sábado, 13 de abril de 2013
Show da Fé permanece na Band por 10 milhões anuais, diz jornal
| O missionário R.R. Soares aceitou pagar R$2 milhões a mais para não perder a programação |
por Leiliane Roberta Lopes
Contrariando
todas as previsões de que o programa Show da Fé sairia do horário nobre
da Band, a emissora deu sequência às negociações e irá renovar o
contrato com o missionário R.R. Soares, segundo informa a Folha de São
Paulo.
Para conseguir continuar exibindo o programa religioso com
uma hora de duração diária, o líder da Igreja Internacional da Graça de
Deus teria aceitado o reajuste de R$2 milhões, passando a pagar R$10
milhões para a Band (valor anual).
O aumento de 30% no faturamento
da emissora em 2012 chegou a ser comemorado por alguns diretores que
estariam dispostos a dispensar R.R. Soares para ocupar a faixa nobre com
uma programação própria.
Porém a Band não poderia perder um valor
tão alto, já que o aluguel do Show da Fé é o mais caro da TV aberta.
Para se ter uma ideia, o que o missionário paga se refere a dez ações de
merchandising especiais, que são as mais caras, no programa Pânico, que
é a atração de maior audiência da emissora.
De: Gospel Prime
Donos de Cori, Emme e Luigi Bertolli terão que explicar escravidão na Assembléia Legislativa de SP
Diretores do grupo GEP, que também
representa a marca GAP no Brasil, terão que prestar esclarecimentos à
Comissão de Direitos Humanos por flagrante de escravidão
Por Guilherme Zocchio Repórter Brasil
Os diretores da empresa GEP, que detém as
marcas Cori, Emme, Luigi Bertolli e que representa a grife internacional
GAP no Brasil, terão que prestar esclarecimentos, na próxima
quarta-feira (17), à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo
(Alesp), devido ao flagrante de trabalho escravo na confecção de roupas que comercializam.
A audiência, prevista para as 14h30 no Plenário José Bonifácio, foi
convocada pelo deputado estadual Carlos Bezerra Jr. (PSDB),
vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos e propositor da lei
paulista contra a escravidão.
Fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e do
Ministério Público do Trabalho (MPT) resgatou, em 22 de março, 28
imigrantes bolivianos costurando peças para o grupo GEP em condições
análogas às de escravo, numa oficina têxtil clandestina na zona leste de
São Paulo. Os resgatados cumpriam jornadas exaustivas, acumulavam
dívidas e estavam sujeitos a condições degradantes, por problemas de
segurança e higiene no interior do estabelecimento.
As vítimas trabalhavam das 7h às 18h, de segunda-feira à sexta-feira.
Aos sábados, cuidavam da limpeza e manutenção da oficina. “Quanto mais
peças costurarmos, mais dinheiro ganhamos, então preferimos não parar”,
afirmou um dos trabalhadores na ocasião. Aliciados na Bolívia, alguns
dos imigrantes já começavam a trabalhar endividados, porque eram
obrigados a pagar os custos de transporte e entrada no Brasil. Mesmo os
que administravam a oficina tinham dívidas com empréstimos para a compra
de novas máquinas e contratação de mais costureiros.
Interior da oficina onde foram encontrados os trabalhadores escravizados (Foto: Anali Dupré)
|
Entre os problemas detectados na oficina clandestina estavam desde
questões de segurança, incluindo extintores de incêndio vencidos, fiação
exposta e botijões de gás em locais inapropriados, com risco agravado
pela concentração materiais inflamáveis, até problemas relativos às
condições de alojamento. Os resgatados viviam em quartos adaptados. Além
disso, alimentos foram encontrados armazenados junto com produtos de
limpeza e ração de cachorros.
Contato
Desde que o flagrante aconteceu, a Repórter Brasil vem tentando obter um posicionamento da GAP internacional sobre o flagrante de trabalho escravo na empresa escolhida para representar o grupo no país. Após contato com os escritórios da multinacional em Londres, no Reino Unido, e em São Francisco, nos EUA, a reportagem recebeu a orientação de contatar os representantes da própria GEP, que, por sua vez, já haviam se posicionado anteriormente no sentido de negar a redução de trabalhadores à escravidão. A GEP responsabilizou seus fornecedores e alegou que “repudia com veemência toda prática de trabalho irregular”. A grife internacional GAP não se posicionou sobre o caso até o momento.
