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domingo, 24 de agosto de 2014

Há 60 anos, Getúlio suicida-se e retarda golpe

Sempre que penso que há uma paranoia golpista contra Lula/Dilma, penso no que houve com Getúlio e como nossa elite (a elite paulista em particular) tem uma tradição de golpismo, sempre sob os mesmos argumentos: "corrupção e roubalheira". 
Em que pesem todas as críticas que possamos fazer em relação ao período de governo autoritário de Vargas, ele foi, inegavelmente, um grande estadista e responsável pelo Brasil que temos hoje.

sábado, 26 de maio de 2012

Historicismo circense, ineditismo farsesco

Por Álvaro Nunes Larangeira: Observatório da Imprensa

Em vez de rede, a rede. Ao invés da dúvida, a credulidade. Da prova, o ilusório. O jornalismo de orelha e o historicismo circense têm extrapolado em pretensão e petulância. Assoberbam-se às custas da comodidade das telas e da maciez das cadeiras e poltronas. Aproveitando-se da corriqueira relutância ao desgastante exercício da certificação, satisfazem os incautos com releases cevados a louvamentos e adulações ao compadrio e mecenato, divertem os ingênuos com o ilusionismo dos guias do tipo politicamente incorretos e majoritariamente falaciosos e agora pretendem engambelar o leitorado por meio do ineditismo farsesco e da himenoplastia documental. Ah!, tenham dó. Pelo menos dos nossos neurônios.
A última pérola da dupla diz respeito ao livro Getúlio 1882-1930 – Dos anos de formação à conquista do poder, o primeiro volume da trilogia do jornalista Lira Neto sobre o ex-presidente Getúlio Vargas, lançado pela Companhia das Letras agora em maio. A apresentação do remake biográfico do paradigmático personagem da história política brasileira parece tomada pela euforia bipolar. “A biografia mais completa já escrita sobre um político brasileiro”, anuncia o vídeo da editora. A gana pela revelação teofânica, obsessão do ethos do jornalismo auricular, é externada pelo colunista Lauro Jardim, da revista Veja: “Um Getúlio Vargas surpreendente emerge das páginas de Getúlio”.
O ineditismo esvaíra-se muito antes
E o paranoico afã pela originalidade legitimadora da investigação é exposto sob forma intimidativa. “Desafio qualquer pessoa a mostrar onde estão as citações ao inquérito original. Os documentos estavam intactos nos arquivos, fui o primeiro a manuseá-los”, provoca o autor (ver aqui), referindo-se ao pretendido caráter de inusitado pela publicação do discurso proferido por Getúlio Vargas como orador da turma na formatura na Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre e pelo manuseio dos processos de Ouro Preto (MG) e Palmeira das Missões (RS), nos quais haveria, de acordo com Carlos Lacerda, envolvimento do político gaúcho em dois assassinatos, um em cada cidade.
Ora, então vejamos. O início do texto lido pelo bacharelando Getúlio em 25 de dezembro de 1907 diz o seguinte, na ortografia original: “Eis nos chegados ao termo da jornada. Atomos perdidos no mundo dos phenomenos, uniu-nos a transitoriedade d'um instante para a realisação d'um grande ideal” (ver aqui). Na página 141 do capítulo “Orador dos estudantes e jornalista de O Debate”, do segundo volume de Getúlio Vargas e o seu tempo – um retrato com luz e sombra, publicado em 1994, o biógrafo Fernando Jorge transcreve a primeira parte da fala na solenidade da colação de grau: “Eis-nos chegados ao termo da jornada. Átomos perdidos no mundo dos fenômenos, reuniu-nos a transitoriedade de um instante para a realização de um grande ideal.”
Teria Fernando Jorge obtido fragmentos textuais idênticos aos da formatura em algum centro espírita? Nada disso, foi naquele mesmo arquivo intacto ao qual Lira Neto se referira. Até porque o ineditismo do texto esvaíra-se muito tempo antes. “Um de seus biógrafos fora ao Rio Grande do Sul em busca de dados. Entrevistara vários colegas e contemporâneos, descobrira vários documentos ainda inéditos, entre eles o discurso de formatura”, revelaria Alzira Vargas do Amaral Peixoto em 1960, na página 11 do livro Getúlio Vargas, meu pai. Quase duas décadas depois Alzira entregaria a documentação ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getulio Vargas.
“Nenhuma grande novidade”
Circunstância semelhante ocorre no caso Ouro Preto. O barbante da almejada originalidade rompe-se à força da verificação. O jurista Augusto de Lima Júnior redige todo o capítulo “Austeridade intrépida”, em Serões e Vigílias: páginas avulsas, baseado no processo que o pai, o magistrado Augusto Lima, ajuizou. À página 42, na obra lançada em 1952, Lima Júnior comenta:
“Êsse processo famoso, desde que o Sr. Getulio Vargas assumiu o poder no Brasil tem sido consultado com freqüência por interessados em encontrar nêle material adequado a retaliações políticas”.
Permaneceriam virginais à espera do toque do midas Lira Neto os autos do processo do assassinato do estudante paulista Carlos de Almeida Prado em junho de 1897, envolvendo os irmãos Vargas – Viriato, Protásio e até Getúlio, então com 15 anos? Talvez, em algum conto de fadas.
Boris Fausto, autor de Getúlio – o poder e o sorriso, da coleção Perfis brasileiros, organizada pela própria Companhia das Letras, e responsável pelo texto da contracapa do Getúlio 1882-1930 – Dos anos de formação à conquista do poder,foi mais sensato. Em comentário à Folha de S.Paulo, o historiador elogiou a narrativa detalhista de Lira Neto e a fartura de informações do volume e fez a ressalva derradeira: o livro não traz “nenhuma grande novidade” (Ambivalência de Getúlio atraiu biógrafo, ilustrada, E4, 17 maio 2012). Portanto, alcandorar-se pelo pioneirismo do material documental, e deste modo ser propagado pelo jornalismo de orelha, só é razoável se houver o suporte da prova. Senão, nem o Barão de Munchausen levará fé.
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[Álvaro Nunes Larangeira é jornalista, professor da Universidade Tuiuti do Paraná e organizador, com o historiador Décio Freitas, de Getúlio Vargas – A Serpente e o Dragão: dissertações acadêmicas (Sulina, 2003)

