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segunda-feira, 22 de abril de 2013

Xuxa, Fux e a falta de pudor

publicada domingo, 21/04/2013 às 21:29 e atualizada domingo, 21/04/2013 às 21:29
por Janio de Freitas, na “Folha”
Graças ao pudor tardio de Xuxa, comprovam-se em definitivo, e de uma só vez, duas esclarecedoras faltas de fundamento. Uma, a do advogado Sergio Bermudes, ao asseverar que seu “amigo de 40 anos” Luiz Fux “sempre se julga impedido” de atuar em causas suas. Outra, a do hoje ministro, ao alegar que só por erro burocrático no Supremo Tribunal Federal deu voto em causa do amigo.
Há pelo menos 26 anos, no entanto, quando Luiz Fux era um jovem juiz de primeira instância e Sergio Bermudes arremetia na sua ascensão como advogado, os dois têm participação na mesma causa. Documentada. Tinham, conforme a contagem referida por Bermudes, 14 anos de amizade, iniciada “quando foi orientador” [de trabalho acadêmico] de Fux.
O caso em questão deu entrada na 9ª Vara Cível do Rio em 24 de fevereiro de 1987. Levava as assinaturas de Sergio Bermudes e Ivan Ferreira, como advogados de uma certa Maria da Graça Meneghel, de profissão “atriz-manequim”. Já era a Xuxa “rainha dos baixinhos”. E por isso mesmo é que queria impedir judicialmente a comercialização, pela empresa CIC Vídeo Ltda., do videocassete de “Amor, Estranho Amor”, filme de 1983 dirigido por Walter Hugo Khoury.
A justificativa para o pedido de apreensão era que o vídeo “abala a imagem da atriz [imagem "de meiguice e graciosidade"] perante as crianças”, o público infantil do Xou da Xuxa, “recordista de audiência em todo o Brasil”. Não seria para menos. No filme, Xuxa não apenas aparecia nua, personagem de transações de prostituição e de cenas adequadas a tal papel. Mas a “rainha dos baixinhos” partia até para a sedução sexual de um menino.
Em 24 horas, ou menos, ou seja, em 25 de fevereiro, o juiz da 9ª Vara Cível, Luiz Fux, deferia a liminar de busca e apreensão. Com o duvidoso verniz de 11 palavras do latim e dispensa de perícia, para cumprimento imediato da decisão.
Ninguém imaginaria os pais comprando o vídeo de “Amor, Estranho Amor” para mostrar aos filhos o que eles não conheciam da Xuxa. E nem risco de engano, na compra ou no aluguel, poderia haver. Xuxa estava já na caixa do vídeo, à mostra com os seus verdadeiros atributos.
A vitória fácil na primeira iniciativa judicial levou à segunda: indenização por danos. Outra vez o advogado Sergio Bermudes assina vários atos. E Luiz Fux faz o mesmo, ainda como juiz da 9ª Vara Cível. No dia 18 de maio de 1991, os jornais noticiam: “O juiz Luiz Fux, 38, condenou as empresas Cinearte e CIC Vídeos a indenizar a apresentadora Xuxa por ‘danos consistentes a que faria jus se tivesse consentido na reprodução de sua imagem em vídeo’”. Mas o que aumentou o destaque da notícia foi a consequência daquele “se” do juiz, assim exposta nos títulos idênticos da Folha e do Jornal do Brasil “Xuxa vence na Justiça e poderá receber U$ 2 mi de indenização”. Mi de milhões.
Ao que O Globo fez este acréscimo: “Durante as duas horas em que permaneceu na sala do juiz, Xuxa prestou um longo depoimento e deu detalhes de sua vida íntima [por certo, os menos íntimos], na presença da imprensa [e de sua parceira à época, e por longo tempo, Marlene Matos]. Sua declaração admitindo que até hoje pratica topless quando vai à praia, por exemplo, foi uma das considerações que o juiz Luiz Fux levou em conta para julgar improcedente o seu requerimento de perdas morais. Todas as penas aplicadas se referem a danos materiais”.
Na última quarta-feira, O Estado de S. Paulo, com o repórter Eduardo Bresciani, publicou que Luiz Fux, “ignorando documento de sua própria autoria em que afirma estar impedido de julgar processos do escritório do advogado Sergio Bermudes”, relatou no STF “três casos” e participou de outros “três de interesse do grupo” [escritório Sergio Bermudes] em 2011.
Luiz Fux disse, a respeito, que caberia à Secretaria Judiciária alertá-lo sobre o impedimento e que a relação dos processos com o escritório de Bermudes lhe passara “despercebida”. Depois foi mencionada falha de informática.
Sergio Bermudes argumenta que a legislação, exceto se envolvida a filha Marianna Fux, não obrigava o ministro a se afastar dos processos de seu escritório. E a ética, e a moralidade judiciária?

