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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Django Livre X KKK

Django-Livre-poster-12Nov2012
Django Unchained ou Django Livre é um filme de faroeste e drama, escrito e dirigido por Quentin Tarantino. Estrelado por Jamie FoxxLeonardo DiCaprioChristoph Waltz e Samuel L. Jackson, esse é o 7° filme de Quentin Tarantino. Recebeu cinco indicações ao Oscar, nas categorias de Melhor FilmeMelhor Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Melhor Roteiro OriginalMelhor Edição de Som e Melhor Fotografia. O titulo do filme originalmente seria The Angel, the Bad and the Wise para homenagear o cineasta Sergio Leone, porém Tarantino resolveu mudar o nome para Django Unchained baseado no filme italiano de 1966, Django, estrelado pelo ator Franco Nero, que faz uma participação no filme de Tarantino.
Todas informações factuais sobre o filme Django Livre você encontra clicando neste link. O que você não encontra é a reação preconceituosa de Spike Lee (“Faça a coisa certa“), em entrevista ao site da revista “Vibe“, contou que se recusa a assistir ao “Django Livre“, alegando que o novo filme de Quentin Tarantino é “desrespeitoso aos seus ancestrais“. É tipo comum de preconceito: “não vi e não gostei“…
“Eu não posso falar sobre isso [o filme] porque eu não vou vê-lo. Tudo o que eu vou dizer é que é desrespeitoso aos meus antepassados. Isso sou eu. Eu não estou falando em nome de ninguém”, afirmou Lee.
O cineasta também escreveu em seu Twitter sobre o filme. “A escravidão nos Estados Unidos não foi um western spaghetti de Sergio Leone. Foi um holocausto. Meus ancestrais foram escravos, roubados da África. Eu os honrarei”, disse.
Estranhamente, parece-me que o filme de Quentin Tarantino faz mais pelo combate ao racismo nos EUA do que todos os filmes de Spike Lee já fizeram. Por que? Porque ele sabe usar a arma da arte massiva: a violência debochada. Ironiza corrosivamente os racistas, assim como nos tinha colocado destruindo a imagem do mal nazista em seu filme anterior, “Bastardos Inglórios“.
Estilizar é dar estilo ou forma estética diferente à história descritiva, no caso, do racismo sulista antes da Guerra Civil nos EUA (1860-1865) – o filme se inicia em 1858. Tarantino representa o combate aos racistas por meio de símbolos do western spaghetti, homenageando não só esse gênero apropriado por diretores italianos, mas também resgatando a imagem do “alemão”, tão depreciada em seu filme anterior. Neste último, um dos “mocinhos” é o extraordinário ator austríaco Christoph Waltz, que tinha sido o oficial nazista em “Bastardos Inglórios”, dessa vez interpretando um culto e cínico alemão “caçador de recompensas”. Ele faz, então, o papel de um investidor “em nome da lei”. Mostra a privatização da segurança pública, quando o Estado estava ausente no território selvagem, onde ainda predominava “a lei do mais forte”. É mais ou menos como hoje, quando governos neoliberais privatizam o sistema penitenciário para a “livre-iniciativa” obter lucro com os presidiários.
Tarantino com grande humor e ironia, dá novos traços estilísticos ao faroeste. Ele se aprimora, requinta-se cada vez mais. Parece-me que ele descobriu sua marca de elaboração de Cinema de Autor. Já aparece na tela explodindo-se!
Quem não entender de alegoria ou, de modo pré-conceituoso, como Spike Lee, “não vê e não gosta“, realmente não vai achar graça no filme. Alegoria é modo de expressão ou interpretação no âmbito artístico e intelectual, que consiste em representar pensamentos, idéias, qualidades sob forma figurada e em que cada elemento funciona como disfarce dos elementos da idéia representada. Foi o método de interpretação aplicado por pensadores gregos (pré-socráticos, estoicos, etc.) aos textos homéricos, por meio do qual se pretendia descobrir idéias ou concepções filosóficas embutidas figurativamente nas narrativas mitológicas. Da mesma forma, foi método de interpretação das Sagradas Escrituras usado por teólogos cristãos antigos e medievais, em que se almejava a descoberta de significações morais, doutrinárias, normativas, etc., ocultas sob o texto literal.
Se até mesmo um texto filosófico é possível ser escrito de maneira simbólica, utilizando-se de imagens e narrativas com intuito de apresentar tropologicamente ideias e concepções intelectuais, por que não fazer um filme divertido, embora ultra-violento, para as “massas ignaras”?! Por meio de suas formas, ele representa uma idéia abstrata de combate aos racistas, matando-os de maneira estilizada! Cada uma das figuras ou ornamentações usadas no filme, conduzidas pelos próprios protagonistas, ilustram o enredo de uma maneira acessível ao grande público, como fossem alegorias de uma escola de samba.
É importante captar o simbolismo que abrange o conjunto da obra. Trata-se de um processo em que o acordo entre os elementos do plano concreto e aqueles do plano abstrato se dá passo a passo. Esta obra artística se utiliza, brilhantemente, dos recursos da figuração ou simbolismo alegórico. São sequências logicamente ordenadas de metáforas que exprimem idéias diferentes das enunciadas comumente: o politicamente correto, o herói do western.
O filme de ação ou aventura é sobre o heróiDjango, um ex-escravo livre, um homem liberto – e sua capacidade de superar os obstáculos formidáveis trazidos por acontecimentos externos alheios à sua vontade. Ele nos fala, i.é, fala ao nosso herói interior, despertando nossos recursos pessoais de coragem, resistência, abnegação, engenho, justamente, para enfrentar os racistas. O herói não precisa de palavras para nos empolgar: seus atos, decisões e reações frente a todos os obstáculos que aterrorizam a nós, na platéia, de enfrentar, convence-nos de seu heroísmo. Os obstáculos são os testes das virtudes do herói: o homem liberto.
Em uma cena de humor impagável, Tarantino retrata o ridículo do nascimento da Ku Klux Klan. Ele sabe, ao contrário de Spike Lee, usar a arma do humor para desmoralizar instituições violentas como as forjadas pelo racismo. A história narrada abaixo, extraída do livro Freakonomics: O Lado Oculto e Inesperado de Tudo que nos Afeta, de autoria de Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner (Rio de Janeiro, Elsevier-Campus, 2005: 57-88), é um exemplo da importância de saber usar essa arma.