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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Os Falsificadores de Hitler

publicado em recortes por
Uma reunião no dia 18 de setembro de 1939, no altivo prédio do Ministério das Finanças do Terceiro Reich, tinha uma única pauta: o maior plano de falsificação de dinheiro de todos os tempos.
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© "Os Falsários".
Como tudo o que envolve o sinistro governo de Hitler, o plano era completamente megalómano. Os alemães pretendiam falsificar milhões de cédulas de libras esterlinas e depois colocá-las em circulação no mercado Inglês e demais colônias britânicas, a fim de causar um colapso no mercado financeiro ou no mínimo uma séria desvalorização de tal moeda. O plano ainda previa a atuação do famoso Ministério da Propaganda na acusação contra o Banco da Inglaterra, a quem seria atribuída a culpa pela distribuição das falsificações, alegando que essa atitude tinha como propósito esconder sua própria falência.

Mas por que atacar a libra esterlina? Primeiramente, pelo óbvio motivo de que se tratava da moeda de um inimigo do regime alemão. Porém, inimigos eram o que não faltava à nação de Hitler; o que melhor explica a escolha é algo anterior ao conflito. No período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, as moedas de todo o mundo sofreram por falta de confiança. Os países mais astutos, Alemanha incluída, percebendo a fragilidade do sistema monetário mundial, desvalorizavam a própria moeda para favorecer os produtos locais e elevaram tarifas alfandegárias, ou seja, o que se criou a nível mundial foi um sistema de comércio completamente desleal em que cada um visava o protecionismo e lucro a qualquer custo. Contudo, os ingleses foram na contramão desse processo: o que eles queriam era uma moeda confiável, por isso voltaram ao padrão-ouro, ou seja, a moeda era mais cara mas, em teoria, era a única confiável o suficiente para ser trocada por ouro. Tendo esse cenário como pano de fundo, a libra esterlina se firmou como moeda forte e tornou-se o alvo mais visado por falsificadores de todas as espécies.
Esses falsários atuavam no mundo todo; normalmente, eram artistas desiludidos com o incerto mundo das artes e que para não morrerem na miséria utilizavam seus dons artísticos para fins menos gloriosos. Como a Alemanha era uma das principais representantes da Comissão Internacional de Polícia Criminal, formada após a Primeira Guerra Mundial para rastrear atividades de falsários e contrabandistas nas fronteiras europeias (mais tarde daria origem à Interpol), a tarefa de encontrar e “recrutar” estes criminosos era simples.
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© "Os Falsários".
O mais famoso deles foi Salomon Smolianoff, um judeu russo que estudou pintura, mas a quem as guerras não pouparam. Primeiro, foi a Revolução Russa que obrigou sua família a fugir do país e, anos mais tarde, no início da Segunda Guerra, tendo sido descoberto nos seus golpes, foi levado para o campo de concentração de Mauthausen. Lá, ele se revelou um excelente retratista e chamou a atenção do oficial nazista Bernhard Krüger, que o transferiu para o campo de concentração de Sachsenhausen, onde estava para iniciar uma das operações mais ousadas da história deste conflito: a Operação Bernhard.
Tal ação contou com 142 falsificadores arrebanhados de vários campos de concentração que formaram uma equipe sediada em Sachsenhausen. Obrigados a se tornar “Kapos”, designação para aqueles que colaboravam com a SS dentro dos campos, eles produziram aproximadamente 132 milhões de libras em notas falsas. Além de algumas centenas de dólares.
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© "Os Falsários".
A operação só não obteve sucesso por falta de tempo. Antes de recrutar o famoso falsário, os alemães já haviam executado uma primeira tentativa do plano, mas não lograram sucesso. A libra esterlina não era uma moeda fácil de falsificar - feita de uma mistura de linho com urtiga, num papel que possuía um padrão muito específico, o que demandou grande tempo em pesquisas e tentativas falhadas. Além disso, neste primeiro intento, a equipe não era tão qualificada para tal trabalho e com isso demoraram demais para chegar a um resultado satisfatório em relação à marca d’água e selos presentes nas notas.
Quando finalmente as notas ficaram tão boas a ponto de serem confundidas com as verdadeiras, era tarde demais. No dia 6 de maio de 1945, os falsificadores de Hitler foram libertados pelo exército americano. A incrível história destes homens foi contada em livros, e teve seu enredo nas telas do cinema em 2007, no filme Os Falsários, de Stefan Ruzowitzky (em Portugal, Os Falsificadores).
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© "Os Falsários".
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© "Os Falsários".

