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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Um ano sem Umberto Eco, o último renascentista

POR 
FRAN ALAVINA, em OUtras Palavras

A erudição e o diálogo entre as disciplinas humanas parecem hoje derrotados pelos “especialistas” e a cegueira neoliberal. Porém, resistimos: nada está consumado
Por Fran Alavina
Neste fevereiro completa-se um ano da morte do pensador italiano Umberto Eco (1932-2016). Conhecido pelo público não acadêmico a partir do sucesso do romance O nome da Rosa, depois convertido em filme, hoje é possível afirmar que o profundo significado da morte de Eco no plano da cultura ficou velado pela repercussão midiatizada de sua partida. Não morria, em 19 de fevereiro de 2016, um simples intelectual acadêmico que, vez ou outra, falara ao grande público. Tratava-se de alguém que sabia se movimentar com desenvoltura entre os meios universitários e os espaços midiáticos, sem se deixar contaminar pela artificialização de uns, ou pelo isolacionismo de outros.
Quase todos os jornais italianos apegaram-se aos elementos midiáticos da profícua carreira intelectual e literária de Eco. Celebraram seu fim como fazem com a morte de algum astro pop: com um rápido jogo de imagens rememorativas que não passam da superficialidade da retina, acompanhadas por uma falação ininterrupta que retira qualquer reverência ante o silêncio da morte. Nas mãos da velha mídia, quem morre se transforma em um ente cinicamente celebrado, pois não se morre, vira-se notícia. Repetiram, com exaustão, que Eco era um homem de cultura extensa, um erudito reconhecido internacionalmente, por isso um italiano memorável. Ressaltou-se, por fim, que seu velório seria um sóbrio ato laico. Na Itália cabisbaixa pela crise, Eco era um dos poucos motivos de orgulho. Sua obra relacionava saber e vida civil: algo que outrora era uma construção tipicamente italiana, hoje um liame corroído pela ideologia da especialização e pela negação das ciências humanas.
Parece quase uma trama tecida pela fortuna com os fios da ousadia, que a última obra de Eco fosse justamente um romance sobre o jornalismo faccioso e sensacionalista, o romance Número Zero. Uma visão sobre a manipulação jornalística e suas mazelas. A mentira, que uma vez tornada notícia, acaba por se apresentar como se verdade fosse. Era como se antes de sua morte, Umberto Eco, por meio de sua erudição aguda e crítica, já tomasse parte na querela sobre a pós-verdade, que no ano mesmo de sua partida, se tornou o mote explicativo de todos os nossos problemas. Ironia que o autor de Apocalípticos e Integrados, uma das mais lúcidas análises sobre os mass media, perde a posição de “meio-termo” que defendera para tornar-se integrado. Uma integração proporcionada por sua morte e que lançou sombras sobre o liame que unia a diversidade de sua produção. Talvez a mais perversa expressão dessa integração tenha sido a definição simplória de Umberto Eco como sendo o erudito pop.
É nesse quadro – mesmo repercutindo e ressaltando o significado de um velório laico no país de um catolicismo que oscila entre o apelo turístico-museológico e o fortuito carisma de seus papas – que os jornais e a TV fechavam os olhos para a relação essencial entre toda a vasta produção de Eco e a tradição da cultura das letras e humanidades. Ora, esta longa tradição perpassa a própria formação da identidade nacional italiana na medida em que lá se iniciou e se fundamentou aquilo que posteriormente se convencionaria denominar de saberes humanísticos, (os studia humanitatis). Tradição das humanidades que tem perdurado na longa tradição da história italiana, mesmo sofrendo ininterruptos ataques. Dificilmente nos esquecemos, após um primeiro contato, que Dante, Maquiavel ou Michelangelo eram italianos; porém, raramente, por exemplo, relacionamos os dramas de Shakespeare com a sua Londres elisabetana.
A morte de Umberto Eco não foi, para os italianos, apenas a despedida de um compatriota reconhecido internacionalmente, mas também a perda simbólica de um dos liames de identidade nacional. Já para todos nós, sua partida significou a morte do último dos renascentistas, talvez o fim de uma cultura educacional na qual certo ideal de erudição e diálogo entre as disciplinas humanas reconhece sua derrota ante a apologia da especialização e o simulacro do homem multimídia. Aqui, certamente o leitor mais atento indaga-se: como um notório medievalista pode ser denominado de renascentista?
