê-las de que você tem as melhores soluções para as suas necessidades. A este ponto, falar para a esquerda ou para a direita é desperdiçar energia, o certo seria tentar aumentar os próprios percentuais no centro, e não deixar a adversária disparar. Repito uma regra básica de demografia eleitoral: quem conquista o centro, sempre ganha as eleições presidenciais.

domingo, 6 de abril de 2014

Sobre o Campo Conservador brasileiro (só para fortes)

Era uma vez os críticos do PT e do governo. É natural, uma vez que estamos no 12º ano da hegemonia política do Partido dos Trabalhadores, este é um país cheio de problemas não resolvidos e a goteira de onde pingam os escândalos políticos parece não ter reparo. Além disso, houve posições políticas derrotadas e outras que não vêem uma oportunidade de desforra no horizonte – tudo isso é um fardo difícil de suportar. É normal criticar governos, ainda mais os que duram tanto, e há críticos civilizadíssimos, muitos deles situados no centro e na própria esquerda no espectro político, enquanto outros são moderados, do ponto de vista da clivagem moral. E mesmo os críticos sistemáticos do governo e do partido, aqueles que juraram morrer virgens de qualquer concessão argumentativa ao PT, como Cantanhêde ou Kramer, cumprem um papel previsto pelas leis da divergência democrática.
Em seguida, faz já alguns anos, começaram a aparecer na cena pública os odiadores do PT. A crítica, neste caso, não é uma posição intelectual, mas uma atitude existencial, política e moral ao mesmo tempo. Os PT-haters não querem conversa, querem é que o PT se acabe, que nenhum petista seja reeleito doravante, que todo o PT seja recolhido à Papuda o mais cedo possível, que todo eleitor do PT seja tratado a pão, água e chibata para aprender a não pecar mais. Trazem aos ambientes digitais a sua santa indignação, as chamas da sua fúria purificadora, a sua autoconcedida superioridade moral.
Era uma vez a direita política de tipo republicano. Para eles, não há dúvida sobre a democracia ser um valor universal, apenas preferem liberdade a igualdade social e não aceitam que agendas voltadas para promover justiça social onerem a produção de riquezas nem violem a liberdade na economia. Querem políticas industriais consistentes, controle fiscal do Estado, restrição da dimensão do próprio Estado, desoneração da produção, melhor infraestrutura, essas agendas que eram o próprio Credo antes da crise econômica e que agora são apenas ideias-guias.
Mas aí vieram os ultraconservadores. Para eles, a vida pública deve ser organizada em torno de valores, os valores do cristianismo conservador. Alguns vão além, e, demais dos seus princípios assentados em "valores familiares" ou "em favor da vida" ou em "valores cristãos", se tornam verdadeiros devoradores de liberdades e de direitos dos que divergem dessa matriz. Combatem em geral, em dois fronts. Primeiro, atacam cotidianamente, com todas as suas forças, as minorias cuja existência é um desafio à sua tabela dogmática de princípios, todas as pessoas que as defendem e o Estado liberal que as protege e lhes concede direitos. Em segundo lugar, sentem-se a última fronteira da defesa da Luz contra os liberais e moderados, estes que defendem Estado leigo, o direito de as pessoas viverem como bem entenderem, tolerância, relativismo moral e pluralismo na política e nos modos de vida.
Por fim, deu as caras com tudo a direita antiliberal, sombria, fascistoide. Já aparecia aqui e ali defendendo agendas para a segurança pública, uma sua obsessão, severas e à base de vingança social: “só pessoas direitas podem ter algum direito, e olhe lá, para o resto nada mais justo que o serem justiciadas pelas ‘pessoas de bem’”; “não tem essa de menor ou maior de idade, praticou o crime tem que ser punido com a maior severidade possível, enquanto não houver pena de morte”. Em março, aparece despudorada, decretando revisão completa do Golpe de Estado de 1964 e da brutalidade e tortura praticada pela ditadura, além de querer celebrar a famigerada Marcha da Família – “qual o quê? A ‘intervenção militar’ foi só uma reação virtuosa contra os comunistas, e não se torturou pessoas do bem, mas só comunistas que, como se sabe (lá eles), são o equivalente político a bandidos e, portanto, mereciam ser torturados”. No episódio dos protestos do “EuNãoMereçoSerEstuprada” surgiram das sombras para dizer que quem provoca acha, sim.
Ultimamente, há uma impressionante e acelerada convergência entre o 2º, o 4º e o 5º grupos, isto é, entre os antipetistas apaixonados, os ultraconservadores e a direita antiliberal. Vínculos não explicitados vieram à tona e o sentido de que têm inimigos comuns, petistas e liberais, parece vir prevalecendo. Até o ano passado, você tinha o grupo dos evangélicos fundamentalistas criticando toda forma de vida que desafiasse o seu sistema único e dogmático de valores, mas não os via por aí defendendo que bandidos podiam ser amarrados a postes. Agora, sim. As antiliberais viúvas da ditadura são também conservadoras, mas os conservadores não precisam flertar com a ideia de golpe militar, mas Feliciano foi à Marcha e tuitou de lá todo animado. Odiadores do PT não precisavam gostar de fascistoides ou de fundamentalistas religiosos, mas os mais radicais deles acham que quem odeia o PT, não importa de onde venham, é parte da família.
Vejam o caso Rachel Sheherazade. Não é uma crítica do PT, mas uma ativista do ódio ao PT, ao mesmo tempo em que é militante do conservadorismo e foi uma das convocadoras da fracassada Marcha da Família. Não dá nem para dizer o que é mais preponderante nela. Tente atacá-la dizendo o quanto a agenda dela é ofensiva aos direitos humanos, aos direitos civis e à tolerância, e alguém contra-atacará para dizer que o trabalho dela é desmascarar o PT e que é por causa disso que ela é temida. Não adianta explicar que Cantanhêde e Kramer também criticam o PT, mas nem por isso defendem pena de morte nem acha que a ditadura é uma fantasia comunista. Não, para essa gente, é tudo o mesmo mingau: não haverá paz na terra enquanto o último petista não for enforcado nas tripas do último gay ou afogado no sangue do último liberal. Fazer distinções é para fracos.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A direita saindo do Armário. Quem vai encarar? por Wilson Gomes