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sábado, 7 de abril de 2012

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Cadernos escolares com retrato de Stalin geram polêmica

 

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Em Moscou têm aparecido à venda os cadernos escolares com uma foto do líder soviético Josef Stalin na capa, emitidos como parte de uma série intitulada " Os grandes nomes da Rússia ". Stalin é apresentado no retrato cerimonial em uniforme militar com todas as ordens e condecorações. As autoridades e líderes públicos estão condenando a iniciativa, mas nada podem fazer.
Os cadernos com o retrato de Stalin na capa apareceram nas livrarias juntamente aos outros, dedicados à Imperatriz Catarina II, o fundador do espaço prático, académico Serguei Korolev, o herói da Guerra Patriótica de 1812, o comandante Mikhail Kutuzov, o herói da Grande Guerra Patriótica de 1941- 1945, o mariscal Georgi Zhukov, o compositor Serguei Rakhmaninov, entre outros.
Os cadernos da série com imagem de Stalin não serão retirados da venda, disse à RIA Novosti o diretor da companhia fabricante Alt, Artem Bilan, apesar de terem provocado uma reação oficial negativa, particularmente por parte de alguns memros da Câmara Pública (órgão consultivo do presidente russo), que condenou a promoção do ditador. Em particular, um membro da CP, Sergei Volkov, disse à RIA Novosti que o aparecimento da imagem de Stalin nos cadernos podia ser equiparado à imagem de uma suástica.
O conhecido apresentador de TV, Nikolai Svanidze, conta que a imagem de Stalin em cadernos escolares é inválida por a criança poder aceitar Stalin como um herói. As autoridades de Moscou também reagiram negativamente. Mas o deputado da Assembleia da capital, Viktor Krugliakov, explicou que o controle sobre emissão dos cadernos está fora da competência do Ministério da Educação e Ciência. Segundo ele, no país não há uma lei que proíba o comércio da mercadoria com a imagem de Stalin.
"A Câmara Pública não é um órgão legislativo da Federação Russa, e expressa a opinião pessoal dos representantes da CP. E, acho, que é completamente contrária ao ponto da vista da maioria dos cidadãos russos, que há vários anos reconheceram Stalin uma das figuras mais destacadas da história da Rússia no âmbito do projeto de TV Grandes Nomes da Rússia", comentou Bilan.
De acordo com Bilan, esses cadernos é um produto de sucesso comercial e educacional, uma vez que  dá sucintas, concisas e objetivas informações sobre o que era Stalin e porque entrou na história do país e o que fez para ele.
Na capa dedicada a Stalin são apresentadas as fotos, por exemplo, com imagem de um cartão de polícia czarista para Jósef Dzhugashvili, apelidado de "Koba". Há imagens de Stalin fotografado com Maxim Gorky e com lendário piloto Valeri Chkalov. Também há fotografias do Gulag com os prisioneiros e as torres de campo.
No ensaio aponta-se que Stalin era uma figura controversa, não apenas no âmbito da história da Rússia, mas também mundial. Fala-se das repressões de Stalin, que chamam-se de terror. Apresentam-se evidências de que durante o sua ditadura 640.000 pessoas foram mortas e cerca de dois milhões e meio  presos no Gulag- um sistema de campos de trabalhos forçados para criminosos, presos políticos e qualquer cidadão em geral que se opusesse ao regime da União Soviética. Além disso, reconhece-se que Stalin promoveu uma poderosa indústria, os sistemas de saude público e educação e transformou o Exército soviético em um dos mais fortes do mundo, capaz de vencer fascismo de Hitler.
A figura de Stalin se está tornando cada vez mais atrativa para juventude russa por falta de uma forte ideia nacional, é que tinha ele, conseguindo unir várias nações em uma força, capaz de realizar grandiosas tarefas. Além disso, a geração que tinha sofrido as repressões da ditadura stalinista está morrendo e como fala um provérbio russo o que " sai da vista, fica longe do coração".
A empresa Alt, fundada em 1998 — é uma das principais fabricantes nacionais de produtos de papelaria.