Denominá-lo de renascentista, ainda que ele fosse um grande medievalista, não é anacronismo ou ironia. Podemos caracterizar Umberto Eco como o último dos renascentistas justamente em função do ideal de erudição crítica que animou toda sua produção intelectual: das obras de estética filosófica e semiótica aos seus romances e crônicas. O ideal de sujeito erudito, capaz de criar e se expressar nas mais diferentes disciplinas e saberes humanísticos era o próprio fundamento da cultura renascentista.
O literato deveria ser tão capaz de filosofar, quanto o filósofo deveria ser capaz de criar poemas e construir narrativas ficcionais; o historiador deveria ser tão desenvolto em criar a beleza pictórica, quanto o pintor deveria ser em compreender o passado e narrar o presente. Ademais, cumpria nunca perder de vista a relação entre o saber e suas determinações históricas. Jamais contentar-se com a mediocridade: esta era a norma para se criar o novo. O exemplo mais popular e lendário desse modelo é Leonardo Da Vinci – o homem universal. Porém ele não era a exceção genial, mas a regra comum de um modelo de orientação dos saberes. Galileu foi capaz de apresentar suas descobertas astronômicas através de um diálogo ficcional. Maquiavel, sempre mais difamado que compreendido, escreveu uma história de Florença e três peças teatrais; Lorenzo, il magnifico, ao mesmo tempo que exercia o poder dos médicis sobre os florentinos, foi poeta admirado.
Não se tratava de mero ecletismo, mas de reconhecer o vínculo comum que une todos os saberes dos círculos humanísticos. Vínculo este, que hoje, após a orientação das universidades para as especializações minimalistas, é enfraquecido cada vez mais. Bem antes que a interdisciplinaridade fosse apresentada como grande novidade, a regra era nunca contentar-se com uma só forma de saber. Já nos alertavam os renascentistas que todo saber em si mesmo, por mais que aspire à universalidade, é sempre uma visão fragmentada do mundo – portanto incapaz de falar sobre o todo, mas apenas sobre a parte em que se debruça. E aquele que conhece bem, mas apenas a parte, ao tentar compreender o funcionamento do todo, não fará mais que falseá-lo, e, assim, ainda que conhecendo estará preso ao erro. O bom saber é aquele capaz de ir sempre além de si, jamais fazendo uma apologia cínica de suas próprias parcialidades. Qualquer distância quilométrica entre este ideal formatado na Renascença e a nossa atualidade, que é presa fácil de um uso tecnicista do saber, não é mera coincidência. Por isso, a importância de Eco; Sua produção ousou ao não submeter-se às especializações minimalistas que nos acostumam à parcialidade e mediocridade; ao ficcionar, mas sem deixar de compreender o presente histórico; ao demonstrar que erudir-se não é o exercício fútil de colecionar informações díspares e exóticas; ao testemunhar que as humanidades não são saberes menores e inúteis, mas que sem o seu fortalecimento estamos fadados a nunca compreendemos as contradições de nosso tempo.
Umberto Eco reconhecia o vínculo das humanidades, e se inseria na tradição humanista renascentista que perdurou na vida cultural italiana: passando por Leopardi e chegando a Pasolini. Vinculando-se, portanto, àqueles que foram capazes de estender sua vontade de saber para além de uma só forma de conhecimento e de criação. Eco não foi apenas o excelente ficcionista de O pêndulo de Foucault e a Ilha do Dia Anterior. Também era um teórico da literatura e da linguagem; não apenas refletiu filosoficamente sobre a estética medieval, como também teorizou sobre o “fascismo eterno” e as anomalias e vulgarizações criadas pelo poder midiático. Seu talento como escritor ficcional não era menor que sua capacidade de pensar criticamente a realidade — ou melhor, conforme uma de suas expressões, de viajar na irrealidade cotidiana. O quanto teríamos perdido se Eco houvesse se contentado em ser apenas um especialista em estética e filosofia medieval, lugar de sua primeira formação acadêmica?
Há um ano se foi o último dos renascentistas, e não sabemos se, em breve, veremos surgir um outro como ele. Não em virtude da uma genialidade, que embora singular, supõe-se inalcançável, mas porque o âmbito dos saberes humanísticos é cada vez mais ferido de morte: a grande mídia faz crer que informar-se é o mesmo que conhecer e a cegueira neoliberal nos guia para um mundo no qual as ciências humanas seriam apenas diletantismos de alguns. Assim, talvez o próximo continuador da trilha feita por tantos outros antes de Eco, e continuada por ele, tenha sido tirado arbitrariamente do caminho por ações como a reforma-desmache do ensino médio que vemos hoje no Brasil: um genocídio educacional que fere as disciplinas humanas e mata os talentos antes que eles possam nascer