Desde que o flagrante aconteceu, a Repórter Brasil vem tentando obter um posicionamento da GAP internacional sobre o flagrante de trabalho escravo na empresa escolhida para representar o grupo no país. Após contato com os escritórios da multinacional em Londres, no Reino Unido, e em São Francisco, nos EUA, a reportagem recebeu a orientação de contatar os representantes da própria GEP, que, por sua vez, já haviam se posicionado anteriormente no sentido de negar a redução de trabalhadores à escravidão. A GEP responsabilizou seus fornecedores e alegou que “repudia com veemência toda prática de trabalho irregular”. A grife internacional GAP não se posicionou sobre o caso até o momento.
Esta é a quarta convocação da Comissão de Direitos Humanos para
esclarecer crimes da exploração de mão de obra escrava. A grife
espanhola Zara, a Racional
Construtora, responsabilizada pelo caso de escravidão em obras do
Hospital Oswaldo Cruz na região da Avenida Paulista, em São Paulo, e
representantes do programa “Minha Casa, Minha Vida”, do governo
federal, já foram chamadas à Alesp em outras ocasiões. O estado de São
Paulo recentemente promulgou a lei 14.946/2013, conhecida como “lei paulista contra a escravidão”, norma que cassa o ICMS de empresas envolvidas com trabalho escravo, e proposta pelo parlamentar Carlos Bezerra Jr.
Ministro Luiz Fux cancela jantar bancado por advogado
| Ministro Luiz Fux e advogado Sergio Bermudes |
O ministro Luiz Fux, do STF (Supremo Tribunal Federal), pediu ontem ao
advogado Sergio Bermudes que ele cancelasse o jantar que estava
preparando para o magistrado.
O organizador da festa, marcada para o dia 26, queria reunir políticos e
a cúpula do judiciário nacional e do Rio de Janeiro em seu apartamento
de 800 metros quadrados, na zona sul do Rio. O evento celebraria os 60
anos de Fux.
"Estamos cancelando a pedido do ministro", disse Bermudes na noite de ontem.
Segundo relato do advogado, Fux informou que sua mãe, Lucy, de 78 anos,
teve uma crise de hipertensão com a repercussão negativa da celebração, o
que teria preocupado o ministro.
A divulgação do jantar pela Folha causou constrangimento no Supremo. Nos bastidores, ministros criticaram a festa, para a qual foram disparados 300 convites.
Além de ser bancada pelo advogado, ela ocorreria pouco depois de o
presidente da Corte, Joaquim Barbosa, ter criticado o que considera
"conluio" entre juízes e advogados no Brasil.
Coincidiria também com o julgamento dos recursos apresentados pelos réus do mensalão, que tentam reduzir suas penas.
Além de todos os ministros do Supremo, Bermudes chamou para o evento
todos os integrantes do Superior Tribunal de Justiça, os 180
desembargadores do Tribunal de Justiça do Rio, o prefeito da cidade,
Eduardo Paes, e o governador Sérgio Cabral.
O mal-estar foi agravado pela informação de que a filha do ministro, Marianna Fux, é candidata a desembargadora do TJ do Rio.
Na festa, ela teria a oportunidade de circular entre potenciais
eleitores, já que cabe aos desembargadores do TJ, convidados para a
celebração, escolher, a partir de uma lista sextupla da OAB-RJ, os três
nomes que serão apresentados ao governador Cabral. O governador então
escolhe o novo desembargador.
Cabral negou ontem ter recebido o convite para o jantar. Ele também
disse não ter conhecimento de articulação em prol da escolha da filha do
ministro. "Nunca ouvi falar disso. A mim nunca chegou esse assunto.
Agora, que ela é uma advogada brilhante e respeitada, ela é."
Antes da desistência de Fux, Bermudes havia defendido a realização do
evento sob o argumento de que Fux nunca julgou ação em que atua como
advogado, informação reiterada pelo gabinete do ministro.
"Sempre fomos muito amigos. É uma amizade de 40 anos que começou quando
ambos éramos professores. Fui orientador dele e o ministro Fux sempre se
julga impedido de atuar nas ações assinadas por mim ou por sua filha".
