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sábado, 19 de outubro de 2013
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
São Francisco de Assis: o primeiro Santo Moderno
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| S. Francisco, de Portinari, na Igreja da Pampulha |
Hoje é dia de São Francisco de Assis. Como meus fiéis leitores já devem ter reparado, sou um cético. Portanto, não sou um devoto, mas posso ser um admirador da figura histórica do santo e do imaginário que ele mobiliza.
Se eu fosse católico, seria franciscano.
A seguir, transcrevo a sinopse do livro "São Francisco de Assis", do historiador Jacques Le Goff, publicado em Sinopse do Livro
Em SÃO FRANCISCO DE ASSIS, Jacques Le Goff - considerado um dos dez mais importantes historiadores do século XX - disseca, através de quatro ensaios, o que considera o primeiro santo moderno da Igreja Católica. Ecologista na sua fascinação pela natureza, anticonsumista na radical opção pela simplicidade, defensor da liberdade de espírito, da alegria, da vida comunitária, foi um feminista de primeira hora na relação com Santa Clara e à ordem das clarissas. Francesco di Pietro di Bernardone, filho de comerciantes italianos da cidade de Assis, mudou não só o conceito de santidade e devoção, mas a atitude da Igreja e dos leigos diante do sagrado na virada do século XII para o século XIII. São Francisco foi, principalmente, produto de três fenômenos histórico-sociais italianos: a luta de classes, a ascensão dos leigos e o progresso da economia monetária".SÃO FRANCISCO DE ASSIS é uma viagem através da vida de um dos mais impressionantes e justos homens da história medieval. Mas Le Goff não só apresenta a história de Francisco, como também a situa em seu tempo. Analisando a geografia, a religião e até mesmo a política da época, Le Goff contextualiza São Francisco de Assis e revela mais da personalidade que revolucionou o clero do século XIII. Canonizado em 1228, Francisco rompeu com a juventude rica para devotar-se a Deus e à natureza. Fundou a ordem dos franciscanos e viveu na pobreza até sua morte.Para escrever a biografia de São Francisco, além do trabalho habitual de pesquisa, o autor precisou estudar a autenticidade das crenças, mergulhando na documentação de época. Autor de São Luís - um retrato literário do rei e santo cristão -, o medievalista Jacques Le Goff soube com precisão buscar a figura real do biografado, obscurecida pelos relatos de seus supostos milagres. Em SÃO FRANCISCO DE ASSIS, Le Goff, com extrema erudição e fluidez de estilo, desvendou o homem por trás do santo. O livro conta a verdade sobre o fundador da ordem franciscana, um homem que recebeu os estigmas das chagas de Cristo e, antes de morrer, compôs o Cântico do sol, uma das mais belas obras poéticas do universo cristão. Discípulo de Fernand Braudel, Jacques Le Goff é o atual presidente da célebre École des Hautes Études en Sciences Sociales e autor de Apogeu da cidade medieval, A bolsa e a vida, História e memória, Os intelectuais na Idade Média e Mercadores e banqueiros da Idade Média e São Luís. "Ele denunciou o horror econômico antes de Viviane Forrester e Pierre Bourdieu, ele anunciou a cultura hippie dentro de sua não-violência, seu anticonsumismo e seu minimalismo quando deixou ao seu pai, em público, as suas últimas vestimentas, antes de se doar a Deus. A mensagem do Pobre de Assis é de uma modernidade inquebrantável." - Le Nouvel Observateur"Le Goff se interroga longamente para concluir que se São Francisco foi moderno é porque seu século o foi." - Le Monde"Este livro adota a forma fragmentária reivindicada por Le Goff como uma outra forma de escrever a vida de um homem. O historiador tem por este santo uma fascinação determinada e uma empatia profunda." - Libération
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
São Francisco de Assis, o homem que criou o presépio
Entre tanta porcaria que a Globo exibe, achei essa matéria sobre a cidade de Assis, na Itália e seu patrimônio cultural. Muito interessante.
Conheça a cidade onde foi montado primeiro presépio do mundo
Assis é a terra de São Francisco. Para comemorar o Natal, os 50 frades lançaram o primeiro filme em 3D da história da Igreja.
Ilze Scamparini
Assis,Itália,publicado no G1
Poucos lugares no mundo possuem uma combinação de beleza, arte e um
santo nativo da popularidade de São Francisco (santo que inventou o
presépio), como Assis, cidade medieval da Umbria, no centro da Itália.