Lyuba Lulko Pravda. Ru

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Crianças da Guerra - as fileiras de Estaline

Durante a Segunda Guerra Mundial, quase toda a população da Rússia foi mobilizada para o esforço de guerra. Muitas crianças lutaram então lado a lado com os adultos, tendo em vista a derrota das forças invasoras alemãs. Estaline utilizou não apenas o sacrifício dos pequenos combatentes como até o aproveitou para fazer propaganda do regime. Eram as crianças da guerra.
 
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Em qualquer conflito armado somos surpreendidos por fotografias de crianças a empunhar armas. Essa visão provoca a nossa indignação perante a exploração a que são sujeitas pelos senhores da guerra. E, no entanto, isto sempre sucedeu independentemente do local, da época ou da cultura em particular, em qualquer conflito do presente ou do passado. Há apenas algumas décadas atrás, durante a Segunda Guerra Mundial, foi comum ver crianças entre as fileiras do exército russo que se defendia com todos os seus recursos dos invasores nazis.
Eram tempos diferentes e vivia-se ainda sob o jugo do ditador Estaline. Muitas crianças tentaram fugir das suas casas para ir combater na Grande Guerra Patriótica, como lhe chamou a propaganda do regime. Não obstante, algumas foram capturadas pela polícia militar e devolvidas às suas famílias mas outras acabaram por se conseguir juntar às tropas e lutar. Eram muito novas, algumas com 9 anos apenas, e combateram na frente. As que sobreviveram deixaram o exército após o fim da guerra com 14 ou 16 anos, muitas vezes recompensadas com medalhas de honra.
Os fotógrafos da guerra e da propaganda registaram as imagens destas crianças da guerra, meninos sem infância desprovidos do seu bem mais precioso: a inocência.
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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Mata Hari: espiã ou vítima?