Marianna Fux, 32, trabalha no escritório do advogado.
Colaboraram CRISTINA GRILLO e ITALO NOGUEIRA, do Rio, e FELIPE SELIGMAN, de Brasília
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Nunca houve uma mulher como Gilda
RUY CASTRO – ESPECIAL
De 1946 pra cá, todas as vezes em que Gilda foi exibido em cinema ou TV, legiões de mulheres, ao fim do filme, juraram não descansar enquanto não se parecessem com Gilda. Legiões de rapazes também. Note bem: os representantes de uma e de outra categoria não queriam parecer-se com Rita Hayworth – mas com a Gilda de Rita Hayworth. E não se tratava apenas de imitar o seu jeito quase imoral de jogar o cabelo, de transformar inocentes saboneteiras numa tentação erótica ou de fumar como se cada lenta baforada quisesse dizer alguma coisa. Era algo mais profundo e complexo: tentar apossar-se do seu fogo gelado, só se pode chamá-lo assim – a capacidade de inflamar uma paixão e, ao mesmo tempo, esnobar o ser inflamado a ponto de reduzi-lo à servidão total, ao nada. Não devia ser fácil. Tanto que, em nenhum outro filme, antes ou depois, e muito menos na vida real, nem a própria atriz conseguiu. Nem é preciso repetir a sua triste e batida frase, de que os homens dormiam com Gilda e acordavam com ela, Rita.
Mas não se deixe desanimar. Gilda, o filme, está agora disponível no Brasil, num cintilante vídeo lançado pela Columbia, apto a ser consultado e estudado por quem quiser incorporar traços do personagem à sua personalidade. É um filme sem preconceitos, um dos poucos a dar motivo para a alta estima em que é tido nos dois continentes sexuais: hetero e homo.
É provável que, ao produzir Gilda, isso não estivesse nos planos da Columbia. Pelo menos, não explicitamente. Era para ser apenas um bom drama romântico, com ação e tensão contínuas e um baita personagem feminino. E a história, banal, não antecipava nenhuma possibilidade de malícia. Um aventureiro americano perdido na Argentina durante a II Guerra, Johnny Farrell (interpretado por Glenn Ford), torna-se o homem de confiança do dono de um cassino, Ballin Mundson (vivido com o ar sinistro de manequim de vitrine por George Macready). Mundson viaja e volta casado com Gilda, mulher cujo passado faz pensar que ela terá um grande futuro. O que Mundson não sabe é que Farrell faz parte do passado de Gilda – e como! Os dois foram amantes (talvez em Nova York), separaram-se (por razões nunca explicadas), mas seu ódio é tão grande que, agora, em Buenos Aires, Gilda fará de tudo para destruir a amizade entre os dois homens.
Aparentemente, nada demais nisso. Em Casablanca, por exemplo, Humphrey Bogart deixava Ingrid Bergman tomar aquele avião para que ele pudesse dedicar-se à sua amizade com o chefe de polícia Claude Rains. Isso, sim, é que era comprometedor. Mas, de fato, em Gilda, há alguma coisa de suspeito na relação entre Farrell e Mundson: a insistência com que ambos terminam cada frase dirigindo-se carinhosamente um ao outro pelo primeiro nome. Mundson, mais velho, “adota” o boa-pinta Farrell depressa demais, revelando-lhe até a combinação de seu cofre. Outro exemplo: a frieza com que Mundson não se incomoda de ser traído por Gilda, desde que seja com Farrell – mas Farrell jamais o trairá com Gilda e não se importa que ela dê suas voltinhas com estranhos, desde que Mundson não fique sabendo e se magoe. É claro que, no fim, o triângulo se resolve a favor dos dois astros. Mas que fica no ar um travo de bandalheira, ah, isso fica. E pode ser a razão do status de cult que o filme goza com o público gay.