Entre colinas e bosques, uma arquitetura íntegra ajuda a divulgar a
existência do homem que tantos artistas prestaram homenagens. “Temos dez
mil metros quadrados de afrescos”, conta o Frei Egídio Canil.
No santuário de fachada simples, em pedra branca, duas igrejas estão
superpostas. Da entrada da basílica inferior é possível subir as
escadarias para chegar ao mais essencial templo franciscano, que ficou
pronto em 1253. Um dos primeiros edifícios góticos da Itália, onde a
pintura genial, da segunda metade do século 13 deixou um patrimônio
extraordinário.
Na basílica superior, a história do santo que renunciou à riqueza, foi
contada pelo pintor Giotto e os seus discípulos. Nas duas paredes
laterais, cada um dos afrescos narra uma passagem importante da vida de
Francisco de Assis, como sua escolha pela pobreza, quando ele se despiu
das suas vestes e decidiu deixar para trás as festas e a família de
comerciantes prósperos.
A aprovação do papa Inocêncio III para a fundação da ordem Franciscana,
também está na basílica. Tudo é contado em 28 afrescos. A viagem de
Francisco ao Egito, a doação do seu manto a um homem pobre.
As figuras humanas são colocadas em paisagens reais. Em uma passagem
definitiva na arte figurativa do estilo românico bizantino para o
renascimento que Giotto antecipou. Ele revolucionou a pintura. Trouxe
cor e principalmente a perspectiva. Com ele o homem vem representado não
mais estático e sem fundo, mas posto no ambiente em que vive. Isso deu
origem também ao humanismo.
Sobre o túmulo de Francisco são 2.200 metros quadrados só de Giotto,
nenhum museu do mundo possui isso. Sobre a tumba do santo foram erguidas
as duas igrejas decoradas por vários artistas.
Para comemorar o natal franciscano, e valorizar aquele que foi o maior
pintor do seu tempo, os 50 frades do Santuário de Assis lançaram o
primeiro filme em terceira dimensão da história da Igreja. A pintura de
Giotto aparece ainda mais forte, com mais espaço e volume. Os rostos
estão mais realistas.
Em uma pequena capela, Frei Marcelo Daga monta o presépio franciscano
com peças feitas por ele em papel machê e pena de galinha. O cenário
mistura o Oriente Médio à paisagem italiana. Entre Maria, José e o
menino Jesus, estão São Francisco e um lobo, símbolo do amor fraterno
que o santo, que inventou o presépio, dedicou aos animais.
São Francisco morreu em 1226, aos 44 anos. Dois anos depois foi
proclamado santo pelo Vaticano, num dos processos de canonização mais
rápidos da história da Igreja. Assis, há oito séculos, tornou-se uma das
metas mais importantes da peregrinação dos cristãos.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
"Francisco, um destino". Filme narra trajetória de São Francisco
Filme italiano narra trajetória de São Francisco de Assis e questiona a relação entre a genialidade e inspiração pessoal do homem; e as consequências disso na comunidade para a qual ele se dirigia
Em Revista de História
Marcello Scarron
Francesco – A Historia de São Francisco de Assis
Dir. Liliana Cavani, Itália, 1989
Afinal, a história nacional começa a ser contada a partir da chegada de
navegadores portugueses que deste imaginário, desta cultura,
partilhavam muitos elementos: mesmo sendo homens que viviam o inicio da
modernidade, estavam intimamente moldados por aquela visão e ela acaba
sendo influenciada desde suas origens por esse clima de religiosidade.
Mais um elemento reforça os motivos do espaço dedicado a esta produção: a
oportunidade de oferecer uma abordagem diferente e, de certa forma
complementar, a leituras cinematográficas do período medieval que andam
mais populares entre nós, como O Nome da Rosa, filmagem (1986, Jean-Jacques Annaud) do livro homônimo de Umberto Eco, ou O Incrível Exercito de Brancaleone
(1966, Mario Monicelli), comédia sobre desajeitadas aventuras de um
grupo de cavaleiros na Baixa Idade Media, ou ainda as várias produções
hollywoodianas retratando William Wallace, Robin Hood ou Joana D’Arc.