Como venho anotando por aqui, há meses, há uma nova direita na roda de capoeira do debate público. E tão animadinha e confiante que passa boa parte do tempo chamando a esquerda ao pé do berimbau. Pois é bem isso que faz, por exemplo, este Manifesto, do qual transcrevo abaixo uns segmentos.

"Ninguém precisa da esquerda para fazer uma sociedade ser menos terrível, basta que os políticos sejam menos corruptos (os da esquerda quase sempre foram e são), que técnicos competentes cuidem da gestão pública e que a economia seja deixada em paz, porque nós somos a economia, cada vez que saímos de casa para gerar nosso sustento.

Ela, a esquerda, constrói para si a imagem de 'humanista', de superioridade moral, e de que quem discorda dela o faz porque é mau. Ela está em pânico porque estava acostumada a dominar o debate público tido como 'inteligente' e agora está sendo obrigada a conviver com gente tão preparada quanto ela (ou mais), que leu tanto quanto ela, que escreve tanto quanto ela, que conhece os seus cacoetes intelectuais, e sua história assassina e autoritária. (...)

Mas a esquerda não detém mais o monopólio do pensamento público no Brasil. Não temos mais medo dela." (Luiz Felipe PONDÉ, na Folha de hoje).

Se você é de esquerda e sentiu fogo na venta com a provocação, pense duas vezes no que vai dizer, porque certamente há algumas verdades nos trechos acima. Sim, já houve um tempo em que ser um intelectual de esquerda (aliás, houve um tempo em que "intelectual" era um adjetivo reservado à esquerda) era bem trabalhoso: precisava-se argumentar, explicar pressupostos, fazer distinções, considerar objeções, estudar muito. O ambiente social estava longe de ser amigável e nem os valores nem os princípios de esquerda eram evidentes. A redemocratização brasileira, depois da ditadura militar promovida por um mutirão liderado pela direita fascista, significou o apagão intelectual da direita: ninguém queria assumir o legado de sangue e fracasso da ditadura, ninguém queria se apresentar como herdeiro do falido fascismo à brasileira e mesmo a direita republicana teria que explicar demais para dizer que direita e fascismo não são necessariamente a mesma coisa, isso se achasse alguém disposto a ouvi-la. A direita enrustiu e a esquerda se espalhou no novo ambiente democrático, sem predadores ou concorrentes. Hoje a esquerda (ou as esquerdas, melhor dizendo) tornou-se um bicho gordo e lento, sem reflexo, vivendo da condescendência ambiental, da autocomplacência gerada pelas igrejinhas, dogmática, intelectualmente preguiçosa e intolerante à menor contrariedade. 