domingo, 22 de janeiro de 2012

A falibilidade da ciência, por Umberto Eco

Tirado de Luis Nassif


Um artigo recente no jornal italiano “Corriere della Sera” discutia a natureza da investigação científica. O escritor Angelo Panebianco argumentou que a ciência é por definição antidogmática porque ela atua por tentativa e erro e está baseada no princípio da falibilidade, que sustenta que o conhecimento humano nunca é absoluto e está num fluxo constante. A ciência só se torna dogmática, diz Panebianco, no contexto de certas simplificações jornalísticas que transformam o que era meramente uma hipótese prudente em “verdades” estabelecidas.
Mas a ciência também se arrisca a ser dogmática quando não consegue questionar o paradigma aceito por uma determinada cultura ou época. Quer as ideias estejam baseadas nas de Darwin, de Einstein ou Copérnico, todos os cientistas seguem um paradigma para eliminar teorias que saem de sua órbita – como a crença de que o Sol gira em torno da Terra.
Como podemos conciliar a necessidade de paradigmas da comunidade científica com o fato de que a verdadeira inovação só acontece quando alguém consegue lançar dúvidas sobre as ideias dominantes do momento? Será que a ciência não se comporta de forma dogmática quando se entrincheira atrás dos muros de um determinado paradigma para defender seu poder e rotula como heréticos todos aqueles que desafiam sua autoridade?
A questão é importante. Será que os paradigmas sempre devem ser defendidos ou desafiados? Uma cultura (entendida como sistema de costumes e crenças herdados e compartilhados por um determinado grupo) não é meramente uma acumulação de dados; é também o resultado da filtragem desses dados. Qualquer cultura é capaz de descartar o que não considera útil ou necessário – a história da civilização é construída sobre informações que foram enterradas e esquecidas.
Em seu conto “Funes el Memorioso” de 1942, Jorge Luis Borges conta a história de um homem que se lembra de tudo: cada folha de uma árvore, cada rajada de vento, cada sabor, cada sentença, cada palavra. Mas por esse mesmo motivo Funes é um completo idiota, um homem imobilizado por sua incapacidade de selecionar e descartar. Nós dependemos de nosso subconsciente para esquecer. Se temos um problema, sempre podemos ir a um psicanalista para recuperar quais memórias nós descartamos por engano. Felizmente, todo o resto foi eliminado. Nossa alma é o produto da continuidade dessa memória seletiva. Se todos nós tivéssemos almas como a de Funes, seríamos desalmados.
Uma cultura opera de forma semelhante. Seus paradigmas, que são constituídos pelas coisas que nós preservamos e por nossos tabus em relação ao que descartamos, resultam de compartilhar essas enciclopédias pessoais. É sobre o pano de fundo dessa enciclopédia coletiva que travamos nossos debates. Para que uma discussão seja compreendida por todos, precisamos começar a partir dos paradigmas existentes, mesmo que apenas para mostrar que eles não são mais válidos. Sem a rejeição do paradigma ptolomaico então dominante, o argumento de Copérnico de que a Terra girava em torno do Sol teria sido incompreensível.
Hoje a internet é como Funes. Como uma totalidade de conteúdo, não filtrado nem organizado, ela oferece a qualquer um a capacidade de criar sua própria enciclopédia ou sistema de crenças. Num contexto como este, uma pessoa pode simultaneamente acreditar que a água é composta de hidrogênio e oxigênio e que o Sol gira em torno da Terra. Teoricamente, é concebível que um dia possamos viver num mundo no qual existam 7 bilhões de paradigmas diferentes, e a sociedade seria então reduzida ao diálogo fraturado de 7 bilhões de pessoas todas falando uma língua diferente.
Felizmente, essa noção é meramente hipotética, mas o argumento em si só é possível precisamente porque a comunidade científica se baseia nas ideias comuns compartilhadas, sabendo que para derrubar um paradigma é preciso primeiro que exista um paradigma a ser derrubado. A defesa desses paradigmas pode levar ao dogmatismo, mas o desenvolvimento do novo conhecimento é baseado exatamente nessa contradição. Para evitar conclusões apressadas, eu concordo com o cientista citado no artigo de Panebianco: “Eu não sei. É um fenômeno complexo; terei que estudá-lo.”
Tradutor: Eloise De Vylder