O filme de que vamos falar aqui é Francesco – A Historia de São Francisco de Assis,
produção da diretora italiana Liliana Cavani, de 1989. Não se trata
exatamente de uma cinebiografia do fundador da ordem franciscana, e sim
de uma leitura original e historicamente bem documentada da vida daquele
que, por muitos aspectos, é a personalidade mais interessante do
cristianismo medieval. Uma leitura realizada por uma diretora laica e
alheia a simpatias para o catolicismo: exatamente por isso, sua visão
dos fatos se destaca pelo rigor na reconstituição de personagens e
ambientes, evitando com habilidade a queda no sentimentalismo. O
Francisco da Cavani é o homem real, desfrutador dos prazeres da
existência no inicio de sua vida e teimoso seguidor das pegadas de
Cristo até o extremo da solidão e do abandono quase desesperado no resto
de sua caminhada. Nada a ver, para nos entendermos, com o Francisco,
poeta da natureza e louco romântico, retratado por Zeffirelli em Irmão Sol, Irmã Lua (1972).
Preocupação com a reconstrução histórica
Narrado com a técnica do flash-back, com a vida de Francisco evocada
pelas lembranças de alguns dos seus primeiros companheiros, reunidos,
após sua morte, junto com Clara (a primeira mulher a se empenhar no
caminho proposto pelo santo), o filme mostra os pontos mais
significativos de sua existência sem uma preocupação excessiva com a
cronologia e sim com a reconstituição histórica. É o mundo medieval de
uma pequena cidade italiana, Assis, no começo do século XIII, que é
retratado, com seus conflitos e suas crenças. Um mundo no qual a
sensibilidade religiosa cristã perpassa todos os setores da sociedade,
em parte moldando uma mentalidade, em parte se digladiando com costumes e
práticas não cristãs. Um mundo no qual a proposta de radicalismo
evangélico de Francisco encontra adesões e recusas fortes. Um mundo
talvez bastante longínquo de nossos parâmetros de juízo, de nossos
metros de valores, mas um mundo que é preciso conhecer e penetrar para
poder avaliar sem anacronismos ou estereótipos.
Destaque no filme para três pontos emblemáticos. O primeiro é a chegada
em Roma, junto à corte pontifícia, do primeiro grupo franciscano, em
busca de aprovação para a sua proposta de vida e sua regra. A
simplicidade e austeridade de Francisco e seus companheiros e sua
vontade de viver o Evangelho ao pé da letra contrastam com as limitações
e os compromissos dos quais a autoridade do catolicismo se declara
refém. No diálogo entre o Papa, os cardeais e os franciscanos está uma
chave para a compreensão da sociedade medieval, da influência nela do
cristianismo e da Igreja, e ao mesmo tempo de quanto há, nesta
influência, de temporal, de histórico, de herdado de uma mentalidade
imperial romana. A inveja do pontífice e de alguns cardeais pela
liberdade com que Francisco pode viver o seguimento de Jesus mostra os
dois lados da mesma moeda.
“Traçar a curva de um destino que foi simples, mas trágico; situar com
precisão os poucos pontos realmente importantes por onde passou essa
curva; mostrar de que maneira, sob a pressão de que circunstâncias, seu
impulso inicial teve de esmorecer, e seu traçado original, inflectir-se;
colocar assim, acerca de um homem de singular vitalidade, esse problema
das relações entre o individuo e a coletividade, entre a iniciativa
pessoal e a necessidade social, que é, talvez. o problema essencial da
historia: tal foi nosso intuito.” Não seja visto como pretensão atribuir
ao menos parte destas intenções - formuladas pelo historiador francês
Lucien Febvre na abertura de seu livro de 1927, “Martinho Lutero, um
destino” – à diretora Liliana Cavani. A dela não foi obra de
historiadora, e sim de artista, e a arte tem outras leis que não as da
historia. Mas sua tentativa parece mesmo a de traçar a curva do destino
de Francisco, e de se interrogar sobre a relação entre a genialidade e
inspiração pessoal do homem e o eco disso na comunidade à qual ele se
dirigia.
Uma palavra sobre os atores: além de vários coadjuvantes, se destacam Helena Bonham Carter como Clara e, sobretudo, Mickey Rourke
como o próprio Francisco, num desempenho muito interessante, capaz de
liberar capacidades interpretativas surpreendentes. Afinal, uma obra
válida, até como documento de um tempo e de uma sociedade, que por isso
nos induz a perdoar uma duração talvez excessiva.
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