Mata Hari ficou na história como a bailarina que usou os seus poderes de sedução para serviços de espionagem durante a I Grande Guerra. A personagem exótica que criou em torno de si trouxe-lhe fama e amantes, mas também um trágico fim. Uma biografia publicada em 2007 vem a público desmentir o seu papel de espia, depois de analisado um extenso rol de documentos secretos até então.
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“As evidências indicam que ela foi inocente” afirma Pat Shipman, autora de “Femme Fatale: Love, Lies and the Unknown life of Mata Hari”. Mata Hari, a bailarina exótica que em 1917 foi condenada e executada por espionagem ao serviço do governo alemão, transformou-se numa eterna lenda. A aura de mistério por detrás da personagem que criou colocou-a no meio de jogos de guerra, como um peão estrategicamente movido entre inimigos. Shipman acrescenta ainda que “ela nunca poderia ser clandestina, pois atraía todas as atenções”.
A criação de “Mata Hari”
Margaretha Gertruida Zelle nasceu na Holanda em 1876. Com apenas 19 anos casou-se com um capitão, funcionário da Companhia das Índias Orientais. Após o casamento, partiram para a Indonésia, onde viveram durante sete anos. Esta nova vida encantou Margaretha que aproveitou, então, para aprender as danças que a tornaram conhecida. No entanto, era também infeliz: o marido era alcoólico e tinha um caso com a ama dos filhos. Com a morte do filho mais velho, decidem regressar à Holanda. E a súbita morte do mais novo, no caminho, leva-a a deixar o marido e ir para França.
Em Paris, Margaretha consegue trabalho como modelo para alguns artistas, e depois num circo. Naquela época, apercebendo-se do fascínio que os parisienses tinham por espectáculos alusivos à cultura oriental, decide criar “Mata Hari” (ou “Olho da Manhã”). Uma bailarina exótica e misteriosa, que actuava em trajes indianos e conquistava todos os homens da alta sociedade.
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Fama e espionagem
O sucesso dos seus espectáculos levou-a até aos principais palcos da Europa, muito frequentados por aristocratas e militares. Esta fama trouxe-lhe (mais) um novo amor, pelo qual abandonou a carreira entre 1910 e 1911. Mas pouco depois, terminada essa relação, Mata Hari volta a dançar e viaja para Berlim. Colecciona uma série de amantes e, com a situação na cidade a ficar difícil, a sua vida complica-se também.
Em 1914, com a Primeira Guerra Mundial, Mata Hari, sem trabalho e sem dinheiro, tenta regressar a Paris. Só que, sem saber, a bailarina já está na mira dos militares, que a impedem de entrar. As ligações desprendidas daquela mulher levantam suspeitas nas autoridades francesas e inglesas.
Quando finalmente deixa Berlim, conhece um oficial russo por quem se apaixona. Entretanto, este é vítima de um tiro no olho que o leva a um hospital longe da capital. Mata Hari, ao procurar saber onde estava o oficial, é detida pela polícia francesa. Sob a vigilância de investigadores – desde que entrara novamente em Paris -, a bailarina era considerada uma espia inimiga, a agente H21 ao serviço do governo alemão. As autoridades exigem que “mude de lado” caso queira ver novamente o oficial. Desesperada, aceita a proposta e é enviada para Espanha com a missão de seduzir o militar alemão Hauptmann Kalle.
Pouco habilidosa na espionagem, não consegue nenhuma informação sobre os planos de guerra dos alemães. O próprio militar Kalle envia ainda um telegrama a Berlim, interceptado pelos franceses, referindo-se a Mata Hari como agente secreta. Sem explicação para tal, a bailarina é presa em Fevereiro de 1917 e condenada em Outubro por traição a França e por actuar como espia dupla.
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Greta Garbo interpretando Mata Hari.
Condenação e dúvidas sobre a sua actuação
O papel de Mata Hari nas estratégias de guerra tornou-se um mito. A sua vida despertou tanta curiosidade que, em 1931, chegou ao grande ecrã interpretada por Greta Garbo. A personagem que criou em torno de si é vista como um símbolo da ousadia feminina numa época de valores demasiado conservadores. Por essa razão, as dúvidas sobre se teria realmente sido espia ou não sempre pairaram no ar. Nos anos 70, um veterano de guerra que iniciou uma investigação sobre a condenação de Mata Hari afirmou que o governo francês a sacrificou para evitar uma derrota. “Eles usaram-na como uma campanha de propaganda contra a Alemanha. Ela queria aproveitar a vida ao máximo e não percebeu que, com a guerra, tudo tinha mudado”.
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No seu julgamento em 1917, não ficou provado que tivesse passado informações secretas. Sobre o telegrama que a denunciou, este veterano explicou que tudo não passou de uma vingança montada, pois o Major Kalle sabia que este seria interceptado pelos franceses. É que a bailarina recebera, em 1916, 20 mil francos do cônsul Karl Kroemer para espiar os aliados. Recebeu o dinheiro, mas nunca actuou como agente H21. Isto levou a que fosse incriminada de forma estratégica.
A escritora Pat Shipman, autora da biografia “Femme Fatale: Love, Lies and the Unknown life of Mata Hari”, afirma também a inocência da bailarina. A autora compara o seu status com o de Marilyn Monroe na década de 60 “Era reconhecida em toda a parte e vista como a mulher mais sexy e desejada da Europa”. Depois de ter analisado vários documentos que tinham permanecido secretos, descobriu que não foi espia, mas apenas um bode expiatório. A sua condenação esteve envolta em provas fabricadas e intrigas de um poderoso jogo de inimigos. Uma mulher como Mata Hari “nunca podia ser clandestina, pois atraía todas as atenções. (…) Ela foi condenada não por espionagem, mas por imoralidade e falta de vergonha” acrescenta.

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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Mercenários: uma tradição suíça

Batalha de Arques em 1589: participação de mercenários suíços.
Batalha de Arques em 1589: participação de mercenários suíços. (Echtzeitverlag)

Durante quinhentos anos mercenários suíços foram à guerra por governantes estrangeiros em troca de remuneração.