A Hollywood dos anos 40 era medrosa demais para se permitir qualquer ambigüidade moral, mas alguns fatos dão base à idéia de que pode haver um – como é mesmo a palavra? – “subtexto” maroto em Gilda. O roteiro foi obra de duas mulheres: Jo Eisinger, que fez o rascunho, e Marion Parsonnet, que lhe deu forma final. Foram elas que criaram Gilda como uma grande mulher e, de quebra, podem ter-se divertido inoculando dubiedades nos dois personagens masculinos. Você dirá que o diretor era um homem, Charles Vidor. Mas, na política dos antigos estúdios, o verdadeiro autor de um filme era quase sempre o produtor executivo, com o diretor não passando de um funcionário subalterno. E o produtor de Gilda era a poderosa Virginia van Upp, protegida do patrão, Harry Cohn, e com carta branca na Columbia. Cohn era famoso pela burrice, e, se Virginia quisesse contrabandear qualquer ideologia exótica para dentro do seu filme, ela o faria. A Cohn só interessava que Rita Hayworth, já com 28 anos, tivesse finalmente um papel que deixasse todo mundo de quatro.
Pois ela deixou. Por causa de Rita, criou-se toda uma mitologia em torno de Gilda. As platéias do pós-guerra acreditaram no slogan de lançamento do filme – “Nunca houve uma mulher como Gilda”. E com certa razão: desde 1934, quando se instituíra a autocensura no cinema americano, os filmes não mostravam uma mulher tão sensual e dadivosa quanto ela. Seu impacto em 1946 pôde ser medido até em megatons: pouco depois da estréia do filme, a bomba que os americanos explodiram no Atol de Bikini, no Pacífico, na primeira experiência nuclear em tempo de paz, foi batizada de Gilda, pela equipe que a construiu e trazia um desenho de Rita na carapaça. Era uma publicidade espontânea e sem preço. Para definir Rita (que era então mulher de Orson Welles, embora o casamento estivesse afundando), o crítico do New York Times Bosley Crowther cunhou a expressão “superstar” – a primeira vez que uma estrela foi chamada de super. No Brasil, Gilda tornou-se fantasia de Carnaval, apelido de travesti e foi usada pelas torcidas adversárias para ofender o ilibado mas exuberante craque do Botafogo e da seleção brasileira Heleno de Freitas.
Com tudo isso, Gilda nem precisava ser tão divertido. É o lixo de luxo, como só os americanos sabiam fazer, com uma chocante fotografia de filme noir, deslumbrante cenários art déco e Rita usando um guarda-roupa que deve ter inspirado várias coleções. Mas o melhor são as falas, algumas infernais e que, depois, o cinema se cansou de copiar. Gilda finge esquecer o primeiro nome de Farrell e comenta: “Johnny – nome difícil de lembrar e fácil de esquecer”. Em outro momento, Farrell resume o seu desprezo por ela, dizendo: “Há mais mulheres do que qualquer outra coisa no mundo – exceto insetos”. A própria Gilda, numa avaliação ousada, se define: “Se eu fosse uma fazenda, não teria cercas”. Pena que nem sempre as legendas em português ajudem: Mundson bate à porta do quarto de Gilda e pergunta: “Gilda, você está vestida”? Em inglês, Mundson pergunta: “Gilda, are you decent?” Muito mais a propósito.
O filme se passa em Buenos Aires, mas há tanto Buenos Aires em cena quanto Zanzibar ou Timbuktu, ou seja, nenhum. Nem mesmo um plano geral da Plaza de Mayo ou uma mísera vista aérea. Bem diferente de Interlúdio, que Hitchcock rodou naquele mesmo ano e em que a história transcorre no Rio, com Cary Grant e Ingrid Bergman namorando o tempo todo diante de “back projections” da Cinelândia e de Copacabana. Gilda é claustrofóbico: toda a ação se passa em interiores e não há uma única seqüencia à luz do dia. É um pequeno mundo, dominado por uma grande mulher. Se bem que, fosse o herói argentino, daqueles violentos, de tango, Gilda entraria na linha com uns tapas assim que começasse a aprontar. Strip-tease ao som de Put the Blame on Mame, então, nem pensar.
A BBC não sabe o que fazer com a música mais vendida da Inglaterra
Ativistas anti-Thatcher levaram ‘A Bruxa Morreu’ ao número 1, e a BBC
sofre pressão para não tocá-la na tradicional parada de domingo.
Liberdade de expressão é uma coisa realmente complicada: é mais fácil falar dela do que praticá-la.
