Uma outra cidade
A Paris actual não é a mesma urbe em que Victor Hugo situou os seus
Misérables. Essa Paris foi demolida em meados do século dezanove, e foi
então que dois fotógrafos fizeram o seu retrato da capital francesa. Um
captou os bairros antigos nos seus derradeiros momentos, o outro foi o
primeiro a registar a estranha cidade subterrânea.
Willy Ronis, Os amantes da Bastilha, Paris
© espólio de Willy Ronis
Paris tem uma notável relação com a Fotografia, começando pelo
cognome de cidade luz. Este terá começado por ser uma associação
figurativa (a capital francesa era o centro da revolução cultural do
Iluminismo) no séc. XVIII, e terá posteriormente passado a ter uma
asserção literal quando foi aí instalada a primeira grande rede de
iluminação pública a gás.
Depois, muitas são as imagens de Paris que entraram no imaginário
popular por via fotográfica, cujo exemplo máximo será talvez “Le baiser
de l'hôtel de ville” de Robert Doisneau, imagem de 1950 em que um casal
se beija numa larga e movimentada via parisiense.
Robert Doisneau, Le baiser de l'hôtel de ville, Paris, 1950
© espólio de Robert Doisneau
Por último, há que ter em conta o facto de nela se terem passado
alguns dos episódios mais marcantes da invenção do processo fotográfico,
estando sediados aí (ou ao seu redor) alguns dos pioneiros mais
marcantes, como Louis-Jacques Mandé Daguerre, Hippolyte Bayard e Abel
Niepce de Saint-Victor.
Porém, a Paris dos pioneiros da Fotografia era uma cidade bastante
diferente daquela que temos em mente hoje. As ruas que Daguerre e Bayard
percorriam enquanto matutavam nos sais de prata, eram as de uma pólis
de raiz medieval que até ao século doze se fora improvisando e
construindo, consumindo a pedra das construções da cidade romana que a
precedeu. E que partir de então se continuará a expandir, movida
sobretudo por inércia, e não tanto por planos, e de uma forma
estranhamente autofágica. Esgotada a fonte das construções romanas, os
parisienses escavaram as entranhas da cidade, em pedreiras subterrâneas
que alimentaram com gesso e calcário, durante séculos, o fulgor
construtivo da capital francesa. Sem controlo e sem projecto, as
galerias alastraram-se por quilómetros, criando uma verdadeira cidade
debaixo da cidade.
Nem sempre seguros, nem sempre cuidados, os subterrâneos revelaram-se
por vezes uma fonte de catástrofe. Pequenos desabamentos prenunciaram o
enorme colapso de 27 de Julho de 1778, em a rua Boyer foi engolida pelo
próprio solo. Perante o sucedido, Luís XVI (exacto, o que mais tarde
perderá a cabeça na guilhotina) ordena a criação do corpo de inspectores
das pedreiras liderado pelo arquitecto do rei, Charles Axel Guillaumot.
É iniciado então um trabalho gigantesco, que incluirá a inspecção,
inventariação e cartografia das galerias, o escoramento das instáveis
pedreiras e a criação de acessos adicionais para facilitar as vistorias e
a conservação. Para facilitar a orientação, Guillaumot ordena a
identificação das galerias e túneis, mandando gravar nos seus extremos o
nome da rua correspondente no plano superior.
A Paris subterrânea torna-se um espelho viário da Paris das Luzes. E
será assim até que, aquando da instauração do Segundo Império, em meados
do século dezanove, se reunem as condições políticas e as ambições de
Napoleão III e do prefeito do Sena, o Barão Georges-Eugène Haussmann,
que juntos levarão a cabo o que, por várias vezes, havia sido antes
defendido – a construção de uma nova Paris. A velha Paris, de ruas
caóticas e estreitas, insalubre, não era aceitável para os que defendiam
que a capital deveria reflectir no seu traçado e construção a
racionalidade da Modernidade. Pesou também a velha rivalidade com os
ingleses que, por essa altura, já haviam dotado Londres de um conjunto
de Parques Públicos e de um amplo sistema de esgotos. Assim, de 1853 em
diante, iniciar-se-á a destruição e o renascimento da capital, trabalho
que verdadeiramente só será concluído no final desse século, bem depois
do estertor do segundo Império e do afastamento do barão.
Henri Lehmann, Retrato do barão Georges-Eugène Haussmann, cerca de 1860
colecções do MUSÉE CARNAVALET, Paris, França
Na década de 60 de oitocentos, quando os trabalhos estavam
verdadeiramente a começar, foi contratado o fotógrafo Charles Marville
para registar, para memória futura, a Paris em vias de desaparecer.
Charles Marville, pseudónimo de Charles François Bossu, um pintor,
gravador e ilustrador nascido em 1813, que mudara de mister aquando do
aparecimento da fotografia, havia-se destacado da grande quantidade de
fotógrafos da época ao se ter especializado na fotografia de obras de
Arte e de Arquitectura, primeiro utilizando a técnica de negativos em
papel salgado, depois chapas de vidro com colódio húmido.
Em 1858, inicia uma ligação formal com o município de Paris,
fotografando o Bois de Boulogne, o recentemente renovado parque real,
que se tornara um dos locais preferidos da burguesia parisiense. Este
trabalho é, na prática, o início da enorme série de fotografias
relacionada com a renovação da cidade, e como vimos, durante a década
seguinte realizará cerca de 400 fotografias das ruas e becos que serão
arrasados pela programada acção de Haussmann (que aliás lhe encomendará
igualmente o retrato da nova cidade, numa outra sequência de imagens,
que incluirá desde as novas igrejas e avenidas aos pitorescos urinóis).
O fotógrafo oficial do município fará assim uma abrangente recolha
visual da Paris mutante do segundo império, mas o que mais nos
impressiona é o corpo de imagens da cidade condenada. A ele devemos a
fonte que permite as reconstruções cinematográficas realistas da cidade,
em séries ou filmes. Graças a ele podemos, com propriedade, imaginar as
ruas de Les misérables, de Vitor Hugo, onde Jean Valjean deambula (no
meu caso, por falta de imaginação, Valjean parece-se sempre com Gérard
Depardieu).