Demorou trinta anos para que a direita saísse do armário e juntasse número o suficiente para chamar a atenção na arena intelectual. Por enquanto, só estão ciscando e batendo as asas em esforços de autoafirmação. Mas eu só vejo a esquerda atacando os sujeitos, não os argumentos, o que é um péssimo sinal - quem grita e ofende é porque não tem razão. E aí, vão encarar?

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A antipolítica, "Boechatismo" e "Gentilismo", por Wilson Gomes

As pessoas parecem realmente achar que a posição antipolítica é uma coisa muito sofisticada, anticonvencional e superior. Muito superior a tudo. A antipolítica é o pretinho básico da afetação política neste momento e se apoia em 5 dogmas: 1) a política convencional é uma atividade indigna e iníqua, praticada por canalhas que lutam apenas por interesses (os próprios); 2) todo governo (não há diferença entre governo e Estado, nem entre os 3 poderes republicanos) é uma corja; 3) todo partido político é uma corja; 4) todos os políticos e altos funcionários públicos são preguiçosos, encostados e delinquentes; 5) Essas coisas só acontecem no Brasil.

Atualmente, há pelos menos duas grandes correntes de antipolítica, que sintetizo em duas figuras públicas: o boechatismo e o gentilismo. Do boechatismo (de Ricardo Boechat), já tratei algumas vezes aqui: trata-se daquela posição moralmente superior que repete e repete que Brasília é uma cloaca, não há político que preste, todo governante é um gangster. Eles adoram citar “a melô do despeitado” de Rui Barbosa: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto." Rui, que não ganhava eleição nem para síndico, é o patrono do mimimi.

O gentilismo também é antipolítica. A máxima do seu líder, Danilo Gentili, é que “Existem (sic) níveis para otários. O otário nível máster é aquele que acredita em político”. O gentilismo provém do modelo-CQC, que partilha das mesmas premissas e do mesmo engajamento na ideia de que humilhar políticos é um ato de justiça: todo política pode e deve ser “zoado”.

Diferencia-se do boechatismo basicamente porque Boechat é bem educado e Gentili tem na grosseria um dos seus programas fundamentais. Em 2º lugar, é instintivamente conservador (no caso, anticomunista e antiesquerdista visceral), embora os recursos intelectuais arregimentados para defender a sua posição não superem os do cara que vende água de coco na barraca aqui em frente. Por fim, como o boechatismo, o gentilismos considera a política uma atividade rebaixada, mas, diferentemente deste, não se contenta em desprezar grandes categorias como “os políticos”, “os partidos” ou “o governo”; o seu desprezo precisa ser mostrado no varejo e ser “fulanizado” para não deixar dúvida: Sarney é ladrão, Dirceu é corrupto, Renan é patife... Na antipolítica grossa, pessoas e instituições precisam ser ofendidas pessoalmente.

Dois exemplos do dia:

@DaniloGentili: “Lula: o socialista pai de latifundiário, o mentor q ñ sabia de nada e agora mais um paradoxo: o sem-dedo dedo-duro”.

@DaniloGentili: “Reuna com o seu dinheiro. Não com o meu. Bitch. RT @dilmabr: É uma honra poder reunir todos os ex-presidentes”

Enquanto isso, ao seu redor, multidões (5 milhões seguem Gentili no Twitter) entram em frenesi cada vez que Dan chama a Presidente da República de “cachorra” ou Lula de “sem-dedo”. Não subestimo ninguém que fale diretamente para 5 milhões de pessoas e indiretamente para dezenas de milhões. O gentilismo pode não nos representar, mas podem ter certeza de que representa e sintetiza muita gente.