domingo, 1 de janeiro de 2012

Umberto Eco: "O excesso de informação provoca amnésia"

PROFESSOR O pensador e romancista italiano Umberto Eco completa 80 anos nesta semana. Ele está escrevendo sua autobiografia intelectual (Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis)
(Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis)

O escritor italiano diz que a internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio porque ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória do usuário

LUÍS ANTÔNIO GIRON, DE MILÃO, para Época
O escritor e semiólogo Umberto Eco vive com sua mulher em um apartamento duplo no segundo e terceiro andar de um prédio antigo, de frente para o palácio Sforzesco, o mais vistoso ponto turístico de Milão. É como se Alice Munro morasse defronte à Canadian Tower em Toronto, Hakuri Murakami instalasse sua casa no sopé do monte Fuji, ou então Paulo Coelho mantivesse uma mansão na Urca, à sombra do Pão de Açúcar. "Acordo todo dia com a Renascença", diz Eco, referindo-se à enorme fortificação do século XV. O castelo deve também abrir os portões pela manhã com uma sensação parecida, pois diante dele vive o intelectual e o romancista mais famoso da Itália.
Um dos andares da residência de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha abriga aquilo que ele chama de "ala das ciências banidas", como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo, magia e bruxaria. Ali, em um cômodo pequeno, estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga. Publicado em 2010 e lançado com sucesso no Brasil em 2011, o livro provocou polêmica por tratar de forma humorística de um assunto sério: o surgimento do antissemitismo na Europa. Por motivos diversos, protestaram a igreja católica e o rabino de Roma: aquela porque Eco satirizava os jesuítas ("são maçons de saia", diz o personagem principal, o odioso tabelião Simone Simonini), este porque as teorias conspiratórias forjadas no século XIX - como o Protocolo dos sábios do Sião - poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus. Desde o início da carreira, em 1962, como autor do ensaio estético Obra aberta, Eco gosta de provocar esse tipo de reação. Mesmo aos 80 anos, que completa em 5 de janeiro, parece não perder o gosto pelo barulho. De muito bom humor, ele conversou com Época durante duas horas sobre a idade, o gênero que inventou - o suspense erudito -, a decadência europeia e seu assunto mais constante nos últimos anos: a morte do livro. É de pasmar, mas o maior inimigo da leitura pelo computador está revendo suas posições - e até gostando de ler livros... pelo iPad que comprou durante sua última turnê americana.

ÉPOCA - Como o senhor se sente, completando 80 anos?
Umberto Eco -
 Bem mais velho! (Risos.) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora. E tenho feito turnês de lançamento de O cemitério de Praga. Acabo de voltar de uma megaexcursão pelos Estados Unidos. Ela quase me custou o braço. Estou com tendinite de tanto dar autógrafos em livros. 
ÉPOCA - O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é de que o livro não vai acabar. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido? Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.