Graças a esse "produto" de exportação a Suíça foi poupada em sua história, como explica o historiador Jost Auf der Maur, autor do livro "Mercenários pela Europa".

O primeiro material de guerra para exportação do país dos Alpes era de carne e sangue: eram seus próprios filhos, que saiam para outras terras servir imperadores estrangeiros em suas batalhas através da Europa.

Para utilizar uma expressão moderna, os serviços de mercenário eram uma situação "win-win", ou seja, onde todos ganhavam, como explica o historiador suíço Jost Auf der Maur em seu mais recente livro. Potentados estrangeiros asseguravam seu poder graças a essa mão-de-obra especializada. Esta retornava à Suíça com bastante dinheiro e ainda assegurava outra benesse: a região que compreendia a Suíça no passado foi poupada das batalhas para que não necessitasse ela própria de soldados. Um conflito interno teria minado esse "produto" de exportação.

swissinfo.ch: O senhor mesmo é originário de uma família do cantão de Schwyz que, graças à intermediação de mercenário para potentados estrangeiros, ganhou muito dinheiro e poder. Existe um orgulho pelos antepassados?

Jost Auf der Maur: Não, pois eles faziam um negócio sujo.

swissinfo.ch: Foi a própria história da família que levou o senhor a escrever esse livro? 

J.A.d.M.: Eu quero destacar em um capítulo que o mercenarismo teve muito mais importância do que é ensinado nas escolas. Durante meio milênio mercenários suíços colaboraram em conflitos conduzidos por governantes estrangeiros. Isso ocorre em completa oposição à tradição humanitária da Suíça, hoje tão comumente invocada, mas que existe na verdade há relativamente pouco tempo.

swissinfo.ch: O senhor descreve que muitos homens se ofereciam como mercenários mais pela paixão por aventuras. Não teria sido a penúria econômica o argumento mais importante? 

J.A.d.M.: Na época existiam várias razões para abandonar a pátria, dentre elas também a fome. Mas na realidade havia outras necessidades como a sede pelo butim e por aventuras. Um mercenário podia ganhar dinheiro vivo, o que na época era algo muito raro. O interesse era tanto por esse trabalho, que por vezes chegou até mesmo a faltar mão-de-obra na agricultura.

swissinfo.ch: Os mercenários retornavam, se conseguissem, muitas vezes como inválidos, traumatizados ou alcóolatras. Isso não provocava também problemas sociais para as famílias? 

J.A.d.M.: Um motivo de escrever o livro é iluminar alguns aspectos pouco esclarecidos como as consequências políticas, sociais, culturais e científicas, pois o contexto militar do mercenarismo é bastante conhecido. Mas seguramente o estado de saúde daqueles que retornavam era seguramente um problema.

swissinfo.ch: A intermediação de mercenários estava na mão de poucas famílias, que na verdade eram empresas militares e de guerra. Elas chegavam a ter lucros de até 18%. Como era esse negócio realmente? 

J.A.d.M.: Essas famílias de intermediadores eram formadas geralmente por antigos suboficiais, muitas vezes também gastrônomos. Elas necessitavam de uma licença, que era dada pelos cantões. Os intermediários faziam os contratos com os mercenários, lhes pagavam um dinheiro de mão e informavam sobre as futuras funções e obrigações.

Faltava mão-de-obra nas tropas de mercenários suíços e para arregimentar pessoal muitas vezes eram utilizados métodos pouco lícitos. Jovens homens, por exemplo, eram conquistados através de vinho barato oferecido por gastrônomos. Muitas vezes colocava-se dinheiro nos seus bolsos e depois diziam que eles teriam assinado antes um contrato.

swissinfo.ch: Haviam empresas militares dirigidas pelas esposas, enquanto seus maridos chefiavam regimentos de suíços nas casas reais europeias. Esses eram casos excepcionais? 