segunda-feira, 21 de maio de 2012

XUXA

Não gosto da Xuxa. Artisticamente ela é medíocre; sempre estimulou o consumismo infantil, apresentou um programa para crianças nada educativo, no qual as "ajudantes de palco" vestiam shorts minúsculo, com evidente apelo sexual. Porém, seu depoimento sobre abuso sexual na infância vale mais do que dezenas de campanhas publicitárias pagas.
Já foi dito que tratou-se de um golpe midiático para chamar a atenção, turbinar a audiência do "Fantástico" e a carreira da própria Xuxa. Pode ser e, quem dera todos os golpes midiáticos pudessem servir de alerta contra algo que acontece todos os dias, em todas as classes sociais, em todos os lugares do mundo.
A mediocridade artística da Xuxa não invalida a dor e a coragem de trazer a público uma situação traumatizante e o poder que essa declaração pode ter em milhões de famílias brasileiras. Alguns vaticinam "é mentira", " é hipocrisia". Desconhecem essas pessoas que ninguém está livre do abuso sexual. O fato de ela falar sobre o assunto apenas agora demonstra a força traumatizante de um abuso e, ao invés de desconsiderarmos suas afirmações em virtude de certos comportamentos dela, poderíamos pensar que certos comportamentos derivam precisamente dos abusos sofridos.
Outros comentam o famoso filme em que ela faria sexo com um menino de 8 anos. Na verdade, o menino tinha 12 anos e Xuxa tinha 16! Alguém já pensou sobre qual o papel do Sr. Walter Hugo Khoury (um diretor mediano metido a Ingmar Bergman) nisso tudo? Já pensaram que a tal cena envolvendo dois adolescentes faz parte de uma indústria da qual Xuxa e tantas outras pessoas são engrenagens e que pode ser entendida como parte de um processo de abuso emocional e mercantilização do erotismo?
Xuxa não precisa da minha defesa, mas li muita bobagem sendo escrita por gente que, embora esclarecida, se deixou tomar pelo preconceito e é incapaz de pensar que uma mulher branca e rica possa ter sido vítima de abuso sexual.
Repito, a entrevista de Xuxa pode ter sido mais útil para conscientizar sobre abuso sexual do que centenas de campanahs publcitárias. Ninguém está obrigado a gostar da "obra artística" da Xuxa (eu a considero deplorável), mas não podemos desconsiderar a importância de seu depoimento.
Por fim, desejo ilustrar o quanto as aparências enganam. O psicólogo Jorge Corsi,durante muitos anos, orientou milhares de ativistas contra a violênica intrafamiliar e o abuso sexual de crianças. vendeu muitos livros e ganhou muito dinheiro em conferências contra a violência e o abuso. Em 2008, Corsi foi identificado como líder de uma rede internacional de pedofilia. A obra de Corsi é memorável, seu exemplo é deplorável. No caso de Xuxa, ao contrário, sua obra é deplorável, seu exemplo deve ser lembrado.

sábado, 9 de outubro de 2010