Um episódio mostra isso exatamente neste momento, no país que supostamente é o berço da liberdade de expressão.
No meio de uma controvérsia que se espalhou toda a mídia britânica, está a venerada BBC.
O que aconteceu: ativistas deflagraram uma campanha para comprar uma música anti-Thatcher para levá-la ao topo das paradas.
A música é do Mágico de Oz, e se chama “Ding Dong The Witch is Dead!”. (Dim Dom A Bruxa Morreu!”
Objetivo alcançado.
Neste momento em que escrevo, é a número 1 na Inglaterra. E é aí que entra a BBC com seu excruciante dilema.
Tradicionalmente, aos domingos, a principal rádio da BBC, a 1, toca as músicas mais vendidas, a conhecida parada de sucessos.
A questão que se ergueu barulhentamente: a BBC deveria tocar o hino anti-Thatcher, a três dias de seu funeral?
Os comentaristas conservadores da mídia saíram gritando que não. Que
isso seria desrespeito com uma pessoa que sequer foi enterrada.
Mas um momento: isso é censura, ou não?
É o entendimento da chamada voz rouca das ruas. Numa enquete no Guardian, quase 90% das pessoas disseram que sim, a rádio tinha que tocar a canção.
E a BBC, que fez?
Encontrou uma solução que foi a seguinte: subiu no muro. Não vai censurar a música, ao contrário do clamor conservador.
Mas tampouco vai tocá-la inteira: decidiu dar, na parada de domingo, um fragmento de 4 ou 5 segundos.
O que parece claro, passados alguns dias da morte de Thatcher, é que a
elite política e jornalística inglesa não tinha a menor ideia de quanto
a Dama de Ferro era detestada.
É uma demonstração espetacular de miopia e de desconexão com as pessoas.
A Inglaterra vive hoje não apenas uma crise econômica que não cede há
anos, mas uma situação dramática de desigualdade que levou aos célebres
riots – quebra-quebras — de Londres há pouco mais de um ano.
Qual a origem da crise e da desigualdade?
Thatcher, é claro.
O real legado de um governante se vê depois que ele se foi. As
desregulamentações, as privatizações e os cortes em gastos sociais de
Thatcher, passados 30 anos, resultaram num país em que as pessoas têm um
padrão de vida inferior ao que tiveram.
Como imaginar que as pessoas ficariam tristes com sua morte?
Ouça a música que estourou nas paradas britânicas
Documentos revelam ligação entre Marin e a ala radical da ditadura
Documentos
revelam que Marin se aliou a militares para obter vantagens políticas
durante a ditadura e
tinha conexões com órgãos repressores, como o Dops.
Foto: José Cruz/ABr
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Abertos
para a consulta pública desde 1º de abril, os arquivos do Dops
(Departamento de Ordem Política e Social) começam a trazer à tona as
primeiras revelações inconvenientes que relacionam personalidades
públicas e políticas à ditadura. A primeira vítima dos documentos
militares é o atual presidente da CBF (Confederação Brasileira de
Futebol) e do COL (Comitê Organizador Local), José Maria Marin, conforme
levantamento dos repórteres Aiuri Rebello e Rodrigo Mattos, do portal UOL.
Segundo a reportagem, os documentos analisados comprovam que Marin
teve ligação com a ala mais radical do governo militar, além de possuir
conexões com órgãos de vigilância e de repressão e de ter feito elogios
ao regime. A fonte das informações são os arquivos do Dops, do SNI
(Sistema Nacional de Informação) – ambos órgãos que reuniam as
investigações do regime – e da Assembleia Legislativa.
Carreira política
A reportagem lembra que Marin estreou no mundo político com 31 anos,
sob o cargo de vereador da cidade de São Paulo, em 1964, pouco antes do
golpe militar. Meses depois, o cartola abandonou o partido ao qual era
filiado, o PRP (Partido de Representação Popular), para unir-se em 1966 à
Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido da ditadura.