quinta-feira, 1 de março de 2012

Dilma exige punição a generais que questionaram autoridade de Celso Amorim

Presidente considerou novo manifesto uma "afronta" | Roberto Stuckert Filho/PR
Da redação: Sul21
A presidente Dilma Rousseff (PT) ficou irritada com uma nova declaração divulgada por militares da reserva. O comunicado, assinado por 98 oficiais, saiu em defesa do manifesto que havia sido lançado pelos clubes das três Forças Armadas com críticas a Dilma e às ministras dos Direitos Humanos, Maria do Rosário (PT), e das Mulheres, Eleonora Menicucci (PT).
Na nota mais recente, batizada de “Alerta à nação”, os oficiais da reserva manifestam apoio ao Clube Militar – que reúne integrantes da ativa e da reserva do Exército – por ter divulgado um texto criticando declarações das duas ministras.  “Em uníssono, reafirmamos a validade do conteúdo do manifesto publicado no site do Clube Militar, a partir do dia 16 de fevereiro próximo passado, e dele retirado, segundo o publicado em jornais de circulação nacional, por ordem do Ministro da Defesa, a quem não reconhecemos qualquer tipo de autoridade ou legitimidade para fazê-lo”, ataca a nota.

A declaração foi publicada no site “A verdade amordaçada”, mantido pela esposa do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI-CODI de São Paulo e acusado de ter torturado diversos presos políticos.
Dilma considerou o texto uma “afronta” e se reuniu na quarta-feira (29) com o ministro da Defesa, Celso Amorim. A presidente determinou que ele conversasse com os comandos das três Forças Armadas e determinasse punições aos oficiais da reserva que assinaram a nota.
Dilma teria cogitado mandar prender um dos generais, mas acabou mudando de ideia. Amorim falou pessoalmente com dois dos comandantes das Forças, e por telefone com o terceiro, e deixou com eles a escolha da punição a ser adotada, segundo o código disciplinar de cada Força. Os códigos disciplinares do Exército, Aeronáutica e Marinha preveem advertências, repreensões, prisão e até o desligamento das Forças, de acordo com a infração.
Nos dois manifestos, os militares da reserva fizeram duras críticas à Comissão da Verdade, órgão que terá sete integrantes escolhidos pela presidente Dilma para investigar, durante dois anos, os crimes praticados pelas ditaduras de Getúlio Vargas (1937-1945) e dos militares (1964-1985). Dilma deve nomear nos próximos dias os integrantes do colegiado.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A primeira morte de Getúlio Vargas

Hoje, 24 de agosto, lembramos a morte de Getúlio Vargas, em 1954. O suicídio de Getúlio provocou comoção nunca vista e teve como efeito imediato, adiar o golpe que se tramava contra o nacionalismo getulista. O golpe veio dez anos mais tarde, mas o outro efeito do suicídio do Presidente foi torná-lo uma figura imortal na história  e no imaginário político brasileiro.
Falei sobre a primeira morte de Getúlio porque FHC, quando presidente, decretou o "fim da Era Vargas". Ou seja, o tucano abandonou qualquer verniz nacionalista, classificado como atrasado e jogou o Brasil na aventura neoliberal. O país quase quebrou, junto com os inspiradores do mito do estado mínimo. O que acabou rapidamente, como uma tragicomédia, foi a era FHC.
O fato é que há ideias que não morrem totalmente. Não sou getulista, mas é inegável o alcance histórico de seus governos. Em sua primeira longa gestão (1930/45), autoritária e com inclinações fascistizantes, estabeleceram-se as bases de um estado brasileiro unificado, o Estado Novo, contraponto à visão das elites paulistas. Em sua segunda gestão, aí sob a égide da democracia, ainda que com limites, a força do nacionalismo getulista contrastou com os apelos pró-americanos de seus adversários, principalmente os entreguistas e falso-moralistas da UDN.
É incrível como, passado tanto tempo, certos debates se mantém e certas posturas políticas se reciclam para permanecerem iguais. O udenismo tucano-pefelista,(DEM) que comemorou prematuramente o fim da Era Vargas, continua atacando. Porém, a resposta que tem encontrado não é o suicídio de um estadista, mas o sisolamento diante da opinião pública.
Devagarinho e, às vezes, imperceptivelmente a olho nu, algumas coisas têm mudado no Brasil.
Espero que a mudança prossiga.