Jost Auf der Maur
Jost Auf der Maur (Echtzeitverlag)
J.A.d.M.: Também nesse caso as pesquisas ainda estão no seu estágio inicial. Uma das novidades que conto no meu livro é o papel das mulheres em determinadas empresas militares familiares. Elas tinham obrigações complexas de administração ao chefiar esses escritórios de intermediação. Dentre suas tarefas incluíam-se também a organização do trabalho de engajamento, abrigar aqueles que assinaram os contratos e planejar a viagem até o local de trabalho. A flutuação era relativamente elevada. Os efetivos das tropas nas casas reais eram controlados mensalmente e precisavam ser sempre completados. A tarefa das mulheres era também de vigiar a construção das residências que os chefes de tropas faziam construir na sua pátria.

swissinfo.ch: Seria possível definir a forma de negócios na antiga Confederação Helvética através da seguinte fórmula: "Filhos vendidos e felicidade comprada para o país"? Talvez o juramento do Rütli não seja o verdadeiro fundamento da Suíça, mas sim o sangue dos seus próprios filhos?

J.A.d.M.: Dizer isso talvez seja pouco diferenciado. Mas a felicidade da Suíça é um dos mais interessantes aspectos da história do mercenarismo. De forma nenhuma é verdade que a Confederação Helvética conseguiu conquistar sua independência somente através dessas lutas por liberdade. O país agradece a sua relativa tranquilidade apenas ao exportar o seu melhor produto: os mercenários. Por isso podemos dizer que a felicidade suíça é um predecessor da atual neutralidade.

swissinfo.ch: Um dos lucros do mercenarismo é avaliado pelo senhor no ponto em que os mercenários, ao retornarem às suas terras, traziam novas ideias e conhecimentos para uma Suíça que era relativamente atrasada. O futuro Estado moderno beneficiou-se disso? 

J.A.d.M.: Oficiais como Henri Dufour seriam impossíveis de se pensar sem sua formação educacional na França. Dufour conseguiu resolver de forma ideal a guerra civil de 1847, que praticamente não deixou vestígios.

Também é simbolicamente uma forte imagem que o general tenha, juntamente com o pacifista Henry Dunant, fundado a Cruz Vermelha Internacional. 

Renat Kuenzi, swissinfo.ch
Adaptação: Alexander Thoele

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Mais uma do camarada Koba!