Este foi o início de sua ascensão sob a tutela e apoio da ala radical
da ditadura. Do lado do regime, Marin foi alçado à presidência da
Câmara de Vereadores graças a manobras nos bastidores do Ministério da
Justiça, cujo titular era Gama e Silva, e de militares, segundo os
documentos do SNI. Gama e Silva foi o jurista responsável por redigir o
AI-5 (Ato Institucional-nº 5), medida que cassou direitos políticos e
instituiu o período mais negro da ditadura no fim de 1968.
Sempre segundo o UOL, a análise dos documentos do SNI
descreve os caminhos de Marin na Câmara e o que seus companheiros
parlamentares pensavam da atuação do atual dirigente esportivo: “[Marin]
É considerado fraco por seus pares. Consta que sua candidatura tem
apoio de círculos militares e de elementos ligados ao ministro da
Justiça.” E, depois, o organismo analisou seu trabalho à frente da
Câmara: “todos os atos de Marin (…) são “sugeridos” pelo esquema que o
elegeu presidente da Casa”.
Aliado fiel
Os documentos, tanto no SNI quando no Dops, também mostram que não
houve registro de atitude “subversiva” da parte de Marin. O
comportamento regrado do político era visto como fidelidade ao regime e,
com isso, não demorou para Marin ascender na política durante a
ditadura.
Outro movimento político chave para Marin, segundo apurou o UOL,
foi a troca de correntes entre os governistas. De acordo com os
registros, o presidente da CBF traiu Luis Roberto Alves da Costa, que o
levara à presidência da Câmara dos Vereadores, para se aliar ao prefeito
biônico Paulo Maluf. Irritado com a traição, Alves da Costa tentou
trabalhar contra Marin, sugerindo até a cassação de seu mandato, o que
nunca ocorreu.
Os arquivos também mostram que Marin seguiu próximo ao regime nos
anos seguintes, tendo participado da posse do general Emilio Garrastazu
Médici, que depois virou presidente, no comando do III Exército.
Morte de Herzog
Já em 1975, o político fez dois discursos pedindo providências sobre a
TV Cultura. Ele dizia que algumas reportagens não retratavam
corretamente o governo e causavam “intranquilidade” nos lares paulistas.
Pouco depois, o jornalista da emissora Vladimir Herzog foi preso e
assassinado pelo DOI-Codi, organismo de repressão.
Um ano depois, na Assembleia, Marin elogiou o delegado Sergio
Paranhos Fleury, um dos líderes do instrumento de repressão do Dops,
onde Herzog morreu. “Não só honra à polícia de São Paulo, como também há
muito é motivo de orgulho inclusive à população de São Paulo”,
discursou.
Para Marin, os benefícios do golpe eram “indiscutíveis”, não podendo restar dúvida sobre isso.
Com esse discurso, ele se tornou vice-governador pela Arena, em 1978, na chapa encabeçada por seu antigo aliado Paulo Maluf.
Os indícios de sua ligação com aspectos mais truculentos do regime
não cessaram como mostra um relatório do CISA (Inteligência da
Aeronáutica), de 1980, sobre assalto ao jurista Dalmo Dallari Gama.
Reconhecido defensor da democracia, Dallari foi espancado e acusou um
grupo paramilitar de direita como responsável pela ação. Segundo ele, o
então vice-governado tinha ligações com a agressão. O político negou e
prometeu que o Dops, o órgão acusado de repressão na década de 1970,
iria apurar o caso.
Já como governador, após a renúncia de Maluf, Marin passou a ser
protegidos por policiais do Dops. O departamento de polícia registrou
cada viagem ou participação do político em eventos públicos, como
revelam os boletins do órgão. O objetivo era identificar se havia
protestos contra o governador e contra o regime.
Questionado pelo UOL Esporte sobre os fatos relatados nos arquivos da ditadura, Marin se negou a falar sobre o assunto. Em texto à Folha de S. Paulo,
publicado na quarta-feira 10, afirmou que era do partido do governo,
mas que era “sabido por todos (…) que os deputados não tinham o menor
poder sobre os órgãos do Estado”. E completou: ”Ninguém deve negar a
própria biografia. E a minha vida pública sempre foi (…) pautada pelos
princípios republicanos que até hoje me guiam”, disse, afirmando ter
aprendido que “liberdade e justiça” devem andar juntas.
O atual presidente da CBF ainda ressaltou que, como governador, extinguiu o Dops de São Paulo.
De: CC
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