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segunda-feira, 15 de julho de 2013

Uma dose de Drummond - Lá se foi a metade do ano...

Ler Carlos Drummond de Andrade é um excesso obrigatório para confortar todos os ruídos da vida – e para atiçar também, claro. No texto "Como se fosse balanço" o autor faz uma pausa com o leitor para analisar a vida como ela é (ou como está).
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Drummond - 1972

A crônica Como se fosse balanço publicada no livro Os dias lindos de Carlos Drummond de Andrade é mais um exemplo da genialidade do autor e da facilidade que ele tem até hoje de sentar ao seu lado e conversar com você sobre o cotidiano. Nesta crônica ele aproveita para jogar a real ao leitor. É impossível não sentir qualquer mudança interna após a leitura e o momento é um tanto quanto adequado, não acha?
"Lá se foi a primeira metade do ano, e já estamos folgados na segunda metade. Agosto continua o quê? Julho deu para balanço? Você fez alguma coisa do que planejava fazer neste ano? Claro que não. Fez, no máximo, aquilo que deixaram ou quiseram que você fizesse. Sempre assim, e você já devia estar habituado. Como, aliás, está. Ou não? Por favor, não me venha com essa cara de inconformado de nascença. Já é do seu conhecimento, há muitas centenas de meses, que lhe cabe assistir a um espetáculo de que você, ao mesmo tempo, é comparsa mínimo. Espectador dos outros e de si mesmo: curiosa situação, né? A de tanta gente. Nem exceção você é. Não se envaideça. Não se melancolize.
É isso aí: dão-lhe o direito de fazer planos. Reservam-lhe, até quadra especial para isso. Não assumem, porém, o compromisso de deixar que você os execute. Mas podia ser de outro modo? Pense na barafunda que resultaria da realização simultânea (e conflitante) de todos os planos individuais. Cada um com seu esquema, sua quimera: a explosão disso tudo, hem? Se preferir, bote a culpa nas estruturas e infra-estruturas, nos sistemas, no acaso, na sorte, em Deus. Poderes que impedem você de poder. Que podem por você.
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Drummond - 1951 (mais fotos aqui
)

Aí está uma confortadora transferência de responsabilidade. Deixassem você solto, agindo, era aquela beleza. Vertigem boa: pensar em possíveis e impossíveis. No fundo, meu prezado, você tem é vocação para Deus. Mas o lugar está preenchido. À vista da frustração, só lhe resta ser um de seus (in)fiéis. Mas assim como é dificílimo ser Deus, não é nada maneiro submeter-se à sua jurisdição. O código de proibições e obediências estica-se por mil volumes. A vida inteira não dá para a leitura. E a letra é tão miudinha!
Em casa, na rua, no hospital, no espaço, em pensamento, você está sempre obedecendo a um parágrafo visível ou implícito. Ou o transgredindo. O sinal luminoso do cruzamento é muito mais do que sinal luminoso: é sentença de morte, caso você não lhe dê a atenção exigida. Ou mesmo dando. O menor carimbo pressupõe regras invioláveis de conduta.
O jogo da vida consiste, em parte, no estudo de como violá-las, simulando reverência.
Você esperneia, revolta-se - adianta? Mesmo sua revolta foi protocolada. O caso da maçã estava previsto. A serpente estava prevista. Prevista, a expulsão do Paraíso. A lição de alguns autores é que o Paraíso foi criado exatamente para o homem experimentar-lhe a privação. Da qual resultariam invenções, técnicas de compensação, poemas, sinfonias. Mas há também quem ache isso fábula de amor cinzento, descambando para o negro.
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Drummond - 1932

Acomodar-se, então, seria a receita? A razão estará com a minoria selecionada dos quietistas? Ou o caminho que eles encontraram é demasiado simplório para ser um caminho, e, em vez de conduzir à solução, gira em redor do problema, acentuando a insolubilidade?
Devaneios. Como você devaneia, irmão! Quer ser e não ser, sendo. Imagina o vazio, com a sua pessoinha lá dentro, escondida, resguardada, a se divertir com a imperícia dos outros, que vão aos trambolhões, expostos a chuva, granizo, fogo.
Como se você também não participasse desse existir precário, de que só algumas ressonâncias chegam à publicidade, em situações-limite. Existir que, por ser universal, tem força de regra, torna-se normalidade. Escusa de dar balanço, ou antes, balancete, nesta parte carcomida do ano. Os erros são justificáveis, de uma forma ou de outra. É, não deu.
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Os acertos, porque involuntários, o são menos. Não dependeram de você, confesse. De certo, que foi que dependeu de você: as marés, o câmbio, o desencontro das nações,a briga dos namorados, o amor revelado, a distensão, a enchente, a
qualidade da vida?
Pense em outra coisa. Não impede que você reelabore planos para o restante do ano e até para o ano que vem. Esporte como outro qualquer.
Experimente agosto. Voltam as aulas, os horários. Experimente (sempre) viver."
O livro Os dias lindos foi publicado pela primeira vez em 1977 e reúne crônicas, contos e causos que Drummond escrevia no Jornal do Brasil. É mais um livro-amigo que todo mundo deve ler!

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Carlos Drumond de Andrade

Há  vinte e cinco anos, em 1987, morria Carlos Drummond de Andrade, o grande poeta do Brasil. Drummond, na minha singela opinião, não tem comparação entre os demais poetas brasileiros. Antes dele e, por certo tempo, junto com ele, Manuel Bandeira teve grandeza similar. Depois dele..."não apareceu mais ninguém".
Drummond não era um "malucão" ou um devasso desregrado. Era um funcionário público , um homem simples, prova de que as aparências enganam.
É difícil escrever sobre um poeta, pois o principal depoimento sobre um poeta é a sua poesia.
Curta Drummond AQUI .
Drummond era ateu convicto, prova de que a poesia não vem do homem; a poesia vem das pessoas.
 E, como prova de que a Globo faz alguma coisa que presta, assistam o documentário sobre Drummond, produzido pela Globo News.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Receita de Ano Novo - Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Charles Chaplin: comediante, humanista e homem do povo

Charles Chaplin, foi um dos maiores gênios artísticos da humanidade. Um humanista radical e um cético. Não tenho muito que comentar sobre ele, pois há certas figuras sobre as quais se torna repetitivo comentar. Como curiosidade, destacoo fato de seu nome (Charles Spencer) ter sido dado, pelo que sei, em homenagem a Charles Spencer Darwin, outro gênio da humanidade
Escrevo apenas par me associar à memória aos 122 anos de seu nascimento, dia 16 de abril.
Sobre ele, Carlos Drummond de Andrade escreveu um lindo poema, como, aliás, era seu costume.

Canto ao Homem do Povo - Charles Chaplin

Carlos Drummond de Andrade

Era preciso que um poeta brasileiro,

não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,

girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver

como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A verdade

Verdade
Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.