3 de outubro é a data comemorativa da reunificação das Alemanhas divididas no pós-guerra. Há exatos 21 anos houve essa junção, ou, como muitos dizem, a anexação da Alemanha Oriental pela Ocidental, depois da derrota da União Soviética e a derrocada dos regimes comunistas no leste europeu.
A reunificação, portanto, seria um processo ainda em curso, e que levará anos e gerações. De qualquer modo, 3 de outubro é um dia de festa na Alemanha e particularmente em Berlim, a cidade destruída pela guerra e depois fraturada pelo Muro, esse grande equívoco histórico do regime comunista.
Seja como for, há um dado interessante a ser lembrado. A primeira Alemanha a se constituir legalmente foi a Ocidental. A criação da Alemanha Oriental foi uma reposta a este gesto “separatista”, ambas gestadas ainda na década de 40.
A primeira proposta séria de reunificação das Alemanhas partiu de quem? Do camarada Koba, aliás, Josef Stalin, imaginem! (Ossip Koba era o nome de guerra do camarada nos tempos de clandestinidade no Partido Comunista). Foi feita num documento chamado de “Nota de Março”, em 1952, através do chanceler Andrei Gromyko. Stain propunha às potências ocidentais a criação de uma só Alemanha, unificada e desmilitarizada.
Ao longo do ano a proposta acabou rejeitada, à luz da doutrina mantida, sobretudo, pelos Estados Unidos a partir de um documento identificado pela sigla NSCR 68 (National Security Council Report 68), de 1950 (ainda ao tempo de Truman como presidente), mas também à luz do medo atávico da França e da Inglaterra de uma Alemanha unida. Também colaborou para a rejeição a avaliação de que uma Alemanha unificada, desmilitarizada e neutra na Guerra Fria que já galopava pelo mundo acabaria sendo inevitavelmente atraída para a órbita soviética.
A proposta de Stalin colocou a política norte-americana diante de um dilema. A primeira face do dilema era a de que ele poderia estar fazendo uma mera jogada para a platéia mundial, e assim encurralar os Estados Unidos num canto do ringue, além de caracteriza-los como “inimigos eternos” da unidade alemã. Stalin propunha uma Alemanha, livre, com liberdade de imprensa, pluripartidarismo (!), eleições livres, liberdade religiosa, etc. Também propunha que um ano depois da adoção da proposta as potências vencedoras da Segunda Guerra (o Brasil também foi um vencedor da Segunda Guerra, mas não era uma potência...) deveriam retirar seus exércitos do território alemão. Além disso, a Alemanha deveria ter acesso irrestrito ao mercado internacional – e não deveria ter alianças militares.
A segunda face, porém, foi trazida à baila por James Warburg, banqueiro norte-americano nascido na Alemanha, num depoimento perante o senado em Washington, ainda no mês de março, logo após Gromyko ter entregado a famosa nota aos representantes das potências ocidentais. Warburg, que fora conselheiro de Roosevelt (embora se afastasse dele por causa de certas medidas do New Deal...) e era membro do Conselho de Relações Exteriores, afirmou que uma das dúvidas do governo norte-americano era a de que Stalin poderia muito bem não estar blefando ao fazer a proposta.
Isso poderia trazer muito mais incômodo para a posição norte-americana que, na época, à luz do NSCR 68, privilegiava a consolidação das posições militares ao invés da ação diplomática. A principal objeção norte-americana à proposta era a de que uma Alemanha livre deveria ter a liberdade de integrar a OTAN, cuja criação datava de 1949, e fora acelerada a partir de 1950 com a deflagração da Guerra da Coréia.
A proposta também não teve acolhida na Alemanha Ocidental (criada em maio de 1949, meses antes da criação da Alemanha Oriental, que foi uma retaliação), pois a orientação do então chanceler Konrad Adenauer (democrata-cristão) era privilegiar a integração daquela ao Ocidente. Durante 1950 houve uma troca de mensagens cada vez mais irritadas entre a União Soviética e as potências ocidentais, até que finalmente a proposta foi considerada definitivamente fora do jogo.
Noam Chomsky é citado como um dos que considera que Stalin provavelmente não estava blefando com sua proposta. É muito possível que não estivesse mesmo, pois um estado-tampão (como ficou sendo, mal comparando, o Uruguai entre o Brasil e a Argentina no século XIX...) neutro entre a órbita soviética e o ocidente seria melhor do que a permanente linha de confronto entre as duas Alemanhas. Stalin não deixava de ter razão, como muito bem demonstrou a crise de 1961, quando quase eclodiu um confronto armado entre blindados soviéticos e norte-americanos no ponto conhecido como “Checkpoint Charlie”, cujas conseqüências seriam terríveis em escala mundial).
Até hoje se debate se a adoção da proposta de Stalin teria sido melhor ou não. Vá se saber! Mais uma do camarada Koba!
Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Afeganistão, guerra quente, mídia fria

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou esta quarta-feira a demissão do general Stanley McChrystal do posto de comandante das forças militares no Afeganistão. A situação ficara insustentável depois da divulgação de críticas abertas do general a Obama e ao vice-presidente Joe Biden. O general David Petraeus, actual chefe do Comando Central dos Estados Unidos, substituirá McChrystal.
“Hoje aceitei a renúncia do general Stanley McChrystal como comandante da Força Internacional de Assistência para Segurança no Afeganistão (a força internacional liderada pela Nato). Fi-lo com grande pesar, mas também com a certeza de que é o correcto para a nossa missão no Afeganistão, para os nossos militares e para o nosso país”, disse Obama.
Além disso, o site Esquerda.net, de Portugal, informa que Talibãs recebem dinheiro dos EUA. O Congresso norte-americano tornou público um informe (a que pode aceder aqui, em inglês), no qual denuncia que os norte-americanos estão a pagar muitos milhões de dólares a senhores da guerra e talibãs para deixarem passar os comboios de camiões de abastecimento sem serem atacados.
Para o Congresso, trata-se de operações mafiosas, pois nalguns casos em que não foram feitos pagamentos, os veículos foram atacados pelos mesmos homens que costumam receber o pagamento. O informe sublinha também que este dinheiro dado aos senhores da guerra mina a própria autoridade de qualquer governo de Cabul.